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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOá , QUE OS PoR?U r GUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA, E tíEsáufctóiftEtifa UAS 

TERRAS, E MARES Do" ORIENTE. 

DÉCADA QUARTA 

PARTE SEGUNDA, 




LISBOA 

Na Regia Officina TypografícAo 
anno mdcclxxviii. 

Com Licença da Real Meza C euforia , e Privilegio Reah 




ÍNDICE 

dos capítulos, que se contém 
nesta parte ii. 

DA DÉCADA IV. 

LIVRO VI. 

CAP. I. Do que acontece o ao Governa- 
dor Nuno da Cunha , depois que par- 
tio da Ilha de S. Lourenço até che- 
gar a Mombaça. Pag. i. 

GAP. II. De como Nuno da Cunha tomou a 
Cidade de Mombaça : e das coufas que 
lhe aconteceram em quanto efteve nella. 7. 

CAP. III. De como o Governador Nuno da 
Cunha foi a Ormuz, : e de como Manoel 
de Macedo chegou âquella fortaleza , e 
prendeo Rax Xarrafo : e de como fe ale- 
vantou o Guazil de Barem : e de como 
Nuno da Cunha mandou contra elle feu 
irmão Simão da Cunha. 14. 

CAP. IV. De como os nojfos defembarcdram 
em Barem , e dos partidos que o Guazil 
mandou commetter , e de como lhe bate- 
ram a fortaleza , e das efpantof as febres > 
que em todos os Portuguezes deram 5 e 
fe embarcaram , e de como falece o Simão 
da Cunha de nojo. 23. 

CAP. V. Do que D. Jorge de Menezes Ca- 
* ii pi- 



N D I G E 



pitão de Maluco pajfou com Fernão de la 
Torre : e da vitoria que D. Jorge de 
C afiro houve de huma Armada de Gei- 
lolo. 34. 

CAP. VI. Da Armada , que ejie atino' de 
vinte e nove partio do Reyno : e de co- 
mo Lopo Vaz de Sampaio fe. embarcou 
pêra Cocbim , e Nuno da Cunha chegou 
a Goa , e partio logo pêra Cocbim : e de 
conto prendeo Lopo Vaz de Sampaio em 
ferros. 38. 

CAP. VII. Que contém a falia que Lopo 
Vaz de Sampaio fez a ElRey D. João 
em Relação', 46. 

GAP. VIII. Das culpas que ElRey deo a 
Lopo Vaz de Sampaio \ e da fua refpof- 
ta a ellas. 72. 

CAP. IX . De como António da Silveira ãef 
truio as Cidades de Surrate , e Reynel , 
e outras Villas , e povoações : e do que 
ãcúnteceo a Diogo da Silveira Capitão 
mor do Malavar efte verão. 89. 

CAP. X. Das coufas ; que aconteceram nò 
Efreito do mar Roxo : e de como ■ Mofta- 
fá Ba xá 5 e ElRey de Xael foram cercar 
a Cidade de- Adem : e do que aconteceo a 
Heitor da Silveira naquelle Ejlreito , e 
chegou a Adem , e favofeceo âquelle Rey , 
e o fez tributário ao de Portugal. 99. 

CAP. XI. Das coufas que aconteceram em 

* Ma- 



dos Capítulos 

Maluco entre Portugueses , e Cafíe- 
lhanos : e de como D. Jorge de Menezes 
o cercou na fortaleza de Tidore , e fe de- 
ram a partido , com condição ? que fefa- 
hijjem daquellas Ilhas. 104. 

LIVRO VIL 

CAP. I. Do concerto , e contrato , que 
EIRey D. João fez com o Imperador 
Carlos Qjtinto fobre as Ilhas de Malu- 
co: e da Arma da que efte anno par tio do 
Reyno. Pag. 112. 

CAP. II. Dos grandes apercebimentos que 
o Governador Nuno da Cunha fez pêra 
continuar na guerra de Cambaya : e da 
muito grande \ e poderofa Armada com 
que partio pêra Dio. 123, 

CAP. III. De como o Governador Nuno da 
Cunha commetteo a Ilha de Beth , e a 
entrou : e do efpantofo cafo que nella fuc- 
cedeo , porque fe deo áquella Ilha o nome , 
que hoje tem , da Ilha dos Mortos. 130. 

CAP. IV. De como chegou a Dio Mojiafd 
Baxá , e todos os mais Turcos que e fia- 
vam em Xael , e fortificaram aquella Ilha : 
e de como o Governador Nuno da Cunha 
commetteo a fortaleza de Dio 5 e fe reti- 
rou com damno feu. 138. 

CAP. V. Da grande > e cruel guerra 3 que 

An- 



Índice 

António de Saldanha fez por toda a en- 
ceada de Cambaya. 145', 

CAP. VI. Das defiavenças que o Accede- 
can teve com o Idalcan , e das preemi- 
nências daquelle cargo : e de como de o a 
EIRey de Portugal as terras firmes de 
Salfete , e Bardes. Ko. 

CAPé VIL Das coufas que ejle anno juc- 
tedêram em Maluco , até chegar Gonça- 
lo Pereira , e da morte d^ElRey Baya- 
no : e das cruezas , e deshumanidades 
que D. Jorge de Menezes ufou com os 
Ternatezes. 155. 

CAP. VIII. Da deficripção de todo efte viar 
do Levante , e quaes são as verdadeiras 
Ilhas de Maluco. E da divisão dos finco 
Archipelagos em que fie reparte : e dos 
cofiumes, e condições defieus naturaes.166. 

CAP. IX, Do que fie tem da antiguidade , 
e povoação das Ilhas de Maluco , com as 
arvores do cravo , e dos nomes que efitas 
drogas tem por todo o Mundo. 173. 

CAP. X. De muitas confias notáveis que 
ha nefias Ilhas de Maluco 9 e dos fogos 
que algumas lançam. 180. 

CAP. XI. Da Armada que efte anno de trin- 
ta e hum par tio do Reyno : e de como Ma- 
noel de Macedo fie perdeo em Calecare , 
e do que alli p afiou : e de como o Gover- 
nador Nuno da Cunha partio com huma 

grofi* 



dos Capítulos 

groffa Armada pêra o Malavar : e da 
grande batalha que D. Roque Te/lo teve 
com hum a Armada de Calecut. 189. 

CAP. XII. De como o Governador 'Num 
da Cunha chegou a Chalé ? e fe vio com 
aquelle Rey fobre o lugar que lhe havia 
de dar per a fazer a fortaleza : e dos tra- 
tos que houve entre elle , e o Camorim fo- 
bre pazes : e de como fe concluíram , efe 
começou a fortaleza. 196. 

CAP. XIII. Da Armada que o Governador 
Nuno da Cunha mandou ao EJlreito de 
Meca , de que foi por Capitão mor Antó- 
nio de Saldanha : e da guerra que Dio- 
go da Silveira fez por toda a cofia de 
Cambaya. 202. 

CAP. XIV. Do que o Governador Nuno da 
Cunha fez em Chalé , e acabou a forta- 
leza y e a proveo de Capitão : e das ce- 
remonias que os Nayres guardam no ne- 
gocio das jangadas > e que coufas são A- 
moucos. 206. 

LIVRO VIII. 

CAP. I. Das coufas , que efe atino paf 
fado aconteceram em Maluco : e de co- 
rno os da terra mataram o Capitão Gon- 
çalo Pereira y e lhe fuccedeo Vicente da 
jFonfeca. Pag. 214. 

CAP. 



Índice 

CAP. II. Da Armada , que ejle anno de 
1532 par tio do Reyno: e do que aconte- 
ceo a D. E/ievao da Gama na cojla de 
Melinde. E da grande guerra , que Dio- 
go da Silveira jez> no Reyno de Cambaya : 
e de como dejlruio as Cidades de Por , e 
Mangalor. 223. 

CAP. III. Das co ufas em que o Governa- 
dor Nuno da Cunha provêo ; e da gran- 
de Armada com que partio pêra o Nor- 
te, i$í. 

CAP. IV. Do modo da fortificação da Ci- 
dade de Baçaim : e de como o Governa- 
dor Nuno da Cunha defe mb arcou nella , 
e a entrou -\ e dejlruio de todo. 236. 

CAP. V. De como Diogo da Silveira par- 
tio pêra o EJireito de Meca , e o Gover- 
nador Nuno da Cunha pêra Goa , fican- 
do Manoel de Alboquerque com huma Ar- 
mada na cojla de Cambaya , e do que lhe 
aconteceo. 241. 

CAP. VI. Das coufas , que efie anno acon- 
teceram em Maluco : e do grande aper- 
to em que a Rainha poz aos da fortale- 
za : e de como lhe entregaram por par- 
tido feu filho EIRey Ayalo : e de como fe 
pafjou pêra Tidore , e Vicente da Fonfe- 
ca alevantou por Rey feu irmão Taba- 
rija. 248. 

CAP. VIL De como ElP.ey D. João defpe- 

clio 



dos Capítulos 

Mo efte anno de trinta e três três Ar- 
madas pêra a índia , duas em Marco , 
e huma em Outubro de dez caravelas , 
de que veio por Capitão D. Pedro de Caf- 
tello-branco: e do que aconteceo a Diogo 
da Silveira , que invernou em Ormuz. 251. 

CAP. VIII. Da razão porque Soltão Badur 
mandou pedir ao Governador Nuno da 
Cunha , que fe vijfe com elle : e da gran- 
de Armada , que fe chamou das Vtjlas , 
com que o Governador par tio pêra Dio : 
e do defafio que houve entre Manoel de 
Macedo , e o Rumecan , de tantos por 
tantos. 25%. 

•CAP. IX. Da diferença que ha entre os 
Rumes , e Turcos , e porque fe chamam 
Rumes : e do que fez o Governador Nu- 
no da Cunha : e de como Diogo da Silvei- 
ra foi com huma Armada aohflreito. 264. 

CAP. X. Do que aconteceo a Diogo da Sil- 
veira na viagem do EJlreito : e de como 
chegou a Goa D. Fedro de Caflello-bran- 
co com as caravelas. 269. 

CAP. XI. Do que aconteceo a D. EJlevão 
da Gama até chegar a Malaca : e de co- 
mo Lac Ximena Capitão d^ElRey de Vi- 
antana foi dar vijla a Malaca , e Dom 
Paulo da Gama lhefahio , e da cruel ba- 
talha que tiveram, em que D.Paulo foi 
morto $ e desbaratado. 274* 

CAP. 



Índice 

CAP. XII. De como D. EJievao da Gama 

foi contra o Rey de Viantana , e lhe def- 

truio a Cidade de todo : e dos proveitos 

que FJRey tem das Ilhas de Banda , e da 

qualidade de f eus frutos. 283. 

CAP. XIII. Das coufas que efte anno fuc- 
ce deram em Maluco 9 e dos Senhores da- 
quelle Archipelago , que fe fizeram Chri- 
Jiaos : e de como Trijiao de Tatde pren- 
deo EIRey Tabarija , e o mandou d ín- 
dia j e alevantou por Rey feu irmão Aei- 
ro : e da crueldade que ufáram com fua 
mai por lho não querer dar. 293. 

ÇAP. XIV. Da jornada que o Turco Solei- 
mão fez contra o Xathamaz Rey de Per- 
fia : e de como lhe entrou por feus Efta- 
dos até d Cidade de Tabris : e de como 
ao recolher deram os Perfas fobre elle , 
e o desbarataram , e de outras coufas. 300, 

L I V R O IX. 

CAP. L De como Martim Ajfonfo de Sou- 
fa partio do Rey no por Capitão mor 
das náos , e do mar da índia \ e de co- 
mo o Governador Nuno da Cunha fe fez 
prejles pêra ir ao Norte : e dos recados 
que fe paffdram entre os Reys dos Ma- 
gores \ e o de Cambaya. Pagv3o8. 

CAP. II. De como Soltão Badur mandou of- 

fe- 



dos Capítulos 

ferecer ao Governador Nuno da Cunha a 
Cidade de Baçaim : e dos Capítulos , e Con- 
dições com quefe ajjentdram as pazes. 314. 

C AP. III. De como Soltão Badur foi contra 
o Reyno de Chitor , e tomou aquella Ci- 
dade : e do que pajjou Simão Ferreira até 
fe ver com o Badur : e das coufas , em 
que o Governador Nuno daCu?iha provê o 
até partir pêra Goa. 322. 

CAP. IV. Da conjuração que houve entra 
os Senhores das Ilhas de Maluco contra 
os nofjbs , e do grande aperto em que os 
puzeram. 328. 

CAP. V. De como Hamau Paxd Rey dos 
Magores foi bufcar Soltão Badur , e lhe 
tomou os Reynos de Chitor , e Mandou , 
a que acudi o Soltão Badur : e das gran- 
des covardias que fez : e de como o Ma- 
gor o dejlruio , e desbaratou. 33^. 

CAP. VI. Dos limites que o antigo Reyno 
do Guzarate tem : e donde nafceo o erro 
dos Geógrafos lançarem o rio Indo na en- 
ceada de Cambaya. 343, 

CAP. VII. De como Soltão Badur tratou 
de fe ir pêra Meca , e foi co7ttrariado 
dosfeus : e de como mandou pedir foccor- 
ro ao Governador Nuno da Cunha con* 
tra os Magores , promettendc-lhe for- 
taleza em Dio : e de como foi ter com el- 
le Martim Ajfonfo de Soufa. 352. 

CAP. 



Índice 

CAP. VIII. Ba Armada que ejle anno de 
1535 par tio doReyno : e de como o Em- 
baixador de Cambaya chegou a Goa , e 
o Governador Nuno da Lunha Viandou 
com elle Simão Ferreira fera affentar 
com o Badur o contrato das pazes , e dos 
Capítulos com que fe concluíram. 35*9. 

CAP. IX. Be como o Governador Nuno da 
Cunha fe vio com Soltao Badur , e de no- 
vo confirmaram as pazes , e fe começou 
a fortaleza : e de alguns foccorros que o 
Governador deo ao Soltao Badur contra 
os Ma gores. 367. 

CAP. X. Be como Hamau Paxd Rey dos 
Magores fe recolheo pêra feus Rey nos y 
por lhe entrar por elles hum Rey dos Ba- 
tanes : e de como Soltao Badur o foi fe- 
guindo y indo em fua companhia Martim 
Ajfonfo de Soufa : e do que lhe na jorna- 
da aconteceo. 376. 

LIVRO X. 

CAP. I. Ba origem , e principio dos Ma- 
gores ? e Tártaros , e Provindas que 
pojfuiram : e do tempo em que receberam a 
Lei de Chrifto : e de como entre elles fe 
confiituio a dignidade do Prejle João , a 
que chamam das índias : e de comofe traf 
pajfou no Imperador da Ethiopia. Pag. 382. 



dos Capítulos. 

CAP. II. Que trata como ejles Reys Chrt- 
jlãos conqui fiaram oTurcfian , e das gen- 
tes que lhes foram fugindo até Afia me- 
nor y de que fe fenhoreáram > dando-lhe a 
nome da Grão Turquia : e dos Reys dos 
Magores que houve defde Grão Tamorlão 
até efte Hamau Paxá. 394. 

CAP. III. Da razão porque fe recolheo Ha- 
mau Paxá 5 e largou o Reyno de Cam- 
baya : e de como fe levantou nas partes 
de Bengala hum Patene chamado Circan y 
e dos Efiados que conquiftou : e de coma 
ãeftruio , e desbaratou Hamau , e lhe to- 
mou f eus Reynos. 409. 

CAP. IV. Qiie trata de como os Mouros 
conquifidram o Decan , e de todos os Reys 
que houve até Jfmael > que fale ceo efie anno 
em que andamos : e da antiguidade , e 
nomes da Ilha de Goa : e de como o Ac- 
cedecan deo as terras firmes de Salfete y 
e Bardes ao Governador Nuno da Cu- 
nha. 416. 

CAP. V. Dos recontros 3 que os noffos ti- 
veram com os Mouros : e de como Dom 
João Pereira pelejou com elles 5 e os des- 
baratou : e das coufas em que o Gover- 
nador Nuno da Cunha provêo em Dio > e 
em Goa. 430. 

CAP. VI. Das pazes que D. Efievao da 
Gama fez comElRey deViantana , e das 

cou- 



Índice dos Capítulos 

coufas que aconteceram em Maluco todo 
ejie verão : e de hum raro cafo que aconte- 
ceo a hum daquelles fenhoresChrifiãos.^Ap. 

CAP. VIL Dos Capitães , que o Idalcan 
mandou fobre as terras de Salfete : e da 
Armada que ejie anno veio do Reyno : e 
de como D. Gonçalo Coutinho Capitão de 
Goa pajftiu em bufe a dos inimigos. 448. 

CAP. VIII. De como D. Gonçalo Coutinho 

foi morto , e desbaratado no Bory pelos 

Capitães do Idalcan. 454. 

CAP. IX. Dos recados que o Governador 
Nuno da Lunha teve de Dio : e das pa- 
zes que fez com o Accedecan , e lhe tor- 
nou a largar as terras de Salfete , e 
Bardes. 45^ 



DE- 



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OS*! 






DÉCADA QUARTA. 
LIVRO VI. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

Do que aconteceo ao Governador Nuno da 

Cunha , depois que partio da Ilha de Sao 

Lourenço até chegar a Mombaça. 



'lp! 

Si 

•ia 



Artido Nuno da Cunha, como 
atrás diflemos , com a outra náo 
da Ilha de S. Lourenço por 
dentro , fendo na altura da Ilha 
Zanzibar , fentíram terra, indo 
navegando de noite, pelo que furgíram k> 
go. E tanto que amanlieceo , víram-fe cerca- 
dos de Ilhas , e reílingas , fem poderem en- 
tender por onde alli entraram , nem verem 
por onde podiam fahir, porque de todas as 
partes rebentava o mar em flor ; e certo que 
íòi coufa milagrofa não fe perderem , por- 
que o boqueirão por onde ambas asnáosei*- 
Cauto. Tom, L P, il A trá- 



B ÁSIA de Diogo de Couto 

tráram era tão eftreito , que quaíi fe não en- 
xergava. Nuno da Cunha mandou Manoel 
Machado feu Capitão da guarda no efquife 
com alguns companheiros pêra irem a ter- 
ia ver ie podiam tomar alguma peflba ? que 
lhes déíTe razão donde eftavam, e fe faberia 
tirar dal li as náos , porque os Pilotos efta- 
vam pafmados , e areados. Manoel Macha- 
do chegando a terra vio huma povoação ao 
longo da agua , e querendo defembarcár > 
acudiram os negros com frechas , e páos tof- 
tados , e carregando nos nolíos , os fizeram 
embarcar com morte de hum grumete , e 
dous feridos. O Governador ficou enfadado , 
e mandou feu irmão Pêro Vaz da Cunha 
com alguma gente de armas pêra dar na Al- 
deã , indo com elle vinte e cinco companhei- 
ros todos Fidalgos , e Cavalleiros ; e chega- 
dos á povoação , lhe fugiram os negros pêra 
o fertao, e os noífos entraram nella fem a- 
charem peífoa viva : de que Pêro Vaz agaf- 
tado , difle aos companheiros , que bem viam 
os rifcos em que eítavam aquellas náos , e 
-que fenão houveífe alguma peífoa da terra 
ás mãos pêra os tirar dalli y que pereceriam 
todos : Que era de parecer ficaííem alii al- 
guns companheiros embrenhados , porque co- 
mo foííe noite , forçado fe haviam os ne- 
gros de tornar pêra a povoação , e que en- 
tão fe poderia tomar algum defmandado , e 

que 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. 3 

que comofofle noite, elle tornaria com oba- 
rei á praia pêra os recolher , e favorecer , 
porque niíío ganhavam muita honra , e cor- 
riam pouco rifco : e ainda que correUem mui* 
to , em que negocio fe podia arrifcar a vii 
da melhor que naquelle ? A ifto fe lhe of- 
ferecêram dous mancebos Fidalgos , irmãos , 
filhos do Abbade de Pombeirojoão de Mel- 
lo , chamados Diogo de Mello , e Triftão 
de Mello : o que Pêro Vaz da Cunha efti- 
mou muito, por vernelles o animo com que 
fe lhe ofFerecêram , e houve que fariam tu-» 
do muito bem feito , louvando-os , eengran- 
decendo-os com palavras mui honradas 3 e 
lhes difle , que tanto quefofle noite, (por- 
que era ifto já fobre a tarde , ) elle fe viria 
pôr no mefmo lugar com o batel pêra os 
recolher, e aífi íè deixaram ficar. Eftes Fi- 
dalgos, e hum criado feu chamado João Ro-» 
drigues , com efpadas , e rodellas fe embre- 
nharam alli perto da povoação , e o batei 
fe tornou pêra a náo ; e tanto que anoite- 
ceo , voltou logo pêra a terra , e fe poz no 
mefmo lugar preftes pêra recolher os nof- 
fos. Os negros tanto que viram recolher o 
batel , e que anoitecia , tornara m-íe pêra a 
povoação. Os noíTos que eftavam embrenha* 
dos , fentindo que já vinha gente pêra a po- 
voação , fizeram-fe preftes , e quiz Deos que 
yieíTe dar com elles hum Mouro velho , a 
A ii quem 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

quem arremettendo Diogo de Mello , o levou 
nos braços , tapando-lhe logo a boca pêra 
que não gritaííe , e aííi nos ares foi levado 
á praia , e embarcado no batel , que eftava 
muito preftes. E tomando o remo na mão , 
fe foram caminho da náo , e aprefentáram 
o Mouro a Nuno da Cunha , que lhe man- 
dou dizer que nãohouveíTe medo, que não 
queria íaber mais delle , fenão fe havia re- 
médio pêra tirarem dalli aquellas náos. O 
Mouro lhe mandou dizer, que fua dita fo- 
ra muito grande em o tomarem , porque el- 
le fó em toda aquella coita lhe podia fer 
bom naquelle trabalho , porque era o Pilo- 
to melhor, e mais antigo, que todos delia. 
Nuno da Cunha recebeo aquillo como mer- 
cê da mão deDeos; e fabendo como Dio- 
go de Mello o tomara , o abraçou muitas 
vezes, dizendo-lhe tantas palavras, e de tan- 
tos louvores , que caufáram inveja a todos 
os da náo , promettendo-lhe fatisfação da- 
quelle ferviço que fizera a EIRey , que fo- 
ra mui grande. Nuno da Cunha fez muitos 
mimos ao Piloto , e o mandou agazalhar , 
tendo vigia nelle , que não fe acolheíTe de 
noite ; e ao outro dia tirou as náos fóra da- 
quelles baixos , por hum canal tão eftreito, 
que era medo vello , e as levou a ancorar 
na barra de Zanzibar. O Governador lhe 
mandou pagar muito bem , e dar-lhe muitas 

P e ~ 



Década IV. Liv. VI. Cap. L ? 

peças, com que ficou tão fatisfeito, que fe 
offereceo levallo até Mombaça , aonde fe aí- 
fentou que foíTe invernar , porque já não po- 
diam pa{Tar á índia. Em Zanzibar efteve Nu- 
no da Cunha alguns dias tomando refreíco, 
e por ter nas náos duzentos doentes , os man- 
dou defembarcar em terra , pêra fe ficarem 
curando aili , deixando-lhes todos os provi- 
mentos necefiarios , e por Capitão delles hum 
Fidalgo chamado Aleixo de SoufaChichor- 
ro , que com muito gofto por ferviço de 
Deos , e d'ElRey quiz ficar com elles. Dai- 
li fe partio o Governador pêra Melinde , on- 
de fe vio com EIRey , de quem foi muito 
bem recebido , e agazalhado. Aqui neíle Por- 
to efiava Diogo Botelho Pereira , Capitão de 
humanáo, que tinha partido doReyno por 
mandado d'ElRey D. João em bufca da 
gente da náo de D. Luiz de Menezes , ir- 
mão do Governador D. Duarte de Mene- 
zes, que defappareceo indo pêra Portugal , 
e fe prefumia dera á cofia na paragem do 
Cabo das Correntes , ou por aquella coíla 
toda , e que a gente toda eftava em terra ; 
porque em Portugal diííeram algumas náos, 
que por aquella paragem lhes fizeram de noi- 
te fogos em cruzes , que parecia de gente 
Portugueza , que fe por alli perdera ; haven- 
do que não feria outra fenao a da náo de 
D. Luiz de Menezes, de que Diogo Bote- 
lho 



6 ÁSIA de Diogo de Couto 

lho não achou finaes , nem novas algumas. 
Delle íbube o Governador o íucceíío ciafua 
viagem. Daqui cie Melinde mandou recado 
a EIRey de Mombaça a pedir-lhe licença 
pêra ir invernar no feu Porto , porque cm 
Melinde não podia fer , porque era cofta bra- 
va , e no inverno perigofa. EIRey de Mom- 
baça como era Mouro defconfiado , pareceo- 
Ihe que aquillo era invenção do Governador 
pêra lhe tomar fua Cidade , e mandou-fe- 
íhe elcufar : de que o Governador fe tomou 
muito , e aflentou de o caftigar , pois o não 
queria agazalhar , porque também não po- 
diam as náos invernar em outro Porto fenão 
naquelle. Deita determinação deo conta aos 
Fidalgos, e a EIRey de Melinde , que lhe 
pêra ifíb offereceo oitocentos Mouros; e fa- 
zendo o Governador alardo da gente que 
tinha 5 achou oitocentos homens , com os 
da náo de Diogo Botelho Pereira , gente 
mui limpa , e mui luftrofa. E mandando EI- 
Rey de Melinde negociar huma naveta fua , 
pêra nella , e na náo de Diogo Botelho Pe- 
reira fe embarcarem os oitocentos Mouros ; 
e defpedindo-íe o Governador d'E!Rey, fe 
fez á vela pêra Mombaça , aonde chegou ao 
outro dia pela manhã , e furgio da banda dô 
fora. 



CA- 



Década IV. Liv. VI. 7 

CAPITULO II. 

De como Nuno da Cunha tomou a Cidade 
de Mombaça : e das coufas que lhe acon- 
teceram em quanto ejleve nella. 

DEpois do Governador Nuno da Cunha 
eftar furto em Mombaça da banda de 
fora , mandou fondar a barra por feu irmão 
Pêro Vaz da Cunha , que o foi fazer em 
hum batel com alguns Fidalgos , que o a- 
companháram , e foi entrando no canal , on- 
de acharam a agua baftante pêra as náos. Na 
entrada da barra no mais eftreito viram hum 
baluarte de pedra , que tinha oito bombar- 
das , com que atiraram ao batel, fem lhe fa- 
zerem nojo, e paliaram avante até defronte 
da Cidade, onde acharam melhor furgidou- 
ro. Alli lançaram ferro , e fizeram íinal a 
Nuno da Cunha , que tanto que a viração 
ventou, mandou dar á vela , e entrando pe- 
la barra , foi furgir aonde o batel eftava , ti- 
rando-lhe do baluarte muitas bombardadas , 
fem o Governador querer que lhe tiraífem 
alguma, por lhes dar a entender, que que- 
ria amizades , e efperou aquelle dia , e noi- 
te por ver fe mandava EIRey ter com el- 
le algum cumprimento , porque defejava de 
invernar alli de paz. O Rey de Mombaça > 
havendo confelho com osfeus, aíTentou de 

fe 



8 ÁSIA de Diogo de Couto 

fenao fiar dos noílbs , e de lhes defpejar a 
Cidade , porque depois de paliado o inver- 
no ahi lhe tornava a ficar: e affi o fez logo 
de toda a fazenda , mulheres , e meninos , 
que mandou levar dahi a huma légua, fican- 
do nella fó a gente que podia pelejar. Nu- 
no da Cunha vendo que lhe não vinha re- 
cado , determinou de defembarcar em terra , 
e mandou a feu irmão Pêro Vaz da Cunha 
de noite a reconhecer o íitio da Cidade , 
e onde havia melhor defembarcação. Pêro 
Vaz da Cunha fe foi no batel com alguns 
Portuguezes , e chegou-fe bem á praia , que 
foi coíteando, e notando mui bem leu litio. 
E como os Mouros tinham grandes vigias , 
foi logo fentido , e lhe atiraram frechadas , 
de que lhe feriram alguns companheiros. Pê- 
ro Vaz , depois de notar mui bem tudo , tor- 
nou-fe pêra a náo , e deo conta a Nuno da 
Cunha do que vira , affirmando-lhc , que to- 
da a face da Cidade er*a huma praia , em que 
fe podia defembarcar , mas com a agua pe- 
la cinta. E eílando fem fe determinarem na 
defembarcação, veio da Cidade hum Mou- 
ro fugindo a nado pêra a Armada , que foi 
tomado por hum batel , e levado ao Gover- 
nador 5 que o recebeo bem , porque efpera^ 
va de fe informar delle de tudo o que ha^ 
via na Cidade ; e dando-lhe conta do que 
fe tratava } lhe diife o Mouro ^ que era mui- 

to 



Década IV. Liv. VI. Cap. II. 9 

to perigofo o defembarcar na praia , porque 
pela detença que a gente faria em chegar a 
terra , fc arrifcavam a ferem todos mortos 
ás frechadas , de que elles fenão poderiam 
guardar , porque haviam de ir mettidos pe- 
la agua , e envafados , pêra fenão fervirem 
da efpingardaria ; mas que era de parecer , 
que defembarcaífem abaixo da Cidade , jun- 
to de huma Mefquira em hum lugar que el- 
le amoílraria , onde os batéis podiam fem 
trabalho pôr as proas em terra , por íer al- 
cantilado. E diífe mais, que na Cidade ha- 
via mais de três mil homens de peleja , e 
que não tinha mais que huma eílancia fora 
de huma das portas , com finco bombardas 
de ferro : e que o bombardeiro era hum Por- 
tuguez arrenegado , e que entre todos era 
tamanho o medo, que lhes parecia , que em 
os Portuguezes pondo o pé em terra , ha- 
viam de defamparar tudo. Com ifto refu- 
niio-fe Nuno da Cunha em defembarcar na 
parte em que o Mouro dizia , mandando-o 
agazalhar mui bem , e ter a bom recado , 
pêra lhes fervir de guia ; e ordenou que fof- 
fe ao outro dia , dando a dianteira a Pêro 
Vaz da Cunha feu irmão , com feiscentos 
Portuguezes , em que entravam duzentos eí- 
pingardeiros , de que era Capitão Fernão 
Coutinho (que depois foi a Portugal por ter- 
ra j e fez em Lisboa a quinta } que eíhí jun* 

to 



lo ASIÀ de Diogo de Couto 

to á Igreja dos Anjos ) com quem haviam 
de ir mais trezentos Mouros deMelinde. Paf- 
fáram-fe pêra Pêro Vaz da Cunha Manoel 
de Alboquerque , que hia na náo com o Go- 
vernador , Diogo de Mello , e João de Mel- 
lo. Nuno da Cunha , e D. Fernando de Li- 
ma , e Diogo Botelho Pereira com toda a 
mais gente na retaguarda. E pondo as cou- 
fas necefíarias em ordem , ao outro dia, tan- 
to que foi manha, mettidos nos batéis , e nos 
efquifes , e em algumas embarcações peque- 
nas dos Mouros , foram demandar o lugar 
da Mefquita , onde o Mouro de Melinde os 
guiou ; e pondo as proas em terra , faltaram 
os noflbs nella fem acharem refiftencia , e a 
fom de tambores , e pifaros , e as bandeiras 
defenroladas , foram marchando em muito 
boa ordem pêra a Cidade , pela parte onde 
eftava a cftancia com artilheria , cujo bom- 
bardeiro (que como diíTemos era Portuguez) 
defparou alguns tiros , que não fizeram nojo 
algum nos noíTos , e logo largou a eílancia 
com todos os Mouros , que nella eftavam , 
e fe recolheram á Cidade onde eftava El- 
Rey , que vendo a determinação dosnoííbs, 
a alargou de todo , recolhendo-fe pêra o 
fertão. Os da dianteira entraram nella fem 
acharem refiftencia alguma. Nuno da Cunha 
tanto que fe vio na Cidade , porque era mui- 
to grande > mandou cortar muita parte dei- 

Ia, 



Década IV. Liv. VI. Cap. II. II 

Ia , e fazer logo tranqueiras , vallos , e ca- 
vas , ern que poz Capitães com foldados , de 
modo que ficaram em huma parte delia mui- 
to feguros. O Governador apofentou-lè nos 
Paços fPElRçy , fortificados , e poftas guar- 
das , começaram a bufcar as caías , e cavar 
chãos , onde fe achou muito dinheiro , de 
que alguns ficaram mui ricos. O Governa- 
dor mandou D. Rodrigo de Lima , irmão de 
D. Fernando de Lima , com alguns cem Por- 
tuguezes , que fofie tomar o baluarte da bar- 
ra , que foi commettido , e entrado , e mor- 
tos os mais dos Mouros á efpada, e todos 
os outros cativos , ficando alguns dos nof- 
fos feridos , em que entrou D. Rodrigo de 
Lima de huma frechada hervada , de que 
morreo dahi a alguns dias, e a artilhem foi 
tomada. Feito iíto por fer já fim de Dezem- 
bro , defpedio o Governador pêra Portugal 
o navio de Diogo Botelho Pereira , por quem 
efereveo a EIRey todas as ceufas aconteci- 
das até então, com quem fe embarcaram al- 
guns homens , que acharam muito ouro , di- 
nheiro , e âmbar nb facco da Cidade. Dio- 
go Botelho Pereira chegou a Portugal a fal- 
vamento no Junho feguinte, de quem EIRey 
foube as novas da índia , e da jornada de 
Nuno da Cunha. Os de Mombaça eílavam 
fortificados meia légua da Cidade , donde to- 
dos os dias vinham correr aos noffos , de 

dia> 



12 ÁSIA de Diogo de Couto 

dia , e de noite , com quem tinham algumas 
brigas mui accezas ; porque fe vieram a deí- 
avergonhar tanto , que entravam pela Cida- 
de, e commettiam os noflbs em fuás eftan- 
cias , tão contínuos , que os traziam difve- 
lados , e quebrantados. E huma vez lhes fa- 
liio D. Fernando de Lima com tanta pref- 
fa , que não pode tomar hum capacete , e 
remettendo com os Mouros , lhe deram hu- 
ma frechada na teíla , a que elie difle alto : 
Amores de minha mulher , e apertando com 
os Mouros , os fez fugir. O Governador ef- 
íava aífrontado com os continuos rebates dos 
Mouros ; e porque não íahia o modo de co- 
mo eftavam fortificados , nem quantos eram 
pêra mandar dar nelles , diífimulava , defe- 
jando em extremo de tomar alguma lingua 
pêra fe informar da verdade , o que encom- 
mendou a Diogo de Mello, (pela confiança 
que delle ficou tendo do fucceffo paliado 
de Zanzibar,) que lhe prometteo , que elle 
lha traria , e ofFereceo-fe pêra ir com elle 
Chriftovâo de Mello , e dous homens de fua 
obrigação ; e de noite fe fahíram da Cida- 
de com armas ligeiras , e fe foram lançar 
em cilada perto do Arraial dos Mouros. AI- 
li foram dar com elíes alguns , a quem os nof- 
fos fahíram , e Diogo de Mello fe liou com 
hum , que deo tamanhos brados , que foram 
ouvidos no feu Arraiai , onde houve gran- 
de 



Década IV. Liv. VI. Cap. II. 13 

de alvoroço. Diogo de Mello quizera lan- 
çar o Alouro ás coitas , mas era tamanho , 
e tão gordo 5 que quafi o não podia íufpen- 
der 5 nem com os outros o ajudarem. E por- 
que dalli á Cidade era meia légua , e elles 
lentíram os Mouros que acudiam, matou Dio- 
go de Mello o Mouro , e lhe cortou hum 
braço , com que fe recolheram pêra tefte- 
munha do que fizeram , e á meia noite che- 
garam á Cidade , e por acharem Nuno da 
Cunha dormindo , deo Diogo de Mello o 
braço do Mouro ao feu Camareiro pêra 
que lho déííe pela manha , e fe recolheo co- 
mo fenão fizera coufa alguma. Tanto que 
amanheceo , o Camareiro em acordando o 
Governador lhe deo conta do que paliava , 
e lhe moftrou o braço. O Governador man- 
dou chamar Diogo de Mello , e o abraçou 
com palavras mui honradas; mas elle mos- 
trando eftar magoado do pouco que fizera ? 
fe lhe oífereceo pêra ir tomar outra efpia , 
de que não houve neceífidade , porque os 
Mouros ficaram daquelle fucceííb tão efcál- 
dados , que nunca mais tornaram a inquietar 
os noíTos j e aíli ficaram quietos \ mas como 
começaram a adoecer muitos y por fer a terra 
mui doentia , e em quanto alli eftiveram y 
que foi até fim de Março , morreram tre- 
zentos e fetenta Portuguezes , em que entrou 
Pêro Vaz da Cunha > que o Governador fen*. 

tio 



14 ASIÀ de Diogo de Couto 

tio muito , por fer Fidalgo de muitas par^ 
tes , e qualidades, pelo que (além de irmão) 
o amava muito , e era bem quifto de todos. 
Foi efte Fidalgo cafado com D. Brites , fi- 
lha de André de Soufa Senhor de Miranda > 
e Alcaide mor de Arronches , de quem hou- 
ve André da Cunha , e Jeronymo da Cu- 
nha , e ella por morte de feu marido fe met- 
teo Freira na Madre de Deos de Lisboa. 

CAPITULO III. 

De como o Governador Nuno da Cunha 
foi a Ormuz : e de como Manoel de Mace- 
do chegou àquella Fortaleza , eprendeo Rax 
Xarrafo : e de como fe alevantou o Guazil 
de Bar em : e de como Nuno da Cunha man- 
dou contra elle feu irmão Simão da Cunha. 

TAnto que começaram a ventar os Po- 
nentes , que de ordinário entram de quin- 
ze de Março por diante , os Capitães das 
náos do Reyno Simão da Cunha , D. Fran- 
cifco Deça , Francifco de Mendoça , que 
eííavam em Moçambique , vendo que Nu- 
i;o da Cunha não era chegado , havendo feu 
coníelho , aflentáram de irem pela colla de 
Melinde adiante até Mombaça a ver fe ha- 
via novas delle, e quando não, paíTarem á 
índia. E affi fe embarcaram com quatrocen- 
tos homens menos , que lhes aili morreram 

de 



Dec. IV. Liv. VI. Ca?. III. i? 

de enfermidades. E dando á vela , foram por 
fim do mez de Março tomar Mombaça 5 aon- 
de acharam o Governador , que todos fef- 
tejáram muito, e furgíram da banda de fo- 
ra , indo com elles Aleixo de Soufa , que 
em Zanzibar fe embarcou com os que efca- 
páram. O Governador eflimou muito fua vin- 
da , e os mandou metter pêra dentro , e re- 
cebeo o irmão , e todos os mais Fidalgos 
com grande alegria , porque os tinha por per- 
didos , e receou que o foíTe António de 
Saldanha , e Garcia de Sá , de quem nenhu- 
ma peiíbadava novas. Efentio muito a per- 
dição da náo de Affonfo Vaz Zambujo , e 
de Bernardim da Silveira , de quem já em 
Moçambique fe fabia. E tomando confelho 
com os Pilotos , fe poderia ainda paíTar a 
invernar á índia , aflentáram todos que era 
muito tarde. Pelo que houve por melhor ir 
eíperar a Ormuz a monção , que era em Se- 
tembro , por lhe não acabar de morrer alli 
toda a gente , por fer a terra muito doen- 
tia. E fazendo-íe preftes pêra íè embarcar , 
chegou o navio de Baftião Freire , (que co- 
mo diííemos o Governador Lopo Vaz de 
Sampaio defpedio de Cochim , pêra ir por 
toda aquella cofta faber novas de Nuno da 
Cunha , ) que elle recebeo mui bem , e vio 
as cartas que lhe levava de Lopo Vaz de 
Sampaio > por onde foube o eítado das cou- 

fas 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

ias da índia. E porque o navio era peque- 
no , o defpedio logo com outras pêra Lopo 
Vaz , em que lhe dava conta de ília jorna- 
da , e lhe pedia lhe tivefie toda a Armada 
preíles , porque lhe era neceííario embarcar- 
fe logo. Efte navio chegou a Goa já em 
Maio , e Baftiao Freire deo as cartas a Lo- 
po Vaz , que em eftremo feftejou as novas 
de Nuno da Cunha , porque andava já en- 
tre os Mouros hum alvoroço grande pelo 
haverem por perdido ; e logo mandou dar 
grande aviamento á Armada. O Governador 
Nuno da Cunha , tanto que defpedio Baftiao 
Freire , deo a vela pêra Ormuz , e com ven- 
to proípero chegou a Mafcate , onde deixou 
os doentes que eram muitos , e com a náo 
de Simão da Cunha , cm que elle hia , e a 
de D. Fernando Dcça paflbu a Ormuz 5 
deixando alli os mais navios ; e em poucos 
dias chegou áquella fortaleza , onde foi mui 
bem recebido de Chriílovão de Mendoça , 
Rey , e Guazil , e fe apofentou na fortale- 
za , onde começou a correr com as coufas 
dantre o Rey , eXarrafo, que eftavam dif- 
ferenres , apaziguando as , e mandando tirar 
devaífas emíegredo, porque determinava de 
çaíHgar quem tiveííe culpa. E aífi o deixa- 
remos agora , por continuarmos com Ma- 
noel de Macedo , que deixámos partido do 
Reyno : que ícguindo fua derrota fem achar 

cou* 



Dec* IV. Liv. Vi; Cap. III. 17 

contrafte algum , embocou o eftreito da Per- 
íia , e tomou aguada de Tui , a que com- 
m um mente chamamos de Teive, vinte eduas 
léguas do Cabo Rofolgate pêra dentro , on- 
de achou novas de fer Nuno da Cunha paí- 
fado pêra Ormuz ; e abrindo alii feu regi- 
mento , achou nelle que lhe mandava El- 
Rey , que foffe prender Rax Xarrafo , e lho 
levaííe pêra o Reyno , o que fizeííe fem al- 
teração alguma. E receando que , fe chegaf- 
fe a Ormuz com a náo , lhe quizefle Nuno 
da Cunha tirar a honra de prender o Gua- 
zil , (por fer coufa que lhe EíRey tanto en- 
conynendava no feu regimento , ) determi- 
nou de ir em fegredo , fem dar conta diíTo 
ao Governador ; e tomando huma Terrada 
ligeira, embarcou-fe nella com alguns de que 
fe confiou , mandando ao Capitão que dei- 
xou , que fe foííe apôs elle, E pondo*fe ao 
caminho com muita preíTa , chegou a Or- 
muz huma manhã muito cedo, e defembar- 
cando fem. fe dar a conhecer a ninguém , da 
praia defpedio hum homem com huma car- 
ta para o Governador , em que lhe reque- 
ria da parte d'ElRey , que tanto que aquel- 
la viífe, mandaíTe gente a cafa do Guazil, 
porque cumpria aífi a feu ferviço , e elle fe 
foi a c^fa do Xarrafo, e fabendo que efta- 
va com EIRey , foi lá , e entrou com dk. 
O Guazil em o vendo o conheceo , e o abra- 
Couto. Tom, L P. //. B cou , 



i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

çou , e recebeo com grandes gazalhados > 
porque era muito feu amigo. Manoel de Ma- 
cedo lhe diííe , que EIRey de Portugal tra- 
tava de o mandar levar prezo pêra o Rcy- 
áo , e que elle íe offcrecêra pêra iffo 5 por- 
que não fiava o bom tratamento de íua pefr 
íoa fenão delle próprio ; e já que EIRey 
o havia de mandar levar , folgalle que an- 
tes foíTe por dle , que por outrem. O Xar- 
rafo ficou embaraçado com coufa tão íiipi- 
ta , c não imaginada delle. O homem que 
levou a carta a Nuno da Cunha Jha deo , e 
eftando-a lendo chegou Simão da Cunha , e 
lhe diííe , que Manoel de Macedo tinha pre- 
zo Rax Xarrafo , e que andava já reboliço 
na Cidade. Nuno da Cunha ficou fobrefalta- 
do, e lhe mandou que foíTe muito de pref- 
fa tomar-lhe Xarrafo , e que lho levafle á 
fortaleza. Simão da Cunha acompanhado de 
muitos homens entrou em cafa (TEIRey , e 
tomou o Guazil a Manoel de Macedo , le- 
bre o que tiveram algumas palavras , e o le- 
vou á fortaleza , onde foi mettido na Tor- 
re da menagem ; e logo lhe eferevêram fua 
fazenda , ficando ElPvey de Ormuz muito 
affrontado daquelle negocio acontecer em 
fua cafa 5 e em fua preíença. Nuno da Cu- 
nha efeandalizado de Manoel de Macedo 
cornmetter negocio tão importante , e arrif- 
cado fem lhe dar conta , o mandou prender.^ 

com 



Dec.IV. Liv. VI. Cap. III. 19 

com cor de dizer, que o fazia pêra abran- 
dar EIRey de Ormuz , e quietar a Cidade 
que andava revolta , por fer Xarrafo a fe- 
gunda peííoa do Reyno , e muito poderoíò , 
e aparentado. As novas deita prizão chega- 
ram a Barem , onde eftava por Guazii Rax 
Bardadim , cunhado do Xarrafo , a quem 
differam como fora prezo em eafa d'ElRey , 
havendo que fora em confentimento ditTo 
pelas differenças que tiveram : pelo que fe 
alevantou com aquelle Reyno de Barem , 
que rendia a EIRey de Ormuz quarenta mil 
pardaos cada anno. Ifto foi logo fabido por 
EIRey , e requereo a Nuno da Cunha , que 
pois elle era vaíTalIo d'ElRey de Portugal , 
e pagava feflenta mil pardaos de parcas , que 
o tornafle a reftituir á poíTe de Barem , fei 
não que feria forçado abater nas páreas os 
quarenta mil pardaos , que aquelle Reyno 
lhe rendia , porque lhe não ficava donde as 
poder pagar. Nuno da Cunha poz efte ne- 
gocio em confelho com o Capitão de Or- 
muz , e mais Fidalgos da Armada , que fi- 
caram repartidos em diíferentes opiniões. Por- 
que huns diziam, que mais importava ir fa- 
zer fortaleza em Dio , como EIRey man- 
dava , que todas as outras coufas da índia , 
o que fe podia fazer então mais facilmente , 
por quão deílroçado ficara o Reyno de Cam- 
baia com o desbarate ? e perda da Aja Ar- 
B ii ma- 



io ASIÀ de Diogo de Couto 

mada , (de que já alli havia novas ; ) e que 
indo , ou mandando a Barem , pela ventura 
fuccederiani as coufas de feição , que lhes fe- 
ria forçado deter-fe , e não poder partir tão 
cedo pêra a índia, a que era neceífario acu- 
dir-fe , e que as coufas de Barern fe pode- 
riam fazer depois mais devagar. Outros fo- 
ram de parecer ? que fe não diílimulaífe por 
então com aquelle negocio , pela obrigação 
que EIRey de Portugal tinha de fufíentar 
aquelle Rey em feu Reyno 3 como feu vaf- 
fallo que era ; e que o negocio de Barem 
muito melhor fe faria eftando elle naquella 
fortaleza , em que os Mouros tinham os 
olhos , e citavam tão atemorizados , que não 
haviam de bolir comíigo com o receio do 
caíiigo : e que fe entendia daquelle Guazií , 
que íèviífe lá Armada 5 logo havia de entre- 
gar aquella fortaleza , e Reyno ; o que de- 
pois não faria , antes cobraria animo com 
ver, que eítandoelle naquella Ilha , lhe dif- 
íimulava íuas coufas , e que o negocio de 
Dio a todo o tempo fe faria: Que o bom 
era fegurarem quarenta mil pardaos de ren- 
da , que EIRey de Portugal tinha naquelle 
Reyno , porque não fe podia deixar de def- 
contar aquelle Rey aquelles quarenta mil 
pardaos que Barem lhe rendia , em quanto 
eftiveífe alevantado. Com efte parecer fe foi 
Nuno da Cunha, que logo defpedio feu ir- 
mão 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. III. 2r 

mão Simão da Cunha em hum navio de 
hum Jorge Gomes mercador , e D. Fran- 
cifco Deça no Galeão de Manoel de Mace- 
do , e D. Fernando Deça no feu , e Manoel 
de Alboquerque em outro que alli eítava , 
eLopo de Mefquita no Camorim pequeno, 
e Aíeixas de Souía em huma naveta , e Tril- 
tão de Taide , que com elle vinha doRey- 
no , em huma Fuíta. E ncítas embarcações 
hiam quali quinhentos homens, os mais del- 
les Fidalgos , e criados d'ElRey. Levava Si- 
mão da Cunha per regimento , que recolhef- 
fe a íi Belchior de Soufa, que andava cçra 
féis navios de remo por Capitão mór den- 
tro no eftreito , dando guarda ás terradas'^ 
que vinham de BaíTorá pêra Ormuz. Era ef- 
te Belchior de Soufa Tavares Alcaide mór 
que foi de Portalegre, e Aííumar, a quem 
EIRey tirou aquellas Alcaidarias por hum 
aggravo que delie teve , e lhe deo a renda 
do peixe de Aveiro , que então rendia pou- 
co , e hoje importa muito , que anda em 
feus netos. E dando eíla frota á vela entra- 
da de Setembro , achando os ventos con- 
trários , andaram ás voltas alguns dias com 
muito trabalho , até lhes entrar tempo com 
que chegaram a Barem , falvo o Galeão de 
D. Francifco Deça , que por fer ruim de ve- 
la , não pode paliar. Surtos em Barem , a- 
cháram alli já Belchior de Soufa Tavares 

com 



22 AvSIA de Diogo de Couto 

com a fua Armada , que tanto que íòube 
do alevantamento daquelle Guazil , dando 
de mão a todos os negócios 3 partio de den- 
tro do rio Eufrates , onde íè ajunta com o 
Tvgres , ( que foram os primeiros navios 
noíTos que alli chegaram , ) onde eílava ef- 
perando huma cáfila , que havia de vir de 
Bagada , que nós chamamos Babylonia , por 
aquelle rio abaixo : e foi-fe deitar íbbre a- 
^juelle porto , deíendendo-lhe os mantimen- 
tos , e fazendo-lhe toda a guerra que pode : 
que deo relação a Simão da Cunha , (que 
levava poderes do Governador , ) do eftado 
em que as coufas daquella terra citavam. E 
foi de parecer que logo fe defembarcafíe , 
e fe commetteífe a fortaleza , porque a ter- 
ra era muito doentia , e em poucos dias lhe 
havia de adoecer toda a gente , o que Si- 
mão da Cunha determinou de fazer logo , 
Começando a pôr em ordem as coufas ne- 
ceífarias pêra iífo. 



CA- 



Década IV. Liv. IV. 23 

CAPITULO IV. 

De como osnojjos defemb arcaram em Ba- 
rem , e dos partidos que o Guazil mandou 
commetter ^ e de como lhe bateram a for- 
taleza , e das efpantof as febres , que em 
todos os Portuguezes deram , e fe embara- 
çaram , e de como fale ceo Simão da Cunha 
de nojo. 

SUrta a noíía Armada defronte de Barem , 
Rax Bardadim , poíio que eftava na for- 
taleza com muita gente de .guarnição, arti» 
lheria , munições , e mantimentos , quafi 
que eftava arrependido do que tinha feito ; 
porque qualquer mal que íuccedeffe aos Por- 
tuguezes 5 o havia de pagar Rax Xarrafo feii 
cunhado j pelo que mandou logo alevantar 
fobre hum baluarte huma grande bandeira 
branca em final de paz , que vifta por Si- 
mão da Cunha , mandou a terra hum lín- 
gua a faber de Rax Bardadim o que que* 
ria ; e elle lhe mandou dizer , que não fe 
levantara fenao pela prizao defeu cunhado, 
de que EIRey de Ormuz fora em confen- 
timento , pois o deixara prender eílando em 
fua cafa ; mas já que o Governador da ín- 
dia entrevinha naquelle negocio , e EIRey 
de Portugal o mandara fazer, que elle co- 
mo fervidor , e vaíTallo leal queria eftar á 

obe* 



^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

obediência do Governador da índia , que 
eílava em feu lugar , e por tudo o que el- 
le Capitão mór ordenaííe : Que fe queria a- 
quella fortaleza , elle lha largaria livremen- 
te, e fe iria com fua mulher, e família pê- 
ra outra parte, deixando aquella Ilha livre, 
e deíembargada a EIRey de Ormuz. Simão 
da Cunha vendo a juftificação de Rax Bar- 
dadim , quizera logo concluir com aquelle 
negocio , e acceitar a fortaleza , pois lha da- 
vam fem cufto , nem trabalho. Mas os Ca- 
pitães, e Fidalgos da Armada lhe contraria- 
ram fua tenção , dizendo , que não era bem 
ficar aquelle Mouro fem caítigo de fuás cul- 
pas , e que ao menos lhe acceitaíTem a for- 
taleza , com fe fahirem delia com fò fuás 
peífoas , deixando fuás fazendas nella , que 
iífo foi o porque lhes pareceo mal ; porque 
a cubica do facco daquella fortaleza , ( que 
cuidavam que era muito groíío, ) lhes não dei- 
xava entender bem o que íè lhe ofFerecia na 
entrega delia , fem lhe cuftar golpe de ef- 
pada , nem experimentarem as febres peço- 
nhentas daquella terra , que em breves dias 
fez tal eítrago nelles , que efcapáram pou- 
cos , (que eítes foram os frutos , que colhe- 
ram de fua cubica. ) Mas nem com tudo 
houvera Simão da Cunha de engeitar os par- 
tidos , fe elJes não diíferam publicamente , 
*jue de medo o fazia. E dando-lhe a defcon- 

fian- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IV. 25- 

fiança , (coufa muito alheia de Capitão va- 
leroíò , e prudente , porque cfte iie o inimigo 
mais forte , e poderofo , que todos os com 
que pelejam, de cujas mãos cada dia fe vem 
íahir desbaratados, e perdidos.) Entenden- 
do mui bem que hia contra ília obrigação , 
em fe deixar entrar daquellas dçfconfianças , 
mandou dizer a Rax Bardadim aquillo que 
aquelles Capitães votaram : edando-lhe alin- 
gua o recado , como elle era homem vale- 
rofo , e que não mandara commetter aquel- 
les partidos por medo , fenão por fegurar a 
vida de leu cunhado Rax Xarrafo ; mandou 
logo arvorar junto da bandeira branca ou- 
tra vermelha, (que era final de guerra, ) e 
diíTe á língua , que aquelja era a refpofta que 
lhe dava , e que efcolhefie o Capitão mor 
daquellas duas bandeiras qual quizeíTe. Da- 
da a refpofta a Simão da Cunha , vendo a 
refoíucão de Bardadim , por lhe requererem 
todos os Capitães que acceitaífe guerra , e 
não eftiveífe em mais cumprimentos , come- 
çou a defembarcar a gente em terra fem ha- 
ver refiftencia. E pondo-fe em lugar de ba- 
teria , mandou fabricar fuás trincheiras , e 
vallos , e fazer fuás cavas á roda , e poz al- 
gumas peças deartilheria nos lugares donde 
havia de bater a fortaleza , provendo as es- 
tancias de Capitães , e foldados , e come- 
çou a pôr as mãos á obra , e dar bateria to- 
dos 



2,6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos os dias. RaxBardadim não bolio com- 
íigo até os primeiros tiros ; e vendo que o 
batiam, mandou tirar a bandeira branca, e 
deixar a vermelha , por mcílrar aos noflbs , 
cjue lhe dava pouco da guerra , e porém não 
tratou mais que de íe defender , e repairar ; 
porque qualquer mina que fe fazia no mu- 
ro , era logo tapada , e concertada tão de- 
■prefla, que quali fe não enxergava. Os nof- 
lbs continuaram abateria, e como levavam 
pouca pólvora , foi-fe-lhes acabando , do que 
Simão da Cunha andava bem defcontente , 
e agaftado , pelo pouco que tinha feito , e 
em não acceitar a fortaleza como lha da- 
vam. E logo defpedio hum navio ligeiro com 
cartas a Nuno da Cunha , em que lhe dava 
conta do que era íuccedido , pedindo-lhe 
pólvora , e munições. Efte navio foi em pou- 
cos dias por lhe fervir o tempo, e dando as 
cartas ao Governador Nuno da Cunha , que 
vendo ascoufas como correram, ficou mui- 
to apaixonado dos Capitães , que foram cau- 
fa daquella defordem : e logo tornou a def- 
pedir o navio com tudo o que lhe pediram, 
efcrevendo a Simão da Cunha o erro que 
tinha feito , e pelo vento fer contrario foi 
muito devagar. Os noííos citavam efperando 
por elíe fem fazerem coufa alguma , por 
não terem munições ; o que foi entendido 
dos Mouros da fortaleza, que decima dos 

mu- 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. IV. 27 

muros rodas as noites davam aos noííbs 
grandes matracas , zombando , e efcarnecen- 
do , dizendo-lhes , que pois os não quize- 
ram deixar ir a elles da fortaleza , que ha- 
viam alli todos de ficar. E aíli foi , porque 
deram logo as febres neíles , ( por fer che- 
gada a monção delias,) de que começaram 
a morrer muitos. Rax Bardadim mandou di- 
zer a Simão da Cunha , que pela obrigação 
que tinha aos Portuguezes , lhe aconfelha- 
va , qué^fe foífe logo daquella rerra , por- 
que era chegada a monção das febres , de 
-que todos haviam de adoecer , e morrer ; e 
que podia fer , que quando o quizeííe fazer , 
não pudeíTe. Efte confelho , que era mais de 
amigo , que de inimigo , não quiz Simão da 
Cunha acceitar por então ; e ainda com ve- 
rem adoecer tantos , diziam os Capitães , 
(que fizeram fazer aquelle defatino a Simão 
da Cunha,) que aquelle recado era de ho- 
mem que eftava com medo , e que defejava 
de os ver fora da Ilha ; mas como o Mou- 
ro fallava verdade , e os aconfelhava bem , 
viram logo que não era medo; porque car- 
regaram as febres de feição , que quando 
chegou o navio de Ormuz, eram já mortos 
muitos , e todos os mais eftavam enfermos 
fem fe poderem alevantar : do que Simão 
da Cunha andava enfadadiílimo , e receava 
<jtiG fabendo.ro Rax Bardadim , fahiífe a dar 

nel- 



28 ASIÀ de Diogo de Couto 

nelles ; mas elle como entendia que as fe- 
bres os haviam de confumir , deixou- fe ef- 
tar fem lhes querer fazer outro damno. Si- 
mão da Cunha mandou fazer outra eítancia 
perto do mar, pêra onde mandou paliar os 
enfermos , porque os ares delJe eram mais 
fadios , e foi continuando com a bateria tão 
fortemente , que lhe derrubou hum lanço do 
muro todo, por onde quizera commetter a 
fortaleza , mas não achou mais que trinta 
e cinco homens sãos, de que ficou tão ano- 
jado, etrifte, que pondo os olhos no Ceo , 
levantando as mãos , diíle : Senhor , quão pou- 
co vos cufiará darâes-mc cem homens sãos , 
( porque fem dúvida fe os tivera entrara a- 
quella fortaleza : ) e vendo quão mal lhe 
rinha fuccedido tudo , não quiz acabar de fe 
perder , e levou mão daquelie negocio , man- 
dando embarcar os doentes , e artilheria , o 
que fez com muito trabalho , por não ha- 
ver sãos mais que trinta e cinco homens , 
(como diííemos,) que á força de braço, e 
com lhe arrebentarem as mãos em fangue , 
a embarcaram primeiro, e depois os doen- 
tes y porque eram muitos , e por não poder 
fer menos lhe aravam cordas nos pés, com 
que os levavam arraftos até aborda da agua , 
onde os marinheiros os recolhiam nos ba- 
téis. Foi efjta hum dos mais piedoíòs efpe- 
ílaculos , que fe nunca viram > porque os 

g e ~ 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IV. 29 

gemidos , gritos , fufpiros , e mágoas , que 
diziam os triftes dos enfermos, vendo-fe le- 
var arrafto, faziam arrebentar em pezar, e 
lagrimas a todos os que os viam. Neíle tra- 
balho ajudaram aos noflbs huns poucos de 
Mouros do Xeque de Angão j que fempre 
acompanhou Simão da Cunha , que depois 
de embarcado tudo , o fez elle por derra- 
deiro com tanta dor , e mágoa daquella de£ 
aventura, que parecia que queria morrer de 
paixão. Chegando a bordo da náo , foi o 
Meftre deila a lhe dar a mão, e elle Ihedií- 
fe : Meftre , huma coufa vos aconfelho , que 
quando houverdes de fazer alguma de vof- 
fa honra , não tomeis o parecer de ninguém , 
fenao o vqffò. E dando á vela toda a Arma- 
da , foi feguindo fua jornada , lançando to- 
dos os dias ao mar quinze , ou dezoito ho- 
mens , que mbrriarri de febres. Simão da Cu- 
nha com fua paixão , e nojo fe metteo na 
camará , fem querer fallar com peííoa al- 
guma , aborrecido da vida , dando laftimo- 
fos ais , e fufpiros ; e aíTi fe foi confumin- 
do de trifteza de feição , que aos nove dias 
morreo , ( fem ter febre , nem outra enfer- 
midade alguma , ) com grande dor, e fenti- 
mento de todos : e affi morreram no feu na- 
vio fetenta homens , ficando fó dous , ou tres 
sãos ; e chegou o negocio a eílado , que não 
podiam marear as velas , e andava o Galeão 

á 



30 ÁSIA de Diogo de Couto 

á vontade dos ventos : e fem dúvida fe per- 
deram ? fe Deos Noflb Senhor não trouxera 
Fernão Alvares Sarnache , ( que alli anda- 
va em hu ma Terrada, ) que havendo vifta 
da náo a foi demandar , e vendo-a tão def- 
troçada , fe metteo dentro neila com os feus 
marinheiros > e a foi mareando até Ormuz 3 
onde íurgio. Nuno da Cunha foube do def- 
aílrado fim daqueila jornada , e morre do ir- 
mão , coufa que muito o cortou , e recolhen- 
do-fe muito anojado , e trifte , mandou def- 
embarcar feu corpo qiife hia na náo , pcra 
lhe darem fepultura ; e foi acompanhado d'El- 
Rcy com dó , conforme a feu coílume , e 
aíll de todo o mais povo daqucJia fortaleza: 
e juntamente foi levado comi elle em outra 
tumba o corpo de Francifco Gomes , filho 
doBifpo do Funchal , que era falecido do 
dia dantes. Os mais navios da Armada fo- 
ram depois chegando huns diante dos ou- 
tros tão deítroçados , que quaíi não tinham 
quem os governaíTe. E os que efcapáram por 
então das febres , que não morreram logo , 
duraram depois pouco; porque as febres de 
Barem onde chegam , tarde , ou cedo matam , 
e muitos poucos efcapam : e juntamente com 
eílas fe íufpeitou ? que foram os noíFos ajii* 
dados mais deprefía com peçonha , que lhes 
lançaram nas aguas, E por aqui fe verá quan- 
tos erros nafeem de hum fó y principalmen- 
te 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IV. 31 

te dos da guerra 3 que nunca tem emenda ; 
porque não íòfuccedeo deite tantas mortes, 
e delaventuras ? mas ainda fez perder a Nu- 
no da Cunha a monção deAgoílo, em que 
lhe relevava paliar á índia. E por ícr entra- 
da de Outubro , deo expediente ás coufas 
daquelle Reyno 5 mandando entregar o Gua- 
zil a Manoel de Macedo pêra o levar pre- 
zo peru o Reyno , que fe embarcou com 
muitos criados «, muita fazenda , grande , e 
rico íèrviço de fua caía , efcrevendo o Go- 
vernador a EIRey por Manoel de Macedo 
o fueceffo de fua jornada até então , e man- 
dando-lhe as devaças que tirou deRaxXar- 
rafo. O cargo de Guazil deo a Xeque Ra- 
xete , que o fora de Calaiate , e Mafcate i 
pelos merecimentos de fua peíTòa , e gran- 
des ferviços que tinha feito a EIRey de Por- 
tugal nos alevantamentos de Ormuz con- 
tra os noflòs em tempo do Governador Dio- 
go Lopes de Siqueira , defendendo todos os 
Portuguezes que eftavam em Mafcate , que- 
EIRey de Ormuz mandava matar , dando 
com elles batalha a Rax Delamixa , irmão 
de Rax Xarrafo , (qye áquelle negocio foi , ) 
onde o matou , e desbaratou os Mouros de 
Ormuz , fendo de fua própria lei , e nação , 
por guardar lealdade, e fidelidade aos Por- 
tuguezes , que eftavam debaixo de fua pro- 
tecção : feito certo notável, e digno de fer 

en- 



32 ÁSIA de Diogo de Couto 

engrandecido , e louvado em toda a eícri- 
tura , mas mal fatisfeito depois a feus filhos , 
como em feu lugar diremos. Nuno da Cu- 
nha paflbu a Xeque Raxete carta do cargo 
de Guazil de Ormuz em nome d'E!Rey de 
Portugal j e porque em huma devaça que 
mandou tirar lbbre a morte de Rax Hame- 
de y ( de que atrás dêmos conta , ) achou cul- 
pado EIRey de Ormuz , o condemnou em 
quarenta mil pardaos mais de páreas , com 
que ficaram cem mil com os feiTenta , • que 
dantes era obrigado a pagar , e deixou Pro- 
visão ao Capitão da fortaleza Chriftovão de 
Mendoga , feita em 27 de Agoílo deíle anno 
de 1529, em que lhe mandava 5 que no ren- 
dimento daquella Alfandega fe entregaííe 
de toda a quantia acima declarada. Efta he 
a razão deitas parcas , e não a que dá Fer- 
não Lopes de Caftanheda no feu fetimo Li- 
vro 5 onde diz , que Nuno da Cunha lhe 
acerefeentou mais a EIRey de Ormuz qua- 
renta mil pardaos de páreas , por lhe tornar 
á fua obediência a Ilha de Barem , o que el- 
ie não fez : e nós remos em noíío poder na 
Torre do Tombo o traslado defta Provisão , 
e contratos. E porque Belchior de Soufa Ca- 
pitão mor do Eftreito tinha fervido mui 
bem , e o Governador pelas partes que ti- 
nha fe lhe aífeicoou , lhe deixou huma Pro- 
visão em fegredo , em que lhe mandava , 

que 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IV. 33 

que falecendo o Capitão de Ormuz , lhe fuc- 
cedefle elle naquella fortaleza : e defpedin- 
do-íe d'ElRey 7 e Capitão , lè embarcou , in- 
do em fua companhia os Galeões de Dom 
Fernando de Lima , e de D. Francifco De- 
ça , e de Francifco deMendoca, e o navio 
de Jorge Gomes. E paílando por Mafcate > 
tomou , e levou comíigo os mais navios que 
alli invernáram 5 e dos doentes que alli fica- 
ram faleceram muitos , e com toda a Ar- 
mada junta foi na volta da índia. Levava 
comíigo o corpo de feu irmão Simão da Cu- 
nha pêra o enterrar em Goa , onde lhe fez 
huma Capella dentro na Sé. Foi efte Fidal- 
go Trinchante d'ElRey D. João , e Com- 
mendador de Sampaio , e de Torres Ve- 
dras : foi cafado com D. Ifabel de Mene- 
zes , filha de Rui Gomes da Grã , Gover- 
nador da Cafa daExcellente Senhora a Rai- 
nha D. Joanna 3 de quem houve eftes filhos : 
Triftão da Cunha da Grã , e Rui Gomes da 
Cunha , e D. Antónia de Menezes , que ca- 
fou com Diogo Lopes de Soufa Governa- 
dor de Lisboa. 



Couto. Tom. L P. il C CA- 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

Do que D. Jorge de Menezes Capitão de 

Maluco pajfou com Fernão de la Torre : 

e da vitoria que D. Jorge de Cajlro 

houve de huma Armada deGeilolo. 

PRlmeiro que entremos nas coufas deite 
Verão , fera razão que demos conta das 
que fuccedêram em Maluco efte paíTado , 
porque daqui por diante feguiremos eíla or- 
dem , que fera no tempo do Inverno dar- 
mos razão delias , pelas não mifturarmos 
com as outras , nem as contar por pedaços. 
Deixámos as coufas de Maluco em nof- 
fos Portuguezes , e os Caftelhanos ficarem em 
guerra declarada , e aíli todo efte tempo até 
agora pairaram fazendo algumas vezes tre- 
goas , que fe concediam de parte a parte 
cada vez que fe pediam , porque não fazia 
mais o que queria paz , que alevantar hu- 
ma bandeira branca , e logo converfavam 7 
communicavam , e fe vifitavam: e como fe 
enfadavam , tiravam a bandeira , e tornavam- 
fe a recolher. Mas de todas as vezes que fe j 
communicavam , fendo Fei*não de la Torre | 
hofpede de D. Jorge , e D. Jorge feu , nun- 
ca elle lhe quiz dar os Portuguezes , que ti- 
nha em feu poder , pedindo-lhos elle mui- 
tas vezes. Eílando as coufas neíle eftado f 
D hu- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. V. 3? 

huma noite quaíi no fim do quarto da Pri- 
ma , foram ter á noíTa fortaleza dous Caf- 
telhanos , que foram tomados pelas vigias 
em tempo que eftavam de tregoas quebra- 
das , e foram levados a D. Jorge , que os 
mandou prender pelos haver pôr de máo ti- 
tulo , por não levarem carta , nem recado 
do feu Capitão. Sabido eíle negocio por Fer- 
não de la Torre , mandou huma embaixada 
a D, Jorge com tamanho apparato , como 
fe fora de hum grande Principe , no que fe 
vio que era homem muito vão ; porque o 
Embaixador hia ricamente veílido, e acom- 
panhado de muitos , e diante delle portei- 
ros , farautes , e hum Rey de armas des- 
barretado : e aíTentados lhe deo fua embai- 
xada , cuja fubftancia era efpantar-fe muito 
de lhe prender os feus homens , fendo tão co£ 
tumado entre elles , e os Portuguezes irem 
folgar huns com outros : que lhe pedia por 
mercê lhos mandaíTe foliar , porque elle tam- 
bém o faberia fervir. D. Jorge ouvio a em- 
baixada muito grave , e difle que logo lhe 
refponderia, e o mandou agazalhar, fazen- 
do-lhe muitas honras , e o entreteve dez , oi| 
doze dias fem lhe refponder , mandando-íhe 
todos os mimos, e iguarias; ehum dia lhe 
mandou hum paftel , em que hiam hum cão 
pequeno , e hum gato vivos : e o recado 
era , que pois aquelles dous animaes fendo 

C ii tão 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

tão contrários de fua natureza , cabiam em 
hum tão pequeno lugar tão pacificcs ; por- 
que o não citavam aíll os Caílelhanos com 
os Portuguezcs , havendo pêra iflò tanta ra- 
zão , affi por ferem Chriílãos , e eílarem en- 
tre infiéis , como per lerem vaílallos de dous 
Príncipes tão liados em parentefeo , e ami- 
zade? O Embaixador abrindo o paítel , ven- 
do o cão , e gato, lhe mandou perguntar, 
por qual daquelles dous animaes entendia os 
Caílelhanos ? D. Jorge lhe mandou dizer , 
que pelo gato , que até agora arranhara , mas 
que o cão havia de morder dalli em diante, 
O Embaixador difihnulou , e apertou pela 
refpoíla , que lhe D. Jorge deo, deíenganan- 
do-o , que lhe não havia de dar os Caíle- 
lhanos, fenão depois que lhe déffe os Por- 
tuguezes. Defpedido o Embaixador , ficou 
Fernão de la Torre mui affrontado do des- 
prezo com que D. Jorge tratara a fua em- 
baixada. Pouco depois diílo chegou D.Jor- 
ge de Caílro , que vinha de Malaca com 
foccorro de gente , roupas , e munições , que 
hia em hum Junco , e em fua companhia Jor- 
ge de Brito por Capitão de huma Fufta. Foi 
eíle foccorro muito feílejado , e temido dos 
Caílelhanos , que já não oufavam de fallar. 
E porque foube D.Jorge de Menezes, que 
na coíla de Moro andava huma Armada da- 
quelle Rey de Geilolo , fazendo guerra nas 

ter- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. V. 37 

terras , e portes d'ElRey de Ternate noíTo 
amigo, mandou negociar as Corocoras , que 
pedio a Cachil Daroes , e na Fuíta que veio 
da índia , em que mandou D.Jorge de Cas- 
tro com íincoenta homens , e a gente d'EI- 
Rey : e encontrando-íe a noíía Armada com 
a do inimigo, ainveftio, travando-fe huma 
muito afpera batalha de parte a parte , em 
que D. Jorge moftrou bem leu esforço , e 
confelho , e por fim do negocio ficaram os 
inimigos deílroçados , e desbaratados , com 
morte de muitos , e perda de algumas Co- 
rocoras que lhes tomaram , e as que efeapá- 
ram foram bem deílroçadas. Com efta vito- 
ria , ( que quebrantou bem aquelle Rey , ) fe 
recolheo D. Jorge pêra Ternate , onde foi 
mui bem recebido. Gonçalo Gomes de Aze- 
vedo , e Lionel de Lima trataram de fe ir 
pêra Malaca , querendo levar comíigo al- 
guns homens , a que D. Jorge de Menezes 
acudio , e os tomou com muito trabalho , 
e com lhes dar do feu dinheiro pêra os con- 
tentar , e elles fe foram com alguns criados 
feus. E porque receava o Capitão D.Jorge, 
que os Caftelhanos tiveííem cedo foccorro 
da nova Hefpanha , e os provimentos que lhes 
vieram , que fe foííem gaitando , defpedio 
D. Jorge deCaflxo no Junco pêra ir a Ban- 
da efperar quaefquer navios de Portugue- 
zes , que ahi foflèm ter > ou d 5 E!Rey , ou de 

par- 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

partes 3 e lhes tomafíe os provimentos , que 
lhes achafíe , comprados , ou a partido , e 
que a todos os Portuguezes que alli achaf- 
fe requerefle da parte d'ElRey , que foííem 
foccorrer aquella fortaleza , elhes tomado os 
nomes a todos , e que não querendo vir , os 
mandafle ao Capitão de Malaca , e ao Go- 
vernador pêra os caítigar. D. Jorge deo á 
vela pêra aquella Ilha, e de fua jornada a- 
diante daremos razão. 

CAPITULO VI. 

Da Armada , que ejle anno de vinte e no- 
ve partio do Reyno : e de como Lopo Vaz 
de Sampaio fe embarcou pêra Cochim , e 
Nuno da Cunha chegou a Goa , e partio lo- 
go pêra Cochim : e de como prendeo Lopo 
Vaz de Sampaio em ferros. 

COm as novas que Lopo Vaz teve do 
Governador Nuno da Cunha , mandou 
dar muita prefla a toda a Armada , pêra a 
achar no mar quando viefle 5 como lho pe- 
dia na fua carta , mandando recolher mui- 
tos mantimentos , e fazer muita pólvora , e 
todos os mais petrechos de guerra ; e tudo 
tanto a ponto , que quando foi por fim de 
Agofto , eílava no mar a mais poderofa Ar- 
mada , que Rey Chriftao tinha , como adi- 
ante diremos. E deo expediente a muitas cou- 

fasj 



Dec. IV- Liv. VI. Cap. VI. 39 

fas , e fez defpachar pêra fora pêra as Rey- 
nos do Decan , e Canará dous mil cavai- 
los , dos que eftavam em Goa , de que vie^ 
ram a EIRey oitenta mil pagodes , porque 
pagava cada hum quarenta de direitos , que 
traziam Mouros , e outros mercadores dos 
portos da Arábia , e da Perfia : á entrada de 
Goa são francos , e libertos , mas 30 fahir 
pêra fora pagam aquelles direitos. He efta 
coufa de cavallos de tanta liberdade , que 
a náo que trouxer de dez , ou doze pêra ci- 
ma , não paga direitos de todas as mais fa- 
zendas que traz , por muitas , e por mui grof- 
fas que fejam. Efte coílume , e liberdade fi- 
cou- do tempo dos Mouros. E tendo Lopo 
V'àt de Sampaio tudo muito preftes , chega- 
ram á barra de Goa , dia de S. Bartholo- 
mcu pela manhã , quatro náos , de que era 
Capitão mor Diogo da Silveira , que vinha 
provido da fortaleza de Ormuz. Os mais Ca- 
pitães eram Rui Gomes da Grã , Rui Men- 
des de Mcfquita , Henrique Moniz Barreto , 
que faleceo no mar, e trazia comfigo dous 
filhos meninos Aires Moniz , e António Mo- 
niz Barreto , que depois foi Governador da 
índia» Teve efta Armada tão boa viagem , 
que de quinhentos homens que trazia , fó 
Henrique Moniz faleceo , e todos os mais 
vinham tão sãos , e bem difpoftos , que pa- 
recia que havia quinze dias > que partiram 

do 



4o ÁSIA de Diogo de Couto 

do Reyno. Lopo Vaz de Sampaio recebeo 
mui bem Diogo da Silveira. Pouco depois 
difto chegou hum Embaixador de Melique 
Saca , Senhor que foi de Dio , ( de que em 
principio defta Década dêmos razão , Capi- 
tulo fete , Livro primeiro , que tinha fugido 
pêra Jaquete , ) que vinha muito bem acom- 
panhado : o Governador o recebeo mui bem , 
e lhe ouvio fua embaixada , cujo theor era, 
que fe quizeífe ir tomar Dio , que cile fe 
offerecia ao acompanhar por mar, e feu cu- 
nhado por terra com quinze mil de cavai- 
lo. Lopo Vaz de Sampaio lhe diíTe , que ef- 
perava por Governador novo , e que em feu 
nome acceitava a offerta , mandando-lhe dar 
cafa , e todas as coufas neceílarias , tendo 
guardado aquelle alvitre pêra Nuno da Cu- 
nha ; e porque por horas cfperava por el!e , 
não fe quiz metter em couía alguma. E to- 
davia vendo que tardava , defpedio as nãos 
pêra Cochim pêra tomarem a carga , e ef- 
perou até á entrada de Novembro , e ven- 
do que não vinha, foi-lhe neceffario embar- 
car-fe pêra Cochim , affi pêra dar aviamen- 
to á carga ? como pêra fe negociar pêra fe 
embarcar pêra o Reyno. E affi entregou to- 
da a Armada com o Embaixador do Me- 
lique Saca ao Capitão da Cidade , a quem 
deixou cartas pêra Nuno da Cunha , em que 
lhe dava conta de fuás coufas > e lhe deixou 

hum 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VL 41 

hum rol da Armada , mantimentos, muni- 
ções, e artilheria , que na índia lhe ficava, 
de que tirou certidões dos Officiaes ; e aíli 
fe embarcou em hum fó Galeão , deixando 
toda a Armada negociada de verga de al- 
to , deixando-fe retratado na caía em que ef- 
tavam os mais Governadores em painéis do 
feu tamanho : onde com mais razão fe pu- 
dera pôr o retrato de Pêro Mafcarenhas , que 
foi o verdadeiro Governador da índia , co- 
mo todos ; mas defcuidos Portuguczcs lhe 
roubaram efta honra , pofto que muito bem 
fe pode dizer o que difle Catão quando vio 
tantas eftatuas no Senado , não eftando elle 
entre ellas , ( que mais queria que pergun- 
ta ffem , porque não tinha alli Catão ejlatua , 
que não porque puzera?n alli ejlatua a Ca- 
tão} ) Havendo poucos dias que era parti- 
do , chegou a barra de Goa o Governador 
Nuno da Cunha , que logo defembarcou , 
fazendo-lhe a Cidade hum muito grande re- 
cebimento ; e começou de dar aviamento a 
muitas coufas de preíTa , porque lhe era ne- 
ceííario chegar aCochim. E como achou a 
Armada no mar a ponto , defpedio logo An- 
tónio da Silveira com ílncoenta e três Fuf- 
tas , de cujos Capitães não achámos os no- 
mes , em que hiam novecentos foldados , 
mandando-lhe que foíle pelas coftas do Rey- 
no de Cambaya, e que fizeííe toda a guer- 
ra 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra que pudefle. E em fua companhia defpe- 
dio huma Galé , em que mandou embarcar 
o Embaixador de Melique Saca , a quem fez 
muitas honras , e deo muitas peças , alli pê- 
ra elle , corno pêra Melique Saca , a quem 
efcreveo , e pedio que fe viefle ver com el- 
le a Goa naquella Galé pêra tratarem íb- 
bre os negócios de Dio. Eíta Galé foi em 
poucos dias a Jaquete , e defembarcando o 
Capitão delia com o Embaixador , vio-fe 
com o Melique > e lhe deo a carta do Go- 
vernador , e recado que levava também de 
palavra ? dizendo-lhc , que levava aquella Ga- 
lé muito bem negociada pêra elle fe ir ver 
com o Governador. Refpondeo-lhe o Meli- 
que , que fe foífe elle embora , porque não 
queria que lhe fizeflem como a EIRey Xar- 
rafo y (porque já fabia que o levavam pre- 
zo pêra o Reyno. ) O Governador defpedio 
mais Eitor da Silveira com quatro Galeões , 
duas Caravelas , e quatro Fuítas pêra ir ao 
eítreito do Mar Roxo , e nifto gaitou oito 
dias , e no cabo delles fe embarcou , levan- 
do com figo os navios que lhe pareceram ne- 
ceíTarios ; e na coita do Malavar deixou Dio- 
go da Silveira por Capitão mor com duas 
Galeotas , huma Caravela , e féis Fuítas , e 
de todos os Capitães deitas três Armadas não 
achámos os nomes , bufcando-os nós nos li- 
vros dos provimentos delias , que são todos 

eítra- 



Dec. IV- Liv. VI. Cap. VI. 43 

eftragados de andarem aos tombos pelas ca- 
fas dos Efcrivaes da Fazenda. O Governa- 
dor Nuno da Cunha chegando a Cananor, 
furgio naquella barra ? onde foi logo viíita- 
do de D, João Deça Capitão daquella for- 
taleza , e da parte de Lopo 'Vaz de Sam- 
paio , que ainda alli eílava , mandando-lhe 
pedir defembarcafle em terra , e que lá lhe 
entregaria a índia. Nuno da Cunha fe lhe 
mandou deículpar , que a preíTa que levava 
lhe não dava vagar , que lhe pedia muito 
fe viíTe corn elle no mar , porque tinha que 
fallar com elie coufas do ferviço d'E!Rey. 
Lopo Vaz fe embarcou logo em hum navio 
de remo com Simão de Mello , Gafpar de 
Mello , e outros Fidalgos feus parentes , e 
amigos , e foi-fe ao Galeão , onde Nuno da 
Cunha o recebeo bem , e alli prefentes todos 
lhe entregou a índia , de que tirou fua Cer- 
tidão. E depois de lhe dar razão dos negó- 
cios todos j fe defpedio delle , e fe foi em- 
barcar : e eílando já a bordo chegou Simão 
Ferreira , que o Governador trazia pêra Se- 
cretario do Eílado , e lhe notificou da par- 
te do Governador , que fe embarcaíTe logo 
peraCochim em fua conferva. Lopo Vaz fi- 
cou tomado do recado , por lhe não dar va- 
gar a fahir do feu Galeão , e lhe mandou 
dizer , que o faria : e dalli fe foi metter no 
feu Galeão , fem querer ir a terra. O Gover- 
na- 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

nador mandou logo lançar pregões na for- 
taleza com trombetas , que toda a peíloa , . 
que quizefle accuíar , ou demandar Lopo Vaz 
de Sampaio por alguma coufa , foífe a Co- 
chim , que lá fe lhe faria juftiça. Ifto fentio 
tanto Lopo Vaz , que fe lhe mandou quei- 
xar , e dizer , que aquillo não eram pregões , 
fenão diífamaçoes : que quem tivefie delle 
queixas , não tinha neceííiiade de o efperta- 
rem com trombetas pêra requerer fua jufti- 
ça. Fazendo-fe á veia chegaram a Cochim , 
onde Nuno da Cunha mandou pelo Ouvi- 
dor geral tomar a menagem a Lopo Vaz , 
eefcrever toda fua fazenda, avalialla, ede- 
pofitalla em mãos de peíToas abonadas pêra 
a levarem pêra o Reyno : o que tudo fof- 
freo Lopo Vaz com muita difcriçao , e ani- 
mo y e diíTe ao Ouvidor geral quando, o pren- 
deo : Dizei ao Governador , que eu prendi , 
e elle me prende , IA vira quem o prenda a 
elle; e affi houvera defer, fenão falecera no 
mar indo pêra o Reyno ; porque nas Ilhas 
o efperavam com grilhões, como em feu lu- 
gar diremos. Feito ifto , mandou-lhe Nuno 
da Cunha notificar , que fe embarcaííe na 
náo Caítello , que havia de fer a derradeira 
de carga; mandando-lhe elle pedir que folie 
antes na náo S. Roque , que partia primei- 
ro , o que elle não quiz conceder: e affi fe 
embarcou muito infamemente , e com pou- 
cos 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VI. 45 

cos gazalhados , não deixando embarcar com 
elle mais que dous criados pêra o fervirem , 
edando-lhe de fua fazenda aquillo , que mo- 
deradamente lhe podia bailar , e a dez de Ja- 
neiro fe fez á veia , fendo a fua náo a der- 
radeira. Nas Ilhas Terceiras achou hum na- 
vio com hum Corregedor , que lhe lançou 
huns bem grandes grilhões nos pés , e o le- 
vou ao Reyno , e foi defembarcado cm ci- 
ma de huma azemala , e levado á vergonha 
pelo Terreiro do Paço até o Caftello , onde 
foi prezo em companhia de Rax Xarrafo 
Guazil de Ormuz , que Manoel de Macedo 
Jevou. Alli efleve dous annos muito avexa- 
do , e mal tratado ; e porque os merecimen- 
tos , fangue, e culpas , que puzeram a eíle 
Fidalgo 3 fe vem na falia que elle fez a Eí- 
Rey , nos pareceo bem polia aqui , porque 
he iiibftancial 5 e hum fummario das coufas 
de leu tempo. E porque he muito grande, 
e relata os ferviços que na índia fez em 
quanto foi Governador , muito particular- 
mente os deixaremos , porque ficam conta- 
dos neíla Década , fomente diremos todas as 
mais coufas. E poílo que eíle Capitulo feja 
muito grande , não pode fer menos , nem o 
podemos efcufar por fer notável ; porque não 
fabemos fe ha hoje eíla falia mais que em 
noíTo poder, pelo eftrago que o tempo tem 
Jfeito em todas as antiguidades. Mas pêra 

alli- 



46 ÁSIA de Diogo de Couto 

allivio dos leitores o faremos por Itens , co- 
mo poufos em que fe defcance. 

CAPITULO VIL 

Que contém a falia que Lopo Vaz de Sam- 
paio fez a EIRey D. João em Rela f ao. 

DEpois de Lopo Vaz eílar prezo no Caí- 
tello dous annos , e o Procurador d'EI- 
Rey vir com libello contra elle , e elle com 
fua defeza , que lhe não receberam ; mandan- 
do EIRey que fe procedeííe contra elle ri- 
gorofamente , e que lhe tiraííem fuás deva- 
ças , alcançou por via do Duque de Bragan- 
ça , que o pedio de mercê a EIRey , que o 
ouviífe em Relação, aonde fe aprefentou co- 
mo réo , eílando EIRey em meza com to- 
dos os Defembargadores j epoílo em pé lhe 
fez eíla falia: 

» Muito alto , e muito poderofo Senhor, 
» Por certo que eu hei efta por huma das 
» mores aífrontas que tenho paliadas, haver 
» de defender com a lingua , o que tenho 
» ganhado pela lança com tanto trabalho : 
» e porque a lingua eu a tenho pouco ex- 
» ercitada, e não feicomo me ajudará nefte 
» feito , encommendar-me-hei ás verdades de 
» que íempre ufei. A principal razão por que 
» Noílb Senhor o ungio em Rey foi pêra fa- 
» zer juítiça , e dar a cada hum o feu , e jul- 

» gar 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIL 47 

» gar com muita clemência , e animo pie- 
» dofo feus fubditos; e com zelo, e amor 
» de Deos os caftigar, ou abfolver de feus 
» erros. E feifto aífi he, quanto mor obri- 
» gação terá de pagar ferviços , e mereci- 
» mentos como os meus ? 

» Pelo que , muito excellente Principe, 
» lhe peço que lance de li todo o ódio , e 
» rancor, e tudo o que mais pode damnar 
» fua limpa tenção pêra me ouvir, e julgar; 
» porque fazendo-o aífi , ufará do Sceptro 
» como Deos o manda , e eu ferei certo de 
» jufta fentença : e os que mal informaram 
» V. A, Deos haverá por bem que não fi- 
» quem fem caíligo. 

» Agora quero dizer a V. A. os mere- 
» cimentos de meu pai , e avôs , inda que 
» não fejam todos. Meu pai foi Diogo de 
)> Sampaio fenhor de Anciães, Villarinhos, 
» da Caftanheira , e Linhares , e de dous mil 
» vaííallos : fervio nas guerras de Caítella 
» com quatorze efcudeiros , e quarenta ho- 
» mens de pé. Na batalha de Toro foi der- 
» ribado , e ferido de feridas mortaes : e jou- 
y> ve aquella noite no campo , onde pela ma- 
» nhã o acharam meio morto : e difto í^ri 
» fabedor Fernão Vaz de Sampaio , e não 
» allego mais teftemunhas , porque as não ha 
» daquelle tempo. Foi na tomada de Arzi- 
» ia com cento e oitenta homens em duas 

» Ca- 



48 ÁSIA de Diogo de Couto 

» Caravelas á fua cufta , onde foi feito Ca- 
» valleiro por mão d'ElRey D. Affonfo o 
)> Quinto. Meu avó era Rui Lopes de Sam- 
» paio , e minha avó Coftança Pereira era 
» íobrinha do Conde D. Nuno Alvares Pe- 
» reira , filha de feu irmão ; e não nomeio 
» mais de minha linhagem , porque bem fa- 
» blda eftá quão antiga he ncíte Reyno. 
)> Meus avôs cm tempo d'E!Rey D. João de 
» boa memoria , tomaram dez Villas aos 
» Caílelhanos por força darmas com léus pa- 
» rentes, e amigos, que entregaram , e obe- 
» decêram com cilas ao dito Senhor, e tem- 
» nas hoje feus defcendentes , iftohe, Fernão 
» Vaz de Sampaio féis , Rui Lopes de Sam- 
» paio três : a huma fe perdeo não por trai- 
» cão , ( que nunca em minha linhagem a 
» houve , ) mas por outras differenças. Mi- 
» nha mai foi D. Briolanja de Mello filha 
» de João de Mello de Serpa , e de Dona 
y> Beatriz da Silveira filha de Fernão da Sil- 
» veira Regedor , e Coudel mor. Efte João 
)> de Mello meu avó foi filho de Garcia 
» de Mello de Serpa Alcaide mor daquel- 
» laVilla. De feus honrados filhos não faí- 
» lo , porque notório eftá , nunca Príncipe 
» no Reyno ajuntou gente pêra guerras , e 
» Armadas , em que os Mellos não foífem 
» dos principaes Capitães , e Cavalleiros. E 
» no tempo d'E!Rey D. João o Primeiro , 

no- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIL 49 

» nomeado foi o grão Marfim Affonfo de 
)> Mello 5 de quem todos vimos. 

» Eu , Senhor , paliada minha mocida- 
» de, e que fui pêra tomar armas , logo me 
» lancei a eííe ufo militar , em que EIRey 
» voífo Pai , que fantja gloria haja , continua- 
is mente me occupaya. Depois de andar em 
» muitas Armadas, de que aqui não fallo, 
» fui com o Conde Prior na Armada de Tur- 
)> quia , e fahi em Mafarquebir , e fui dos 
» derradeiros que me recolhi. Conto ifto , 
» porque naquella recolhida houve muita deí- 
» ordem , affogando-fe , e perdendo-fe mui- 
» ta gente , e eu fui dos derradeiros 5 que 
» me fui recolhendo com bom tento , e re- 
» cado , como diflera Ruy Barreto , fe vivo 
» fora ? com quem me recolhi ; e chegando 
» a Corfú , andando paíTeando pela Cidade , 
» fe ateou huma briga 3 por fe alevantarem 
)> todos contra os Portuguezes , em que ma- 
» taram íetenta , ou oitenta : nefta revolta 
» me recolhi a huma cafa com quatro ho- 
)) mens , que foi combatida de muita gen- 
» te , de que nos defendemos com muito tra- 
» balho , e perigo de noíTas vidas. 

» Tornando a Portugal, mandou-meEI- 
» Rey com o mefmo Conde Prior a Tan^ 
)> gere , aonde fervi dous annos ; e fazendo 
)> o Conde huma entrada em Alcacere Que-* 
» bir 5 fui eu dos corredores , e por Fran- 
Cout0.Tom.LP.1I. D »cif- 



'yo ÁSIA de Diogo de Couto 

y> cifco Pereira Peftana , eu,e outros nos a- 
» charmos diante, chegando ás portas de AI- 
}> cacere Quebir , fomos atalhados de oiten- 
» ta Mouros de cavallo, de que nos dcfen- 
» demos , matando-nos hum dos companhei- 
->) ros , e a Francifco Pereira o cavallo , com 
» lhe darem duas feridas , e a mim outras 
» duas, e com me matarem também o meu. 
0> Dalli me vim a Portugal , donde me El- 
» Rey logo mandou a Alcaccre Seguer com 
y> D. Rodrigo de Souía , onde eilive três an- 
y> nos por me mandar EIRey que não me 
» viefle de lá , eícrevendo-mo , e encommen- 
5) dando-mo cada anno. E na entrada que 
» D. Rodrigo fez em Gualdião , fui eu por 
;» Capitão dos Corredores , e me achei ao 
» pé de huma ferra com quatro Mouros de 
:» pé : matei hum , e os três o fizeram ao 
3) meu cavallo , e feríram-me duas feridas 
}j mui grandes , e deram-me huma pedrada 
y> em hum pé de que o houvera de perder ; 
y> e diílo são teftcmunhas o mefmo D. Ro- 
» drigo , e D, António feu irmão. 

» Paflados três anncs vim á Corte , e 
» tornou-me EIRey a mandar a Alcacere , on- 
y> de eíKve quatro annos , e três delles fer- 
y> vi de Capitão por mandado d'ElRey ; e 
)> na entrada que fez D. Rodrigo , em que 
» fe encontrou com Almadarim Alcaide de 
» Tutuao , e por levar pouca gente, e to- 

# dos 






Dec. IV. Liv. VI. Ca?. VIL ?! 

» dos os noílbs virem efpalhndos , começá- 
» ram a fugir , e indo nefla defordem 5 dif- 
» fe a D. Rodrigo , que fizcííemos volta , 
» emorreíTemos com os roílos nos Mouros, 
» enao pelos pefcoços como patos. Voltou 
» D. Rodrigo , e foi tão proveitofo iflo 5 
» que logo os Mouros affrouxáram , e nos 
» deixaram: epor certo que fe a volta não 
» fora , todos nos perdêramos , e Alcacere 
» corria rifco. 

» Dalli me fui a Tangere , onde eíli ve ou- 
» tros dous annos , em que EIRey de Fez 
» cercou aquella Cidade : nefte cerco poz 
» D. Duarte de Menezes Capitão fuás eílan- 
» cias , em que me não occupou , deixan- 
» do-me de fora pêra acudir aonde houvef- 
» fe neceííidade. Os Mouros pegaram logo 
y> com o cubello do Bifpo ^ que foi mina- 
» do fem lho poderem eílorvar : a eíla ne- 
» ceííidade me mandou D. Duarte , e me met> 
)> ti no cubello com fetenta homens , e os 
» Mouros nos combateram tão rijo , que nos 
» derribaram hum lanço do cubello , por on- 
» de começaram de entrar : deitamo-los fó- 
» ra com morte de muitos , e grande rifco 
» de minha vida ; e foi tanta a preíTa que 
» nos deram , que de fetenta e tantos ho- 
» mens , que éramos , ficámos finco , e defies 
» o mais são era eu , que fiquei com huma 
» efpingardada por hum braço > e huma fe- 
D ii ta- 



52 ÁSIA de Diogo de Couto 

» tada na cabeça , e muitas infindas pedra- 
» das , e os que comigo efperáram , foram 
» eíles , Digo de Mello Meftre fala da Im- 
)> peratriz , Soto-maior Gallego de Tange- 
» re , Martim Lopes de Azevedo , e André 
y> Pires Efcrivao dos Cativos. E aífí ferido 
7> eftive no muro fem nunca me ir á poufa- 
» da 3 alli me curaram , e fiquei até os Mou- 
» ros alevantarem o cerco. E além dos que 
» nomeei , fera boa teftemunha Luiz da Sil- 
» veira , que nos vio nefte auto. 

» A Tangere me mandou EIRey cha- 
;» mar pêra me mandar á índia 5 dizendo- 
)) me ? que tinha lá neceílidade de minha pef- 
» foa 5 o que logo acceitei 5 e fui fem par- 
)> tido algum , nem ordenado, ( que ellede- 
y> pois me mandou lá , fabendo o como o 
:» eu fervia. ) Chegando a Goa achei Benaf- 
y> tarim tomado de Mouros 5 e Goa cerca- 
3) da ; e acudindo AfFonfo de Alboquerque 
:» pêra ir bufear os Mouros a Benaílarim > 
y> fahíram elles para lhes dar batalha , e não 
y> a refufando o Governador ? ordenou três 
)) efquadrões de toda fua gente , e indo-os 
)) demandar houveram feu confelho 5 e tor- 
}> náram-fe a recolher á fortaleza. Aífonfo 
» de Alboquerque me mandou com a gente 
y> da fua batalha que me metteífe na en- 
7> volta dos Mouros 5 e viíTe fe podia de 
» miílura com elles entrar na fortaleza ? o 

» que 



Dec. IV. Li v. VI. Gap. VII. ft 

» que eu fiz adiaritando-me fó , tanto que 
» cheguei á porta. E quando o primeiro dos 
)) noííbs chegou a mim , tinha eu já féis fe- 
» ridas; e alli me lançaram muitas panelias 
» de pólvora , e outros materiaes de fogo y 
» com que me queimaram eílas barbas , e 
» eílas pernas , e o meu guião , e aífi feri- 
» do me recolhi com os derradeiros ; e cer- 
» to que ifto que fiz foi caufa de fe aquel- 
» la fortaleza render tão cedo. Difto he boa 
» teílemunha D. Garcia de Noronha , e Fran- 
» cilco Pereira Peftana , e Jorge de Albo- 
» querque , que fe alli acharam. 

» Fui a Adem com Affonfo de Albo- 
» querque, e fubindo áquella fortaleza/por 
» huma efcada , me derribaram com hum 
» canto que me deo antre ambos os olhos , 
» de que ainda hoje me finto muitas vezes , 
> a fora outras pedradas que em baixo me 
» deram , de que eftive á morte. Teftemu- 
y> nhãs D. Garcia de Noronha y D. João de 
» Lima , e António Ferreira. 

» Entrando o Eftreito, , deo AfFonfo de 
» Alboquerque com o feu navio em fecco : 
» mandei furgir a minha náo o mais per- 
» to que pude del.le , contra vontade dos 
» mais Ofticiaes , e no batel foi a fua náo que 
)) me elle entregou , pedindo-me que o foc- 
» corre lie fe pudefle 9 que elle fe hia para 
» a Armada , porque o tinhão por morto , 

» o 



£4 ÁSIA de Diogo de Couto 

» o que eu fiz com muita diligencia, e tra- 
» balho , pelos mares ferem grandes , lan- 
» çando ancoras , levando outras , indo eu 
» fempre na proa do batel, porque os ma- 
» rinheiros não queriam trabalhar , e com 
» huma efpada na mão lho fiz fazer. Alli 
)> fui mergulhado dos mares , e bebi muitas 
» vezes agua falgada , e aprouve a Deos que 
» falvei a náo com toda a gente , e muni- 
)) coes, e hiam nella quatrocentos homens. 
» Difto fera boa teílemunha D. Garcia de 
» Noronha , e António Ferreira. 

» Invernámos em Camarão com muito 
» rifco , trabalho , e fome , e nos morreram 
)> fetecentos homens. Dalli nos tornámos pe- 
» ra a índia , e deixou-tne o Governador na 
» coíla de Cambaya , onde tomei huma náo , 
» de que veio á voífa fazenda oitenta mil 
> cruzados , e outra carregada de marfim , 
)> e de # outras fazendas , que montou quin- 
» ze mil. Efabendo que emDabul eftavam 
» outras duas carregadas de efpeciarias pe- 
)> ra irem a Adem , fui lá , e as pedi ao Ca- 
» pitão da terra , e pelos bons modos que 
» tive mas entregou com toda a carga , e 
» artilheria , e tinham dentro em íl fete mil 
» quintaes de gengivre , que logo eíTe anno 
» veio para o Reyno , e ás náos puz-lhe ó 
» fogo. E aífi naquelle verão fiz ferviço a 
>i V^A. em que lhe dei cem milpardaos de 

» pro- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIL || 

» proveito : Teftemunha diílo D. Garcia de 
» Noronha , e António Ferreira. 

» O outro verão foi Affonfo de Albo- 
» querquea Ormuz, e determinando dema- 
» tarRaxHamed Mouro, que eftava alevan- 
» tado com aquelle Reyno , e ordenando de 
» fe ver com elle com certos Capitães , ef- 
» colheo AíFonfo de Aiboquerque dous , a 
» Pêro de Aiboquerque , e a mim , a queirç 
» encarregou que o mataíTemos. E chegan-» 
» do o Mouro a AíFonfo de Aiboquerque., 
» o tomei por hum braço, e lhe dei huma 
)) punhalada pelo coração 9 e deíía , e dou- 
» trás que lhe logo deram foi morto : e com 
» ifto ficou EIRey voflb Pai fenhor daquei- 
» le Reyno fem contradição , onde fizemos 
» a fortaleza , andando todos com as padio- 
» las ás coitas., e o dia que folgávamos eC- 
» tavamos armados: Teítemunhas diílo, 03 
)> mefmos acima. Dalli nos fomos á índia ; 
» e fendo EIRey que Deos haja labedor de 
» meus bons ferviços , me mandou Ormuz, 
» ou Ceilão , qual eu quizeííe , o que não 
)> houve eífeito por fer eu no Reyno , por- 
» que parti de lá no anno que Lopo ,Soa- 
» res foi á índia. No Reyno fui bem rece- 
» bido d'ElRey, e me fez mercê de huma 
)> Commenda , e me mandou pagar tudo o 
» que me era devido na Cafa da índia , di- 
» zendo-me , que\ me não fatisfazia meus fer- 

» vi- 



$6 ÁSIA de Diogo de Couto 

>> viços , e que me faria ainda mercê como 
>> veria. Depois em Almeirim me commet- 
)) teo , que folie á China por Capitão de íeis 
» náos , e que da vinda ficafle em Malaca 
» porCapirao tresannos, e por adoecer não 
» houve effeiro. 

)> Depois me mandou chamar a Évora , 
» e medilfe, que determinava mandar duas 
y> mil lanças a Africa , e por Capitão delias 
)> Ruy Barreto, repartidas em quatro partes , 
•» quinhentas em cada huma , commettendo- 

> me com huma delias , e a Jorge Barreto , 
» e a D. Rodrigo de Cafiro com as outras , 
» o que não houve effeito pelos annos fe- 
» rem efteriles. E fempre efte Rey moftrou 
» muitos defejos de me fatisfazer meus fer- 
y> viços, de me honrar, e accrefcentar; mas 
)) quiz Deos , e meus peccados , que fale- 
» ceo , e fe perdeo rodo o meu bem , e ef- 
}> peranças. E por V. A. núo ter noticia dif- 
» to em começo do feu reinado , me man- 
» dou prender na cova , por fahír a eílre- 
» mar hum arroido , ( o que todos fomos 
» obrigados a acudir por Lei defte Reyno, 
Ti fob graves penas , a qualquer que não acu- 
>> dir a quem pedir voíío foccorro , bradan- 
» do á que cPElRey , ) no que bem fe vio 
» não ler V. A. fabedor de quem eu era , 
» nem de meus ferviços , e trabalhos paífa- 

> dos : pelo que determinei de me tornar 

» pe* 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIL 57 

5> pêra a índia a íèrvir de novo a V. A. 
)> porque íe arrcpendefle do que me tinha 
» feito , pelos bons ferviços que lhe efpera- 
y> va fazer , como depois fiz. 

» Fui á índia por Capitão de Cochim , 
» onde eítive hum anno : os fer viços que al- 
)> li fiz V. A. os fabe , pois me efcreveo car- 
» tas de agradecimento. E falecendo naquel- 
)> la Cidade o Conde Almirante , a hora de 
)> fua morte me efcolheo por Governador 
» até fe abrirem as fuccefsóes ; e os ferviços 
» que logo fiz são eíles. Defpachei as náos 
» do Reyno , em que eftava o Governador 
» D. Duarte de Menezes bem devagar , e 
» as náos que eram cinco bem desbarata- 
)) das. Defpachei huma Armada , que foi em 
» buíca de D. Henrique de Menezes , que 
)) fuccedeo na governança , por naquelle tem- 
» po eftar em Goa 5 e mandei a iflo quator- 
)) ze velas. Pêra o Cabo de Guardafú tam- 
» bem defpachei António de Miranda com 
» outra Armada de fete velas, e fez lá pre- 
» zas de trinta mil pardaos. Fiz outra Ar- 
» mada pêra as Ilhas de Maldiva de féis vé- 
» las pêra efperarem as náos de Meca. Fiz 
» outra pêra Melinde de hum Galeão , e dous 
» navios 5 e defpachei quatro náos pêra Or- 
» muz : o que tudo fiz de dia de Natal até 
)) yinte de Janeiro. 

)) Por falecimento do Governador Dom 

)> Hen- 



58 ÁSIA de Diogo de Couto 

» Henrique de Menezes me elegeram por 
y> Governador , e V. A. deve de fer lem- 
» brado , que eu nunca tal lhe requeri por 
» mim , nem por outra peffba. O Duque de 
)> Bragança, (que eu cuidava que nifto me 
» tinha alguma culpa , por razões que pêra 
» iflb havia , ) me efcrevco huma carta em 
» que dizia : Pois EIRey meu Senhor teve 
» tanta lembrança de voffa honra , e forta- 
» leza , por amor de mim Lopo Vaz que 
» lho pagueis na mefma moeda. E eu por 
» certo, Senhor, que trabalhei de o fazer, 
» e aíli o fiz de maneira , que eu eftou bem 
» fatisfeito , que não ei inveja a nenhum Go- 
» vernador paíTado , prefente, nem porvir, 
» fazendo fempre muita verdade , e juíliça 
» a voiTos amigos , e muita guerra a voííos 
)> inimigos. E nãò íe poderá com verdade 
» dizer , que eu diffimulaíTe nunca batalha, 
y> que cumpriíTe a voíTo ferviço , com pou- 
» cos, ou com muitos , affi como me acha- 
» va , aííi me offerecia : e neftas batalhas , e 
» aíFrontas , Deos feja louvado , em todas me 
» deo grandes , e notáveis, vitorias. 

)> Acceitei a índia eftando desbaratada, 
» e em grande : rifco de fe perder , por ter 
» conquifta com três ' Imperadores , e hum 
.)> mui poderofoRey, iíto he , o Imperador 
» de Alemanha , e Rey de Gafteíla fobre 
» Maluco j o Grão Turco Senhor de três 

» Im- 



Dec. IV, Liv. VI. Gap- VIL 59 

» Impérios 1 ; e o Rey de Calecut, que tam- 
)> bem he Imperador ; e EIRey de Cambaya , 
» que põe em campo feffenta mil cavaJlos 
» acubertados , e dos outros innumeraveis , 
)> e de grande poder no mar, que até o meu 
» tempo nunca foi desbaratado. E cuido 
» que em acceitar a índia deíla maneira fiz 
» a V. A. hum dos mores ferviços do Mun- 
)> do; e o primeiro que fiz foi empreílar de 
» minha bolfa oito mil cruzados pêra o gaf- 
» to das Armadas , por não haver dmhei- 
» ro. E o primeiro verão fui a Bacsnor ío- 
» bre fetenta e tantos Paraos , a mor parte 
)> d'EÍRey de Calecut, carregados de elpe- 
» ciarias com mais de féis mil homens de 
)> peleja , e hum Capitão d'E!Rey de Nar- 
» língua com vinte e cinco mi! em feu fa- 
» vor; e não tendo eu mais que mil e cen- 
» to, defembarquei contra parecer dos Ca- 
» pitaes ; e lhe queimei todos os Paraos 5 e 
)) lhe tomei muita artilheria , que foi huma 
» das mores pancadas , que o Rey no de Ca- 
» lecut teve. 

» E não fe pode dizer que eílive ocio- 
)> fo o tempo que governei , antes o gaftei 
» todo em o fervir com a alma , e com a 
)> vida , e acho que fiz em todo o meu tem- 
» po trinta e oito armadas , em que pef- 
» íòalmente me embarquei em três delias. A 
» primeira a que já diífe , quando desbara- 

» tei 



6o ÁSIA de Diogo de Couto 

» tei os Paraos de Bacanor : A fegunda pe- 
» ra Ormuz , donde me mandaram chamar 
)> com muita prefla , por eítar Rax Xarrafo 
» alevantado contra ÈlRey , com arraiaes 
» formados , e Diogo de Mello em meio ; 
» e concertei eftas coufas que eftavam mui- 
» to arrifeadas : A terceira , quando desbara- 
» tei as Galeotas de Cambaya. Fizeram-fe 
» prezas em meu tempo , que valeram tre- 
» zentos e fetenta mil pardaos. Paguei os 
» ordenados aos Capitães , e Feitores ; gaf- 
» tei muito dinheiro em reedificar as forta- 
» lezas todas , íèm tirar do cofre de V. A. 
» hum fó real , e tudo das mercadorias , pre- 
» zas 5 páreas, dinheiro doscavallos, eren- 
» das de Goa; e mandei a Cochim por ve~ 
» zes dinheiro pera as obras , por não bo- 
» lirem no cofre , que forarn mais de cin- 
» coenta mil pardáos. 

» V. A. fe quiz fervir de mim no gover- 
» no da índia , fem lho eu requerer por a- 
» derencia alguma , fomente pelo meu bom 
x nome , e não deixei de lho requerer , por 
» cuidar que em mim não havia as qualidades , 
"» que cumprem aos Governadores , maspor- 
» que nunca fui tão efquecido de minha hon- 
» ra , nem tão minguado de juizo , que não 
» tiveíTe femprereprefentado diante de mim y 
» que onde tão honrados Capitães , e tão va- 
» lentes Ca valleiros neíle cargo perderam as 

» vi- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VII. 6t 

» vidas , honras , e fortalezas , e alguns dei- 
» les arrifcáram luas almas , eu não me aven- 
» turaíTe ao mefmo : e por iíío quiz antes 
» feguir o exemplo Caftelhano , que diz : 
» Mas quiero cardamos em paz , que po- 
» lhos con agraz. V. A. como digo , fe quiz 
» fervir de mim na governança da índia , 
» e por certo que foi grande lembrança , e 
)) grande mercê ; porém prouvera a Deos 
» que nunca a eu vira em minha cafa. 

)> Já lhe tenho dado conta de meus fer- 
» viços, agora lha darei de como deixei a 
» índia. Se V. A. bem olhar , achará que 
)> em meu tempo não veio Capitão , nem Of- 
)) ficial da índia rico , como lbiam vir ; pois 
» efte dinheiro que fe fez delle em meu tem- 
» po , em que houve mais prezas , e mais 
» trato , que em nenhum outro ? Por certo , 
» Senhor , que todo efte dinheiro ficou no 
» voífo cofre , e no voflb thefouro ; porque 
» as voífas fortalezas de pedra , e barro , fi- 
» las eu de pedra, ecal, e com cavas cha^ 
» padas de mar a mar : por onde V. A. deve 
)> dormir feu fomnodefcançado , efeguro. E 
)) mais tem em outro cofre trezentos milcru- 
» zados , que lhe eu paguei de foldos. As 
)> coufas que deixo entregues ao Governa- 
)> dor Nuno da Cunha 7 são as feguintes : 
» Seis Galeões , féis Caravellas , oito Galés 
)) reses , quatorze Galeotas , e cento e duas 
- » Fuf- 



6% AvSIA de Diogo de Couto 

3> Fufias , e Bargantins com toda ftia mu- 
» niçao , ( Armada que nunca Príncipe teve 
» toda íua própria.) Deixei em Goa cincoen- 
» ta pipas de pólvora de bombarda, eduas . 
» de eípingarda. Em Chaul quinze pipas de 
» pólvora de bombarda , e duas de cfpin- 
» garda. Em Cochim trezentos quintaes de 
3> pólvora. Em Cananor vinte pipas de pol- 
)> vora de bombarda , e duas de eípingarda. 
» Os mantimentos que deixei juntos pêra a 
■» Armada são eftes : Mil e quinhentos can- 
» cíís de trigo , e três mil candís de arroz , 
» feiscentas vaccas vivas , queijos , manteigas 
)> em abaftança , muito ferro , muita madei- 
» ra , c muitos ferreiros , e carpinteiros , e 
» ifto em todas as fortalezas. 

» De como ficam os inimigos lhe darei 
» conta. No Imperador não fallo , porque a 
)> V. A. darei eíTa conta quando de mim 
» a quizer laber. O Grão Turco fica com 
» fuás Armadas desbaratadas , pelas grandes., 
» e muito poderofas com que todos os an- 
)> nos lhe mandei correr a terra do Eflreito 
» de Meca. E quando me entregaram a In- 
» dia eítavam fuás Armadas mui poílantes , 
» com muita oufadia contra nós , trabalhan- 
» do por virem de maneira, que nos botaf- 
» fem fora da índia : o que tudo em dita 
» de V. A. e com meu trabalho , e aílucia 
» fe desfez, 

» O 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VII. 63 

» O Çamorim ao tempo que me deram 
» a governança punha no mar quantos Pa- 
» raos queria , o que no fim do meu tempo 
)> já não podia fazer, porque todos lhe def- 
» rrui , e tomei , nem tinha artilheria , nem 
» bombardeiros , que tudo lhe gaitei , e des- 
» fiz, pelo que cada dia pedia pazes. 

» O grande Rey de (Jambaya , podero- 
» fo no mar mais que todos os da índia 
» juntos, veja qual ficava á minha partida, 
» que lhe não ficariam dez Fuftas. 

» EIRey de Bintao , eu por certo o def- 
» trui , e desbaratei com a Armada , e gen- 
» te , que mandei a Pêro Maícarenhas , en- 
» commendando-lhe , e pedindo-lhe , que fe 
» não vieíTe de lá fem a deftruir , o que el- 
» le fez mui bem. 

» Em paga de todos eíles ferviços me 
» prendeo Nuno da Cunha em Cananor pe- 
» la maneira que fe fabe , mandando lançar 
» pregões infames contra mim. Em Cochim 
» fui mal apofentado nas peiores cafas da Ci- 
» dade , nos eftciros entre os monturos , o 
» que muito fenti , por fer contra a huma- 
» nidade , e fidalguia , e em Cidade , onde 
» me fizeram Governador de V. A. Alli me 
» mandou prender , e tomar-me toda a fa- 
» zenda, que foi avaliada com toda a def- 
» ordem , como fe eu fora traidor , e mal- 
» feitor , foífrendo aífrontas , ^ injúrias a 

» meus 



64 ASIÀ de Diogo de Couto 

)j mens inimigos , que todas as noites rt)e paf- 
» favam pela porta com folias. Dalli meem- 
» barcáram com dous criados na peior náo 
» da carreira , e que partio derradeiro de to- 
)> das > mandando-me dar huma camará de- 
» baixo da alcaceva , onde era a eftancia dos 
)> grumetes , e negros , onde eu comia , e 
» dormia ás chuvas até ás Ilhas Terceiras. 
)> Veja V. A. e ponha diante de íi tamanho 
» aggravo como eíie a hum homem de mi- 
)> nha qualidade , e idade , e de tantos , e 
» tão grandes ferviços , fer mandado em hu- 
» ma tão enfadonha viagem , em huma pof- 
» íilga de porcos ; que por certo eu tomara 
» antes muitas vezes de muito boa vontade 
» afepultura, que ver-me avexar por tantas, 
» e tão injurioías maneiras. E affi me man- 
» dou entregar a quem me não tinha boa 
a vontade , pêra mais me martyrizar. 

» Chegando ás Ilhas Terceiras fui tor- 
» nado a prender , e me levaram em ferros, 
» de que eílive pêra perder huma perna , 
)> porque ma cortaram de feição , que me 
» appareciam os nervos. E chegando a efta 
» Cidade mp mandou V. A. tirar cercado 
)> de beleguins por meio do terreiro de feus 
» Paços , defendendo a todos os meus pa- 
» rentes , e amigos , que não chegaííem a 
» mim , como fe eu fora hum traidor , ou 
» malfeitor- caquella vergonha pafíei , ef- 

» tan- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VII. 6? 

» tando no terreiro toda a Corte , e eu cer- 
» cado de rapazes , e negros 9 e gente vil > 
» que foram cem mil mortes. Fui levado ao 
)> Caftello , onde me foram poftas guardas , 
» e defezas , como fe fe efperaíTe procede- 
» rem de mim grandes crimes , nao me con- 
» fentindo ver , nem fallar certos dias com 
)> meus parentes , e amigos ; nem até o pre- 
» lente ver minha mulher , que ha fete an- 
» nos que eílá viuva de mim , por eu an- 
» dar occupadq no ferviço de V. A. e nao 
y> a deixarem fallar comigo , o que eu mais 
» fenti que todos os tormentos outros que 
» me deram. Ora cuide V. A. fe tanta des- 
» humanidade fe ufou nunca com homem de 
» minha forte , idade , e fervidos nefíe Rey- 
» no. 

» Proceílaram meu feito contra toda a 
» ordem de juíliça deites Reynos : aífí que 
)> em mim fe começaram a exercitar todos 
» os novos coftumes , e novas leis pêra 
» íer deshonrado. Tiram meus inimigos por 
» teftemunhas , e efteve ao perguntar delias 
» Manoel de Macedo, que defcubertamen- 
» te he meu inimigo. Fui lançado de répli- 
» ca , e de outros termos , que tinha de Di- 
}> reito Divino, e Humano. Ora veja V. A, 
jd o que me tem cuílado feu ferviço , e a 
)) honra que me deo de Governador , que 
» nao íei homem que juizo tenha 7 que if- 
ÇdVtg. Tom. L JP. ih E » to 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

» to quizeífe pelo preço , muitos frios , mui- 
» tas calmas , muitas fomes , e fedes , mui- 
» tos rifcos de minha vida, dando a comer 
» meu fangue aos tubarões no mar , aos adi- 
» bes no Reyno de Fez , e ás gralhas da In- 
» dia; de maneira que poucas conquiítas tem 
» V. A. onde fe elle não derramafle : e não 
y> fe pode prefumir que poíla mentir , por- 
5) que quem em fua mancebia não ufou de 
» máos coflumes , e fez fempre o que de- 
» via , em fua velhice , e no fim delia , não 
» ufaria das miudezas que me põe , e mais 
» tendo diante dos olhos taes peíToas. 

» D. Duarte de Menezes , que em bem 
» tenra idade desbaratou dous Alcaides mui 
» furiofos , e mui guerreiros , ferviço mui 
» notável , e digno de perdão de grandes 
» culpas , não lhe valeo nem ferviços do pai , 
y> nem dos avós , prezo em cárcere perpé- 
» tuo , tomada a fortaleza. Baliza era efta 
» pêra Lopo Vaz , não fendo inhabil, fe guar- 
» dar. 

» Diogo Lopes de Siqueira tantas vezes 
» cativo, e ferido, fugido por Reynos eftra- 
» nhos , tomada fua fazenda, por mercê tor- 
» nado ao Reyno , e morreo , e aífi Deos 
» fabe de fua alma. Vi mais Affonfo de Al- 
» boquerque tantas vezes cativo , e de tan- 
% to ferviço , que morreo quall defefperado , i 
» dizendo , mal com EIRey por amor dos 

» ha- 



Dec. IV. Liv. VL Cap. VIL 67 

» homens , mal com os homens por amor 
» cPEíRey, acelhamo-nos á Igreja, e mor- 
» re Affonlò de Alboquerque , que cumpre 
)> á rua honra morreres , que nunca a eile 
» lhecumprio coufa , que tu não fízeíTes j e 
)> com citas palavras deo a alma a Deos, e 
» que lhe não valeo a muita guerra que fez 
» a Mouros , e Gentios , c fua alma corre 
» muito rifeo. Efte bom velho mui fabedor 
» das coufas da índia , muito vitoriofo nel- 
» Ia , a quem todos os Governadores da In- 
» dia devem ter acatamento , não por com* 
» metter maiores feitos dos que eu tenho 
)> commettido , mas por os feus ferem pri- 
» meiro: Efíe coílumava a dizer , fabeis quão 
» má gente he a da índia, que mepuzeram 
» que era puto , e prováram-mo ; fendo el- 
» le tão honefto , que não dirá criado feu , 
» que alguma hora lhe viíTe a ponta do pé. 
» Todo efte mal , e deftruição dos Gover- 
» nadores todos he caufado por homens bai- 
» xos dalmoface. Por certo > Senhor , eu não 
» fei como fe defeulpará , nem que razão 
» dará , olhando aos homens com que V. 
D A, começou meus negócios , que lhe não 
» lembrava huma coufa tão devida, como 
3) era dizer , faiba-fe que homens são.eftes 
» que fe queixam dos Governadores ; e íe 
» achar ferem homens de bem , fazer-lhes 
i) juítiça mui inteira ? e achando ferem vicio- 

E ii » fos. 



68 ÁSIA de Diogo de Couto 

y> fos 5 mandallos á cadeia 5 e não dar caufa 
» ao máo pêra fazer mal ao bom. 

» E quantos Fidalgos de mim teftemu- 
» nháram a V. A. foi poreíla razão. Eu e£- 
)> tava em Cananor , onde me vieram bufcar 
» os Paraos , (como V. A. em meus fervi- 
)j ços ouvio , ) chamei a confelho eííes Fi- 
» dalgos , que foram de parecer não pele- 
» jaffe : aprouve a Deos que me pareceo o 
)> contrario , e diíTe-lhes , que quem quizef- 
» fe acompanhar o feu Governador ? e a ban- 
}> deira de V. A. íe embarcaííe comigo , o 
» que elles não quizeram fazer , ficando nos 
» Galeões olhando como eu pelejava ; e dif- 
» to ficaram tão corridos , e envergonhados , 
» como era razão > e havendo por certo que 
)> eu efcrevia aV. A. o feito como paliava ? 
» de quem bem , ou mal fizera ; o que eu 
» delles efcrevi V. A. o íabe mui bem , que 
» não fe achará em carta minha efcrever mal 
» de nenhum Fidalgo , fenão requerer pêra 
» todos honras , e mercês. Elles por me V, 
» A. ter por fufpeito , e me não dar credi- 
» to , efcrevêram , e teítemunháram de mim 
» falíamentej enão temendo a Deos acqui- 
» riram a íí outros Fidalgos feus parentes , 
» pêra que os ajudaffem a affirmar fuás da- 
» nadas tenções. Efta ventagem com ou- 
» trás muitas ha em mim 5 que o que diífer | 
X delles ha de fer na praça j c o que elles 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIL 69 

>> differem de mim , ha de fer mui efcondi-* 
» do , porque eufallo verdade, eelles não. 
» De minha genealogia ouça V. A. hu- 
» ma coufa que me efqueceo, de VaícoPi- 
)) res de Sampaio meu quarto avô , que he 
)> digna de contar. No cartório de Fernão 
» Vaz de Sampaio fe achou hum perdão , que 
» dizia affi : Pelos fervi ços que tenho rece- 
» bido de Vafco Pires de Sampaio , e ejpe- 
» ramos receber , lhe perdoamos a morte de 
» quarenta efcudeiros , que enforcou na fua 
» Villa de Moz , com huns poucos de homens 
» de pé. Veja V. A. que poucos poderiam 
» fer de homens de pé 5 onde morriam qua- 
» renta efcudeiros. Certo merecimento devia 
» de ter tal vaífallo, e neceffidade devia de 
» terElRey delle, pois tal perdão dava. E 
)> do grande Martim Affonfo de Mello meu 
» avô notórias são fuás coufas. Se V. A. 
» deite par de Cavalleiros tem , ou tiver 
» neceffidade , aqui eftá Lopo Vaz de Sam- 
» paio feu neto , ( que trabalhou muito pe- 
)> los arremedar , e efcufar , ) que eftá em 
)> mui boa idade, e em melhor difpoííção, 
' » e mui experimentado por mar , e por 
» terra ; e por certo , elles me perdoaram , 
)> eu não lhes finto ventagem fenão nos 
» bons galardoes que lhes deram , porque 
» por cada ferviço lhes davam Villas , ju- 
y> rifdicjões^- rendas P e honras ^ e a mim 

)) por 



70 ÁSIA de Diogo de Couto 

» por cada hum me deram hum tormen- 
)> to. 

)) Pela tomada das Fuftas de Cambaya , 
» que nunca foram desbaratadas , tão vkot 
» riofas que nunca perderam hum remo , an- 
il tes desbarataram per vezes muitos Galeões 
» de V. A. , eu as venci , e metei no fun- 
» do ; em pago deite ferviço me mandaram 
» prender. Pelos navios que desbaratei de- 
» fronte de Calecut, em que matei dous mil 
» e tantos Mouros ; em pago difto me man- 
» dáram tomar toda a minha fazenda. Pelos 
» Paraos que queimei emBacanor, que eram 
» a principal força de Calecut; poreíle fer- 
» viço me mandou V. A. embarcar em hu- 
» ma náo noapofcnto dos grumetes. E por- 
» que fubi pelos muros de Adem, donde me 
)> derribaram com huma pedra, de que ef- 
» tive á morte ; em pago difto me lançaram 
» ferros, que me comeram a carne até aos 
)> oíTos. Pelo cubello de Tangere que defen- 
di di a EIRey de Fez ; em pago difto me 
» mandou tirar V. A. á vergonha diante dos 
» feus Paços Reaes. Pela deftruiçao que fiz 
» no Arei de Porca , e outros muitos fervi? 
» ços , que aqui não digo ; em pago delles 
» me mandaram que ferviíle , e partiíle com 
» os Efcrivães , e Procuradores do meu di- 
» nheiro , que trazia ganhado com tanto tra- 
% bailio^ e com tanto fangue efpargido pe- 



?> 



ra 



Dec. IV. Liv. IV. Cap. VIL 71 

» ra me remediar a minha yelhice, e para 
» crear meus filhos. Veja V. A. fe he bem 
» defviada eíla paga , da que deo EIRey Dom 
» João de glorioía memoria a meus avôs. 

» A fomma de meus ferviços são eftes : 
» Onze annos em Africa ; e na índia , e nas 
» Armadas , que fe fizeram nefte Reyno , vin- 
» te e hum annos : não fali o no tempo que 
» andei na Corte , que cíle houve pelo mais 
» forte de todos , pela muita pobreza com 
» que a foftinha. Fui ferido cinco vezes , 
» huma em Alcacere Scguer, outra em Al- 
» cacere Quibir , outra em Benaftarim , ou- 
» tra em Adem , e outra na Ilha Terceira 
)> dos ferros, que me V. A. mandou lançar. 
» Em galardão difto fui prezo , avexado , e 
)> perguntaram contra mim teftemunhas in- 
» íieis , e meus inimigos capitães , e aconfe- 
» lhadores contra minha honra , que foram 
» na maffa de Pêro Mafcarenhas , e ordená- 
» ram diífamarem todos de mim, com da- 
» rem más informações a V. A. falias , e 
» mui contrarias da verdade , pelo indigna- 
» rem contra mim. E na índia , onde o fer- 
. » vi de Governador , me foi tomada toda 
» a minha fazenda , e fiquei fem elía , de ma- 
» neira que não tenho que comer , nem que 
» dar aquém me defenda minha juiliça de£- 
» tes grandes aggravos , que me são feitos 
» contra toda a juiliça , por ferem fem cul- 

» pa, 



yi ÁSIA de Diogo de Couto 

» pa 5 e fem erro no ferviço de V. A. e pe- 
» los muitos, e grandes que lhe tenho fei- 
» tos , dignos de grandes mercês , a que V. 
5> A. deve de reípeitar ; pelo que devo de 
» ter muita efperança de me reftituir á ini- 
» nha honra , e de me fazer mercês pêra 
7) exemplo dos que o bem fervem. 

» Ora 3 Senhor , ifto he feito , não pode 
» V. A. deixar de o remediar com muita 
» clemência , e como cxceliente Príncipe 
» creado fobre nofibs hombros , e nos crea- 
» dos com fuás migalhas , com dar fenten- 
3> ça que feja digna de lhe beijar a mão , com 
y> defcanço pêra minha velhice , e pêra que 
a poífa crear meus filhos pêra ofervirem. » 

Aqui acabou Lopo Vaz fua falia , que 
EIRey ouvio mui bem , e depois lhe foi re- 
citando as culpas que delle tinha , huma , e 
huma 5 a que hia Lopo Vaz refpondendo pe- 
la maneira feguinte. Onde eílá eíta letra P. 
são perguntas , e o R. refpofcas. 

CAPITULO VIII. 

Das culpas que EIRey deo a Lopo Vaz de 
Sampaio , e da fua refpofta a el/as. 

P. T} Orque deixaftes regimento a AfFon- 
JL fo Mexia , que não confentiííe en- 
trar Pêro Mafcarenhas em Cochim ? 

R. Senhor , Cochim , e Goa são duas 

for- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIII. 73 

fortalezas as principaes da índia , e quaíi 
iguaes. Eftando Pêro Mafcarcnhas em hu* 
ma , e eu em outra , eram dous Papas em 
Roma, eforacaufa de nunca fe deslindarem 
eftas differenças , e de muitas mortes de ho- 
mens , e de perecer muito o ferviço de V. A. e 
a prova difto he , que em nenhuma fortaleza 
deixei tal regimento , antes mandei aos Capi- 
tães que o recolheffem , e lhe fizeíTem muita 
honra , porque não tinha receio de em nenhu- 
ma outra fe fazer máo recado , fenão nefta. 

P. Porque mandaftes Pêro Mafcarenhas a 
Cananor, fem primeiro eílar com elle ajuf- 
tiça , e direito ? 

R. Porque quando Pêro Mafcarcnhas che- 
gou a Goa, vinha com o coração já damna- 
do 5 appellidando toda a índia com cartas , 
e correios : e fe entrara em Goa , fora muito 
mor união , porque eliè vinha dizendo , que 
não queria mais que pôr os pés em terra , 
atrevendo-fe nos Fidalgos que lhe efcreviam 
ao caminho ; e vinha fazendo taes eíiron- 
dos , que houve por muito ferviço de V. A, 
não o deixar entrar, nem me pôr então com 
elle em juftiça , até primeiro não quebrar a- 
quella fúria: e as mais razoes que pêra iflb 
tenho , trago-as por inítrumentos , que mof- 
trarei quando For tempo. 

P. Porque juraftes de manter apromeífa^ 
que entre vós, e elle era poíta ? 

Rm 



74 ÁSIA de Diogo de Couto 

R. Jurei a primeira vez por força , e a 
outra quanto por direito o deveíTe manter , 
e aíli o cumpri quanto com juítiça devia; e 
fe o em alguma couia quebrei , diga-mo 
V. A. , que eu lhe darei a razão diííb. 

P. Porque prendeítes Pêro Maícarenhas , 
fem primeiro vos pordes á juítiça com elle ? 

R. Pêro Maícarenhas quizera entrar em 
Cochim por força, pêra prender os Juizes, 
e o Feitor, e affi logo prendeo os que lhe 
foram ao mar publicar as Provisões de V. 
A. , e fobre iíto determinou de íahir em ter- 
ra com varas alçadas, eOfficiaes, e foi-lhe 
reíiftida íua entrada , como o eu tinha man- 
dado , e recolbeo-fe ao feu Galeão , man- 
dando logo a terra pregoar por traidores Ca- 
pitão , Veador da Fazenda , e a todos os da 
Cidade. Edalli fe foi aCananor, onde lhe 
foram cartas de muitos Fidalgos , que vief- 
fe defconhecido , e fe metteííe no Morteiro 
de S. Francifco , e que elles o ajudariam , 
quer ti veífe juítiça , quer não; eftas cartas te- 
nho eu em meu poder : e por me recear dif- 
fo ,* mandei guardar as barras , com regimen- 
to aos Capitães , que fe o tomaíTem defco- 
nhecido , o prendeííem , por evitar mortes , 
e uniões , que com fua entrada eílavam cer- 
tas. 

P. Porque razão foítes a Ormuz ? 

R. Fui chamado daquelle Rey ? e por rne 

ef- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIII. $f 

efcrever Diogo de Mello, que eíhva elle, 
e o Guazil em campo , hum em hum cabo 
da Cidade , e outro em outro , pêra fe da- 
rem batalha : e fe eu não chegara , eílava ap- 
parelhado hum grande mal , e'com minha 
ida não defamparava a índia ; porque o 
tempo que punha no caminho , e lá havia 
de eílar encerrado por caufa do inverno , e 
tornava de lá em principio do verão , o que 
tudo fiz como cumpria ao ferviço deV. A. , 
e tudo foi comconfelho de voílbs Capitães. 

P. Que prefente vos mandou Rax Xar- 
rafo a Calayate , e porque fizefíes tanta hon- 
ra a quem vo-lo levava ? 

R. Porque foielle muito pêra eftimar em 
tal tempo, que era muita agua, e refreíco , 
vindo nós já afiada d'agua , porque nos to- 
mou muito ao mar , e ao Mouro por fe ir 
mandei-o embebedar , e folgámos todos com 
iíTo. 

P. Porque déííes licença ao NacodaXa- 
merim mercador da terra 5 que fe foi de Or- 
muz ? 

R. Porque aos mercadores não fe lhes 
deve eftoryar fuás idas pêra onde quizerem , 
pois diíío vivera , e ennobrecem as Cida- 
des : e mais me fora deftranhar impedir-lhe a 
ida pêra exemplo. Mas eu me affirmo , que 
lhe não dei tal licença 7 nem dk ma pe- 
dio. 

P. 



j6 ÁSIA de Diogo de Couto 

P. Porque razão poufaíles com Diogo de 
Mello ? 

R. Porque todos os Governadores pou- 
favam na fortaleza , aonde havia apofentos 
pêra ambos > fem nos vermos hum ao ou- 
tro. 

P. Porque puzeíles Diogo de Mello á ca- 
beceira de voíía meza ? 

R. Porque Diogo de Mello era primo 
com irmão de minha mãi , e ficava-me em 
lugar de tio , o mefmo era de minha mu- 
lher irmão de fua mãi, e Capitão daquella 
fortaleza , e mais era de oitenta annos. E 
fempre foi coílume dos Governadores faze- 
rem-lhe muitas honras á fua meza. E eu po- 
dia honrar quem quizeffe , fem diminuir no 
eftado da governança. 

P. Porque deixaftes ir de Ormuz três 
Mouros , que Rax Xarrafo degradou ? 

R. Porque Rax Xarrafo tinha alçada de 
V. A. pêra matar , quanto mais pêra degra- 
dar. 

P. Porque não fizefles vir a Ormuz dous 
Judeos que foram degradados por Rax Xar- 
rafo , e porque os não ouviftes comjuíliça? 

R. Porque os Judeos foram degradados 
por fazerem moeda falfa , e mereceram quei- 
mados ? e deram-lhes as vidas por aderên- 
cia , e foi mal feito não os queimarem , por-, 
que eram onzeneiros. 

P* 



Dec. IV. Liv. VI. Ca?. VIII. 77 

P. Se tínheis poder pêra tomar jóias a 
E.eys , e Príncipes ? 

K. Pois não tinha defeza diíTo , não me 
era tirado o poder ; e fe me algumas jóias 
deram , bem lhas paguei em dobro ; e fe al- 
gumas tomei , V. A. as tem 3 e bem as pó- 
cie tornar a feus donos. 

P. Porque não fallaftes com EIRey de Or- 
muz de parte , pêra faberdes delle fe tinha 
algumas queixas de alguém ? 

R. Eu fallei com elle perante o Secreta* 
rio Vicente Pegado , e mais fe me devera eí- 
tranhar fallar com elle fó. 

P. Porque não foítes logo como chegas- 
tes ver EIRey de Ormuz ? 

R. Porque não he coílume illo ver lo- 
go , que lhe hão de dar dous dias pêra fe 
aperceber, que elle mefmo o quiz aííi, e o 
pedem. E illo ver logo affi , tem-no por 
defacatamento , e hão que lhes defprezais 
fuás honras , e feftas , e eu não havia de ir 
lá pêra o efcandalizar com coftumes novos. 

P. Porque tiraftes o cargo de Capitão 
mor do mar de Ormuz a D. António da Sil- 
veira ? 

R. Eu não lhe tirei o cargo , antes o dei 
a quem V. A. o mandou dar. E quanto ao 
levar comigo á índia , foi , porque lá ha- 
via muita guerra , onde os taes Fidalgos 
como elle haviam de eítar , e affi lho dif- 



78 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe , que leria provido conforme a fua pef- 
foa. 

P. Porque tiraftes o Galeão a Manoel de 
Brito , e o déíles a Fernão Rodrigues Bar- 
bas criado do Marquez ? 

R. He verdade , porque dei a Manoel de 
Brito duas viagens , em que fez muito provei- 
to ; e porque V. A. me encommendava , que 
repartifíe por todos o proveito. E porque 
Fernão Rodrigues he muito Fidalgo , e mui- 
to bom Cavalleiro , e criado de V. A, e mui- 
to pobre, e tinha muito bem fervido naqucl- 
las partes , e leu pai em Ceita , e feu avô 
em Aragão ; com íeflenta de cavallo , por 
mandado d'EJPvey D. AíFonfo, que era do 
Coníelho do mefmo Rey. 

P. Porque mandaíles embarcar Vicente 
Pegado tão depreíía ? 

R. Elle me foi encampar o cargo de Se- 
cretario ; e porque me revolvia toda a ter- 
ra, lhe mandei que fe foífe embarcar logo, 
por eftar hum Galeão pêra fe ir , e dahi a 
muitos dias não houvera outra embarcação , 
por efeufar efcandalos : e também porque 
não tinha muitos efeudeiros , nem fato. 

P. Porque tiraftes Calayate a hum Pêro 
de Queirós , e o déftes a hum amo de Dio- 
go de Mello ? 

R. O cargo he tão pequeno, que nãofou 
lembrado diílò. 

*v 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIII. 79 

P. Porque deites hum Galeão velho a 
Francifco de Sá , em que fe aventurava a 
gente , e artilheria > que fe perdeo com elle ? 

R. Dei a Francifco de Sá o que foi or- 
denado por elle raefmo, com os doConfe- 
Iho , dous Galeões , duas Galeotas > duas Ca- 
ravelas , e íinco Bargantins : e eu pêra o me- 
lhor aviar lhe dei eífe Galeão pêra elle lá 
desfazer , e da madeira fazer a fortaleza da 
Sunda , com o taboado os fobrados , e com 
a pregadura , e pêra iflb foi primeiro vifto 
por Chriftovao de Soufa , que o mandou cor- 
reger em Chaul ? e pelo meftre , e ofliciaes 
da ribeira , que todos affirmáram poder mui 
bem fervir aquella jornada ; e eu lhe man- 
dei dizer , que não metteíTe mais que laítro , 
e fervidores , pêra lhe darem á bomba , fe 
cumpriíle ; e fe o fobrecarregou , que culpa 
tenho eu? 

P. Porque déftes a João Rodrigues Pe- 
reira criado do Duque hum Galeão ? 

R. João Rodrigues he Camareiro mor do 
Duque , e tinha muito bem fervido V. A. 
e por fua peífoa , e por amor do Duque , 
e por bom exemplo , que o viífem todos os 
criados dos Senhores , pêra afli folgarem de 
fervir melhor V. A. e laberem que para to- 
dos he a índia. 

P. Porque vendeftes huma náo em Or* 
mw > íem andar em pregão ? 



8o ÁSIA de Diogo de Couto 

R. Porque em Ormuz ninguém compra 
mercadoria fcnão por mandado do Guazil, 
e eu o mandei chamar a minha caía com to- 
dos os mercadores , e alli prefcntes os offi- 
ciaes de V. Â. Capitães , e Fidalgos , a- ven- 
di , de que tudo íe fez hum aíTenío aííigna- 
do por todos. 

P. Porque deites de alças a ruina a Chrif- 
tovao de Soufa da compra de duas náos ? 

R. Porque Chriftovão de Soufa comprou 
quarenta mil pardaos de fazenda com di- 
nheiro na mão , e por iíTo lha dei., refpei- 
tando a fer eílilo cm couías deita qualida- 
de fazer-fe âíTi , porque de milagre fe acha 
dinheiro junto , porque todos compram fia- 
do , e da meíma fazenda vam pagando : e 
elíe foi o que ficou peior do partido ; com 
todas eiras alças. Porque , em que pudera el- 
le empregar tanto dinheiro em hum anno y 
que não ganhara mais de trinta mil ? E por 
eu fer fabedor que a fazenda de prezas , que 
fica em mãos dos Officiaes , nunca V. A. 
come delia bom bocado , que com fuás con- 
tas , e quebras desfalece tanto que nunca 
luz 3 por iíTo o fiz , crendo que fazia hum 
■grande ferviço a V. A. por não ficar a pre- 
2a nas mãos dos lobos. E porque lhes eu ti- 
rei efte bocado , ficaram elles tão defeonten- 
tes 5 que bufeáram modos de baixas vingan- 
ças 7 mas aos Fidalgos y e Capitães parecep 

mui 



Dec. IV- Liv. VLCap. VIIL' 8í 

mm bem o que fiz ; e tenho em meu poder 
hum termo diílb aífignado por todos. 

P. Porque tiraftes a náo a Martim Affon* 
fo de Mello Quadrilheiro mór ? 
. R. Eu o tirei de Quadrilheiro mor, por- 
que foi achado aboiando fazenda , e deitan- 
do-a ao mar , pelo que foi logo prezo , e 
cpndemnado em muita pena de dinheiro., e 
degredo ; e mandei á náo o Ouvidoí* com to- 
da a juíliça 3 e ifto trago por autos. 

P. Quanto dinheiro vos deo EIRey de 
Ormuz, e Rax Xarrafo ? 

R. Não me deram nenhum dinheiro , fe- 
não peças de ouro , e prata , que poderiam 
valer três mil cruzados , de que logo hou- 
veram fèu retorno de minha fazenda , que 
J3em vaiia o que me deram, e mais. 
... P, Porque deites humaXentença contra E£ 
te vão Boccarro Alcaide mór de Ormuz , e 
logo a revogaftes? 

R. EiTe poder tinha eu de V. A. pêra 
condemnar, e abfolver quando fe ofFerecef- 
femcqufas, que pareceíTem fermais feu fer- 
yiço fazello aífi. 

« P. Porque fizeftes com Diogo de Mello, 
que empreftaíTe dinheiro a EIRey de Ormuz 
pêra pagar as páreas fobre hum traçado? E 
-porque mandaítes tomar a Diogo de Mello 
-traçado que tinha d'ElRey em penhor do 
dinheiro, ?. 
(fruto. Tom. L P. il £ R. 



2i ÁSIA de Diogo de Couto 

R. Eu roguei a Diogo de Mello , que 
cmpreftaííe dinheiro a EIRey , porque fem- 
pre trabalhei por V. A. fer pago de fuás di- 
vidas ; e fe o clle ha por mal , perdoe-me. 
£ quanto a lhe tomar o traçado , elle efta- 
va empenhado por outras dividas 5 que EI- 
Rey de Ormuz devia a Portuguezcs , pelo 
<que o mandei pôr ém mão do Feitor , até 
ElRey -mandar íatisfazer as dividas. 

P. Porque não mandaítes vir João de 
Sant-Iago prezo como eu mandava ? 

R. V. A. não me mandou que o pren- 
deííe , fenão que lhe moftrafíe huma carta , 
que fobre iíío me efcreveo, em que dizia, 
lhe diíTeffe de fua parte , que folgaííe de ir 
pêra o Reyno \ que V. A. lhe faria mercê , 
e me encommendava o entragaíTe a hum Ca- 
pitão de huma náo , que feguramente o le- 
vaíTe ; : porque lhe não foííe feita alguma fem 
razão , ou aggravo , e aíli o cumpri , e elle 
o acceitou com boa vontade , efoi-fe a Nar- 
fingua a empregar o feu dinheiro em pedra- 
ria pêra fe embarcar , e lá foi roubado , c 
ainda fica prezo. 

P. Porque tiraftes o Galeão do rio de 
Chaul, que eílava em guarda da pimenta ?\ 

jR. Mandei-o levar pêra Goa pêra fe con- 
certar, porque era velho ; e deixei na cof- 
ta o Capitão mór do mar com quinze vé* 
las . que nunca tantas alli andaram* 



Dec. IV. Liv. VI. Cap.-VIII. Sj 

P. Porque não folies, ou mandaíles bu£ 
car os Rumes ? 

R. Eu , Senhor , houve confelho geral de 
cento e tantas peíToas , que votaram que não 
foffe aquelle anno; e oleguinte levantáram- 
fe os Capitães com as fortalezas , e não me 
fizeram mantimentos , nem enxárcias : e du- 
raram tanto as pendenças de Pêro Mafcare* 
nhãs ^ que não tive tempo pêra me aparelhar , 
e com tudo mandei António de Miranda 
com huma groíía Armada , que bailou pêra 
efpantar os Rumes , que fez prezas > que for- 
raram bem os gaftos. 

P. Porque levaíles a gcnto de Cochim 
pêra Goa ? 

R. Porque comiam em Cochim os cru- 
zados do cofre de V. A, , e em Goa comiam 
do cobre : e por me parecer melhor que a 
gente foíTe com o feu Governador, queek 
le ir fó: e aíli he bem que fe faça. 

P. Porque deites licença a João Fozilhão 
Francez , que foíTe á Períia vender pedra- 
ria? 

R. Eu, Senhor, não tolhia aos mercado- 
res ufaflem de feu officio , e irem , e virem 
pêra onde fizeflem feus proveitos , porque a£- 
íi ás fuás cuftas defcubriíTem terras , que não 
era pequeno ferviço de V. A. E mais elle ti- 
nha licença fua , e por feu Alvará lha dei r 
por elle a não tomar por íi. 

F a P. 



34 ÁSIA de Diogo de Co.uto 

iV Porque deites licença a Rax Xarrafo 
pêra ir a Meca ? 

t R. Dei-lha , porque a tinha do Governa- 
dor D. Duarte de Menezes , e ufou elle de 
muita cortezia em ma pedir , que bem fe 
pudera ir fem ella. 

* P. Porque perfeguiftes , e trataíles mal os 
homens 5 que foram contra vós? 

R. Informaram mal a V. A. porque tal 
naohe, antes fiz tantos bens a todos os que 
citavam mal comigo 5 que os tornei meus ami- 
gos pela ventagem , e bom tratamento que 
de mim receberam. E fe alguém fe queixou 
de mim que o maltrataífe , eu darei a ra- 
2ao porque o fiz. 

P. Porque não quizeftes ouvir a D. An- 
tónio da Silveira as coufas , que vos queria 
dizer de noífo ferviço? 

R. Defezo lie em Direito , que a teftemu- 
nha que fe convidar , não feja ouvida , e el- 
le era homem que tinha dito a outros, que 
não queria que me revolveííem a terra : e eu 
prefumi , que queria elle fazer o contrario. 
E fe elle alguma coufa tinha pêra me dizer, 
elle o diífera a V. A. 

P. Porque não tiveftes a Direito o Ca- 
mareiro d 5 ElRey de Ormuz, que foi degra- 
dado com outros Mouros ? 
, R. Ajuftiça , que aquelleRey faz com o 
feuGuazil, não lhe devem YOÍTas ju%as de 

ir 



Dec. IV. Liv.VL Gap. VIII. % 

ir á mão fem o elles pedirem , e requere- 
rem de voffa parte ; e pois elles tem poder 
de degradar , e matar , ir-lhes á mão he le- 
vantar a terra , e são uniões por coufas , que 
não tocam a voíTo ferviço. Quanto mais , que 
eííe Camareiro merecera mor pena , porque 
elle, e dous Portuguezes foram a furtar, e 
os Portuguezes juílicei-os por ladrões ; e me- 
lhor o fizera ao Mouro fe não olhara ao 
mais. 

P. Porque deites em cafamento a Capi- 
tania de Goa a voifa filha com António da 
Silveira ? 

R. Eu nao lha dei fenao por elle fer mui 
bom Fidalgo , que o merecia mui bem , por 
ter gaitado na índia mais que nenhum ou- 
tro. E então ninguém a merecia melhor que 
elle. 

P. Porque deites Cochim a D. Vafco 
Deça , e a não deites a outro de mais me- 
recimentos ? 

jR. Porque eu fabia que eííe Fidalgo íèr- 
vio muito bem V. A. em Cafim , onde gai- 
tou todo o fèu cafamento. Era cafado , ecom 
filhos , e eu tinha regimento de V. A. em 
que mandava proveífe os Fidalgos. E ha- 
vendo refpeito a tudo , e a elle ter prova- 
do fer muito parente dos Reys de Portu- 
gal , lhe dei ifíò 9 porque o merecia muito 
bem. 

P. 



$6 ASIÀ de Diogo de Couto 

P. Porque deshonraíles Vicente Pegado, 
por vos dizer coufas que cumpriam a noíío 
ferviço ? 

R. Eu, Senhor, nunca lhe vi dizer ecu- 
fa que ctunpriíTe a ferviço de V. A. , mas fem- 
pre a contrario , porque fempre foi media- 
neiro em pendenças ; e porque difto o re- 
prehendia muitas vezes, e deacceitar tantos 
convites , que não era de íèu cargo , dizia 
que o deshonrava. 

P. Porque prendeíies os Fidalgos que vos 
diíferam , que vos puzefleis em juíliça com 
Pêro Mafcarenhas? 

R. Prendi-os , porque elles mefmos foram 
em confelho de eu prender Pêro jMafcare- 
nhas , e elles foram os que me levantaram 
por Governador , e depois por peitas que 
lhes promettêram , fe tornaram* a defdizer , e 
juraram outro por Governador ; tendo-me 
jurado a mim. E por evitar mores uniões, 
que claramente feordiam, em que não po- 
dia deixar de haver muitas mortes fe anda- 
ram foltos , os prendi. 

P. Porque pagaítes aos homens feus or- 
denados em cobre ? 

R. Eu fempre os paguei como V. A. man- 
da em feus regimentos , que fe paguem aos 
quartéis, e fe algum dava fobejo , era por 
íatisfazer aos homens, e os ajudar ao fervi- 
do ; como V. A. faz nas Armadas deite Rey- 

no. 



Dec. IV. Liv. VI. C ap. VIII. 87 

no , que a muitos manda pagar quartéis a- 
diantados com fianças , porque fem eíTas aju- 
das os homens perecem , e por iíTo fogem. 
E prouve a Deos que vos cahiflè nefta cul- 
pa , e a elle prouvéfie que vos cahiflem to- 
dos os Governadores , que não haveria na 
índia tantos Portuguezes feitos Mouros , que 
depois pelejam muito valentemente contra 
nós , e enfinam aos Mouros muitas coufas 
que não fabiam : a fora a fer o que fiz o 
mor defcargo da confciencia 5 que a V. A. 
podia fazer. E tinha eu , que eíle era hum 
dos mores ferviços que tinha feitos , e pêra 
me V. A. fazer muita mercê por elle. 

P. Porque fizeítes mercê a Simão de Mel- 
lo de cento e trinta pardaos ? 

R. Se foi feita mercê a efle Fidalgo , a 
mim me parece que feria de mor quantia , 
porque mais merecia , porque fcmpre foi 
Capitão , e deo de comer a muita gente : e 
algumas vezes foi Capitão mor de Armadas , 
em que fempre deo de íi muita boa conta. 
E eu acerca das mercês fui tão regiílado , 
que em quatro annos poderia dar por man- 
dado de V. A. trinta e dous mil cruzados, 
(como fe verá pelo livro do Secretario , ) e 
do meu caixão fiz mercê de mais de qua- 
tro mil e quinhentos cruzados , por fuíler 
homens que muito mais mereciam. 

P. Porque deites a Simão de Soufa a Al- 
çai- 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

caidaria da Sunda , havendo na índia outros 
Iiomens de mais ferviço ? 

R. Ao tempo que iíío dei a Simão de 
Soufa 5 não achava homem que lá quizefle 
ir , e elle fe offereceo com oitenta homens 
que trazia de Portugal, e mores cargos ca- 
biam nelle. E V. A. me efcrevia , que o pro- 
veíTe nelle , lembrando-me feu pai Duarte 
Galvão , e dous irmãos ? que morreram na 
índia. E por ao prefente não haver com 
que o proveíle , me mandava que o fizeíTe 
eu , e por iflb lhe dei aquelle cargo , que 
elle não logrou. 

P. Porque mandaftes vir prezo RaxXar- 
rafo de Ormuz , e depois o íbltaftes ? 

R. Porque o tinha Diogo de Mello pre- 
zo , e tanto^ que o foube , mandei por elle 
pêra o ter o inverno na índia , por ver que 
aífento tomavam as coufas de Ormuz com 
fua prizão : e vindo o verão , puz fuás cou- 
fas em juftiça com os OíEciaes de V. A. , 
Capitães , e Cavalleiros , e foi julgado fe 
tornaíTe pêra fua cafa , e foííe entregue de 
feu oíficio. Eíta fentença , e aííignados de to- 
dos fe acharão nos meus papeis. 

P. Porque Azeites mercê de dinheiro a 
Diogo de Mello ? 

R. EíTe Fidalgo foi á índia por Capitão 
de Ormuz , e o Governador D. Duarte não 
lhe quiz dar embarcarão como era obriga- 
do > 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIII. e IX. % 9 

ido , e elle aíFretou por mil cruzados. E por^ 
que V. A. era obrigado a lha dar , e elle 
fe houve nas pendenças d'E!Rey de Ormuz 
muito a ferviço de V. A. j havendo refpei- 
to a tudo , lhe fiz mercê deífe dinheiro. 

Acabadas eftas perguntas , o mandou El- 
Rey levar outra vez ao Caílello , donde fe 
livrou ; mas a fua fentença não a achámos 
nefte Eftado , nem quem dellg nos foubeííe 
dar informação : fomente o que atrás temos 
dito , fer condemnado nos ordenados de dous 
annos da governança pêra Pêro Mafcare- 
nhas. O que nifto paliou mais fe verá na 
Chronica cPElRey D. João o Terceiro , de 
cuja eflericia são eftas couíâs. 

CAPITULO IX. 

De como António da Silveira dejlruio as 

Cidades de Surrate > e Reynel , e outras 

Vtllas , e povoações : e do que aconte- 

ceo a Diogo da Silveira Capitão 

mor do Ma lavar ejle verão. 

PArtido António da Silveira de Goa com 
a Armada , entrou na enceada de Cam- 
baya pêra- fazer toda a guerra que pudeíTe 
áquelle Reyno , como levava por regimen- 
to. E chegando aboca do rio de Surrate, 
«jue he maior de toda aquella enceada , e de 
mor trato, ecommercio ; em que havia po- 
voa* 



5>o ÁSIA de Diogo de Cox/to 

voaçóes mui ricas , onde concorriam merca- 
dores de todas as partes da índia , determi- 
nou de dar alli hum papo quente a feus Tol- 
dados , porque com maior goíto profeguif- 
fem na guerra , porque a principal parte da 
vitoria efti em homens contentes , e fatisfei- 
tos. E aíTentando com os Capitães dar na- 
quella Cidade , deixou na boca do rio os 
navios maiores , e com os de remo entrou 
pelo rio acima , e de huma , e d'outra ban- 
da foi pondo a fogo , e ferro muitas po- 
voações que havia por ambas as partes, por- 
que tudo fe defpovoou logo tanto que vi- 
ram a Armada ; e feus moradores fe reco- 
lheram pêra a Cidade de Reynel", que ef- 
tava pelo rio acima quatro léguas , íituada 
da banda do Ponente , em hum campo mui 
rafo , affaftado da borda d'agua hum tiro de 
falcão. Chamou-fe de Reynel , porque foi 
alli fundada pelos gentios Reyneis , que já 
foram fenhores de todo o Reyno de Cam- 
baya , e então era povoada de Mouros Nai- 
tias , grandes ladroes , e coflairos , que he 
a mais baixa cafta dos que feguera a lei de 
Mafamede ; ufam a arte do mar , e todos são 
marinheiros , Pilotos , e Meílres : feguem os 
Árabes em íiia feita , e por eftes entrou a- 
quella falia lei de Mafamede naquelle Rey- 
no de Cambaya, e dalli fe femeou por to* 
-da a índia > e por todo o Oriente , affi nos 

Rey- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IX. 91 

Reynos das terras firmes , como nos das Ilhas 
de Sarna trá , Jaoa, Borneo , Banda , Malu- 
co , e todas as mais aonde chegavam com 
fuás náos , que como homens zelofos da fal- 
ia feita , fazendo fuás fazendas j pregavam fua 
lei , a que converteram infinidade daquelles 
idólatras, e gentios. E tornando á noíTa Ar- 
mada : os naturaes de Reynel , tanto que ti- 
veram delia rebate pelos que hiam fugindo 
de feu açoute , fabendo a deftruição que hiam 
fazendo , acudiram com muita prefteza a fe 
fortificar , ordenando nas bocas das ruas tran- 
queiras de madeira , e na praia na parte da 
defembarcaçao outras muito fortes , que guar- 
neceram de muitas peças de artilheria , lan- 
çando-fe quatrocentos de cavallo fora pêra 
defenderem a defembarcaçáo aos nofibs , que 
hiam pelo rio acima com a maré até chega- 
rem de fronte da Cidade , donde lhes atira- 
ram muitas bombardas , de que não recebe- 
ram damno algum. António da Silveira or- 
denou a Armada em duas partes pêra deí- 
embarcarem em diíFerentes lugares ; e che- 
gando-fe bem aterra, varejaram com os fal- 
cões a praia de feição , que fizeram recolher 
os de cavallo; e pondo logo a proa neíla, 
faltaram os noífos, lançando diante quatro- 
centos efpingardeiros , que fe puzeram em 
hum efquadrao , até defembarcartoda amais 
gente > e fendo commettidos dos de cavai- 
lo, 



$z ASIÀ de Diogo de Couto 

lo , os fizeram affaílar com morte de muitos, 
Poftos os noflbs em terra , fez o Capitão mor 
dous efquadrões , dando hum delles com a 
dianteira a Manoel de Soufa , filho de hum 
irmão do Prior de Rates , mancebo de gran- 
des penfamentos , ficando o Capitão mor 
com o outro , em que levava a bandeira de 
Chrifto. Manoel de Soufa arremetteo com 
as tranqueiras com grandes gritas chaman- 
do por Sant-Iago , defearregando fua arca- 
buzaria nos que a defendiam , que por hum 
grande efpaço fizeram brava refiftencia ; mas 
não podendo foffrer mais o cítrago que os 
noflbs nelles fizeram , largando tudo íe re- 
■colhêram á Cidade. Os noflbs os foram fe- 
guindo até darem com as tranqueiras das' 
bocas das ruas , e com aquella fúria com que 
hiam , pondo-lhe os peitos , abolroáram por 
tudo até as cavalgarem , e entrarem a Cida- 
de , em que fizeram grandes eilragos. Os ini- 
migos como hiam de vencida 5 não paran- 
do dentro, foram atraveflando por ella , e 
varando pela banda do fertão , ficando a Ci- 
dade em mãos dos noflbs com todo o feu 
recheio. António da Silveira chegando á en- 
trada da Cidade 5 porque não acontecefle al- 
gum defarranjo , fez alto com a bandeira de 
Chrifto , e tocou caixa a recolher , o que to- 
dos logo fizeram. E lançando efpias fora , 
fabendo ferem os inimigos recolhidos 7 e que 

tu- 



Dec. IV- Liv. VI. Cap. IX. 9| 

tudo ficava deipejado , entrou a Cidade , man- 
dando alguns Capitães tomar as entradas del- 
ia pela banda do fertão pêra maior fegu- 
rança , e mandou aos foldados que a faqueaf- 
fem muito francamente , o que elles come- 
çaram a fazer, entrando pelas cafas que ef- 
tavam maciíTas de fazendas , que efcaláram , 
e roubaram ás fuás vontades. Efoifacco tão 
groíTo de dinheiro , marfim 5 roupas finas , 
drogas , e outras mercadorias , que não baf- 
táram os navios pêra a quarta parte delle : 
e tudo o que fobejou mandou António da 
Silveira queimar na praia , como também fe 
fez á Cidade , com todo o mais recheio $ 
que era muito groíTo ? que toda ardeo com 
efpantofos terremotos ; eaartilheria dastran-> 
queiras , ( que era muita ) por não haver em 
que a embarcar , a mandou o Capitão mor 
lançar no pego do rio , que foi mui gran- 
de perda pêra os inimigos , porque era to- 
da de bronze. E affi fe poz o fogo a vinte 
náos que alli eftavam , e a muitas Cotias car- 
regadas de fazendas 3 mantimentos , e mar 
deira: e foi o' damno tal, que não perdoa- 
ram os noíTos a jardins , hortas , quintas mui-* 
to ricas , e frefcas , que eftavam ao derredor 
da Cidade : o que tudo ficou tão aíTolado % 
que não fe enxergaram mais que carvões * 
e cinza : ido poz muito grande efpanto , e 
terror em todos os naturaes. António da Sil~ 

yei? 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

veira como teve tudo aííolado , fahio-fe pêra 
fora com fua Armada carregada de defpo- 
jos , e foi correndo por roda a coita de Da- 
mão até Agaçaim , dando em todos os lu- 
gares , e Villas com tanta prefteza , e cruel- 
dade , que parecia hum raio aflblador , que 
andava íbbre aquellas terras , queimando , 
deílruindo , • cativando hum grande numero 
de gente , de que fe chufmáram as noíías Ga- 
lés. Em quanto eftas coufas paflaram , fucce- 
deo huma defgraça mui grande a Franciíco 
Pereira de Berredo Capitão de Chaul , e foi , 
que tendo o Tanadar de Chaul guerra com 
os Capitães (PElRey de Cambaya feus vizi- 
nhos , que lhe entraram por feus limites , e 
demarcações , fazendo-lhe mui grandes da- 
irmos; pelo que lhe foi forçado foccorrer-fe 
a -Francifco Pereira Capitão de Chaul , fa- 
zendo-lhe requerimentos , que pelo contrato 
das pazes eftava obrigado a lhe dar foccor- 
ro , e ajuda contra feus inimigos : que km 
ter licença do Governador , ajuntando cen- 
to e cincoenta de pé > e quaíi vinte de ca- 
vallo , em companhia do Tailadar de Chaul 
com a fua gente , foram bufear os inimigos 
dalli a mais de huma légua , que eram mais 
de duzentos de cavallo , e dous mil de pé: 
que vendo os jioílos ferem tão poucos , por- 
que hiam na dianteira , arremettêram com el- 
les ) e poíto que nos primeiros encontros fi- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IX. 9? 

zeram os noflbs mui grande rcfiítencia , ma^ 
tando, e derribando muitos, todavia como 
o número era tão deíigual, e de ventagem , 
e o Tanadar com os léus fe poz logo em 
desbarate , ficando os noíTos tendo o pezo 
da batalha , carregando o poder todo fobre 
elles , os romperam , e puzeram em fugida , 
matando muitos , falvando-fe Franciíco Pe- 
reira com mui grande trabalho , e rifeo. Ef- 
ta deígraça fentio tanto o Governador , que 
o mandou levar prezo pêra Goa. António da 
Silveira , que eflava no rio de Bombaim , tan- 
to que foube deite negocio , que lhe logo 
chegou , acudio a Chaul com toda a Arma- 
da , com cuja chegada os inimigos fe reco- 
lheram. E por concluirmos com as coufas 
defte verão de António da Silveira , elle fc 
deixou andar por aquella coíla o reíto do ve- 
frão , fazendo cruel guerra a Cambaya , até 
fer tempo de fe recolher a invernar a Goa, 
aonde o deixaremos por continuarmos com 
Diogo da Silveira Capitão mor doMalavar. 
Andava eíle Capitão por aquella coíla 
fazendo guerra aos Mouros ; e vindo-fe o 
Governador recolhendo pêra Goa , depois 
de dar expediente ás náos do Reyno , dei- 
xou-lhe hum regimento \ que fe foííe a Ca* 
lecut ver com o Çamorim a tratar fobre 
o negocio das pazes , com que a Cochim 
o mandou apalgar. Diogo da Silveira foi* 

fe 



t>6 ÁSIA de Diogo de Couro 

fe por fobre aquella bahia com toda a Ar- 
mada , e mandou viíítar o Çamorim , e fa- 
ber deíle o modo que queria ter nas pazes , 
que mandara commetter ao Governador. O 
Çamorim recebeo efte recado mui bem , mof- 
trando grandes defejos de amizades , man- 
dando-lhe dizer , que fua vinda foffe boa. , 
que logo lhe refponderia ; e na verdade elle 
deíejava muito de acabar a guerra comnof- 
co , porque lhe não vinha bem delia j mas 
como os Mouros por quem fe élle gover- 
nava eram nofios inimigos mortaes , buft 
cáram todos os modos pêra eflor varem as 
pazes como fizeram, traftornando o Çamo-> 
rim de forte , que quando Diogo da Silvei- 
ra efperava por boa reípoíla , lhe acudio 
com defpropoíitos bem grandes , de que et? 
le tomado , ordenou de lhe queimar a Ci- 
dade. E fallando corn alguns marinheiros 
nofíbs , commettendo-os que foíTem em fe-:- 
gredo áquelle negocio , enfaiando-os de co* 
mo o haviam de fazer, contentando-os pêra 
iífo bem , oiferecêram-fe pêra o que clle pre- 
tendia. Diogo da Silveira mandou aífeftar a 
srtiiheria de toda a Armada na frontaria da 
Cidade, e hum dia de madrugada fe foram 
a terra certos marinheiros em huma alma? 
dia mui pequena, e apartando-fe , puzeram 
fogo á Cidade da banda do mar com par 
iieilas de pólvora j ecomo ascafas eram de 

foz 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IX. 97 

folhas de palma feccas , e o vento varejava 
do mar , aíli fe ateou , que parecia hum di- 
luvio de fogo , recolhendo-fe os marinhei- 
ros á almadia. A gente da Cidade faltou fo- 
ra das cafas acudindo pêra apagar o fogo , 
e andando todos apinhoados , defcarregou a 
nofla artilheria em meio delles , efez por to- 
da a Cidade hum notável eftrago. O fogo 
foi creícendo , e fempre fe confumíra toda , 
fe o vento não acalmara ; e pela muita dili- 
gencia que fepoz, o apagaram, ficando to- 
davia duzentas cafas feias em cinza* Acaba- 
do eíte negocio , de que o Çamorim ficou 
muito aífrontado , repartio Diogo da Silvei- 
ra lua Armada pelas bocas das barras dos 
rios principaes por onde coftumavam fahir 
fuás náos pêra Meca , pêra lhe impedirem a 
viagem, (que he a maior guerra que fe lhe 
podia fazer , ) como de feito não puderam 
lançar nenhuma fora , no que todos recebe- 
ram mui grandes perdas, pelo que ospuze- 
ram em grandes neceífidades. E paliado o 
tempo da navegação , ajuntou o Capitão mor 
fua Armada , e fe foi recolhendo pêra Goa ; 
e porque já hia avifado , que o fenhor da 
Cidade de Mangalor , vaflallo d r E!Rey de 
Bifnaga , que eraanfgo doEftado, manda- 
va fazendas do Çamorim em fuás náos pê- 
ra Meca , o quiz caítigar por iíTo : e entrou 
aquelle rio de madrugada, fein fe osdater- 
Louto. Tom. L P- //• G ra 



98 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra recearem de coufa alguma ; e chegados 
á Cidade , defembarcáram Jogo nella , e a com- 
menêram, pondo-lhe o fogo por muitas par- 
tes, E poíto que logo acudiram os inimigos , 
e fe piizeram em defensão , tanto apertaram 
os noíTos com elles , que com morres de mui- 
tos os arrancaram da Cidade, ficando os nof- 
fos no meio delia , mandando-a efcalar , quei- 
mar , e aífolar , achando-fe muitas fazendas 
de que fe os nolTos carregaram bem j e as 
principaes foram , coral , cobre , azougue , 
roupas finas , de que fe abarrotaram os na- 
vios todos. Acháram-fe na Cjdade perto de 
feífenta peças de artilharia , as mais delias de 
bronze , que o Capitão mor mandou reco- 
lher , e depois de não haver que queimar, 
por tudo íer feito cinza, cortaram todos os 
palmares , e fazendas , que havia derredor 
da Cidade, deixando tudo tão efcalado, e 
deílruido , que muitos annos não tornou a 
feu primeiro eílado, ecom iílo feito fe re- 
colheo a Goa. O Governador defpachou nó 
cabo do verão todas as coufas que haviam 
de ir pêra fora , Gonçalo Pereira Fidalgo, 
mui bom Chriftão , e muito bom Cavallei- 
ro , pêra a Capitania de Maluco , de que era 
provido , dando-Ihe hum Galeão , e outros 
navios, e muitos provimentos , aíli pêra Ma- 
luco, como perà Malaca, proveo Ormuz, 
Gananor, Coehim* Eíte Abril veio a Goa 

Mar- 



Dec. IV. Liv. IV. Caí. IX. eX. 99 

Martim AfFonfo de Mello Juzarte com oâ 
Portuguezes , que com elle foram cativos de 
Codavafcão , que foram refgatados por or- 
dem de Lopo Vaz de Sampaio , que a iflb 
mandou Coge Sabadim , que os refgatou por 
três mil cruzados , que o Governador lhe 
mandou pagar mui bem , e recebeo aquelle 
Fidalgo com muitas honras, fazendo-Ihe mer- 
cê de dinheiro a elle, e a todos os que com 
elle vieram pêra fe veftirem , e remediarem ; 
e com ilTo fe ferrou o inverno. 

CAPITULO X. 

Das coufas que aconteceram no Eftreito do 
mar Roxo : e de como Mojlafd Baxd , e 
EIRey de Xael foram cercar a Cidade de 
Adem : e do que aconteceo a Heitor da 
Silveira naquelle FJireito , e chegou a 
Adem , e favor eceo aquelle Rey , e o fez* 
tributário ao de Portugal. 

NO principio* deita Década demos lar- 
ga conta da Armada que o Turco 
mandava contra os Portugueses , que não 
houve efFeito pelas defavenças de feus Capi- 
tães 5 e morte do feu General ; e de como 
Moftafá fobrinho do Baxá morto lançara 
mão de toda fua cafa , eferavos , thefouros , 
e em íinco galés fe fora pêra fora do Ef- 
treito , por onde andou até António de Mi- 
G ii ran- 



ioo ÁSIA de Diogo de Couto 

randa fe recolher , ficando fazendo guerra ao 
Rey de Adem , em favor d'ElRey de Xael , 
como já atrás diíTemos , que andavam em 
guerras travadas. E já o verão que António 
da Silveira foi ao Eftreito , fe valeo o Rey 
de Xael de Moftafá contra o de Adem. E 
profeguindo na guerra , os mandou chamar a 
Xael para juntos a fazerem. E vendo-fe to- 
dos , tratou com Moítafá conquiílarem aquel- 
le Reyno , fazendo entre li feus partidos : 
pelo que defembarcáram fua artilheria , the- 
fouros , munições, e gente, e ambos entra- 
ram pelas terras de Adem , fazendo-lhe toda 
a guerra que puderam, no que gaitaram ef- 
te anno paíTado. E neíle em que andamos 
ajuntando exércitos de mais de vinte mil ho- 
mens , tornaram a pôr cerco a Adem pela 
banda do fertao , onde fizeram feus vallos , e 
trincheiras , e aíTefláram a artilheria que Mof- 
tafá tomou das galés , e começaram a bater 
aquella Cidade mui rijamente , mandando-lhe 
tomar os paflos todos , pflrque lhe não pu- 
deífe entrar coufa alguma de provimentos , 
com o que puzeram aquelle Rey em tama- 
nho aperto , que íem dúvida fe perdera , fe 
não chegara áquelle porto a noíía Armada , 
de que era Capitão Heitor da Silveira , que 
como atrás diíTemos , o Governador Nuno da 
Çpnha defpedio de Goa primeiro que fe par- 
tiífe pêra Cochim /que íe foi pôr a monte 

de 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. X. ioí 

de Félix, onde as náos que vam pêra o Es- 
treito de Meca vám demandar. Alli lhe vie- 
ram cahir nas mãos algumas náos de Mou- 
ros carregadas de pimenta , drogas , e rou- 
pas , que foram commettidas dos nofTos na- 
vios , e poílo que fizeram bem de reíiftencia , 
foram entradas , e aíToladas , não deixando 
de cuftar fangue de alguns que íahíram bem 
feridos. E paliando as fazendas aos Galeões 
da Armada , deixáram-fe andar naquella pa- 
ragem até fim de Março , em que fe haviam 
de recolher a invernar a Ormuz , como le- 
vava por regimento. E fazendo-fe á vela com 
as náos de preza , chegando ao porto de 
Adem, furgíram , havendo féis mezes que a- 
quella Cidade eftava de cerco. Sabendo Hei- 
tor da Silveira o aperto em que eftava , man- 
dou viiitar EIRey , e dizer-lhe , que por fa- 
ber o trabalho em que eftava o vinha foc- 
eorrer com aquella Armada, cheia de mui- 
tos , e valerofos foldados , todos com mui- 
to grande deíejo de fe arriicarem por feu 
ferviço a tudo : que elle eftava alli preftcs 
pêra o favorecer, e ajudar naquella guerra, 
e que eftiveíle de bom animo , porque elle 
o ajudaria a lançar os Turcos fora da ter- 
ra , porque feria muito grande damno de to- 
da Arábia metterem pé em alguma parte del- 
ia , porque eram gentes infames , e cruéis, 
e onde quer que chpgavam ufavam grandes 

tyv 



102 ÁSIA de Diogo de Couto 

fyrannias , e não guardavam fé , nem pala- 
vra a pefíba alguma. Iílo lhe mandou dizer, 
porque fe eíliveíTe aballado pela neceílidade 
em que efiava a alguma coufa , o tirafle de 
fua determinação , com lhe reprefentar os 
Turcos de maneira , que lhe ficaflem odio- 
fos , e avorrecidos. EIRey que eílava medro- 
io , e atemorizado , eftimou muito os offe- 
recimentos de Heitor da Silveira , mandan- 
do-lhe muitos agradecimentos , e dizer-lhe , 
que pois oíbccorria em tal tempo, que el- 
le por fe não moílrar ingrato , fe queria fa- 
zer vaífalío d'ElRey de Portugal , com as 
condições que foífem juílas , pêra lhe ficar 
afíi mor obrigação de o ajudar , e favo- 
recer : que mandaíTe a elle huma peífoa 
pêra aíTentar as pazes , e contratos. Heitor 
da Silveira mandou logo hum homem de 
recado , com apontamentos , e poderes pê- 
ra alfentar as pazes , que foi bem recebi- 
do. E praticando com EIRey fobre aquel- 
le negocio , concluíram os Capítulos fe- 
guintes. 

Que EIRey de Adem fe fazia vaíTallo 
d'ElRey D. João de Portugal , e de todos 
feus defcendentes , com dez mil pardacs de 
ouro de páreas cada anno , de que logo en- 
tregaria mil e quinhentos , (como entregou) 
pêra com elles fe fazer em Ormuz huma co- 
roa de ouro pêra EIRey > que fe lhe mau* 

da- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. X. 103 

daria nas primeiras náos ? em primícias da-» 
quelle tributo. 

Que as náos d'E!Rey de Adem , e de 
feus mercadores , poderiam livremente nave- 
gar pêra todas as partes que quizeííem , ti- 
rando pêra Meca , fem noíías Armadas en- 
tenderem com ellas. E diílo dizCaílanheda , 
que fe fizeram papeis , que nós bufcámos bem 
nos Cartórios da índia , de que não achá- 
mos raíto, nem no livro do Feitor deita Ar- 
mada , que todo corremos , nem no do Fei- 
tor que então era em Ormuz achámos car- 
regados eíles mil e quinhentos cruzados , on- 
de era obrigação eftarem receitados : por on- 
de não fabemos onde eítá a verdade diílo , 
mais que acharmo-lo em algumas lembran- 
ças de mão , e referido em Caílanheda , que 
concorreo neíle tempo , e não havia de es- 
crever fem fundamento. 

E tornando á noíTa hiíloria , os Turcos 
tanto que alli viram a noíTa Armada , levan- 
taram Jogo o cerco, e fe foram pêra Xael, 
porque não foíTem os noiíos tomar-lhe a lua 
Cidade. Heitor da Silveira tanto que teve 
novas diílo , que lhas enviou EIRey , man- 
dou-lhe pedir licença , e a defpedir-fe del- 
le , e deo á vela pêra Ormuz , deixando al- 
li hum navio de remo 3 pêra fazer arribar 
as náos áquelle porto , de que era Capitão 
humFoão Carvalho, ficando em Adem al- 
guns 



104 AS1A de Diogo de Couto 

guns Portuguezcs ., que fe quizeram fazer 
mercadores. Chegou a Armada a Ormuz on- 
de invernou , e quafi meio do inverno fale- 
ceo Chriftovao de Mendoça Capitão daquel- 
ia fortaleza , e íuecedeo Belchior de Soufa , 
por huma Provisão que lhe deixou Nuno 
da Cunha. Partido Heitor da Silveira de A- 
dem , chegou áquelle porto huma náo de 
Portuguezcs carregada de fazendas ; e como 
aquelle Rey tudo o que fez foi com medo , 
e neceífidade , tanto que fe vio defaíTombrado 
aíli da noífa Armada , como da dos Tur- 
cos, quiz-fe pagar dos mil e quinhentos par- 
daos que dera, e lançou mão dos mercado- 
res , e fazendas , mandando cortar as cabe- 
ças a todos; e aíli tomou o navio de remo > 
é mandou matar todos os que nelle anda- 
vam. 

CAPITULO XI. 

Das coufas que aconteceram em Maluco 
entre Portuguezes , e Cajlelhanos : e de 
como D. Jorge de Menezes o cercou na 
fortaleza de Tidore , e fe deram a par* 
tido , com condição > que fe fahijfem da- 
quellas Ilhas. 

TEmos deixado as coufas de Maluco em 
tregoas quebradas entre os noífos , e os 
Caílelhanos, que de trezentos que eram, já 
páq havia mais de ceato > porque os mais 

S aí; 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XI. io? 

gaitou a terra , e as enfermidades caufadas 
das demazias a que fe deram. Eftes tornaram 
a reedificar , e fortalecer os baftioes , e for- 
tes , que Marcim Inhegues fabricou febre a 
bahia daquella Cidade , em que fe recolhe- 
ram , porque também fe não fiavam da gen- 
te da terra , tanto que fe defcuidaífem. E co- 
mo eílavam já defpezos , viviam com traba- 
lho , e eílavam tão enfadados , e não menos 
o eílavam os noífos em Ternate , porque de 
nenhuma parte viam vir-lhes foccorro , nem 
da índia, nem de Malaca, eílando com os 
olhos longos efperando por D.Jorge de Caf- 
tro, pêra ver fe lhe trazia algum de Banda, 
onde tinham ido , porque haviam que na 
índia fe mo fazia conta daquellas Ilhas. O 
que os tinha poítos em muito grande def- 
confiança , porque totalmente eílavam faltos 
de tudo , e na fortaleza não havia mais de 
cento e vinte homens. De maneira , que aflim 
os noífos , como os Caílelhanos , eílavam 
em hum eílado tão miferavel , que fe osna- 
turaes daquellas Ilhas quizeram entender nel- 
les , faciliflimamente puderam extinguir am- 
bas aquellas nações. Mas como todos cita- 
vam com o olho no grande interefle que 
do commercio de huns , e de outros tinham , 
não fe lhes entrou nunca eíla imaginação , 
antes parecia que por elle os amavam mais 
do que fe amavam Portuguezes, e Caftelha- 
nos , 



to6 ÁSIA de Diogo de Couto 

nos , fendo de huma meíma Lei , e tão con- 
juntos per natureza , e parentefco , que qua- 
jíí eram huns : e cada Rey flaquelles eftava 
tão ociofo do que tinha em feu Reyno , que 
haviam que os ares lhos furtavam. Nefte tem- 
po chegou D. Jorge de Caftro , ( que como 
atrás difiemos foi á Ilha de Banda ver le 
achava alguns navios noííos , pêra tomar al- 
guns provimentos, e gente , ) que nada trou- 
xe , porque alguns que achou de mercado- 
res Portuguezes , zombaram delle , e não lhe 
quizeram dar fuás fazendas , por quão mal 
os Vifo-Reys , e Capitães pagavam as que 
lhe davam pêra fuás neceflidades. Em quan- 
to eíleve em Banda , EíRey de Tidore man- 
dou alguns homens feus em companhia de 
alguns Caftelhanos áquellas Ilhas a folicitar 
commercio , e amizades delias pêra EIRey 
de Caílella , engrandecendo-lhe feu eftado , 
grandeza , e poder , e abatendo no de Por- 
tugal , e quafi que tiveram convencidos to- 
dos aquelles Bandezes a feguirem a parte de 
Caílella : o que não bailou com o Rey de 
Cachão , (com que mettêram muito cabedal 
nefte negocio , ) pêra deixar o ferviço d'El- 
Rey de Portugal , e amizades dos Portugue- 
zes , o que fez ao contrario do Rey de Gei- 
lolo , que fe lançou á parte de Caílella , e 
os favorecia na guerra contra os Português 
zes. Succcdeo nefte mefmo tempo arribar a 

náo 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XI. 107 

náo de Álvaro de Sayavedra , que atrás dei* 
xámos partido de Tidore pêra a nova Hef- 
panha 5 carregada de cravo, que por infor- 
túnios que no mar teve , e enfermidades que 
deram em todos, faleceo elle , e a mor par- 
te da gente , e a náo com poucos que lhe 
ficaram , tornou a arribar ás Ilhas de Maia* 
co j e não pode tomar fenão o porto de Ca- 
mafo da Ilha do Moro. Difto foi logo Dom 
Jorge de Menezes Capitão de Maluco avi- 
fado, e armando algumas Corocoras , e na- 
vios , que havia na fortaleza, embarcando- 
fe com alguns Portuguezcs , e Cachil Du- 
rões com trezentos Terna tes , deo comíigo 
no porto de Camafo , onde os Caílelhanos 
eftavam perdidos , e desbaratados, que Jogo 
fe entregaram a D. Jorge , e elle os trou- 
xe com fuás fazendas pêra a fortaleza , on- 
de os mandou curar , e agazalhar muito 
bem , mandando Fernão de ia Torre pedir- 
lhos , a que elle não refpondeo a propoíito. 
lílo conta o Clérigo Francifco Lopes de Go* 
mara na fua hiíloria das índias , e de Mé- 
xico , foi. 282. por bem diíFerente maneira , 
e muito fora da verdade ; porque diz , que 
D.Jorge cativou eíla gente em Malaca , on- 
de ella fora ter , e que dous annos tivera to- 
dos em cárcere , em que morreram dez Hef- 
panhoes , fendo a verdade o que temos con- 
tado i e D. Jorge de Menezes tratou tão 

bem 



io3 ÁSIA de Diogo de Couto 

bem cíles Hefpanhoes , como fe foram pró- 
prios naturaes : nem eíles daqueila arribada 
foram a Malaca, nem foi D.Jorge dcCaf- 
tro o que os reteve , fenao D.Jorge de Me- 
nezes ; e o Reverendo Padre foi mal infor- 
mado , ou teve pouco efcrupulo de alevan- 
tar aos Portuguezes efte aleive. Quafi nefta 
mefma conjunção fe travaram alguns Senho- 
res da Ilha do Moro em guerra huns com 
os outros , ao que acudio EtRey de Tido- 
re , e feu irmão Cachii Radé com fua Ar- 
mada a favorecer feus alliados , e amigos 
contra os dos Portuguezes ; e em fua com- 
panhia mandou Fernão de la Torre cinco- 
enta Caftelhanos , pêra que viílem aquelles 
Reys , com quem eftava confederado , o co- 
mo acudiam a favoreceiíos. Diíto foi logo 
aviíado D. Jorge de Menezes ; e fabendo 
que em Tidore não ficaram mais que qua- 
renta , ou cincoenta Caftelhanos , determi- 
nou de dar naquella Ilha , não defeubrindo 
a peflba alguma fua tenção , e fez preftes al- 
gumas embarcações , pedindo a Cachii Da- 
roes , que o acompanhafle com fuás Coro- 
coras , porque dererminava de ir pelejar com 
a Armada de Tidore , e de Geilolo , que 
andavam fora , o que elle fez com a melhor 
gente que tinha. E D. Jorge de Menezes 
entregando a fortaleza a Gomes Ayres com 
yinte Portuguezes ; embarcon-fe , levando 

to- 



Dfc. IV. Liv. VL Cap. XI. 109 

todos os mais de Tcrnate , cuidando todos 
que hia buícar o inimigo. E fem dar con- 
ta a ninguém de fua tenção , fe fez na volta 
de Tidore , onde chegou de madrugada , c 
defembarcando em terra fem ler fentido, com- 
metteo a Cidade , onde não achou quem lha 
defendefle , mandando logo pôr a ferro , e 
a fogo tudo. EIRey que era moço , com al- 
guns que ofeguíram, acolheo-fe pêra afer- 
ra , e eítcve muito perto de fer cativo. Dom 
Jorge não fe fahio da Cidade até a deixar 
toda aííolada ? e feita cinza ; e como não 
teve que fazer , foi pôr cerco ao forte em 
que eliavam os Caílelhanos , a quem man- 
dou requerer que fe entrcgaíTem , que elle 
os deixaria ir livremente sãos , e laivos 
com fuás armas 3 e fazendas , e não quizeí- 
fem que terras de gentes tão barbaras como 
aquellas foliem banhadas com íangue Chri- 
flao : e que era mui grande efcandalo pcra 
todo o Mundo , fendo de huma mcfma Lei , 
e quafí naturaes , eftarem tão divididos , e to- 
marem armas huns contra outros em meio 
de inimigos , quedefejavam de lhes beberen* 
o fangue : que o Imperador não fe havia de 
haver por fervido diíTo , nem do direito da- 
quellas Ilhas ficar nas armas , fenão na ra- 
zão , e na juíliça. A elle recado refpondeo 
Fernão de la Torre com palavras mui fo- 
fcerbas ; e arrogantes ; pelo que D. Jorge 

man- 



no ÁSIA de Diogo de Couto 

mandou dcíèmbarcar algumas peças de ar- 
trlheria , e afleftallas na parte que lhe me- 
lhor parecco , e mandou bater o forte , e 
ordenar efcadas pêra lhe dar aíTalto : o que 
vifto por Fernão de la Torre , mandou pedir 
feguro a D.Jorge pêra fe ver com elle , que 
lho mandou , e logo veio acompanhado de 
alguns poucos. D.Jorge o fahio a receber, 
fazendo-lhe grandes honras , e gazalhados ; 
c praticando fobre eftas coufas , havendo al- 
teração de parte a parte, vieram a fe con- 
cluir em pazes entre ambos , com as con- 
dições feguintes : 

)> Que os Caftelhanos fe fahiflem daquel- 
0) Ias Ilhas, e fe foífem pêra o lugar deCa- 
2) mafo , na coita do Moro , pêra o que Dom 
» Jorge lhe daria embarcações pêra fe paf- 
» íarem lá b onde citariam até vir recado de 
)> Heípanha , e de Portugal , pêra verem a 
» determinação que aquelles Reys tomavam 
» fobre as coufas deitas Ilhas. 

)> E que eftariam fem tratarem , nem com- 
» prarem cravo algum. 

» E que tornariam állha de Maquiem y 
)> que tinham tomado aElRey deTernate, 
» e não feriam contra elle , nem contra o 
» de Bachão , nem ajudariam a EIRey de 
» Tidore , nem ao de Geilolo contra Por- 
» íuguezes , nem contra os Reys íèus con- 
» federados, 

»E 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XI. nr 

)) E que fe fariam entrega huns aos ou* 
» íros de tudo o que tinham tomado na 
» guerra. » De tudo íè fizeram autos , e pa- 
peis aííinados por todos , e juraram as pa- 
zes íblemnemente : e logo fe fizeram entre- 
ga das coufas que tinham , e D. Jorge lhes 
deo embarcações pêra todas fuás coufas , e 
os mandou pôr no lugar de Camafo , don- 
de Fernão de la Torre defpedio no Galeão 
da carreira hum Pêro de Montemor com 
cartas pêra o Governador da índia , em que 
lhe pedia embarcação , e defpacho pêra fe 
pa(Tar com todos os Caftelhanos á índia, e 
aíli os deixaremos até feu tempo. 




DE- 



«I ♦vil 

DÉCADA QUARTA. 
LIVRO VIL 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO I. 

Do concerto , £ contrato , ^^f ElRey Dom 
João fez com o Imperador Carlos Quin- 
to fobre as Ilhas de Maluco : <? r/<2 ^?r- 
#&?;/;? que ejle annopartio do Reyno. 

COmo o Imperador Carlos Quinto , 
que efte anno paflado de vinte nove 
le tinha coroado por Imperador de 
Alemanha , eílava muito defpezo pelas con- 
tínuas guerras em que andava y e as diffe- 
renças entre elle, e ElRey D.João de Por- 
tugal o Terceiro fobre as coufas de Ma- 
luco eftavam cada vez mais accezas , e o 
grande parentefeo , e amizade , que entre cl- # 
les havia, era muito grande freio pêra não 
romperem de rodo ; ordenaram de tomar 
hum meio honeílo neíle negocio , com que 
ie acabaífem as contendas todas , pêra o que 
fizeram feus procuradores bafíantes pêra de- 
ter- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. L 113 

terminarem a caufa , que fe ajuntaram na 
Cidade de Çaragoça , onde concluíram fo- 
bre as coufas de Maluco > e fizeram hum 
contrato 5 cujo theor de 'verbo ad verbum 
he o íeguinte : 

» A vinte e dous dias de Abril de mil 
» quinhentos vinte e nove annos na Cidade 
» de Çaragoça de Aragão , foram juntos 
» Mercúrio de Gatinara Conde de Gatinara 
)> Chanccller mor do Imperador Carlos Quin- 
» to Rey de Caftella , e D. Fr. Garcia de 
» Loyafla Bifpo de Ofma feu Confeflbr, e 
» D. Fr. Garcia de Padilha Commendador 
.» maior de Calatrava, procuradores de Sua 
» Magcílade , e Franciíco dos Covos feu 
>) Secretario , e Efcrivão , e Notário públi- 
» co , e o Licenciado António de Azeve- 
» do Coutinho , Embaixador, e Procurador 
» d'ElRey D.João o Terceiro de Portugal: 
» E diíTeram os três procuradores de Sua 
a Magcílade , que em feu nome , e por vir- 
)> tude de fua procuração vendiam 5 como 
» defeito o venderam daquelíe dia para feri? 
y> pre a EIRey de Portugal , e todos feus 
» SucceíTores da Coroa de feus Reynos , to- 
» do o direito , acção , domínio , proprie- 
» dade , poíTefsao , ou quaíi poíTefsao , e to- 
> do direito de navegar , contratar, ecom- 
» merciar por qualquer modo quefofle, que 
» o Imperador Rey de Caftella dizia , e po- 
Couto.Tom.LP.iL H dia 



H4 ÁSIA de Diogo de Couto 

^ dia ter , por qualquer via , modo , e ma- 
)} neira que fofle em Maluco , com os lu- 
>} gares , e terras , mares , fegundo feria ao 
^ diante declarado , por preço de trezentos 
}) e cincoenta mil cruzados de ouro , e pra- 
^ ta ? que valeílem em Caftella trezentos e 
>) fetenta e finco maravedis cada hum. E que 
i em qualquer tempo que o Imperador , e 
^ feus SucceiTores tornarem o dito dinheiro 
» fem lhe faltar coufa alguma a EIRey de 
>, Portugal , e feus SucceiTores , fica a dita 
)) venda desfeita , ficando cada hum com o 
» direito que tinha dantes. E pêra fe faber 
» a repartição, haviam por deitada huma li- 
» nha de pólo a pólo , por hum femicircu- 
)) lo que diftaíTe de Maluco ao Nordeíle , to* 
a mando a quarta de Lefle dezenove gráos , 
a a que refpondiam dezefete gráos eicalíos 
» em a Equinocial , em que montavam du- 
» zentas noventa e fete léguas e meia a Ori- 
» ente de Maluco , dando dezefete léguas e 
> rneia por gráo Equinocial , em cujo me- 
)> ridiano ? e rumo de Nordefte , e quarta 
» de Leite eftavam fituadas as Ilhas das Vé- 
» las por onde paííava a dita linha , e femi- 
» circulo. E fendo cafo que as ditas Ilhas 
» eíliveíTem , ou diftaíTem mais , ou menos de 
» Maluco , todavia a dita linha ficaffe lan- 
» cada nas ditas duzentas noventa e fete le- 
» guas e meia mais a Oriente de Maluco : 

» do 



Dec. IV- Liv. VIL Cap. I. n y 

» do que fe fariam dous padrões iguaes a£ 
» finados por os Reys , e fellados de feus 
» Sei los , pêra ficar a cada hum o leu , pe- 
» ra feus vaífallos faberem por onde haviam 
» de navegar. 

» Que em qualquer tempo que EIRey 
» de Portugal quizefFe que fe viíle o direi- 
» to da propriedade de Maluco , e as ter- 
» ras conteúdas no contrato , poílo que o 
» Imperador não tenha tomado o preço , 
» nem o contrato fofle refoluto , cada hum 
» dos ditos Senhores nomeaífe três Aílrolo- 
» gos, e três Pilotos , que fe ajuntariam em 
» hum dos lugares da arraia que lhe foífe 
» nomeado , aonde aííentariam da maneira 
» em que fe havia de ir ver o direito da pro- 
)> priedade , conforme as capitulações feitas 
» entre os Reys Catholicos , e EIRey Dom 
» João o Segundo de Portugal. E fendo ca- 
» fo que fe julgalTe o direito por Caftella , 
» não fe executaria , nem ufaria de tal fen- 
» tença , fem primeiro tornar realmente os 
» trezentos ecincoenta mil cruzados. E que 
» fendo julgado o direito por EIRey de Por* 
» tugal , leria obrigado o Imperador tornar 
» o dito dinheiro , do dia da fentença a qua- 
a tro annos primeiros feguintes. 

» E vindo de qualquer parte algumas 
» drogas 5 ou efpeciarias aos Reynos de Caf- 
j> tella y ou Portugal , feriam depofitadas até 
H ii » fe 



n6 ÁSIA de Diogo de Couro 

O) íe faber Te eram da parte que cabiam a 
K Portugal , ou Caítella , e dar-fe-hiam a 
» quem pertenceííem. E fendo levadas a ter- 
)) ra dos inimigos , cada hum dos Reys as 
» poderia pedir por autos , fem outro po- 
3> der , nem procuração ; o que íe não en- 
)) tenderia nas que íbííem pêra EIRey de Por- 
» tugal. 

» Que da dita linha pêra dentro não po- 
)> deriam as náos do Imperador , nem de íèus 
» fubditos , e vaífallos , nem de algumas ou- 
» traspeííoas, entrar com feu favor, e aju- 
)> da, nem fem ella tratar, navegar, com- 
)> merciar , nem carregar coufa alguma de 
» qualquer maneira , e forte que foííe ; e 
» quem o contrario fizefle , feria prezo por 
)> qualquer Capitão , ou jufíiça cPElRey de 
» Portugal l e por elles ouvidos , e caíliga- 
» dos como coífarios , quebrantadores da 
» paz y e não fendo achados dentro da li- 
» nha , e indo ter a algum porto outro do 
)> Imperador , as fuás juítiças os prenderiam , 
» e caftigariam , como lhe foííem moítrados 
* autos , e pefquizas , porque foífem obriga- 
» dos. 

» Que o Imperador poríí , nem porou- 
» trem , não enviaria as ditas Ilhas , e ma- 
» res dentro da dita linha , nem confenti- 
o* ria que lá foííem feus vaííallos naturaes > 
a nem -eitrangeiros ; peito que naturaes , nem 

» vai- 



Dec. IV- Liv. VIL Ca?. I. 117 

» vaífaUos foíTem , nem lhes daria favor , 
» nem ajuda , antes feria obrigado a defen- 
» dello quanto nelle foffe , e mandando , ou 
» dando favor , ou ajuda 5 e o não eílorvaf- 
» fe ? e defendeífe , que o diro padlo dere- 
» tro vendido fkaíTe logo refoluto. E El- 
» Rey de Portugal não feria mais obrigado 
)> a receber o dito preço , nem a retro ven- 
» der o direito , e acção que o dito Irnpe- 
» rador por qualquer maneira podia ter nel- 
» le : antes por virtude do contrato tinha 
)> vendido , renunciado , e trafpaifado em Eí- 
» Rey de Portugal ; e pelo dito feito a di- 
» ta venda fique pura , e valiofa pêra fem- 
» pre. Neíla pena não incorreria quando ai- 
» guns feus. vaífallos navegando poreífemar 
» do Sul , entraífe com fortuna ? e tempo 
a fortuito a dita linha , porque então feriam 
» bem tratados , como vaíTallos d'E!Rey de 
» Portugal , e do Imperador feu irmão 3 e 
» ceifando a neceífidade , fe tornariam logo 
» a fahir. E paífando adita linha por igno- 
» rancia , não incorreriam por iífo em pena , 
» até lhe não conftar que eftavam dentro ; e 
» fe não fahiíTem , e defcubrindo-os que af- 
» íi entravam algumas terras , ou Ilhas den- 
» tro da linha , feriam d'E!Rey de Portu- 
jè gal , como fe as defcubriífem feus Capi- 
» tães , e vaífallos. 

» Que asnáos do Imperador , e de feus 

vaf- 



n8 ÁSIA de Diogo de Couto 

» vafíallos , e naturaes , poderiam navegar 
)> pelos mares por onde as Armadas cPEl- 
» Rey de Portugal hiam pêra a índia , tan- 
» to quanto lhe foíTe neceílario pêra toma- 
» rem fuás derrotas pêra o Eítreito de Ma- 
» galhaes ; e navegando mais pelos ditos iria- 
)) res d'E!Rey de Portugal, incorreriam nas 
» ditas penas acima declaradas , c todos fe- 
» riam caftigados pelos Capitães d'ElRey de 
» Portugal , fe por elles foffem achados. E 
» indo ter ás terras do Imperador , o feriam 
» porelle, efuas juíliças , mandando-lhe as 
» culpas , em que incorreriam da notificação 
» do contrato em diante : o que fe não en- 
» tenderia nas Armadas que o Imperador ti- 
» nha já mandadas áquellas partes, e do dia 
)> da outorga do contrato em diante não po- 
)> deria mandar outras de novo , fem incor- 
)) rer nas ditas penas. 

» Que ElRey de Portugal não poderia 
» fazer, nem mandar fazer dentro da dita li- 
» nha nenhuma fortaleza de novo , nem 
)> fe faria na que eftava feita obra de novo > 
y> mas poder-fe-hia fuftentar no eftado em 
» que então eftava , e juraria de o alli cum- 
» prir. 

» Que as Armadas que o Imperador lá 
» tinha mandadas feriam bem tratadas , e 
» favorecidas , como fe foífem d'E!Rey de 
» Portugal , e não lhes foífe poílo embara- 

» $o, 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. L 119 

» ço , nem impedimento á fua navegação , 
» e contratação : e que fe damno algum hou- 
» veíTem recebido , ou recebeíFem , ou lhe 
)) tivelTem tomado algumas coufas, feria obri- 
» gado EIRey de Portugal emendar , e fa- 
)> tisfazer, e pagar logo no em que o Im- 
)) perador , e feus fubditos houveíTem íido 
)> damnificados , ede mandar punir os que o 
» fizeram, e de prover com que as ditas Ar- 
)) madas pudeííem ir quando quizeífem fem 
» impedimento algum; e o Imperador man- 
» daria logo fuás provisões para os que ef- 
» tiveíTem no dito Maluco fihirem logo del- 
» le , e não contratariam mais coufa algu- 
» ma , e lhes deixariam trazer o que tivef- 
)> fem refgatado, contratado , e carregado. 
» Que nas provisões 3 e cartas que ácer- 
» ca defte contrato o Imperador havia de paf- 
» far , diria o que dito era , fe aífentava , 
» capitulava , contratava , valeífem bem co- 
» mo fe foíTe feito , e paífado em Cortes ge- 
-» raes , com o confentimento expreífo dos 
» procuradores delias ; e que pêra validiçao 
» diíTo , de feu poderio Real abfoluto , de 
» que como Rey , e Senhor natural , não re- 
» conhecente fuperior em o temporal ? hou- 
» veíTe de ufar , e ufava , abrogava , e de- 
)> rogava , caíTava , e annullava a fupplica- 
» ção que os Procuradores das Cidades, e 
» Villas de feus Reynos em as Cortes que 

» fe 



120 ÁSIA de Diogo de Couto 

» fe celebraram na Cidade de Toledo o 
)) anno paliado de vinte e cinco lhe fíze- 
» ram acerca do tocante a contratação das 
» ditas Ilhas , e terras , e a refpoíla que a 
y> ello dera 5 e qualquer Lei que em as di- 
» tas Cortes fe fez , e todas as outras que 
» a ifto pudeíTem obftar. 

» Que EIRey de Portugal , ( porque al- 
» guns lubditos do Imperador, e outros de 
)> feira de feus Reynos que o hiam fervir , 
» fe queixavam que na Caía da índia , efeu 
)> Reyno lhes tinham embaraçadas fuás fa- 
)> zendas , ) prometteííe de mandar fazer cla- 
» ra , aberta , e livre juítiça , fem ter refpei- 
y* to ao nojo que delles pudeíTem ter. 

» Que as capitulações feitas entre os Reys 
>' Catholicos, e EIRey D, João o Segundo 
» de Portugal, fobre a demarcação do mar 
» Oceano ,. fícaífem firmes 5 e vaiiofas em to- 
)> do , e por todo, como nellas era conteu- 
)> do: tirando as coufas em que poreftecon- 
)> trato lhe era dado, em modo que a ven- 
» da ficaíTe desfeita , em tal cafo as ditas ca- 
)> pitulações feitas entre os Reys Catholicos , 
» e EIRey D. João , ficaíTe em toda fua for- 
» ça , e vigor. 

» Que poíto que o direito , e acção , que 
» o Imperador dizia ter em Maluco , que 
)> affi pelo modo fobredito vendia , valeífe 
» mais da metade do juílo preço do que 

» por 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. I. 121 

» por clle lhe davam , c fabia certo por 
» certa informação de pcflbas que o bem 
» fabiam > e entendiam , que era de muito 
» maior eftima da metade do juílo preço y 
» e por muito mais grande valia que foííe; 
» o Imperador a diminuía de feus Succeí- 
» fores , e defmembrava da Coroa de feus 
» Reynos realmente , durando o tempo do 
» contrato. 

» Que qualquer das partes que foííe con- 
» tra o contrato > ou parte de!le , por fi , ou 
» por outrem , ou por qualquer via 5 e mo- 
» do que foííe peníado , perdeffe o direito 
» que tinha 3 e ficaííe logo tudo applicado , 
)) junto 5 e adquirido á outra parte que por 
» elle eííiveííe , e á Coroa de feus Reynos, 
» fem pêra iíío o que contra elle foííe fer 
)> mais citado , ouvido , nem requerido , nem 
» fer neceíTario pêra iííb fentença de algum 
» Juiz 3 averiguando-fe , e provando-fe pri- 
)) meiramente o mandado , e confentimen- 
1* to , ou favor da parte que contra elle fof- 
» fe. Ealém difto pagaria dezoito mil cru- 
y> zados d'ouro , ou prata á outra parte de 
» pena , em que incorreriam tantas quantas 
» vezes contra elle foííe , em parte , ou em 
> todo , e a pena levada , ou não levada , 
» o contrato ficaria valiofo , e firme já mais 
)) pêra o que eftiveííe por elle. Pêra o que 
» obrigavam todos os feus bens patrimoniaes , 

» e 



izz ÁSIA de Diogo de Couto 

» e fifcaes dos conílituintes , e das Coroas 
j> de feus Reynos , e juraram folemnemente , 
)> e promettêram de cm nenhum tempo irem 
» contra o contrato , em parte , nem em to- 
>> do , por íi , nem por outrem^ em Juizo , 
» nem fora delle , por nenhuma maneira que 
» penfar-fe pudefle. E que em nenhum tem- 
)> po por íi , nem por outrem pediriam rela- 
» xaçao do juramento ao Santo Padre , nem 
» a outro que pêra iíío o poder tiveíTe. E 
» pofto que Sua Santidade , ou quem pêra 
» iffo poder tivefle , fem lhefer pedido, de 
» feu próprio motu lhes relaxarfem o dito 
» juramento , que o não acceitariam , nem 
» em nenhum tempo ufariam da dita relaxa- 
» ção , nem fe ajudariam delle por nenhu- 
» ma via , nem maneira que pudefle fer. „ 
Com ifto ficou o Reyno defalivado , c 
EiRey mandou negociar íeis náos pêra man- 
dar á índia , que partiram entrada de Mar- 
ço fem Capitão mór. Os Capitães delias 
eram Francifco de Soufa Tavares , Fernão 
Camello , Vicente Pegado , Manoel de Bri- 
to , Pêro Lopes de Sampaio , e Luiz Alva- 
res de Paiva. E mandou os contratos de Ma- 
luco pêra lá eftarem regulados. De fua jor- 
nada adiante daremos razão. 



CA- 



Década IV. Liv. VIL 123 
CAPITULO II. 

Dos grandes apercebimentos que o Governa- 
dor Nuno da Cunha fez pêra continuar 
na guerra de Cambaya : e da muito 
grande , e poderofa Armada com 
que par tio para Dio., 

COmo o Governador a principal coufa 
que trazia encommendada cTElRey era 
o negocio de Dio , determinou de pôr eíle 
verão as mãos áquella obra , pêra o que 
mandou ajuntar, e negociar mui grandes a- 
percebimentos pêra aquella jornada , em que 
fe havia de metter toda a potencia do Efta- 
do , e efcreveo no inverno a Affonfo Me- 
xia Capitão , e Veador da Fazenda de Co- 
chim , que lhe fizeííe preftes todos os navios 
que naqaelle porto houveíTe , affi d'ElRey , 
como de partes , e pagaíTe toda a gente que 
pudeíTe achar pêra elles , e lhes mandaria dar 
embarcações , foldos , e mantimentos , porque 
não queria que gaftaffem de fua fazenda cou- 
fa alguma : pêra o que paíTou provisões ao 
Veador da Fazenda , e a todos os Officiaes 
pêra fazerem eftas defpezas , encommendan- 
do a todos que á gente d'ElRey de Cochim 
fe lhes fizeíTe muitos mimos , e nenhum ag- 
gravo , gaitando o Governador todo o in- 
verno no apercebimento da Armada , e das 

cou- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

coufas neceífarias pêra a jornada , vifitando 
todos os dias .em peííba a ribeira das nãos , 
Galeões , e Galés , em que havia mil homens 
Porruguezes ordenados pêra feu ferviço , en- 
tre meítres , pilotos , bombardeiros , calafa- 
tes , carpinteiros , e marinheiros ; vendo , e 
provendo os almazens de artiihcria , muni- 
ções , e mantimentos de todas as coufas ne- 
ceííarias pêra a jornada , no que gaitava os 
dias da femana , e aos Domingos á tarde fe 
hia ao campo com toda foldadefca que ha- 
via em Goa , mandando fazer barreiras , a 
que todos atiravam com fuás efpingardas 
pêra os adeítrar , e exercitar ? e o que dava 
no alvo levava hum certo preço que o Go- 
vernador alli tinha logo pêra iíío , e o mef- 
mo fazia aos bombardeiros , dando , e fa- 
zendo pagas a todos , com o que andavam 
contentes , e fatisfeitos ; e eftimavam muito 
fuás armas , e efpingardas 5 trazendo-as lim- 
pas , e aflacaladas , e não empenhadas pelas 
tavernas pêra comer , como nós em outro 
tempo vimos por lhes não pagarem. Neítes 
exercícios gaitou o Governador todo o inver- 
no ; e tanto que o verão entrou , começou 
pôr a Armada no mar , e mandar embarcar 
munições , mantimentos , e artilheria , efea- 
das , e todos os outros petrechos de bate- 
ria , e de efcalar fortalezas. E nos primei- 
ros navios de mercadores que foram pêra 

Cam- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. II. 125- 

Carobaya defpedio dons mercadores gen- 
tios j que tinham fuás cafas em Goa , ho- 
mens de recado , e confiança , pêra irem a 
Cambaya , e a Dio efpiarem as couías co- 
mo eftavam , e verem a fortaleza , gente , e 
anilheria , que nella eftava pêra lhe faberem 
dar razão , avifando-os que lançaífem fama 
da grande Armada , e poder , com que elle 
ficava no mar, encarecendo-lhes tudo o que 
pudeíTem fua potencia , porque com a fama 
deíle terror fe moveffe Melique Tocao , ir- 
mão de Melique Saca , ( que então era fe- 
■nhor daquella Ilha , ) a fazer com elle pa- 
zes , e a lhe dar a fortaleza , dando-lhes por 
regimento , que até vinte de Janeiro feguin- 
te fofle ter com elle á Ilha de Beth aonde 
os efperaria. Defpedidos efíes homens , ficou 
.0 Governador Nuno da Cunha efperando pe- 
las náos que haviam devir doReyno, que 
não tardaram mais que até dez de Setembro , 
em que vinham dous mil homens, gente m?i 
limpa , e mui luílrofa , com que o Governa- 
dor folgou muito pêra a jornada; e entre as 
inílrucções que o Governador teve d'EIRey , 
era huma : que mandaíTe Aífonfo Mexia pê- 
ra Portugal , e que lhe fizefle inventario de 
toda fua fazenda , que lhe mandaria repar- 
tida pelas. náos, entregue a peíToas de con- 
fiança pêra fe dar noReyno aquém EIRey 
mandaíTe , e que proyeíTe o cargo de Vea- 

dor 



iz6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dor da Fazenda , a quem lhe bem pareceífe*, 
e iíío mandou pelas culpas , e capítulos que 
Pêro Mafcarenhas deo contra elle. O Go- 
vernador defpedio provisões a Cochim íb- 
bre efte negocio , e não achámos a peflba a 
quem o encommendou , fomente a receita que 
fe fez de toda a fazenda de Affonfo Mexia , 
que era muita pedraria , pérolas , peíTas dou- 
ro , e prata , alcatifas , e outras coufas ri- 
cas , que tudo fe carregou fobre Manoel de 
Sá Feitor , e Thefoureiro de Cochim , e 
fe entregou aos Capitães das náos , em que 
o mefmo AfFonfo Mexia fe embarcou em 
Janeiro de trinta e hum , e o cargo de Vea- 
dor da Fazenda não quiz o Governador pro- 
ver , dizendo , que elle faria tudo , porque era 
homem que entendia mui bem a ordem del- 
ia , como quem o era de todo o Reyno. Eí- 
creveo também a ElRey de Cochim , e aos 
Officiaes , que deífem preffa á gente que lhe 
laivia de mandar , e á Armada toda que lá 
havia, porque fó por iífo efperava , que fe 
fazia preíles com muita diligencia , porque 
tinha EIRey dados mil e quinhentos Naires 
pêra a jornada, que fe repartiam por quin- 
ze, ou vinte navios d'ElRey , e de partes, 
que AfFonfo Mexia tinha pêra iíTo negocia- 
dos. E o Arei d-e Porca também fefez pres- 
tes com gente fua ., e três navios pêra ir a- 
xompanhar o Governador nçfta iornada ; e 

affi 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IL 127 

aífi a elle , como á gente d'ElRey de Co- 
chim , fe lhe deo todo o neceiíario mui cum- 
pridamente , e toda efta Armada partio até 
quinze de Novembro. O Governador deo 
grande expediente á eícritura do Reyno , e 
ao defpacho das náos , defpcdindo-as pêra 
irem tomar fua carga. E ficando defoccupa- 
do , mandou fazer gente da terra pelas Ilhas 
de Goa , e de todas ajuntou mil e quinhen- 
tos Lafcarins , os que lhe melhor pareceram 
pêra as armas , que repartio por Naiques , 
e Capitães , fazendo-lhes fuás pagas , e dan- 
do-lhes feus mantimentos , e embarcações 
feparadas. E fazendo alardo da gente Por- 
tugueza 5 que eftava pêra ir naquella jorna- 
da 3 achou quatro mil homens, em que en- 
travam muitos Fidalgos , e Cavalleiros. E 
mandando embarcar tudo , e tendo a fefta 
do Natal em terra , depois de eftar aos 0£- 
ficios , em que commungou , e o mefmo fez 
a mor parte da gente , fe embarcou , e fe fez 
á vela com cento e oitenta velas , em que 
entravam trinta náos , Galeões , Caravelas , 
doze Galés, três BarcaíTas , e tudo mais Ga- 
leotas, Fufías , Bargantins , Tauris , e outras 
embarcações da terra ; e os Capitães quenef- 
ta jornada o acompanharam , dos que pude- 
mos faber os nomes , são os feguintes : An- 
tónio de Saldanha, Diogo da Silveira , Gar- 
cia de Sá , António da Silveira , Manoel de 

Al- 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

Alboquerque , D. Vafco de Lima , Jorge de 
Lima , Triftao Homem , Francifco de Sá , 
Ruy Vaz Pereira < António de Sá o Rume, 
Nuno Pereira de Lacerda , Jorge Cabral , 
Manoel de Soufa, Martim Affonfo de Mel- 
lo Juzarte , Francifco de Vafconcellos , Mi- 
guel Carvalho , Vafco Pires de Sampaio , 
Henrique de Macedo , Martim de Freitas , 
Heitor da Silveira , D. Roque Tello , Gon- 
çalo Vaz Coutinho , Manoel de Miranda , 
Manoel Rodrigues Coutinho , Chriítovao de 
Paiva, que hia por Feitor da Armada , Ruy 
de Mello , Lopo Pinto filho do Bailio de 
Leça , Pêro Botelho , Jorge de Soufa , An- 
tónio da Cunha , Francifco de Soufa , An- 
tónio da Silveira , Lopo de Mefquita , e ou- 
tros muitos Fidalgos , e Cavalleiros. E da 
barra de Goa dcfpedio o Governador alguns 
Catures ligeiros pêra que foífem efperar a 
Armada que vinha de Cochim ., e dar-lhe 
preíla até Chaul , onde a efperava : e elle 
foi feguindo íeu caminho até chegar áquel- 
la Cidade , onde foi mui bem recebido do 
Capitão, e povo, e vifitado doTanadar de 
Chaul de cima. Aqui fe deteve o Governa- 
dor alguns dias até chegar a Armada de Co- 
chim , que não tardou muito , com o que 
.perfez de ventagem de duzentas velas , e 
xom todas juntas foi aBaçaim, donde atra- 
veííbu a outra coita 2 e em três dias foi a 

ver 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. II. 129 

ver vifta da Ilha de Beth , oito léguas de 
Dio ; e de algumas embarcações que tomou 
naquella coda foube , que naquella Ilha e£ 
tava hum Capitão d'ElRey de Cambaya , 
Turco de nação , com dous mil homens de 
guerra. E chamando os Capitães a confelho , 
lhes diííe , que elle eílava determinado de 
dar naquella Ilha , e metter rodos os que 
nella eíliveíTem á efpada , aíli pêra terror , e 
efpanto dos de Dio , ( porque não ^guardaf- 
fem a experimentar outra tal crueza , e lhes 
deíTem a fortaleza livremente , ) como pêra 
terem menos aquelles dous mil homens, que 
eram os efeolhidos de Cambaya : que for- 
çado haviam de ir foccorrer Melique To- 
cão , e era bom não lhe deixar nas coitas 
aquelle íòccorro. Aos Capitães lhes pareceo 
bem efta determinação, que foi caufa de fe 
perder a empreza de Dio , (porque fe logo 
o commettêram , fem dúvida o tomaram.) O 
Governador mandou logo rodear a Ilha pe- 
los navios ligeiros , porque fe não fahiíTem 
delia. Tinha EIRey de Cambaya efta gente 
nefta Ilha , porque fe receava que mandaíTe o 
Governador fazer alli alguma fortaleza , por 
metterem pé no Reyno de Cambaya , como já 
por algumas vezes fe tentou; e tinha efte Ca- 
pitão hum forte mui arrezoado fobre hum te- 
20 no meio da Ilha pêra feu recolhimento , e 
defensão , com muita artilheria , e munições* 
Couto. Tom. L Pai. I CA- 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO III, 

De como o Governador Nuno da Cunha ccm- 

metteo a Ilha de Beth , e a entrou : e 

do efpantofo cafo que nella fuccedeo y 

forque fe deo dquella Ilha o nome , 

que hoje tem 5 da Ilha dos Mortos. 

SUrto o Governador derredor da Ilha 3 
mandou recado ao Capitão Turco , que 
lhe entregaíTe aquella Ilha , e fe puzeííe em 
fuás mãos com toda a gente , ficando á fua 
mercê , e que ufaria com elles de piedade. 
O Capitão Turco mandou com a refpcfta 
hum Mouro honrado , que foi levado ao 
Galeão do Governador , e vendo a potencia 
daquella Armada , ficou enleado de feição , 
que por hum efpaço não fallou. Paliado a- 
quelle primeiro termo , diífe ao Governador , 
que o Capitão daquella Ilha lhe mandava 
dizer , que fe efpantava muito delle , indo 
com huma Armada tão potente fobre a for- 
taleza de Dio , querer-fe embaraçar em cou- 
fa tão pequena como era aquella Ilha : que 
lhe fazia a faber, que elle, e todos os que 
com elle eítavam haviam de morrer fobre fua 
defensão , e que não faria mais , ( queren- 
do-os commetter , ) que quebrantar os efpiri- 
tos dos feus foldados ; porque pofto que el- 
les mataíTem todos quantos hayia naquelte 

Ilha, 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. III. 131 

Ilha , não havia de fer tanto a feu falvo , 
que lhe não cuítaíTe muito , e aíli ficariam 
arrefecidos da fúria que levavam contra Dio. 
O Governador o tornou a defpedir , mandan- 
do-lhe dizer, que fe fenão entregaíTe á lua 
mercê, não ufaria de piedade alguma com 
elles ; por iíTo que fe determinaífe até o ou- 
tro dia. Ifto foi contra o parecer de todos 
os Capitães , porque houveram que o Tur- 
co lhes mandava confelho de amigo , e aífi 
diíTeram alguns ao Governador , que lhes 
parecia bem diílimular com aquelle negocio , 
porque fe aili lhe aconteceffe hum defaftre , 
ficariam os foldados tão medro fos , e que- 
brantados , que depois não poderiam fazer 
coufa alguma em Dio , pêra o que lhe era 
neceflario os homens sãos , e muito affou- 
tos. O Governador não acceitando aquelles 
confelhos , mandou dar ordem á defembar- 
caçao. O Capitão da Ilha vendo a refolucao 
da refpoíta do Governador , ( fegundo diz 
Fernão Lopes de Caftanheda , e outros , ) tor- 
nou-lhe a mandar dizer pelo mefmo Mou- 
ro , que deixando-os fahir da Ilha com fuás 
peífoas , mulheres , armas , e fazendas , lha 
entregariam livre , e defembaraçada. Mas al- 
guns homens cafados de Dio , que fe acha- 
ram nefta jornada , nos diííeram, (invernan- 
do nós naquella fortaleza, ) que o Turco 
foçi todos os mais eftavam tão obítinados, 

I ii que 



13 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

que não quizeram commetter partido algum 
com o Mouro , que andava com os recados , 
os perfuadir muito a iíío , reprefentando-lhes 
a potencia daquelia Armada 3 e o perigo que 
todos corriam. Mas o cerro he, que por três 
vezes mandou o Capitão efle Mouro a fal- 
lar com o Governador fobre concertos ; mas 
não querendo nunca acceitar outros ienão 
os que primeiro pedio , nem o Governador 
querer-fe defcer da fua primeira opinião. O 
que viílo pelo Embaixador , da derradeira 
vez , vendo o delengano do Governador , 
deixou-fe ficar no Galeão por falvar fua pcP- 
foa 3 porque fabia o propoíito com que ef- 
tavam os da Ilha. O Governador mandou 
fazer preftes as coufas neceíTarias pêra ao ou- 
tro dia defembarcar , dando a dianteira a 
Heitor da Silveira , e de toda a gente fez 
íeis bandeiras , de que eram Capitães Heitor 
da Silveira , António de Saldanha , Diogo 
da Silveira 5 Garcia de Sá, António da Sil- 
veira 3 e a outra era a do Governador , que 
levava a bandeira de Ch riflo. E deo ordem 
aos Capitães das bandeiras 3 que defembar- 
caíTem pela Ilha em roda , em differentes pa- 
ragens , porque ainda que os inimigos fe de- 
terminafiem a lhes defender a defcmbarca- 
ção , não pudeíTem acudir a tantas partes. O 
Governador mandou mudar toda a gente 
aos navios de remos , e aos batéis das náos , 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. III. 133 

e Galeões , dando tantas embarcações a ca- 
da Capitão pêra por fuás partes commet- 
terem a Ilha. Ao outro dia pela manhã fo- 
ram commetrer a terra , onde faltou Heitor 
da Silveira com a fua bandeira , pêra quem 
fe paíTáram muitos aventureiros , e fez em 
terra hum efquadrao de mais de mil homens. 
Os mais Capitães também defembarcáram nas 
partes aífinaladas a cada hum , e foram-fe a- 
juntar a Heitor da Silveira , e o Governador 
defembarcou por derradeiro , fem haver em 
alguma deftas partes reíiftencia. Poftos todos 
em terra, mandou o Governador defembar- 
car algumas peças de aniíheria pêra bater a 
fortaleza , e muitas eícadas pêra a efcalar ; 
negociado tudo, foram marchando pêra a for- 
taleza , e a tiro de falcão delia aflentáram o 
arraial , fortificando-o logo á roda com feus 
vallos , e trincheiras fortes. Ao outro dia fe 
começou a bateria com tanta força , que lhe 
derrubou algumas partes , por onde já fe po- 
dia commetter ; durou iílo até á noite. Ao 
outro dia preparáram-íè pêra lhes darem o 
aíTalto. Os de dentro vendo-fe daquella ma- 
neira , defconfiados de todo o remédio , e 
entendendo bem que os Portuguezes lhe ha- 
viam de entrar a fortaleza por força , e que 
forçado todos os que dentro eftavam haviam 
de morrer em fua defensão , e que fuás mu- 
Uieres > filhos ; e fazendas não poderiam 

dei- 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

deixar de ficar por defpojos aos Portugue- 
zes , o que fendam eai extremo; e trazen- 
do-lhe o demónio hum bruraliílimo remédio 
á memoria , ajuntou o Capitão todos os Mou- 
ros , e lhes fez eíla breve arenga. 

» Bem vedes , amigos , e companheiros 
» meus , como tentei todos os remédios , 
» quantos a honra , e a obrigação me deram 
» lugar , por ver fe podia falvar as mulhe- 
» res , e filhos de todos os que aqui efta- 
» mos, que he o que fó defejava ; porque 
» nós como fomos homens , mais havemos 
» de pertender huma morte honrofa , que 
» vida com vitupério , de que não podemos 
» efcapar, fegundo eítes inimigos eftam en- 
» carniçados contra nós. Mas porque depois 
» de todos acabados em noflb officio , e obri- 
>i gação , não fiquem nofias mulheres , e fi- 
» lhos em feu poder , nem as fazendas que 
» com tanto trabalho adquirimos , fou de pa- 
» recer , que antes fe coniuma tudo a nof- 
» fas mãos , entregando-as ao duro fogo pe- 
» ra que as gafte , e confuma , e depois com 
» ódio defta mágoa mais entranhavel , e com 
5) a ira defta crueza mais acceza , fahamos 
» aos inimigos , e tomemos nelles vingança 
} defta deshumanidade ? que havemos de 
» ufar com noíTas próprias mulheres , e fi- 
» lhos. E quando todos acabarmos a fuás 
> mãos, não lhes ficará coufa de que fepoA 

)) fam 



Dec. IV. Liv. VIL Cat^. III 13? 

)> fam louvar de nós , e aííi ficaremos hum 
» raro exemplo ao Mundo. » 

A todos pareceo bem aquelle confelho , 
e fahindo-fe dalli com aquella fúria , cada 
hum fe foi a fua cafa , e nos innocentes fi- 
lhos, e mulheres , que eftavam repoufando , 
banharam as cruéis efpadas , abrindo-lhes as 
entranhas fem piedade alguma , ( o que to- 
dos fizeram em hum mefmo tempo , ) não 
perdoando a pais , mais , mulheres , filhos , 
irmãos , nem a toda mais gente , e família. 
Efta crueza executaram fem lhes mover as 
entranhas o choro do tenro filho , nem as 
lagrimas , e piedofas lamentações da cara , 
e amada efpola. Acabado eíie fanguinofo , 
e cruel efpedlaculo , tomaram todas fuás fa- 
zendas , ouro , prata , drogas , alcatifas , e 
todos os mais móveis ricos , e curiofos , e 
po/lo tudo em hum grande monte no terrei- 
ro da fortaleza, ajuntando-lhe muita lenha, 
e palha , lhe puzeram fogo , começando a 
arder tudo foberbiílimamente. E tomando os 
corpos das mulheres , filhos , e mais familia , 
que eílavam ainda palpitando , e revolven- 
do- fe no quente fangue , os foram lançar no 
meio daquellas ardentes chammas , confu- 
mindo-fe tudo em cinza em hum muito bre- 
ve efpaço , imitando nefta brutal façanha os 
antigos Numantinos. Foram viftas dos no£ 
fos aquellas chammas , e labaredas com mui- 
to 



136 ÁSIA de Diogo de Couto 

to grande efpanto , fem poderem cuidar o 
que feria. Feito aquelle bárbaro incêndio , 
ajuntáram-fe fetecentos dos principaes , e fo- 
ram- fe á Mefquira , e nclla fizeram grandes 
votos a Mafamede de morrerem todos em 
vingança daquelles innocentes ; e pêra final 
daquelle voto raparam Jogo alli as cabeças 
á maneira das tonfuras dos noflòs Clérigos , 
que he huma fuperftiçao que ufam os que fe 
offerecem a morrer y e a defprezar a vida. 
A eftes homens chamam na índia A moucos , 
de quem em outra parte daremos mais par- 
ticular razão. Paliada aquella defefperada , e 
triíle noite pêra elles , em rompendo a luz 
da manhã , puzeram-fe os noflbs em ordem 
deefcalar a fortaleza , levando pêra iífo luas 
çfcadas , mantas , vaivéns , e todas as mais 
coufas neceífarias ; e remettendo com os mu* 
tos por quatro partes , arvoraram logo nel- 
les fuás efeadas. Heitor da Silveira , que foi 
o primeiro efquadrão , foi demandar a por- 
ta com grande eílrondo , e alaridos dos nof- 
fos , e encoftando as efçadas huns começa- 
ram a fubir , e outros arrombar as portas. 
Os Mouros como citavam tão defefperados , 
aprefentáram-fe naquelles lugares porque íe 
repartiram , pondo-íe nelles em defensão , 
çfperando alli a morte a pé quedo, ferindo, 
e matando também nos nolTòs bem á fua 
vontade. Depois da refeita da fubida durar 

por 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. III. 137 

por efpaço de huma hora , cavalgaram os 
Portuguezes o muro , o que não foi tanto a 
feu falvo , que não cuftafle a vida a Heitor 
da Silveira , que ficou calado de huma bom- 
bardada que Jhedeo por huma perna de que 
Jogo cahio : e fendo recolhido , e levado aos 
navios , foi curado , mas como tinha feu ter- 
mo acabado , não durou mais de três dias , 
( o que foi grande perda pêra a índia , por 
ler hum dos Capitães que em feu tempo 
houve , e digno por certo de ficar aquella 
Ilha mais famofa no Mundo por iua morte , 
que não pela caufa porque hoje he conhe- 
cida nelle.) E tornando aos noíTos , fubidos 
nos muros foram matando , e ferindo nos 
inimigos , que não fugiam á morte , antes iè 
oífereciam a ella trabalhando pela vingar. 
Neíle torpel foi morto o Capitão Turco , 
que primeiro fez efpantolas cavallerias , e 
não achamos a certeza de quem o matou. 
Os feus tanto que fe viram fem Capitão , co- 
meçaram a defordenar-fe , e os noíTos a ma- 
tar nelles , fem perdoarem a algum. 

' Conta- fe aqui hum cafo efpantofo , e foi , 
que arremettendo hum foldado noílb com 
huma lança nas mãos a hum daquelles A- 
moucos , não fez elle mais que dar-Ihe a bar- 
riga á lança , e mettendo-fe por ella , foi cor- 
rendo pela aftea adiante até chegar ao fol- 
dado , e lhe deo huma cutilada por huma 

per- 



138 ASIÀ de Diogo de Couto 

perna que lha decepou toda , cahindo am- 
bos mortos a hum tempo, A porta da for- 
taleza foi arrombada , entrando por ella to- 
do o mais corpo de gente , com o que fe 
acabou de averiguar aquelle negocio , não 
efcapando de dous mil Mouros que eram , 
hum íb. E deita crueza , e da que elles exe- 
cutaram com fuás mulheres , e filhos , fe deo 
novamente nome áquella Ilha chamando-fe 
a dos Mortos. Todavia não foi iíto fem per- 
da , porque na entrada morreram dezefete 
Portuguezes , cm que entraram alguns Fi- 
dalgos mancebos , e feridos paflaram de cen- 
to e vinte. Acabado efte negocio , foram dar 
bufca á fortaleza , e não acharam mais que 
â quente cinza de todas as riquezas , mulhe- 
res, e meninos daquella Ilha , e fó das ar- 
mas dos Mouros fe aproveitaram. 

CAPITULO IV. 

De como chegou a Dio Mojlafd Baxá 5 e 
todos os mais Turcos que ejiavam em 
Xaely e fortificaram aquella Ilha : e de 
como o Governador Nuno da Cunha com- 
metteo a fortaleza de Dio y e fe retirou 
com damno feu. 

DEftruida , e aífolada a Ilha dos Mortos , 
mandou o Governador embarcar algu- 
mas peças de artilheria , que fe acharam com 

mui- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. IV. 139 

muitas munições , e mantimentos. Feito ifto , 
embarcou-fe o Governador , deixando-fe fi- 
car naquelle porto efperando pelas efpias 
que tinha mandado a Dio , com que não 
continuamos , porque o deixamos pêra aqui. 
Foram eíles homens áquella Ilha , onde an- 
daram vendo , e notando tudo ; mas pelas 
grandes guardas , e vigias que havia na for- 
taleza , não puderam entrar nella. E porque 
no meímo tempo fuecedeo chegar áqueila 
Ilha Moftafá Baxá , (como logo diremos , ) 
ficáram-fe entretendo , por verem a ordem 
que logo deo pêra defensão delia, O Go- 
vernador partados oito dias , que fe alii de- 
tinha , vendo que lhe não vinha aviío de 
coufa alguma , deo á vela pêra Dio ; e eíla 
detença foi a total falvação da fortaleza , e 
Ilha de Dio , e perdição deíla jornada ; por- 
que efpalhando-fe a fama da potencia da Ar- 
mada Portugueza , ficou delia tão aífombra- 
do Melique Tocão , e ainda o ficou mais de- 
pois que foube a crueza da Ilha dos Mor- 
tos', queacabante aquelle feito , fe fora logo 
o Governador furgir fobre aquella Ilha , fem 
dúvida fe lhe defpejára toda , e alcançara o 
que tanto defejava fem golpe deefpada. Mas 
quiz a fortuna que naquelles dias que fe de- 
teve efperando pelas efpias , chegaííem áquel- 
la Ilha os Turcos Moftafá , Coge Çofar , e 
outros ; que como diíTemos > depois de de£ 

cer- 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

cercarem Adem fe foram invernar a Xael , 
e de duas náos que alli havia fizeram dons 
Galeões , em que fe embarcaram com todos 
os feus thefouros , e artilheria , e entraram 
pela barra de Dio três dias antes que o Go- 
vernador chegafTe. MeJique Tocão os rece- 
beo com grandes honras , e lhes deo conta 
da Armada Portugueza , e do negocio da 
Ilha dos Mortos. Moftafá fentindo nelle gran- 
de medo, e temor, IhediflTe que fe feguraf- 
fe , que elle lhe defenderia aquella fortale- 
za a outro mor poder , e Armada que aquel- 
la. Com ifto ficou Melique Tocão defaliva- 
do , e lhe deo o governo de tudo , que el- 
le tomou á fua conta , começando logo a 
entender nas coufas que convinham pêra a 
defensão da Cidade , deitando fora delia to- 
da a gente inútil , deixando fó a que podia 
tomar armas , que feriam dez mil homens , 
e mandou com muita preffa reedificar , e for- 
talecer os muros , e baluartes , guarnecen- 
do-os de muita artilheria , pondo nelles por 
Capitães Rumes de fua companhia , e por 
derredor dos muros da banda de fora man- 
dou fazer muitas minas cheias de pólvora , 
pêra fe os noífos quizeífem commetter os mu- 
ros com efcadas lhe darem fogo. Pela mef- 
ma maneira provêo o baluarte do mar, (que 
defende a entrada da barra , ) de artilheria , 
e de munições , pondo nelle hum Capitão 

Ru- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IV- 141 

Rume , com huma companhia de foldados. 
E a cadeia de ferro que Melique ordenou 
pêra defensão da entrada do rio , mandou 
que fe reforma/Te, e a atraveflbu do baluar- 
te do mar até o outro da terra , que eftava 
no lugar em que hoje eftá anoíTa fortaleza, 
ficando a cadeia pouco mais de hum palmo 
efcondida debaixo d'agua. E quando queria 
entrar alguma embarcação fua abaixavam tu- 
do o que queriam , e a tornavam a alevan- 
tar com cabreftantes , que pêra iflb tinham 
fempre guarnecidos. Iílo tudo eftava feito 
quando o Governador furgio fobre aquella 
Ilha, que foi a quatro de Fevereiro , cubrin- 
do todo aquelle mar com a fua Armada , 
que era coufa que não deixou de fazer te- 
mor, e efpanto a todos. O Governador tra- 
tou logo com os Capirães fobre o modo de 
Como fe havia de commetter aquella entra- 
da , porque depois de citarem dentro trata- 
riam do que mais cumpria. Por todos foi 
alTentado , que fem fe ganhar primeiro o ba- 
luarte do mar fenao poderia fazer coufa al- 
guma ; que fe tratafTe de o ganhar, e o ou- 
tro de fobre a barra 5 e que então depois 
Deos encaminharia aquelle negocio como 
foíle feu ferviço. Com efta refolução encom- 
mendou o Governador a bateria deftes ba- 
luartes a eftes Capitães , iftohe, aos três das 
galés , que eram Francifco de Sá dos ócu- 
los ^ 



142 ÁSIA de Diogo de Couto 

los, António de Sá o Rume, e Nuno Fer- 
nandes Pereira mandou que fe chegaflem 
bem ao baluarte do mar , e furgiífe perto 
delle pêra o baterem , e três barcaíías que le- 
vavam pêra ifta , de que fez Capitães Dom 
Vafco de Lima , Jorge de Lima , e Triftão 
Homem , que eftavam guarnecidas de fortes 
arrombadas com bazalifcos , e águias reaes , 
mandou que batefiem o meímo baluarte por 
outra parte, e encarregou mais a nove Ca- 
pitães , que eram Manoel de Alboquerque 
de huma galeaça , Jorge Cabral , Manoel de 
Squfa, Martim Affonfo de Mello Juzarte , 
Francilco de Vafconcellos , todos quatro Ca- 
pitães de galés , pêra que commettellem o 
baluarte de Diogo Lopes de Siqueira , que 
eftava pela banda da coita brava, porque fe 
aflentou que lançaflem por alli também gen- 
te em terra. E o baluarte de fobre a barra 
da outra banda do mar encarregou a bateria 
delle a quatro Capitães , ifto he , Miguel Car- 
valho de huma albitoça. , e Vafco Pires de 
Sampaio , Henrique de Macedo , e Martim 
de Freitas em outras três barcaflas com fuás 
mantas , e arrombadas. E António da Sil- 
veira com trinta navios de remo mandou 
<}ue foíTe favorecer os que batiam os balu- 
artes da barra ; e toda a mais Armada re- 
partio por outras partes da banda de fora 
jpera divertir os inimigos. E todo aquelle dia 

que 



Dec. IV. Liv. VIL Ca?. IV. 143 

que alli chegaram , e a noite feguinte gaita- 
ram todos em fe fazerem preftes pêra a ba- 
teria. E tanto que rompeo a luz da manha , 
fez o Governador final aos navios , que ar- 
rancaram cada hum pêra o poílo que lhe era 
ordenado ; e as barcaíTas que haviam de com- 
metter o baluarte do mar foram endireitan- 
do com elle , e o dianteiro foi o D. Vaíco 
de Lima Fidalgo mancebo , e defejofo de 
ganhar honra , que largou por popa hum 
eftendarte todo negro com huma morte pin- 
tada tão fea , e medonha, como o cila he , 
dlvifa que entriíleceo a todos; e parece que 
nella profetizou a morte que alli recebeo. 
Dos baluartes do mar , e da terra em ven- 
do levar as embarcações , começaram a deí? 
parar aquella fúria infernal de bombardas 
tão efpefias 5 que parecia choverem pelou- 
ros do Ceo , e foi a fumaça tamanha , e tão 
grafia , que perderam os navios a vifta do 
baluarte , e os bombardeiros não viam on- 
de apontar fua artilheria. D. Vafco de Lima 
com muito grande animo , fem lhe dar dos 
pelouros que choviam dentro na fua barcaf- 
fa , mandou remar avante , e difie ao patrão 
•delia , que lhe puzefie a proa no baluarte , 
que não fe contentava o feu animo fenão 
das coufas que pareciam impofilveis y porque 
elle lhas fazia todas fáceis. Mas Deos , que 
tinha poíto alli feu termo , permittio que lhe 

déf- 



144 ÁSIA DE Díogo de Couto 

déíle huma bombardada pela cabeça , que lo- 
go lha fez em pedaços, e matou outro Tol- 
dado , que eftava junto delle ; com ifto fe 
teve a barcafla , e tornou pêra traz , porque 
já não tinha quem a mandava ir avante , e 
quem animava a todos os que nella hiam. 
Os outros Capitães das barcaflas não menos 
animofos quizeram paííar avante , mas a mul- 
tidão dos pelouros os deteve ; e o meímo 
aconteceo em todas as outras partes, que fo- 
ram commettidas dos noilbs , em que foram 
tão fultigados da artilheria , que fe tornaram 
a recolher deílroçados, e com alguns navios 
arrombados, e muitos mortos, e feridos. O 
Governador bem vio que tinha feito erro na- 
quelle negocio , e que alli não faria mais , 
que arrifcar toda a Armada , porque tam- 
bém elle lá no feu Galeão nãoeftava tanto 
a feu falvo , que lhes não feriíTem as bom- 
bardadas muitos homens , e fazendo final a 
recolher , elle fe aífaftou pêra fora , tendo re- 
cebido nos navios grandes damnos. Recolhi- 
dos os navios, o Governador mui triíte, e 
malencolizado pelo fucceífo , deo á vela , e 
fez-lè na volta de Chaui , e do caminho def» 
pedio António de Saldanha com quarenta 
navios ligeiros , pêra ir fazer guerra por to- 
da a enceada de Cambaya. Chegado o Go- 
vernador a Chaul , defpachou António da Sil- 
veira pêra ir entrar na fortaleza de Ormuz, 



Dec. IV. Lxv. VIL Cap.IV.eV. 14? 

e aííl provêo em algumas coufas. Dalii fe 
paiTou a Goa , e defpachou logo Garcia de 
Sá pêra ir entrar na Capitania de Malaca , 
por acabar leu tempo Pêro de Faria , man- 
dando provimentos pcra Maluco. Moítafá 
Baxá tanto que o Governador fe partio de 
Dio , logo fe partio pêra a Cidade de Ama- 
daba com todos os de fua companhia ; e fe 
aprefenráram ao Soltão Badur, ofFerecendo- 
fe-lhes pêra o fervirem , o que elle eílimou 
muito , pela fama que delles tinha daquei- 
Je negocio de Dio , ficando Moítafá Baxá 
grande feu acceito , e lhe deo o titulo de 
Rumecan , que quer dizer o Senhor Ru- 
me, e o fez General de feu exercito. 

CAPITULO V. 

Da grande , e cruel guerra , que An- 
tónio de Saldanha fez por toda 
a enceada de Cambayà. 

APartado António de Saldanha do Go- 
vernador, como diífèmos, tornou-íea 
.pairar 1 a Ilha dos Mortos pêra dalii. come- 
çar a guerra. Dalli foi de longo da cofta pe- 
ja enceada dentro, queimando, deftruindo , 
c aíTolando todos os lugares marítimos , co- 
mo foram Madrefava] , Taloja , Gengimel , 
náo perdoando em todos eftes lugares a fe- 
xo , nem a idade alguma P nem ainda aos 
Couto. Tom. L P. iL K bru- 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

brutos animaes , porque até eíles fentíram a 
fúria dos íiolíos. E porque teve por novas, 
que a Cidade de Gogá , que era huma das 
maiores , e mais opulentas em trato , rique- 
zas , e poder de todas as de Cambaya , or- 
denou de dar nella , pêra o que lhe foi ne- 
ceíTario ir-fe detendo , eefperando por aguas 
vivas , pêra poder entrar dentro. Jaz efta Ci- 
dade quafi no cabo da enceada , da banda 
do Ponente , eftendida em hum campo mui 
rafo, e em algumas ruinas de edifícios, que 
ainda hoje fe vem , parece que foi antiga- 
mente coufa muito grande, efenhoreada de 
alguns eílrangeiros , porque em muitas par- 
tes moílra ainda pedaços de muros mui lar- 
gos , de que ella foi toda cercada , todos de 
cantaria , de huma pedra parda , que cada 
huma he de mais de quatro palmos de com- 
prido , e muito perto de três de largo , e ou- 
tro tanto de alto, que fe não liam humas com 
outras com betume , nem cal , fomente fei- 
tas humas encarnas no meio de cada pedra 
em igual diftancia , com humas mechas de 
páo ferro, em que as pedras decima fevam 
encaixa- , tão juílas , e tão primas , que pa- 
rece parede de huma fó pedra. E no modo 
defte edifício , andando-o nós vendo , e no- 
tando , nos pareceo obra dos Chins , que de- 
viam já de fer fenhores de algumas partes 
daqueile Reyno, como vimos nos efpanto- 

fos 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. V. 147 

íos edifícios dos Pagodes da Ilha deSalcete* 
que fem dúvida fe tem por obra fua. Eftá 
efta Cidade de Gogá affaftada da agua hum 
tiro de berço, pêra onde fe entra por hum 
efteiro, que chega até bem dentro da povoa- 
ção , de huma vafa tão folta , e delgada > 
que fumirá qualquer coula que lhe lançarem* 
Efte efteiro lerá de largura de pouco mais de 
hum tiro de pedra , e nas aguas vivas met- 
tem por elle fuás náos , porque fica tendo 
mais de quatro braças de fundo , e quando 
vafa fica tudo fecco , e efpraia alli a maré 
tanto , que efcaçamente fe alcança com a 
vifta , e em certas partes tem canaes , e po- 
ços , onde as náos furgem. Efte efteiro en- 
tra por derredor da Cidade , que qiiafi a cer- 
ca , e fervem- fe por algumas pontes pêra fo- 
ra. Além deite efteiro, que lhe fervia de ca- 
va , eftava a Cidade fortificada com algumas 
tranqueiras nas partes quebradas , que hiam 
fechar no antigo muro , e por nenhuma par- 
te fe podia defembarcar fenão entrando pe- 
lo efteiro , porque tudo á roda por todas as 
partes era alagadiço. António de Saldanha 
tanto que as aguas vieram , tomando Pilo- 
tos que fabiam os canaes , e entradas , foi 
demandara Cidade, entrando pelo efteiro den- 
tro com toda a Armada , e chegando ao 
cães faltaram todos em terra com grandes 
gritos 7 e alaridos 3 pofto que acharam em ter- 

K ii ra 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra hum corpo de mais de dous mil homens , 
que acudiram a lhes defender a defembarca- 
çao -, mas a artilheria das fuílas os fez afraf- 
tar pêra fora. Poílos todos em terra arremet- 
têram com os inimigos, com que travaram 
-huma boa batalha 9 mas aíli apertaram com 
elles , que com morte de muitos os arran- 
caram do campo , levando-os diante de fi até 
á Cidade, em que entraram de envolta. Os 
inimigos como hiam cortados do medo , va- 
raram logo pela outra parte do lertão , dei- 
xando a Cidade em mãos dos noílbs , que 
rnettêram á efpada toda a coula viva que 
acharam , não perdoando nem aos tenros me- 
ninos nas tetas das mais , que apertando-os 
comfigo , eram paííados ambos da cruel ala- 
barda , e da aguda efpada , ufando niílo cru- 
eldade alheia de natureza Portuguez , mas 
pareceo affi neceííario pêra terror. António 
de Saldanha mandou dar fogo á Cidade por 
fe não embaraçarem os feus foldados com 
os defpojos delia , de que alguns não deixa- 
ram de fe carregar bem. Iílo foi tão apref- 
fado , que antes que amare íèacabaíTe, tor- 
naram a fahir pêra fora, dando fogo a vin- 
te e cinco navios que eftavam no efteiro car- 
regados de roupas 5 drogas , e outras fazen- 
das , o que tudo fcconfumio em cinza, co- 
mo também o fez á Cidade, ficando os mais 
dos^moradores de Cambaya pobriíTimos; por- 
que 



Dec. IV. Liv. VIÍ. Cap. V. 149 

que como alli era a mor efcala do Reyno, 
todos tinham alli fuás fazendas. António de 
Saldanha paffou-fe a outra cofta por onde 
deftruio muitos lugares , como foram , Bal- 
çar, Tarapor , Ma/ , Queime , Agaçaim , 
até o rio.de Bandorá , deixando tudo met- 
tido a ferro , e a fogo , e a gente toda em 
pranto ; porque os que puderam íalvar fuás 
peííbas , huns perderam mulheres , outros fi- 
lhos , outros fazendas , de forte j que em 
todo oReyno deCambaya outra coufa não 
havia fenão prantos , queixas , e lamentações , 
com que os miferaveis acudiram á Corte , 
fem haver quem lhes déíTe remédio a feus 
males ; o que ElRey fentio em eftremo , 
porque lhes não podia fer bom áquellas cou- 
fas. António de Saldanha gaitou por aqui 
todo o verão , eíèndo tempo de fe recolher 
a Goa, o fez, deixando Diogo da Silveira 
com vinte navios pêra ficar por aquella cof- 
ta o refto do verão , e pêra ficar invernan- 
do emChaul, como levava por regimento , 
pêra no principio do verão tornar a conti- 
nuar naquella guerra. Diogo da Silveira tor- 
nou a voltar até Daman , fazendo muitos 
damnos por toda aquella cofta , e tomando 
muitas embarcações que fe recolhiam pêra 
os portos de Cambaya ■, e^ como lhe deram 
ameaços do inverno > recolheo-fe a Chaul. 

CA- 



150 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VI. 

Das defavenças que o Acceàecan teve com 

o Idalcan , e das preeminências daquel- 

le cargo : e de como deo a EIRey de 

Portugal as terras firmes de Sal- 

cete , e Bardes. 

NA fegunda Década de João de Bar- 
ros fe deo conta daquelle Cufo La- 
rym , que em tempo de Affonfo de Albo- 
querquc veio fobre Goa a fegunda vez que 
a tornou. E porque muitas vezes pelo de- 
curfo da hiftoria havemos defallar nelle , o 
daremos a conhecer. 

Era efte Mouro natural do Reyno 'de La- 
te , vizinho ao de Ormuz , feu próprio no- 
me era Cufo ; e porque era natural do Rey- 
no de Lara , tomando o fobrenome da ter- 
ra , ficou-fe chamando Cufo Larym. Efte fen- 
do mancebo veio ter ao Reyno do Idalcan, 
e fe poz com dle a foldo , fervindo-o nas 
guerras contra os Portuguezes tab bem , que 
vagando o cargo de Accedecan do Reyno, 
(que em dignidade correfponde ao de Con- 
deftabre do Reyno , ) lho deo a elle , e com 
iílo inda mais o governo do Concan , pêra 
onde fe elle foi , e ordenou pêra fua eílan- 
cia a fortaleza de Pondá , que mandou fa- 
zer de novo pêra fua fegurança } porque fi- 
ca- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. VI. i?i 

cava muito vizinho da Ilha de Goa, Efte car- 
go de Accedecan neíie Reyno he de tama- 
nha preeminência, que quem o tem , não en- 
tra em cafa d'E!Rey a lhe fazer cortezia , a 
que elles chamão zumbaia , nem guarda nif- 
to a ordem dos outros Capitães que he ef- 
ta. Ha naquelle Reyno trinta , ou quarenta 
delles , em que entram alguns de dez mil 
homens , outros de três , e quatro mil , ou- 
tros de menos , conforme as terras que lhes 
dam ; porque fegundo leu rendimento , alli 
lhes aífínam a gente que hão de ter , e fuí- 
tentar. De maneira , que fempre neíles Rey- 
nos do Decan tem aquelíes Reys perto de 
quarenta mil homens de cavallo , de ordi- 
nário pagos , e a todas as horas que quizer 
pôr-fe com elles em campo o pode fazer. 
Eftes Capitães são obrigados a ir á Corte to- 
das as Luas novas a dar viíta a EIRey, e a 
lhe fazerem fua veneração , e zumbaia , por 
efta maneira. Aífoma-fe EIRey a hurna va- 
randa, que cahefobre hum campo mui for- 
mofo , e grande , por onde vam os Capi- 
tães paíTando cada hum por II , com fuás in- 
íignias , e bandeiras de fuás cores , com feus 
inítrumentos de guerra , camelos , e elefan- 
tes , diante tudo por fua ordem , e empare- 
lhando com a varanda em que EIRey eftá , 
fazem fua zumbaia, que he ir com a mão 
direita ao chão , e depois polia fobre fuás 

ca- 



152 ÁSIA de Diogo de Couto 

cabeças , em final que tomam a terra de de- 
baixo dos pés d'E!Rey , e affi como vam 
paliando Jhos vam dando a conhecer os que 
eíiam com elle. Só o Accedecan guarda ou- 
tra ordem , porque não tem mais obrigação, 
que certas vezes no anno ir fazer efta zum- 
baia a EIRey, e ao dia que ha de fer , ca- 
walga EIRey , e vai a huma quinta fora da 
Cidade a folgar, aonde o Accedecan vai com 
dez , ou doze mil cavallos que fuftenta , c 
faz fua zumbaia : fe EIRey eftá a cavallo , 
a cavallo ; fe a pé, a pé: quando fe aíTenta 
he á mão direita d'ElRey , acima de todos 
os Capitães, e Senhores do Reyno , porque 
precede a todos. Eíle Cufo Larym ( como 
he natural em todos os Reynos ferem inve- 
jados os que mais podem ) foi mexerica- 
do com EIRey , que lhe começou a ter má 
vontade , do que elle foi aviíado ; e recean- 
do-fe que vieííe perder o lugar que tinha , 
e ainda a vida , ( porque pêra hum deites 
Reys cortar a cabeça , não fó a feu Capitão y 
mas a feu irmão , baila hum pequeno mexe- 
rico , ) querendo fegurar a fua com os Por- 
tuguezes , carteou-fe com o Governador Nu- 
no da Cunha , e. lhe offereceo as terras fir* 
ines de Salcete , e Bardes , que já foram do 
Eftádo pela doação que delias fez EIRey de 
Bifnagua , cujas foram , fendo o Governador 
Diogo Lopes de Siqueira no Eítreito 7 e Ruy 

de 



Dec. IV, Liv. VIL Cap. VI. 173, 

de .Mello Capitão da Cidade de Goa , que 
logo foi tomar polle delias , como fe verá 
na terceira Década de João de Barros. Ef- 
tas terras deo o Accedecan com condição, 
que fe o Idalcan foííe fobre elle, que o re- 
colheflem em Goa com toda fua fazenda , 
e famiiia , e lhe deííem feguramente embar- 
cação pêra fe paíTar a Meca , ou a Cambaya. 
Diíto lhe paíTou o Governador feguros Reaes, 
e fizeram feus papeis. E logo mandou tomar 
poíTe daquellas terras pelo Capitão da Cida- 
de , e pelo Tanadar mor , a quem os offi- 
ciaes do Accedecan as entregaram livremen- 
te, pondo nellas recebedores de fua mão , 
e recolhendo os foraes pêra por elles fe ar- 
recadarem as rendas das aldeias. E para fe- 
gurança delias mandou o Governador fazer 
huma tranqueira no lugar de Mardor , jun- 
to da aldeia Verna , duas léguas de Agaçain > 
onde eftava hum pagode muito forte , que 
o Capitão mandou cercar de paredes grof- 
fas , ficando elle no meio como cavalleiro , 
e nelle deixou por Capitão Chriftovão de 
Figueiredo Tanadar mor de Goa , com du- 
zentos Portuguezes , e muitos piães da terra. 
Dalli começou a grangearos naturaes , mar^ 
dando feguros a muitos , que andavam au- 
fentes , e de forte negociou iílo , que acu- 
diram todos com feus foros , mas não du- 
rou ifto mais de três ânuos ; porque torna- 
ram 



1^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

tam as terras ao Idalcan , como no fim def- 
ta Década fe verá. O Accedecan , depois que 
fez entrega das terras , fortificou-fe na for- 
taleza de Pondá por eftar mais peno de Goa , 
porque fe o Idalcan foílè fobre elle pudef- 
fe pafíar-fe logo pêra a Ilha. Neílas coufas 
gaitou o Governador o inverno, e em pre- 
parar a Armada pêra na entrada do verão 
fe pôr no mar; porque eftava affentado em 
confelho , que fizeííe tanta guerra pela coi- 
ta de Cambaya , e que aífi lhe impediífe a 
navegação , trato , e commercio d'outras par- 
tes , que obrigaífe a EIRey a lhe dar for- 
taleza em Dio , porque eftavam defengana- 
dos os do confelho de fe fazer por força , 
e que efta guerra fe fizeífe com catures li- 
geiros. E que elle Governador folie ao Ma- 
lavar fazer huma fortaleza como lhe EiRey 
mandava , aífentando-fe que feria melhor no 
rio de Chalé , aíli por ler duas léguas de 
Calecut, como pela commodidade do por- 
to , que era capaz de recolher noífas Arma- 
das até galés. Com efta refoluçao mandou o 
Governador fazer muita cal , e ajuntar mui- 
tos pedreiros , e cavoqueiros , e toda a mais 
fabrica pêra aquella obra , trazendo fuás in- 
telligencias com o Rey de Chalé , e Tanor , 
porque o Çamorim eftava de guerra com o 
Eítado. , 

CA- 



Dec. IV. Liv. VIL iff 

CAPITULO VIL 

Das coufas que cjle annofuc cederam em Ma-* 

luco , até chegar Gonçalo Pereira , e da 

morte cVFJRey Bayano : e das cruezas , 

e deshumanidades que D. Jorge de 

Menezes ufou com os Ternatezes. 

DEixámos as coufas de Maluco o anno 
paliado com as pazes feitas entre os 
Portuguezes , e Caftelhanos, e elles fahidos 
de Tidore pêra o lugar de Camafo. Depois 
diíío , recolhido EIRcy de Tidore pêra a- 
quella Ilha, vendo-fe defabrigado dos Caf- 
telhanos com quem tinha cobrado bico , a- 
chando a lua Cidade aíTolada > e deífruida , 
começou a puxar por pazes pêra fe quietar, 
e viver fem fobreíaltos. E praticando-fe nel- 
Jas , vieram-fe a concluir com as condições 
feguintes : 

Que ElRey de Tidore pagaria certos 
bares de cravo , ( cuja quantidade não acha- 
mos na verdade , ) que nunca mais recolhe- 
ria em feu Rcyno Cajlelhanos ? nem os fa- 
voreceria , nem ajudaria mais contra Por- 
tuguezes , nem contra feus amigos \ e alia- 
dos. Eífos pazes fe juraram , e celebraram 
em ambos aquelies Reynos de Ternate , e 
de Tidore , começando daíli em diante a cor- 
rer em amizade huns com os outros , e com 

if- 



156 ÁSIA de Diogo de Couto 

ifto tiveram os Portuguezes mais algum fô- 
lego , porque eftavairi trabalhados, e canfa- 
dos da guerra. Pouco depois diílo faleceo na 
noffa fortaleza EIRey Bayano , a que outros 
chamao Bohat , que foi filho de Boleife , o 
primeiro que nos agazalhou naquellas Ilhas , 
que faleceo os annos 1520 , ficando-lhe três 
filhos legitimos , ifto he , efte Bayano que a- 
gora faleceo, Ayalo , e Tabarija , que fica- 
ram tão moços , que ornais velho não paf- 
fava de féis annos. Teve mais kie filhos baf- 
tardos homens , de que o mais velho era Ca- 
chil Daroes , que ficou por tutor dos irmãos 
legitimos , e Governador do Reyno com a 
Rainha fua mai , em quanto o Bayano não 
era de idade. E o anno de vinte e hum , que 
António de Brito fez a fortaleza de Terna- 
te , pêra mor fegurança delia recolheo o 
Rey Bayano , que era menino com fuás amas , 
e aias pêra o crearem , dando-lhe gazalha- 
dos feparados pêra iíío : o que foi muito máo 
de foffrer á Rainha fua mai , que , como dif- 
femos , governava o Reyno com o enteado 
Daroes. Com ifto começaram logo a fe pe- 
jarem os naturaes com os Portuguezes , e 
com a fortaleza , porque tanto que tiveram 
forte em que fe recolherem , começaram a 
governar com feveridade , tomando-lhe o 
fèu Rey por força , pêra os terem fopeados. 
Foi o moço creando-fe na fortaleza , até fer 

de 



Dec. IV. Li v. VIL Cap. VIL 157 

deidade pêra lhe entregarem oReyno. Sen- 
do efíe anno ein que andamos o Rey de de- 
zoito 5 e depois de tomar poíTe do Reyno, 
aíll no cativeiro veio a falecer em poucos 
dias , e não fem iufpeita de peçonha , e fe 
affirmava , que lha mandara dar Cachil Da- 
roes j porque lhe era muito doce o reinar. 
Por morte do Bayano , que a mai fentio mui- 
to , fez logo jurar o filho fegundo Cachil 
Dayalo, a quem D. Jorge teve modo pêra 
também o recolher na fortaleza : requeren- 
do-lhe a mãi que lhe délTe feu filho , por- 
que receava que hum , e hum lhes foflem 
todos morrendo daquella maneira. Aifto lhe 
nao diflirio D. Jorge 5 porque como Cachil 
Daroes lhe vinha bem governar , favorecia 
D. Jorge niíTo , porque elle foi o que teceo 
aquellas meadas , e o que deo a ordem pê- 
ra fe recolher EIRey na fortaleza , pelo que 
lhe niíTo hia. Succedeo depois difto arrufar- 
fe o Daroes do Capitão , porque favorecia 
muito hum homem principal chamado Ca- 
chil Vayaco , de cuja amizade elle andava 
muito ciofo 5 porque receava que pela mui- 
ta conta que delle o Capitão fazia 5 vieífe 
élle a delcahir , e a pagar fuás maldades. E 
aífi lhe veio a tomar tamanho ódio 5 que tra- 
tou de o matar , do que elle logo foi avi- 
fado. E como tinha menos poíTe que o Da- 
roes , acolheo~fe á fortaleza pêra fegurar fua 

vi- 



158 ÁSIA de Diogo de Couto 

vida. Daroes tanto que o foube , como o 
odío era entranhavel, mandou requerer a Dom 
Jorge , que lhe entregaííe Vayaco , como a 
Governador daquelle Reyno , porque tinha 
delle culpas , e queria fazer juftiça. D. Jor- 
ge , como era amigo do Vayaco , delejou de 
o falvar, e chamou o Alcaide mor, e Ca- 
pitão mor do mar , e algumas outras peflbas 
principaes , e tomou com elles parecer fo- 
bre o que faria naquelle negocio. Alguns 
diziam que era obrigado ao entregar , ou- 
tros que não , mas que trataííe de moderar 
Cachil Daroes , dando huns , e outros fuás 
razões. Eííava o Vayaco recolhido em hu- 
ma camará , e fabia muito bem o que fe tra- 
tava y e pode ler que o cuviíle , porque o 
negocio tratou-fe hum pouco defentoado ; 
e receando-fe que o entregaflem a Cacil Da- 
roes , coufa que elle fentiria mais que a mor- 
te y quiz antes tomalla porfi, que ir-lhe ca- 
hir nas mãos ; e não achando com que íe 
matar, remettendo a huma janella , lançou- 
fe delia abaixo , e fez-fe em pedaços. Iíto 
fentio D. Jorge muito , e ficou tendo avor- 
recimento ao Daroes , defejando de fe lhe 
offerecer occaíião em que fe vingaííe delle, 
Succedeo poucos dias depois difto matarem 
huma porca pequena , que D. Jorge tinha , 
de cafta da China muito formoía , que an- 
dava por derredor da fortaleza de dia , do 

que 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. VIL i$? 

que D.Jorge ficou tão apaixonado , que man- 
dou inquirir lobre a morte da porca , e a- 
chou-fe culpado ( ou quiz dle que fe achai- 
fe ) bum Cachil Vaydua muito parente do 
Daroes , e douto na lei de Mafamede , prin- 
cipal Caflis , e Sacerdote entre clks , a quem 
D. Jorge logo mandou prender na fortale- 
za. A ifto acudio o Daroes com muitos prin- 
cipaes a lho pedir , o que fez quaíi com união : 
D. Jorge mandou hum criado feu homem 
baixo chamado Fero Fernandes , que lhe fof- 
fe trazer Cachíl Vaydua , e parece que ou 
D. Jorge o tinha enfaiado do que havia de 
fazer, ou elle de máo , ou gracioio tomou 
huma pofta do toucinho da porca , e tiran- 
do-o do tronco lhe untou a boca mui bem 
com elle , não lhe dando dos gritos que o 
Mouro dava chamando por Deos , e pelo 
Capitão ; e aíG o levou aonde elle eftava , 
que era á porta da fortaleza , com os que 
lho foram pedir. O Mouro tanto que vio o 
Daroes , lançou-fe no chão , e começou a es- 
bravejar, e a chorar, contando-lheo que lhe 
fizeram com muitas lagrimas; o Capitão lho 
entregou , e o Daroes o mandou pêra fua 
cafa , onde fez grandes purificações , porque 
o porco he muito abominável aelles; efen- 
tio aquelle negocio tanto , que fefoidaquel- 
la Ilha defterrado, e fe paííbu por todas as 
outras > e por ellas andou pregando a affron* 

ta, 



ióo ASIÀ de Diogo de Couto 

ta 3 que os Portuguezes fizeram ao Sacerdo-* 
te de Mafamede , pedindo , e requerendo a 
todos , que quizeííem acudir por lua honra. 
Não pararam ainda nifto as couías > mas or- 
denou o demónio ainda outro caio r pêra a- 
cabarem os Portuguezes de fer avorrecidos 
naquellas Ilhas, quefoiefte. Como faltavam 
os mantimentos , e o Galeão da viagem tar- 
dava , e nao havia com que fazer paga aos 
foidados , bufeavam elles feu remédio por 
onde o achavam , entrando pelas tendas , e 
caías dos natúraes , e lhes tomavam os man- 
timentos íem lhos pagarem. Iílo indignou 
tanto a todos , que mandou o Daroes , que 
fe nao trouxefle mais coufa alguma a Cida- 
de pêra fe vender , e que fe fechaffem as 
tendas como fizeram. Começando a faltar tu- 
do , e os da fortaleza padecerem tantas ne- 
ceííídades , que amotinados os foidados di- 
2iam grandes males do Capitão , e do Go- 
vernador da índia , indo todos á porta da 
fortaleza , ao modo de motim , requerendo 
que lhe pagaíTem , e lhes deílem mantimen- 
tos , a iílo lhe nao podia fer D. Jorge bom, 
pela falta que havia de tudo na fortaleza , 
e foi-lhe neceííario mandar Gomes Aires em 
algumas Corocoras , com alguns foidados 
por eíTas Ilhas a relgatar alguns mantimen- 
tos com alguma roupa que ainda havia. Ef- 
te homem chegando a huma daqueilas Ilhas 

per- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. VIL iói 

perto , defembarcáram certos Toldados em 
hum lugar chamado Tobana , e como hiam 
famintos entraram pelas cafas, elhes toma- 
ram o mantimento que lhes acharam , fem 
lho pagarem , não vendo quão poucos eram , 
e o rifco que corriam. Tantos roubos , e des- 
atinos fizeram , que não podendo os mora- 
dores já foffrer mais , deram nelles , e não 
querendo matar algum , os efpantáram mui 
bem , e lhes tomaram as armas em paga de 
feus mantimentos. Aííi efpancados , e moí- 
dos fe embarcaram , e fe foram pêra Ter- 
nate , e fe aprefentáram ao Capitão com os 
focinhos inchados , e efcalavrados , contan- 
do-lhe o cafo. D. Jorge como era apaixo- 
nado , e de forte natureza , mandou chamar 
oDaroes, elhe diífe, que logo lhe mandai* 
fe trazer os authores daquelle negocio, pêra 
os caíligar conforme a como o cafo reque- 
ria ; affirmando-lhe que fe logo o não fazia , 
que nelle havia de tomar fatisfaçao daquel- 
las affrontas. Cachil Daroes com ter já fa- 
bido que os Portuguezes tiveram a culpa 
daquelle defarranjo , calando-fe , mandou tra- 
zer o Governador de Tobana , e dous ho- 
mens outros principaes , e os entregou a Dom 
Jorge, havendo que fe fatisfaria com iílb , 
e quando muito, que os teria -prezes alguns 
dias. Mas D.Jorge ufando de fua má natu- 
reza , mandou logo alli cortar as mãos a 
Couto.Tom.LP.il. L dous, 



t62 ÁSIA de Diogo de Couto 

dous , e ao Governador da Ilha mandou ma- 
tar de hum género de morte muito cruel , 
e nunca ufado entre os Portuguezes ; porque 
aífí como eíía nação igualou a todas as do 
Mundo cm adquirir, conquiítar, e fuftentar 
tantos , e tão apartados Reynos , e Impérios ; 
affi fe eftrcmou na mifericordia , e piedade , 
que fempre ufou com os vencidos : coufa 
tão natural de animo nobre , e Chriflão , 
quanto o outro lie de bárbaros , e inhuma- 
nos. Cachil Daroes , e todos os mais da Ilha 
ficaram com tamanho ódio contra D.Jorge, 
que trataram de o matar, e o melmo a to- 
dos os Portuguezes , e Caftelhanos , por fe 
verem livres deílas gentes , que por calo tão 
nefando tinham razão de lhes aborrecerem. 
E dando conta deite negocio a alguns feus 
familiares, aconfelháram-fe , que convocaf- 
fem todos os Reys daquellas Ilhas a huma 
liga geral contra todos os Chriftãos , o que 
Jogo Daroes poz em execução , defpedindo 
peíToas de confiança a darem conta a Cachil 
Catabruno , que governava o Reyno de Gei- 
lolo , pelo Rey ler menino , e lhe mandou 
pedir , que em hum certo tempo fe levan- 
taíTe contra os Caftelhanos , que eftavam na- 
quelle, Reyno, e os mataífe a todos; e que 
também o fizeííe ao Rey menino , e fe ale* 
vantafle por Rey , que elle o favoreceria 
em tudo > porque dle havia de fazer outro 

tan- 



De o IV. Liv. VIL Cap. VIL 163 

tanto aos Portuguezes , e ao moço Dayalo, 
e fe havia de alevantar por Rey daqueílas 
Ilhas , onde nunca mais havia de confentir 
Portuguezes por fuás tyrannias. Eftando ef- 
te negocio affi ordenado , permittio Deos es- 
torvar tudo , porque efperava fer ainda por 
todo aquelle Archipelago feu Santiííimo 
Nome louvado , e exaltado , porque não fw 
calfe parte no Mundo em que Elle não fof- 
fe honrado, e conhecido ; e aífi fe veio a 
defcubrir a conjuração. E como Cachil Da- 
roes pêra mais diflimulaçao nunca fe aufen- 
tou , antes hia muitas vezes á fortaleza , aífi 
por fua vontade , como chamado do Capi- 
tão , hum dia lhe mandou elle recado, que 
fe foíTe pêra elle, e íevaiTe Cachil Tâmara- 
no , que era Capitão do mar , e Cachil Boyo , 
juíliça mor do Reyno , porque tinha negó- 
cios que tratar com elles. Cachil Daroes in- 
nocente do que D.Jorge determinava, ajun- 
i tando os outros , fe foi á fortaleza , e o Ca- 
pitão os recolheo em huma camará, e lhes 
| mandou dar tratos fobre o cafo , e nelles 
defcubríram a conjuração , do que mandou 
Ifazer hum auto judicialmente , porque os 
condemnou á morte. E logo mandou orde- 
jnar no terreiro da fortaleza da banda de fo- 
ra hum cadafalfo alto , onde mandou tirar 
jCachil Daroes á viíta de todos, efubido enj 
|cima hum pregoeiro, notificou çmabas vo- 
L ii zes 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

2es fuás culpas , porque fora fcntenceado que 
foííe degollado , e Jogo hum algoz lhe cor- 
tou a cabeça. Dos outros dous não achámos 
em lembrança o que fe fez âclks , mas o 
certo he que também morreriam. A Rainha, 
e todo o povo ficaram tão cfcandalizados 
deite negocio , que logo dcfpejáram a Ci- 
dade , e fe recolheram a huma ferra muito 
forte , e fe apoíèntáram no lugar de Toru- 
to. Dalli mandou a Rainha pedir a D.Jor- 
ge o filho que lhe tinha prezo , ao que lhe 
elle não refpondeo. Pelo que logo mandou 
lançar pregão por toda a Ilha 5 que fob pe- 
na de morte nenhuma pefloa vendeííe aos Por- 
tuguezes mantimentos , nem outra coufa al- 
guma. Com ifto os puzeram em tão extre- 
ma neceílidade de fome, que começaram a 
adoecer , e a cahir pelas ruas de fracos. E 
fem dúvida morreram todos , fe Deos não 
trouxera áquelle tempo o Galeão de Gonça- 
lo Pereira, que o anno atrás paífado (corno 
diífemos ) tinha partido de Goa , com o que 
os homens tornaram a refufcitar. Gonçalo 
Pereira tomou poiTe da fortaleza , e fez pa- 
ga aos foldados , que achou tão fracos , e 
debilitados , que fe não podiam mover. A 
Rainha , tanto que foube que era chegado Ca- 
pitão novo 3 o mandou vifitar , e fazer-lhe 
queixas de D.Jorge, a que lhe elle refpon- 
deo muito bem , e que lhe faria juíliça. E 

co- 



Dec. IV. Liv. VIL C ap. VIL i6f 

como elle levava por regimento do Gover- 
nador, pelas culpas que de D.Jorge lhe ti- 
nham mandado , que riraíTe delle devaça , e 
achando-o comprehendido naquelles crimes 
que lhe apontava , o prendeíTe , o que elle fez , 
e ometteo na torre da menagem , o que lhe 
foi também neceíTario por apaziguar a Rai- 
nha , e deo mais liberdade ao filho da que 
tinha , fallando-lhe todos os que queriam , 
e paííeando- por toda a fortaleza ; e com if- 
to mandou pedir á Rainha , que fe tornaf- 
fe pêra a Cidade, e correflem em amizade 
como dantes , porque elle lhe faria juítiça 
muito inteira. A Rainha vendo que lha co- 
meçava a fazer na prizão de D. Jorge , e na 
liberdade do filho, que dantes eílava reteu- 
do em huma cafa , logo fe tornou pêra a Ci- 
dade com todos os feus , e mandou que cor- 
reíTem as coufas como dantes. Gonçalo Pe- 
reira achou a fortaleza mui desbaratada , e 
tratou de a reformar , mandando-lhe fazer 
baluartes , porque até então não era mais que 
huma parede tofca. E pêra ifto mandou pe- 
dir á Rainha ajuda de officiaes , e materiaes , 
promettendo-lhe , de como a fortaleza foíTe 
acabada, de lhe entregar feu filho , com o 
que lhe ella mandou acudir com todo o ne- 
ceíTario : e como foi tempo de o Galeão ir 
pêra índia , mandou embarcar D.Jorge pre- 
zo em ferros com os autos de fuás cul- 
pas. 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

pas. E neíte eílado ficam as coufas de Ma- 
luco até íer tempo de tornar a ellas. 

CAPITULO VIII. 

Da defcripçao de todo ejle mar do Levante , 
e quaes são as verdadeiras Ilhas de Ma- 
luco. E da divisão dos cinco Archipe- 
lagos em que fe reparte : e dos coftu- 
mes , e condições defeus naturaes. 

POflo que João de Barros tenha eícrito 
muito bem delias Ilhas de Maluco, de 
fua povoação , e principio de feus Reys , to- 
davia quizemos aqui fazer eíla nova defcri- 
pçao ; porque depois que elle efcreveo , vie- 
mos a alcançar muitas coufas , que naquel- 
le tempo fe não fabiam , que são coufas mui- 
to neceflarias , e curiofas. E para melhor de- 
claração , e entendimento deíla defcripçao , 
dividiremos efte grande Archipelago , e mar 
deíla banda em finco partes, dando-lhes ter- 
mos , e limites a cada huma pêra fe pode- 
rem conhecer. 

A primeira parte he o Archipelago de 
Maluco , a que os naturaes não fabem dar 
quantidade ; mas o mais certo he , que come- 
ça paíTando Mindanáo , e tudo pêra lá cha- 
rna-fe Maluco , em cujo meio ficam as fin- i 
co Ilhas do cravo, Ternate, Tidore , Ma* 
quiem^ Bachão , eMoutel. E poíloqueBa- 

chão 



Dec. IV. L iv. VII. Cap. VIII. 167 

chão he dividida em muitas Ilhas cortadas 
por muitos braços de mar, que fe navegam 
com embarcações ligeiras , todavia -por fer 
de hum fó Senhor as nomeamos por huma 
fó. Por cima delia corta a Equinocciaí , eao 
Norte delia corre a Ilha de Ternate , que 
fe aparta hum gráo pêra o Norte , ficando 
enrre huma , e a outra as Ilhas de Moutel , 
e Maquiem, todas ávifta humas das outras 
por eípaço de vinte e finco léguas , e todas 
fe correm Nòrrc , e Sul. E pofto que de- 
baixo defte Archipelago fe comprehendam 
outras muitas Ilhas, todavia quando fe no- 
meam as de Maluco , não fe entende mais 
que deitas finco Ilhas , por ferem as fenho- 
ras , e principaes de todas; e aífi por excel- 
lencia fe chamam Moloc , ( que he o feu 
verdadeiro nome , ) e não Maluco , que he 
corrupto delle , cujo nome na fua lingua pró- 
pria quer dizer , cabeça de coufa grande. 
Eíías finco Ilhas , e todas as mais que íe com- 
prebendem nefta primeira parte , ou Archi- 
pelago de Maluco , são fenhoreadas de três 
Reys , o de Bachao , o deTidore, e o de 
Ternate ; eíle fenhorea as três principaes do 
cravo , que são Ternate , Moutel , e Ma- 
quiem. E pofto que efteRey fe intitule por 
de Ternate , não he por fe chamar aífi a 
Ilha , ( cujo verdadeiro nome he Gape , ) fe- 
não porque a principal Cidade delia fe cha- 
ma 



i68 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma Ternate. E pela meíma maneira a Ilha 
de Tidore fe chama Duco , e a ília princi- 
pal Cidade Tidore , de que aquelle Rey íe 
honra , e intitula • aíli como os Reys de Fran- 
ça , de Senhores de Paris. Mas entre todos 
eftes Reys , ao de Ternate io por exceilen- 
cia intitulamos por Rey de Maluco , aífi por 
fer fenhor das principaes três Ilhas do cra- 
vo , como já diflemos ., ( e de outras mui- 
tas defte Archipelago , ) como pela autho- 
ridade , e em certo modo íuperioridade , que 
com a noíTa fortaleza alcançou íbbre os ou- 
tros Reys. 

A fegunda parte, ou Archipelago , heo 
do Moro , que fica perto de feíTenta léguas 
de Maluco ao Norte , e começa nas Ilhas 
de Doe duas léguas á ré da ponta de Bicoa ^ 
e não adiante 3 como anda nas cartas de ma- 
rear, no cabo de Batochina. São eftas Ilhas 
povoadas de gentes íilveftres. A Ilha de Ba- 
tochina terá em circuito duzentas e cincoen- 
ta léguas , e nella ha dous Reys , o de Gei- 
lolo , e o de Loloda , algumas vinte e cin- 
co léguas do outro , junto de huns Ilheos , 
onde acaba efte Archipelago da banda do 
Norte. E efte Rey he o mais antigo de to- 
dos os de Maluco , e de todos os daquel- 
le mar ; mas hoje he o mais pobre , e fra- 
co de todos. Os habitadores deíla Ilha da 
banda do Norte são falvagens, fem lei , e 

fem 



Dec. IV. Liv. VIL Cap, VIII. 169 

íèmRey, enao tem povoações fenão pelos 
matos. Mas da banda do Leite he povoada 
de longo do mar , e tem grandes , e bons 
lugares , que cada hum tem lingua fbbre li , 
porto que todos fe entendem. A eíla çofta 
chamam Morotia , que quer dizer o Moro 
da terra ; e as Ilhas de defronte chamam Mo- 
rotai, que he moro do mar , e a todas as 
Ilhas juntamente chamam o Moro. Seus ha- 
bitadores são homens falfos , brutos , e pu^ 
íillanimes ; e entre elles ha hum povo cha- 
mado Momoja muito bellicofo : careceram 
fempre de Rey, lei, efcritura, praça , pe- 
zo j medida , moeda , ouro , prata , e de to- 
do o outro metal ; mas são todas eílas Ilhas 
muito abadadas de mantimentos , e delias íe 
provê Maluco : as mulheres são lavradoras , 
e trabalham em tudo , governa-íè cada lu- 
gar por huma peíToa principal , que fucce- 
de por defcendentes , a que não pagam tri- 
buto algum , fenão algum peixe quando vem 
de pefcar. Foram grandes idólatras . adora- 
vam páos , pedras, e ainda a figura do dia- 
bo , que pintavam com grandes feaídades. 
Os Reys de Maluco tanto que foram Mouros, 
começaram a conquiftar eílas Ilhas , e cada 
hum tomou o que pode j mas o melhor qui- 
nhão tomou o de Ternatej e depois lhe tomou 
o de Tidore alguns lugares com o favor dos 
Caítelhanos, como em feu lugar diremos. 

O 



jyo ÁSIA de Diogo de Couto 

O terceiro Archipelago he o dos Pa- 
pilas , que eítá a Leíle de Maluco , que he 
pouco frequentado pelas Ilhas ferem muitas , 
e cheias de baixos , e reílingas. Os naturaes 
delias Ilhas são pobriílirnos , negros como 
Cafres , com cabello revolto , magros , fe- 
ios , e de grandes , e crefpas grenhas. Cha- 
mam-lhe Papuas , que em lingua dos natu- 
raes quer dizer pretos : são homens rijos , 
e aturadores do trabalho , e muito habiles 
pêra toda a maldade , e traição. Tem todas 
as Ilhas Reys , e ha nellas ouro , mas vem 
pouco ás outras Ilhas , porque não tiram 
mais que o que hão miíler pêra jóias. En- 
tre elles ha alguns tão alvos , e louros , co- 
mo Alemães , e com o Sol são corno cegos : 
ha entre elles muitos furdos , e fegundo a 
informação que ha deitas Ilhas , correm de 
longo de huma grande terra , que dizem que 
fecha no Eítreito de Magalhães , porque al- 
guns Pilotos Caítelhanos navegaram de lon- 
go delia mais de quinhentas léguas. 

O quarto Archipelago he o dos Cele- 
bes , que eílá a Loeíle de Maluco : ha nel- 
le muitas Ilhas famofas , de que as princi- 
paes são Mindanáo , e a própria dos Cele- 
bes , em que ha muitos Reys , de que em ou- 
tra parte fazemos memoria. Tem mais as 
Ilhas Bifaya , que tem muito ferro 5 e MaC- 
caga, Masbate, que ambas tem muito ou- 
ro, 



De o IV. Liv. VIL Cap. VIIL 171 

ro , que também fe acha em Mindanáo , e 
a Ilha deSologo 5 que tem muitas pérolas, 
que não fabem os naturaes tirar. Tem todas 
eftas Ilhas , e outras muitas que não nomea- 
mos , muitos mantimentos , Sândalo , Agui- 
la , Canela , Cânfora , Tartaruga , Gengi- 
vre , Pimenta longa , e algumas deíias Ilhas 
obedecem ao Rey de Borneo , e outras ao 
de Ternate , e Tidore : são feus naturaes 
muito atraiçoados , andam nus, encachados , 
e trazem os corpos pintados com muitos la- 
vores : ufam o cabello cortado nas fontes ao 
antigo Portuguez , e por detrás muito com- 
prido , e atado no toutiço. Tem todos as 
teftas muito batidas pêra trás , por onde lhes 
ficam os roftòs parecendo maiores ; trazem 
os dentes limados , e pretos , e as orelhas 
furadas. São os Celebes tão cujos , e torpes , 
que tem mancebia de homens ; tem peque- 
nas povoações , e em cada cafa mora toda 
fauma geração ; e penduram ao redor de fuás 
cafas as cabelleiras dos que matam na guer- 
ra , e quem tem mais he mais honrado. Ha 
neftas Ilhas muitas monftruoíidades , de que 
• não falíamos , e entre ellas huma arvore , 
que quem fe póe á fombra do Ponente , ma- 
ta logo , fenao vam bufcar a fombra do Le- 
vante , que he feu antidoto. 

O quinto Archipelago he o de Amboi- 
no, que efiá ao Sul de Maluco, tem mui- 
tas 



ijz ÁSIA de Diogo de Couto 

tas Ilhas , que fe governam por fuás cabeças : 
as próprias de Amboino são abadadas de 
mantimentos , e de muitas , e frefcas ribei- 
ras de íingular agua ; nunca foram fujeitas 
a alguém , mas depois foram conquiíhdas 
dos Reys de Ternate , e Tidore , a que fi- 
caram fujeitas algumas daquellas Ilhas ; mas 
pelas avexaçoes que delles receberam fe re- 
belaram , e deram a obediência á Rainha de 
Japara ; e alguns lugares que são de Chri- 
ílaos obedecem aos Portuguezes. Colher- fe- 
hão neílas Ilhas dous mil quintaes de cravo 
cada anno , que logram os Jaós , porque o 
vam refgatar em feus juncos , fem lho nin- 
guém poder defender. Ha muitos povos por 
eítas Ilhas , em que os filhos comem os pais 
como são velhos : tem muitos ritos , e cof- 
tumes bárbaros , que nós não relatamos por 
fugir prolixidade. Dam-fe neílas Ilhas hu- 
mas vergas cumpridas, a que chamam rotas, 
que affirmam alguns homens verem algumas 
de fincoenta braças de comprido , e a mais 
groíTa he como hum dedo meiminho delga- 
do. Ao Sul' de Amboino eítam as Ilhas de 
Banda , e a Leíle delias perto de trezentas 
léguas , fegundo alguns affirmam , eílá hurna 
Ilha de muito ouro, cujos naturaes não paf- 
fam de quatro palmos de alto; e fe aífi he, 
são os verdadeiros Pigmeos, 

CA~ 



Dec. IV. Liv. VIL 173 

CAPITULO IX. 

Do que fe tem da antiguidade 5 e povoação 

das Ilhas de Maluco , com as arvores 

do cravo , e dos nomes que ejlas 

drogas tem por todo o Mundo. 

E y Stas Ilhas de Maluco , fegundo fe vê 
é por feus habitadores , foram no princi- 
pio povoadas de differentes nações ; o que 
fe infere da variedade das linguas que em 
todas lia , porque cada huma a tem de por 
fi , fó Maquiem , e Ternate deferem pouco , 
como Portuguezes, e Gallegos. Mas a lín- 
gua mais commum , e de que todos ufam , 
he a Malaya , que por fer mais doce , e de 
melhor pronunciaçao , fe lhe affeiçoáram to- 
dos. Os mais antigos defeubridores , e po- 
voadores delias Ilhas feachaíèrem os Chins, 
porque também fe tem pelos primeiros in- 
ventores das embarcações , e da arte de na- 
vegar de todos os do Oriente. Alguns tem 
pêra li, que os Jaós as defeubríram , e que 
os Malucos procedem delles ; mas o mais 
certo he procederem dos Chins , que palian- 
do ha muitas centenas de annos por aquel- 
le mar em feus juncos , aportando naquel- 
las Ilhas , vendo fua fuavidade , cheiro , e 
fruto da terra , carregando de feu cravo , 
que até então não era conhecido no Mun- 
do, 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

do, foram-fe , deixando-fe ficar muitos del- 
Ies por aquellás Ilhas , que povoaram algu- 
mas partes delias , cuja memoria ainda hoje 
dura, como fe vê na Batochina do Moro, 
e em Bathocina de Muar, que quer dizer, 
terra dos Chins do Moro , e terra dos Chins 
de Muar, e em outras muitas panes. E co- 
mo ficaram aquellás Ilhas conhecidas, e ía- 
bidasdeJles , foram bulcar o leu cravo , que 
por feu cheiro , gofto , e mais qualidades , 
foi muito eftimado de todos os que o vi- 
ram. Pelo que continuaram aquelle trato , le- 
vando-o em feus juncos aos Eílreitos Perfí- 
co , e Arábico de envolta com outras lou- 
çainhas , e riquezas da China , que por mãos 
dos Perlas , e Arábios paíTáram aos Gre- 
gos , e Romanos , que as eflimáram , e cu- 
bicaram tanto , que trataram alguns Impera- 
dores Romanos de conquiftarem o Oriente. 
E como as mais das drogas foram ter á Eu- 
ropa , por mãos (como já diílemos) dos Per- 
fas , e Arábios , e elles as houveram dos 
Chins que lhas levavam , não lhe fabendo 
fua origem , e nafeimento , cuidando que tu- 
do traziam da fua Província da China , de- 
ram-lhes feu próprio nome a muitas , como 
foi á Canela , que Avicena , e Ralis no- 
meam por dous nomes ; Dareine , que quer 
dizer páo da China , fendo ella de Ceilão , 
e Cinnamomo , que quer dizer páo cheirofo 

da 



Dec. IV. Liv. VIL Cap- IX. 175- 

da China. He tão antigo eíle conhecimento 
do cravo , que já Plinio , ( que concorreo 
no tempo do Imperador Domiciano , ) te- 
ve deile noticia , porque no feu livro duo- 
décimo capitulo fetimo diz , que havia na 
índia hum grão femelhante ao de pimenta, 
fenao quanto era mais comprido , que fe cha- 
mava CariofiJum , e outros o nomeam por 
Gariofilum. Os Perlas o nomeam por Csía- 
fur. E faltando nifto com licença dos Mé- 
dicos , nos parece que oCariofilum dos La- 
tinos he corrupto do Calafur dos Mouros, 
porque lá tem alguma femelhança ; e como 
efta droga paíTou á Europa por mães dos 
Mouros com eíle nome de Calafur , pare- 
ce que lho não mudariam. Os Caílelhanos 
lhe chamaram Giíope , porque o que leva- 
ram foi da Ilha deGeilolo. Os Malucos lhe 
chamam Chanquc. Os Médicos Bramenes 
o conhecem por Lavanga , pofto que tam- 
bém o nomeam pelo nome dos Mouros : 
mas cada hum lhe quer dar o feu , como 
nós também fazemos ; porque os primeiros 
nolTos, que foram ter áqucllas Ilhas , toman- 
do-o na mão , e vendo a femelhança que ti- 
nha com hum cravo de ferro , lhe ficaram 
chamando cravo , por onde hoje he tão co- 
nhecido no Aíundo. E pofto que diflemos , 
que fó nas finco Ilhas , ( que no capitulo 
atrás nomeámos ) ha cravo , não he porque 

o 



176 ÁSIA de Diogo de Couto 

o deixe de haver em outras , fenão pela gran- 
de quantidade que nellas fe colhe : porque 
cada armo refpondem com quatro mil bares , 
de quatro quintaes emeio, e vinte e quatro 
arratens o bar , que iflb tem o de Ternate , 
e pela conta do terço que Jhe tiram pelo haf- 
tão , ( porque aquelles são limpos , ) dam féis 
mil bares ; mas também o ha nos Ilheos de 
Ires 3 eMeitarana, circumítantes a Ternate, 
e em Pulo Ca vali ? junto a Tidore , e em 
Geilolo , Sabugo , e Gamoconora , lugares 
claBatochina : e emAmboino, e na Ilha de 
Varenula , onde fe dá mais cravo que todas , 
mas peior ; e menos grado. E porque falía- 
mos em cravo limpo , faremos declaração da 
diíFerença que tem de limpo a cujo. 

Quando facodem cíte cravo das arvores 
que fe apanha , alimpam-no , e apartam-lhe 
a huma parte os pãozinhos , a que os Caf- 
telhanos chamam fufte , (que são aqueilas 
pontinhas em que nafee o cravo, que tam- 
bém cheiram, erequeimam : e partes ha na 
índia em que vaiem em igual preço do cra- 
vo, mas commummente dam porelle as três 
partes menos ; ) e também lhe apartam ou- 
tro cravo a que chamam madre , que he o 
que ficou de hum anno pêra o outro, epor 
iflb engroííou , e vai bem na Jaoa ; e tira- 
das eftas duas coufasfóra, todo ornais cra- 
vo que fica he apurado , e lhe chamam lim- 
po 



Dec. IV. Liv. VI Cap. IX. 177 

po de páo , e de baítão , e eftc de ordiná- 
rio vai mais a terça parte , que por alimpar. 
Eftes craveiros são muito grandes , verfudos , 
e pontagudos , porque tendo os pés groflbs , 
deitam muitos , e delgados ramos : a folha 
fe parece com a dos loureiros , e quebrada 
entre os dedos cheira , e requeima alguma 
coufa , mas nada a calca , e a madeira , que 
he muito forte , e de muita dura. He eíta ar- 
vore tão cálida , que não deita de íi go- 
ma , como Avicena por má informação ef- 
creveo no livro fegundo , capitulo trezentos 
e dezoito ; onde diz , que a goma da ar- 
vore do Cariofiliom era femelhante á tre- 
mentina em virtude : e muito averiguado , 
e experimentado cftá por todos os naturaes , 
que as arvores muito quentes , e muitos frias 
não deitam goma , e fó as do meio a pro- 
duzem , como vemos neftas arvores , e nas 
de páo preto , e páo ferro , e em outras em 
que fe nunca achou. Nafce o cravo em ca- 
chos como mortinhos , e depois de madu- 
ro 3 que fe conhece pela cor que he roxa , o 
tiram, e o feccam ao Sol porefpaço de três 
dias , em que toma aquella cor preta fobre 
cinzenta , que fempre tem. Mudam-fe eftas 
arvores em fuás novidades como maleitas , 
o que lhe procede do muito Sol , e da mui- 
ta chuva, quecontino tem, por efíarem de- 
baixo da EqiúnocciaL Começam a abrolhar 
Couto. Tom. L P. iL M em 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

em Fevereiro , e em Março , e de Setem- 
bro por diante a colher : e conhece-fe a quan- 
tidade de pouca , ou muita novidade , pela 
flor muita , ou pouca. Os craveiros nafeem. 
fem beneficio algum , como todas as arvo- 
res do mato, porque efte he odeftas Ilhas: 
e he tamanha fua quentura , que chupa to- 
da a humidade da terra , e não lhe deixa 
virtude pêra produzir herva alguma ao der- 
redor. E não íb acontece iílo nas hervas , 
pêra quem não he ncceíTaria muita humida- 
de , mas ainda em todo o arvoredo j por- 
que fe querem diípôr hum craveiro , buí- 
cam parte onde eílam outras arvores , pêra 
que chupando-lhes o humor, crefçam. Eafíí 
como vam fubindo , vam as outras á roda 
ieccando-íe 5 até de todo perderem a virtu- 
de , e aíli vem a meíma qualidade em feu 
fruto ; porque fe metterem em huma adega 
de pipas de vinho quantidade de cravo , chu- 
pa a li todo o vinho , e por tempos deixa- 
rá as pipas vazias. E fe na caía onde eftá 
lançarem muita agua , cm breve tempo a 
forve toda de maneira, que fica a caía íec- 
ca , como le nunca lhe lançaram agua. E 
aíTi os homens na índia que o guardam , 
mandam aguar as cafas em que o tem com 
agua do mar , ( que lhe he mais natural , e 
o conferva , o que a doce não tem , que o 
damna, ) pêra que lhe não falte. O cravo 

que 



! 



Dec.IV. Liv. VIL Cap. IX. 179 

que fica nas arvores , que chamam madre , 
dizem que depois de grofíb o comem os 
pombos torcazes , que ha muitos em Geilo- 
lo , e que dos caroços que purgam naícem 
os craveiros que lá tem, Eflas arvores aos 
fete annos dam fruto , e de três em três an- 
nos a novidade grande ; porque fempre to- 
mam hum anno de folga , como as olivei- 
ras da noíTa Europa , e as mangueiras da ín- 
dia pêra crearem novos olhos , e folhas ; 
mas nem por iííò deixam de dar cada anno 
cravo , ainda que pouco. E alguns cuidaram 
mal que lhe vinha ifib de o varejarem , com 
o que lhe quebravam os olhos , porque em 
Bachao lhos cortam pêra dar mais cravo, o 
que fe vê bem claro nos ramos baixos , que 
não são tão açoutados , e varejados, porfe 
colherem á mão , porque nem neítes nafce o 
cravo fenão quando lie a monção. Alguns 
também tiveram pêra íi , que eítas arvores 
não fe davam perto do mar, o que foi en- 
gano, porque já fe viram ahi tão frudtiferas 
como as demais : mas não as haver á borda 
da agua , nafce da frequentação da gente as 
damnificar , e ifto fó na noifa Ilha de Ternate , 
que na deTidore, e nas outras as ha muito 
perto do mar , porque a agua falgada as con- 
ferva. Do meio dos montes pêra cima não fe 
criam os craveiros , pelo grande efcozimento 
do vento 7 e frio , que lhes são contrários. 

M ii CA- 



iSo ÁSIA de Díogò de Couto 
CAPITULO X. 

De muitas coufas notáveis que ha nejlas 

Ilhas de Maluco , e dos fogos que 

algumas lançam. 

EStas finco Ilhas , a que propriamente 
chamamos de Maluco 3 são todas de hu- 
ma feição , e grandeza , porque nenhuma 
delias paíla de íeis léguas em circuito. São 
redondas , e querem imitar hum chapeo coí- 
cuzeiro , cujas abas são aquellas chans que 
todas tem em que nalcem os craveiros , e 
que são povoadas de fuás Cidades , e Villas ; 
e do meio de todas fe alevantam huns mon- 
tes muito altos. São todas muito alcantila- 
das , e redondas , pelo que carecem de bons 
portos pêra ambas as monções , Ncroeíte , 
e Sul ; lo Ternate tem o porto de Talan- 
game , huma légua da fortaleza , onde os 
noíTos Galeões invernam. Tem outro huma 
légua defte , chamado o Toloco , em que po- 
dem as náos eftar com prancha em terra. E 
quando ElR,ey mandou que fe fizeíTe forta- 
leza naquella Ilha , não fe fez em algum def* 
tes portos , por ficar longe da Cidade onde 
o Rey vive. Tem ambos eíles pertos o rof- , 
to a Lefte. Ha por todas eílas Ilhas alguns 
arrecifes , que feus moradores abriram pê- 
ra entrarem luas embarcações. E a Ilha de j 

Ter- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. X. 181 

Tcrnate tem hum defronte da noíía fortale- 
za , o que tem entre a terra , e eile hum po- 
ço, onde podem entrar Caravelas de preamar , 
de aguas vivas defcarregadas , e no poço ef- 
tarem furtas á fua vontade. Todos eftes ar- 
recifes , principalmente eíle , são de pedra que 
fe gera do coral , que depois de velho en- 
durece , e com ter muitos ramos fe ajuntam, 
e convertem em pedra, de que fe faz muito 
boa cal. Eftá efte arrecife pofto por tal or- 
dem , que quem vai do mar demandalío , 
parece que vê formofos edifícios feitos alli 
pêra defensão daquelle porto. Efte monte de 
i ernate , que fe alevanta do meio da Ilha , 
fera de altura de duas léguas , he todo cheio 
de arvoredo , e palmares : no cume delle tem 
hutna eíiranha cova , que parece que defce 
ao centro , que he tão larga na boca que ef» 
caffamente íe enxerga hum homem de hu- 
ma banda á outra , e por fua muita largura 
fe enxerga decima huma praça direita, co- 
mo huma grande eira de pedra , e terra mo- 
vediça , que alguns homens foram ver , prin- 
cipaímen e Gabriel Rebello , fendo alli Fei- 
tor , e Alcaide mor, e médio a altura com 
muitas linhas depefcar, que ajuntou humas 
ás outras, e achou ter quinhentas braças. Lá 
em baixo arrebenta huma formofa fonte , que 
corre pêra huma parte , cuja agua ninguém 
chegou a provar , nem fe fabe fe he doce , fe 

fal- 



182 ÁSIA de Diogo de Couto 

falgada. Eíle chão que em baixo apparece\ 
( que como diílèmos he de pedra , e terra 
movediça , como hum entulho 5 ) ferve de 
<:ontino com a força do fogo que tem por 
baixo, e lança pêra cima muitas vezes hum 
tao efpeflb , e fedorento fumo , que parece 
coufa que fe pode palpar , e fede a enxo- 
fre ; e parece que por debaixo he efte mon- 
te oco , porque neíte tempo vai fumido a- 
quelle entulho , que de cima fe enxerga pê- 
ra baixo , como faz o trigo na tremonha da 
atafona ; e muitas vezes acontece . quando 
lança aquelle efpeífo fumo, fazer tamanhos ter- 
remotos , e trovões , que parece aos que e£ 
tam em cima , que cahe todo o monte , e a 
voltas delles lança huma grande quantidade 
de pedras vermelhas como fogo , que fe ef- 
palham pelos ares , como fe fahiífem de bo- 
cas de furiofas bombardas , e efpalhando-fe 
por toda a Ilha com grandes terremotos , 
cahem fobre a noíTa fortaleza , e fobre a Ci- 
dade : e algumas vezes fe achou irem dar 
nas Ilhas dos Meãos , e dos Cafures , dez- 
eoito , vinte léguas de Ternate. O fumo que 
lança he de muitas cores, e eíla he a razão 
porque efta Ilha hemais doentia que todas , 
por cauía dos máos vapores , ^corrupção 
do ar , e das aguas , porque muitas vezes 
cahem aquellas pedras nas fontes de que be- 
bem., que parece que as corrompe* Subia» 

do 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. X. 183 

do por efta ferra acima até hum terço del- 
ia , fera povoada : no mais alto faz grande 
frio , mas não tem bicho , nem ave mais 
que mofcas. De cima apparece grande dif- 
tancia de mar , e grande quantidade de Ilhas , 
porque a pureza do ar faz deícubrir muito. 
No cabo da terça parte do caminho da fer- 
ra , até onde he povoada , fe acha huma for- 
mofa fonte de agua tão fria , que fe m\o po- 
de beber fenão a tragos ; e lá na altura af- 
faftado hum pedaço da boca que deita fu- 
mo , arrebentou o monte por huma ilharga, 
e lançou em dous dias muita agua , e huma 
quantidade de grandes penedos , que foram 
fazendo pela ferra abaixo grandes concavi- 
dades até o mar , levando comíígo montes , 
e arvores com grandes terremotos. Tem mais 
efte monte em cima huma grande alagôa de 
agua doce , cercada toda de arvoredo , fe- 
bre que andam muitos lagartos de huma bra- 
ça de cumprido até á ponta do rabo , e quan- 
do fentem gente , faltam de cima dentro na 
alagôa. No Moro ha outra cova em outro 
monte , que também lança fogo , e fumo. 
Neftas Ilhas todas não ha verão , nem inver- 
no , e a chuva não tem tempo certo ? mas 
he mais geral com o Noroefte , que com o 
Sul. Ha neftas Ilhas cobras de mais , e me- 
nos de trinta pés , e conforme a efte com- 
primento he a groíTura; não são daninhas, 

li- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

ligeiras , nem venenofas ; dizem que quan- 
do lhes falta o comer, rnaítigam certa her- 
va que conhecem , e trepando-fe em algu- 
mas arvores que eftam fobre o mar , a lan- 
çam maítigada nelle , a que acode grande 
cardume de peixes a comer , com que Te em- 
bebedam , e ficam fobre a agua , e então íe 
lançam as cobras decima no mar, e farta ru- 
fe daquelle peixe. O mar cria Crocodilos , 
que são mais daninhos na terra 3 e no mar 
tão covardos, que fe deixam amarrar debai- 
xo da agua , quando defcem a elles alguns 
negros juntos com matinada. E hum Padre 
da Companhia que efteve neftas Ilhas diíFe , 
que vira prender hum deites ; tem quatro 
olhos , e muito pequeno coração. Ha huns 
bichos a que chamam Cucos 5 que habitam 
nas arvores , de cujo fruto fe mantêm ; são 
como coelhos 5 o pêlo efpeflb , crefpo , e af- 
pero , entre pardo , e ruivo , os olhos re- 
dondos , e vivos , mui pequenos pés , e mãos y 
e rabos compridos fem pêlo algum , por on- 
de fe dependuram pêra melhor poderem che- 
gar ao fruto ; fedem muito a rapozinhos , 
não fe lhes enxerga a natura ás fêmeas 3 
porque tem huma abertura na barriga que 
fenao enxerga de fora , e apertada com as 
mãos , fica hum bolfo fem pêlo , como car- 
ne bem esfolada , e o corpo inteiro , em cujo 
meio tem huma tripinha , em que eílá pega- 
do 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. X. ifjr 

do pela boca o filho quando andam pre>* 
nhes , e alli gera , e creíce até nafcer , e fe 
perfeiçoar, e depois lhes fica aquelle bolfo , 
e ninho , onde andam até fe poderem fuften- 
tar por íi : e quando andam no campo ao 
paílo , abrem os bolfos , e deitam os filhos a 
paícer , e fe fentem gente , tornam a reco- 
lhellos dentro , e fogem pêra as arvores fem 
Jhescahirem. Nos matos ha muitas aves bra- 
vas, edomeílicas, e algumas das que ha na 
Europa. Ha huma forte de papagaios , a que 
chamam Nores , de cores muito formofas , e 
ainda que gritam muito , faliam algumas cou- 
fas bem. Contam os homens de Maluco de 
hum que eftando são gritara alto , morro , 
morro , e batendo as azas , cahíra morto : e 
de outro , que vindo de Amboino no paiol 
de huma fufta , fora hum rato pêra o tomar , 
e elle gritara chamando por Baftião , ( que 
era hum moço que tinha cuidado delle , ) 
e com ifto fe livrou. Ha huns paííaros mais 
pequenos que patos , de grandes pefcoços , 
todos, ruivos , e todo o mais corpo muito 
negro , tem os pés muito curtos como pa- 
pagaios , e andam de faltinhos , tem o bico 
grande , e com tantos debruns nelle , como 
quantos annos tem , porque cada anno lhe 
nafeehum. A fêmea quando choca não fahe 
do ninho todo aquelle tempo , e alli a man- 
tém o macho : em quanto alli eílá , perde to- 
da 



i86 ÁSIA de Diogo de Couto 

da a penna 5 elhenafce outra de novo igual- 
mente com os filhos , com quem juntamen- 
te íahe do ninho renovada. O macho he tão 
ciofo , que em quanto a fêmea eílá no ni- 
nho , não deixa paliar alguém por peno , e 
logo arremete a morder, principalmente mu- 
lheres prenhes que perfeguem mais. Ha ta- 
manhos morcegos , que diz Gabriel Rebello , 
que médio hum , que tinha kte palmos de 
huma ponta da aza á outra. Tem guinchos , 
andorinhas , zorzaes , arvcolas , gaviaes , mo- 
chos , corujas , e outras muitas fortes depaf- 
faros , e aves. No mar tem muitas forces de 
pefcados , bg/leas , botos , toninhas , peixe 
vaca , como v o do Brazil. Nos arrecifes fe 
tomam huns caranguejos mui conhecidos dos 
outros por certo pêlo , e comendo de hu- 
ma cerra parte , mata Jogo em vinte e quatro 
horas. Ha outros que por outro tanto efpa- 
ço fazem grandes febres a quem os come , 
e huma muito alegre doudice , porque em 
todo aquelle tempo não deixa de faltar , bai- 
lar, fem comer, beber, nem dormir, epaf- 
fado o termo , tornam em fi como dantes. El- 
tes caranguejos fe criam aos pés de humas 
arvores que ha na praia , debaixo de cuja 
fombra adoeceram algumas peflbas da meí- 
ma doudice : eftas arvores são mui conheci- 
das , e em todo o chão que fua fombra to- 
ca 3 he tão fecco , e efcaldado , que nenhu- 
ma 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. X. 187 

ma herva produz. Ha outros caranguejos ar- 
mo lagoílas , ainda que de menos pernas , 
com humas bocas de dentes brancos , com 
que quebram os caroços pêra Jhe comerem 
a amêndoa : criam-fc em covas no mato , 
tomam-os de noite com- fogo, ou ao luar, 
e tem o corpo, e as pernas a mefma carne 
de iagoíta : no rabo tem hum bolfo de hu- 
ma certa maça de mui grande goílo , pelo 
que são tão eílimados , que valem tanto co- 
mo huma gallinha. Em huma certa Lua per- 
to da noíTa Pafcoa lança de íl ornar do Mo- 
ro huma grande quantidade de huma immun- 
dicia como minhocas , de que todo o mar 
fe coalha : e como os naturaes ja efperam 
por iílo com feus barcos , enchem-os mui^- 
tas vezes daquillo , p fazem hum betume que 
os fufíenta todo o anno , e em nenhum ou- 
tro dia fe vê mais. Ha na Ilha doBuro hum 
rio doce , e onde a maré não chega , faz hum 
pego , em que andam muitos falmoes tnui 
bons, e gordos , que nas aguas vivas de ou- 
tra Lua fahem dalli , e vam-fe ao mar , que 
lançam então outra grande quantidade de 
peixe miúdo , que he tanto , que fe fartam 
elles ; e os pefcadores daquellas Ilhas en- 
chem feus barcos , e os falmoes le tornam a 
recolher a feu pego , fem os naturaes lhes 
fazerem mal ; porque dizem , que por feu 
refpeito lhes dá Deos aquella multidão dê 
v i pei- 



i88 ASIÀ de Diogo de Couto 

peixe , que alli não apparece mais que aquel- 
Je dia , e o que tomam lhes dura fecco , e 
falgadotodo oanno. Ha neftas Ilhas de Ma- 
luco hutn páo que tira a vermelho, que ar- 
de no fogo , e faz chamma , e braza fem 
fe gaitar , e parece que tem natureza de pe- 
dra , porque fe desfaz facilmente entre os 
dedos , e tratado entre os dentes , trinca , e 
quebra. Á porta da fortaleza de Ternate 
eílá huma formofa arvore chamada Catopa , 
de que cahem humas folhas mais pequenas 
que as geraes , cujo pé he cabeça de hum bi- 
cho , ou borboleta, e o talo , o corpo, eas 
veias , que procedem dellc pés , e mãos , e as 
folhas azas , com que logo voam , ficando 
perfeita borboleta , e folha. E quando eíta 
arvore renova cada anno., lança algumas can- 
deias como de Caítanheiro : e do pedaço de 
huma , diz Gabriel Rebcllo , que vio hum 
bicho fervindo-lhe os grãos á roda de pés , 
e o talo de corpo 5 e as folhas novas criam 
huns bichos como de hortaliça , que cahem 
de cima pendurados por fios como teas de 
aranha , quç acodem a apanhar huma cafta 
de befpas , e as mettem em feus ninhos , que 
fazem de lama dentro nas cafas , e enchen- 
do-as daquelles bichos , tapam hum peque- 
no buraco que tinham pêra ferventia , e vam- 
fe as befpas pêra outro poufo : e deites bi- 
chinhos que ficam nos ninhos fe geram ou- 
tras 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. X. 185? 

trás befpas , que por tempos fahem dalli a 
buícar mantimentos. Fazem neílas Ilhas o 
fal de lenha das arvores que fe criam ao lon- 
go do mar , e fe lhes falta eíta , da que*dá 
o mato , que queimam , e vam coando o fo- 
go com a agua falgada , e depois a cinza 
que fica póe-fe em hum panno comprido y 
alto do chão quanto huma vara de medir , 
e vam-lhe lançando por cima decoada quen- 
te da mefma cinza , e vai gotejar em kílos 
poílos fobre brazas , e aili fe coalha aquel- 
le licor, efaz hum pão duro que falga mui- 
to bem. Outras coufas muitas ha muito no- 
táveis y que deixamos por não enfaíliar. 

CAPITULO XI. 

Da Armada que ejle anno de trinta e hum 
partio do Keyno : e de como Manoel de 
Macedo fe perdeo em Ca/ecare , e do que 
ali: pafjbu : e de como o Governador Nu- 
no da Cunha partio com huma grojja Ar- 
mada pêra o Malavar : e da gr anda ba- 
talha que D. Roque Tello teve com huma 
Armada de Calecut. 

C"^ Om as novas queElRey teve porMa- 
ji noel de Macedo , que levou Rax Xar- 
rafo prezo , foube ficar o Governador Nu- 
no da Cunha na índia chegado de pouco > 
que determinou de prover nas coufas da ín- 
dia 2 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

dia , fem embargo dos grandes trabalhos que 
no Reyno havia ; porque efteanno foram ta- 
manhos os terremotos em todo elle , ( princi- 
palmente em Lisboa , Azambuja , Almeirim , 
Santarém , e outras partes , ) que cahiam a 
mor parte dos edifícios ; e foi no mar a tem- 
peftade tamanha, que deítrouçou, e quebrou 
todas as náos que eftavam no porto de Lis- 
boa ; e fe affirma , que o rio Tejo fe abrio 
pelo meio , apartando-fe luas aguas , deixan- 
do caminho de feição , que apparecêram as 
arêas. Com iílo foi tamanho o medo nas gen- 
tes , que fe foram morar aos campos em la- 
pas , e tendas. Os mefmos terremotos hou- 
ve em Africa no Reyno de Tunes , e nos Ef- 
tados de Frandes , e houve nos Ceos gran- 
des , e efpantofos íinaes , de que os homens 
andavam como pafmados. Com todos eítes 
trabalhos não fe defcuidou EIRey das cou- 
fas da índia, mandando negociar finco náos 
de que não fez Capitão rnór, enellas man- 
dou embarcar mil e quinhentos homens. Ef- 
ta Armada fe fez á vela em Março. Os Ca- 
pitães delias eram Archilcs Godinho , Dio- 
go Botelho Pereira , (que Nuno da Cunha 
mandou ao Reyno eílando em Mombaça y 
como já difiemos ,) João Guedes , Manoel 
Botelho , e Manoel de Macedo , que levou 
RaxXarrafo, a quem EiRey fez mercê da 
fortaleza deChauL E indo feguindo fuader-» 

ro- 



Dec. IV- Liv. VIL Cap. XI. 191: 

rota, foram as quatro delias á índia a fal- 
vamento com tão profpero tempo , que fe 
affirma que Adules Godinho em menos de. 
quatro mezes liirgio na barra de Goa. Ma- 
noel de Macedo pela má navegação do feu 
Piloto fe foi metter do cabo de Çamorim 
pêra dentro fem faber por onde hia , e foi 
varar com a náo na reíiingua da Ilha dos 
Jogues defronte do lugar de Calecare , que 
eítá na terra firme, antes de chegar aos bai- 
xos de Chilao. Efte lugar he povoado de 
Mouros Naiteás grandes ladrões. Manoel de 
Macedo > tanto aue fe vio perdido , defembar- 
cou na reftingua, que era huma ponta de área , 
onde fe fortificou com muita preífa com 
pipas , páos , tavoas , e madeira que tirou da 
náo , mandando defembarcar todo o manti- 
mento , e agua que havia , porque logo co- 
nheceo a terra. E aparelhando o efquife , em- 
barcou nelle alguns homens de confiança com 
cartas pêra o Capitão de Cochim , pêra que 
]he foccorrefle com navios em que fe pu- 
deííe falvar. As novas da perdição da náo 
correram logo pela terra , com que os Mou- 
ros de Calecare , e dos mais lugares vizinhos , 
havendo que tinham huma groíTa preza, a- 
juntando todos os navios que puderam , fo- 
ram demandar os noífos , que eftavam nos 
baixos , e os começaram a bater com mui- 
tas peças de artilheria 5 cercando a ponta em 

quç 



192 ÁSIA de Diogo de Couto 

queeftavam ároda, trabalhando pordefem- 
barcarem em algumas partes pêra os com- 
metterem dentro nas tranqueiras. Manoel de 
Macedo, que era muito esforçado cavallei- 
xo , defendeo-fe delles com muito valor , e 
esforço dez , ou doze dias , fem tomar re- 
poufo de dia , nem de noite , até lhe che- 
gar o recado de Cochim , cujo Capitão em 
vendo as cartas armou com muita prelTa duas 
caravelas, e alguns navios de remo , quedef- 
pedio logo. E chegando a Calecare , que os 
Mouros viram o íòccorro , foram- fe reco- 
lhendo ; e Manoel de Macedo fe recolheo 
nas caravelas com toda a gente , cabedal , 
artilheria , munições , e toda a fazenda da 
náo , fem lhe ficar mais que o calco , e ain- 
da a effe puzeram o fogo , porque fe não 
aproveitaíTem os inimigos de coufa alguma, 
e dalli fe foram pêra Cochim. O Governa- 
dor eílava efperando pelas náos com huma 
Armada muito groíla , preftes , e preparada , 
pêra ir ao Malavar, por eftar aflentado em 
confelho , que fe fizeíTe huma fortaleza no 
rio de Chalé, pêra o que fe tinha carteada 
com aqueile Rey pêra lhe dar lugar na- 
quelle rio , oíFerecendo-íhe grandes partidos 
que lhe elle acceitou. E tinha também ne- 
gociado com EIRey de Cochim pêra lhe 
dar dous mil Nayres pêra o acompanha- 
rem naqueíla jornada , a quem tinha, man- 
da* 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XI. 193 

dado que fe lhes deíTem embarcações , e to- 
das as coufas neceíTarias , com ordem ao Ca- 
pitão de Cochim , que a gente que o havia 
de acompanhar a tiveííe prefles até ver feu 
recado. Todas eftas coufas negociou porcar- 
ias no inverno , pêra eftarem preparadas co- 
mo eftavam quando as náos furgíram na 
barra de Goa. E logo defpedio António de 
Saldanha pêra ir até Cochim recolher toda 
a Armada , e gente , que lá eftava preftes , 
dando-lhe por regimento , que por todo No- 
vembro o efperaífe fobre o porto de Cale- 
cut, E mandou dar muita preífa a toda a fa- 
brica , que havia de levar pêra a obra da for- 
taleza , que mandou embarcar em muitos 
Tauris , e Cotias. E tanto que entrou o mez 
de Novembro , poz-fe o Governador no mar 
com cento e íincoenta embarcações . entre 
Náos, Galeões, Caravelas, Galés, Fuílas , 
Bargantins , em que embarcou três mil Por- 
tuguezes , e mil Lafcarins da terra. Não no- 
meamos os Capitães defta Armada , porque 
os mais delles , ou todos, eram os que o ve- 
rão paliado acompanharam nelía o Governa- 
dor a Dio. Com toda efta frota fe fez á ve- 
la , e foi feguindo feu caminho devagar. An- 
tónio de Saldanha, que parrio diante, tanto 
que chegou ao rio de Panane , fcube que 
eftavam dentro duas náos do Çamorim á car- 
ga ; e porque não fahiíTem , deixou fobre 
Couto. Tom. L P. iL N aquel- 



i<?4 ASIÀ de Diogo de Couto 

aquelíe rio D. Roque Tello Capitão do Ga- 
leão Larnbea morim com alguns navios de 
remo , e eile paliou a Cochim a fazer o ne- 
gocio a que hia. Os Mouros , que são os que 
no Reyno Malavar nos fazem a guerra 5 foi- 
Ihes máo de fofírer verem aquella barra to- 
mada ? porque perdiam muito em as fuás 
náos deixarem de fazer viagem ; e azedado 
fobre eíle negocio oCamorim, cfferecêram- 
fe-lhe pêra irem pelejar cem o Galeão, fa- 
zendo-lhe muito fácil renderem-no , o que 
elle acceitou , mandando com muita preíle- 
2a armar quarenta navios; e as náos queef- 
tavam á carga fefizeffem preíles pêra darem 
á vela tanto que rendeíTem o Galeão. E pri- 
meiro que António de Saldanha tornaíTe cie 
Cochim , negociados os navios , e cheios da 
melhor gente que havia entre os Mouros , 
lahíram todos juntos huma manha , muito 
crelpcs , ecom muitos inftrumentos de guer- 
ra. D. Roque Tello tanto que vio a Arma- 
da 5 aííentou de a não efperar fobre amar- 
ra , e levando ancora , deo o traquete , e af- 
faftòu-fe hum pouco da terra , recolhendo as 
Fuftas por derredor do Galeão , que prepa- 
rou muito bem , fazendo íua artilheria lef- 
tes 5 e repartindo os homens de mais confian- 
ça pelos lugares mais importantes. Os ini- 
migos vinham voga arrancada, e chegando 
ao Galeão o rodearam, e começaram adef- 

car- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XI. 19? 

carregar nellc fua artilheria , e arcabuzaria , 
e tão efpefTas nuvens de frechas , que empe- 
naram o Galeão pelos maftos , vergas , e por 
todas as obras de cima. O Galeão , que era 
muito grande, e poífante , começou a labo- 
rar y e viíitar com fua artilheria pêra todas 
as partes , e foi tão bem empregada , que lho 
arrombou muitos navios. As no fias Fuftas, 
que eram finco , ou féis com as popas no 
Galeão também fizeram feu emprego nos 
inimigos 3 defaparelhando-lhes alguns navios , 
c matando-lhes dentro muita g^ntc. O Ga- 
leão como andava com o traquete , mareava* 
fe pêra onde queria, fazendo feus empregos 
muito á fua vontade. O Capitão mor da Ar- 
mada Maíavar , vendo que o hiam deftro- 
çando , reforçou os maiores navios de fua 
companhia , e com grande determinação in- 
veílio o Galeão pela banda das efcoteiras , 
e commetteo a fubida : os noflbs acudindo 
alli lha defenderam com muito valor , lan- 
çando ao mar huns mortos , outros feridos y 
fazendo em todos grande eftrago. Vendo os 
Mouros o deílroço que era feito nelles , hou- 
veram por feu partido affàfiarem-fe , o que 
fizeram com mais de dez navios menos , e 
nos outros a mór parte da gente perdida : 
e deítroçados , e defacreditados fe tornaram 
a recolher , levando comíigo as náos pêra 
dentro , porque já hiam fahindo pêra fora. 

N ii D. 



iq6 ÁSIA de Diogo de Couto 

D. Roque Tello, poílo que lhe feriram al- 
guns homens , não recebeo mais damno , e 
tornou a furgir no-mefmo poíto , efperan- 
do por António de Saldanha, que em Co- 
chim deoprefla ao foccorro, e Armada que 
havia de levar , com que tornou a voltar 

pêra o Governador. 
i 

CAPITULO XII. 

De como o Governador Nuno da Cunha che- 
gou a Chalé , e fe vio com aquelle Rey 
fobre o lugar que lhe havia de dar fera 
fazer a fortaleza : e dos tratos que hou- 
ve entre elle , e o Çamorim fobre fazes : 
e de como fe concluíram , e fe começou a 
fortaleza. 

DEixámos o Governador dado á vela pê- 
ra o Malavar , que foi continuando feu 
caminho muito devagar, porcaufa da gran- 
de frota que levava : e meado Novembro 
foi deitar ferro fobre a barra de Chalé , met- 
tendo tamanho terror , e efpanto em todo o 
Malavar , que encolheo todos aquelles Pveys. 
O Çamorim como mais culpado íe fortifi- 
cou , e repairou , porque não iabia aquelle ne- 
gocio em que veria a parar. O Governador 
achou já alli António de Saldanha com hu- 
ma grande frota de muita , e muito boa gen- 
te , e deixando os Galeões , e náos fora , pa£ 

fan- 



Dec. IV. Liv. VIL Ca?. XII. 197 

fando-fe aos navios de remo , entrou no rio , 
onde foi logo vifítado da parte de Unira- 
ma Rey de Chalé ; e depois de tratarem fo- 
bre as viftas , e EIRey eleger o dia que feus 
Bramenes lhe affignáram , vieram á falia á 
borda da praia , onde o Governador o efpe- 
rou com todos os Fidalgos , e Capitães da 
Armada , e as Furtas com os proizes em ter- 
ra , com toda a gente porta em armas. EI- 
Rey chegou ao mefmo tempo acompanha- 
do de alguns Senhores vizinhos, e de todos 
os principaes de feu Pveyno. O Governador 
o recebeo com grandes honras , e lhe fez 
muitos oíFerecimentos da parte d'ElRey de 
Portugal , e alli logo adernaram as pazes , 
e amizades , que juraram ambos a feu mo- 
do. E lhe prometteo EIRey em aquelie feu 
porto hum lugar pêra fazer fortaleza na par- 
te que elle efcolheífe , de que paflbu fuás 
ollas , e aííinados. E logo o Governador deo 
a EIRey huma efpada , e adaga de ouro 
muito rica , e algumas peíTas de veludo de 
cores , e de brocado , affi pêra elle , como 
pêra feus Regedores , de que todos ficaram 
contentes. O Governador notou logo o lítio 
em que fe poderia fazer a fortaleza , que 
era em huns palmares , que ficavam fobre o 
rio da banda do Sul , por terem alguns po- 
ços de agua boa pêra beber : e porque eram 
de partes , os comprou por ordem d'ElRey 

mui- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito á vontade de feus donos. Logo alli 
mandou traçar a fortaleza , e derribar os pal- 
mares , o que fe fez aquelle dia. Ao outro 
defembarcou o Governador , e poz toda a 
fua gente em terra pêra começar a pôr as 
mãos na obra 3 aífentando o feu exercito na 
parte que lhe pareceo fobre o rio , e por 
detrás o mandou fortificar muito bem , no 
que gaitou aquelle dia. Ao feguinte mandou 
abrir os alicelfes , fendo elle o que deo as 
primeiras enxadadas ao fom de muitos inf- 
trumentos de alegria , e falvas de artilheria 
de toda a Armada , eftando EIRey prefen- 
te com os feus , que também feflejárftm a- 
quelle auto com outros inftrumentos a feu 
modo. Os Capitães 5 Fidalgos , e principaes 
da Armada tomaram á fua conta a obra 
do aliceífe , repartindo-a entre li , em que os 
trabalhadores 5 que eram muitos 5 foram pon- 
do as mãos , correndo os Fidalgos , e foi*- 
dados com os ceílos do entulho que fe ti- 
rava , tudo com tanto regozijo , e contenta- 
mento de todos , que era muito pêra ver. 
Os aliceíTes foram abertos em poucos dias , 
pe4a multidão dos trabalhadores que havia , 
e logo começou a correr a obra de pedra , 
e cal , de que foram muitas cotias carrega- 
das de Goa. O Governador andava entre os 
trabalhadores apegando também das padior 
las , e com a bolfa fempre aberta , dando a 

to- 



Dec. IV. Liv. VIL Caf. XII. 199 

todos muito liberalmente. Aqui veio Niran- 
ge , hum Rey da outra banda de Chalé , a 
viíitar o Governador, que elle recebeo com 
grandes gazalhados , e lhe deo peças , e brin- 
cos , que he coufa em que eíles Gentios to- 
dos trazem o olho. A obra hia crefcendo a 
olho , porque os officiaes delia eram reparti- 
dos pelos baluartes , e cada hum trabalha- 
va no íeu , de que eram os olheiros os Ca- 
pitães mais velhos , pêra aíli virem todos 
juntos a hum tempo íobre a terra. E por- 
que defronte do lugar em que fe fazia a for- 
taleza eílava huma mefquita de Mouros an- 
tiga, e grande, que lhe ficava empadrafto, 
tratou o Governador em fegredo com o Rey 
mandalla derribar: e primeiro que o acabai- 
fe com elle, teve muito grande trabalho, e 
o peitou com muitas peças ricas , e contra 
vontade dos Mouros , que fe a i!To oppu- 
zeram , a mefquita foi derribada , e a pedra 
trazida pêra os muros que alumiou muito na 
obra, .que hiá crefcendo a olho. O Cama- 
rim , que eílava encolhido com ver o Gover- 
nador em Chalé , tanto que foube das pa^ 
zes que tinha feitas com aquelle Rey , e que 
já fe começava a pôr as mãos a fortaleza , 
havendo feu confelho , pareceo-lhe que lhé 
convinha tratar de amizades com o Gover- 
nador , porque com aquella nova fortaleza 
ficava tão íujéito todo ofeuReyno^ que de 



200 ÁSIA de Diogo de Couto 

nenhum rio delle podia fahir náo Tua pêra 
Meca , o que feria total deftruiçao íua. E 
não fe dcfcuidando nelta matéria , íoi-fe ver 
comElRey deTanor, e lhe pedio que fof- 
fe terceiro entre elle , e o Governador , e 
os concertaíTe , o que elle prometteo de fa- 
zer. E logo fe foi a Chalé ver com o Go- 
vernador, que o recebeo com grande appa- 
rato , e lhe deo huma efpada de ouro es- 
maltada , com outras peças curiofas. E de- 
pois de pa(Tada a primeira vifta , fe tornou a 
ver com o Governador , e tratou com elle 
fobre ascoufas do Çamorim , fobre o que o 
Governador o ouvio , e lhe concedeo tudo 
o que fobre iífo lhe pedio , moílrando que 
o fazia com muito gofto , por elle fer o ter- 
ceiro nellas. Logo vieram Embaixadores do 
Çamorim , e afíentáram , e juraram as pa- 
zes com o Governador , cujos capítulos não 
achámos nefte Eftado. O Governador defpe- 
dio os Embaixadores ? e com elles hum da- 
.quelles Capitães , a quem não fabemos o 
nome , pera ir vifitar o Çamorim , e a ver 
jurar as pazes por elle, mandando-lhe hum 
rico prefente , e muitas peças pera o Prín- 
cipe , e pera os Regedores. Efte homem le- 
vou doze navios comfigo , e foi a Calecut , 
onde o Çamorim o recebeo com muitas hon- 
ras , e tornou a jurar as pazes de novo com 
grandes folemnidades , e alvoroço de todo o 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XII. 201 

povo pelo proveito que diífo tinham. O 
Embaixador fe defpedio do Çamorim , e tor- 
nou-fe ao Governador , que eílímou muito 
as pazes por fazer aquella fortaleza mais á 
fua vontade. Com eftas pazes começaram a 
vir alguns Senhores de Calecut a viíítar o 
Governador, e entre clles foi Pana Ache pai 
do Príncipe herdeiro do Çamorim , a que o 
Governador recebeo muito bem , e lhe deo 
muitas peças , porque com eftes Gentios pri- 
meiro fe ha de dar que negociar. A obra da 
fortaleza foi correndo tão aprefladamente , 
que aos quinze de Dezembro já eftava to- 
da á roda em altura de hum homem ; e es- 
crevendo a EIRey o eílado das coufas da 
índia , defpedio as náos pêra irem tomar a 
carga a Cochim , porque até então as teve 
comíigo. Eítas náos acharam a carga preftes , 
e tomando- a em breves dias , deram á vela pê- 
ra o Reyno , aonde todas chegaram a falva- 
niento. 



CA- 



202 ASIÀ de Diogo de Couto 

CAPITULO XIII. 

Da Armada que o Governador Nuno âa Cu- 
nha mandou ao E/irei to de Meca , de que 
foi por Capitão mor António de Saldanha : 
e da guerra que Diogo da Silveira fez 
por toda a cofia de Cambaya. 

VEndo o Governador a fortaleza em ef- 
tado que já fe podia defender , c que 
eftava amigo , e quieto com todos aquelles 
Reys , deípedio António de Saldanha pêra 
o Eftreito de Meca a efperar as náos de 
Cambaya , e do Achem , a quem deo féis 
Galeões , de que eram Capitães , elle, que hia 
em S. Mattheus i D. Roque Tello no Lam- 
bea morim , D. Fernando Deça o narigão 
em huma Gaíeaça , António de Lemos da 
Trofa nos Reys Magos , e Francifco da Cu- 
nha em outro Galeão. Deo-lhe mais doze na- 
vios , cujos Capitães eram Thome Baião , 
Fernão Lourenço , Diogo Gonçalves 3 João 
Corrêa , Triílao Dorta , Gafpar de Lemos , 
Chriftovão Rangel , Francifco Mendes , An- 
tónio Fernandes , e outros. O Governador 
deo por regimento a António de Saldanha 
que foífe invernar a Ormuz. Efta Armada 
fe fez á vela por fim de Janeiro deftc anno 
de 1532 cm que entramos; e de fua jorna- 
da adiante daremos conca , porque he razão 

que 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIII. 203 

que continuemos com Diogo da Silveira , 
que deixámos invernando em Chaul , a quem 
o Governador efcreveo que de lá fe paífaf- 
fe á enceada de Cambaya , e fizeíTe por el- 
h toda a guerra que pudeíTe , mandando- 
lhe pêra iíTo mais gente, e provimentos. Na 
entrada de Setembro fahio daquella barra com 
quarenta navios, de que a fora elle ( que hia 
na galé Conceição ) eram Capitães Manoel 
de Miranda , Joanne Mendes de Macedo y 
Pêro Preto , Diogo Dalva , António Bor- 
ges , Jorge Pires , Gonçalo Fernandes , An- 
tónio de Faio , Ch rido vão de Caftro \ Fi» 
lippe Alvão , Belchior da Veiga , Ayres Dias, 
Manoel Rodrigues Coutinho , Luiz Couti- 
nho , Francifco da Silva, Affonfo Alvares, 
Bartholomeu Vaz Zambujo , Henrique Ama- 
do, Francifco de Soufa , João Corrêa Fei- 
tor da Armada , António Velofo , Nuno 
de Andrade , Paio Rodrigues de Araújo , 
Ruy Freire , Diogo Poríec , Jorge Dias % 
Diogo* de Lemos , Rodrigo Girão , Baltha- 
zar da Silva , e outros : e com toda a Ar- 
mada fe paífou á ponta de Dio a cfperar as 
náos que haviam de vir de Meca , e de Or- 
muz , onde andou todo Outubro fem lhe ir 
cahir coufa alguma nas mãos , porque as náos 
de Meca eram chegadas a Dio primeiro que 
elle. Vendo que o tempo fe lhe hia gaitan- 
do, voltou pêra a enceada de Cambaya, e 

foi 



204 ÁSIA de Diogo de Couto 

foi demandar a Cidade de Bandora , que he 
a primeira do Reyno de Cambaya da ban- 
da do Sul , que eftava muito proípera , e ri- 
ca , por fer de grande trato , e commercio. 
E a (Tentando com os Teus Capitães de dar 
nella , a commetteo huma madrugada por 
duas partes; e pojando em terra acharam na 
praia perto de mil e quinhentos homens, que 
fahíram da Cidade a lhe defender a deíem- 
barcação , como fizeram ; mas a noíTa arcabu- 
zaria os affaftou de : feição, que. tiveram lu- 
gar de faltarem em terra , onde tiveram hu- 
ma grande batalha ; mas como a noífa ar- 
cabuzaria era muita , fez nelles tal eíbago , 
que os arrancaram do campo, e os foram le- 
vando até á Cidade , em que entraram de en- 
volta com elles tão apreíladamente , matan- 
do , e ferindo nelles , que lhes não deram 
tempo pêra fe determinarem , antes com o 
medo que levavam foram fahindo pela ou- 
tra porta fora pêra a banda do fertao , fi- 
cando a Cidade em mãos dos noíTos com 
todo o feu recheio , de que foi faqueado o 
melhor , e a tudo o mais fe deo fogo , em 
que a Cidade ardeo efpantoíiíHmamente. Dio- 
go da Silveira fe recolheo perdendo nefta 
jornada dous homens , a fora feridos que 
houve alguns. Dalli fe paíTou ao rio de Bom- 
baim , e porelle dentro foi demandar a Ci- 
dade de Tanáj que com as cofias, e favor 

de 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XIII. 20? 

de Melique Tocão eítava rebellada , e não 
pagava as páreas. E chegando a ella com 
a enchente da maré , defembarcou também 
em duas partes. E poílo que acharam mui- 
tos Mouros pêra lhe defenderem a defem- 
barcaçao , todavia a pezar feu faltaram em 
terra , e commettêram a Cidade ? em que a- 
cháram muito grande reíiftencia ; mas os no£- 
fos com grande eílrago dos Mouros a en- 
traram , e foi aíTolada , e deílruida , e pof- 
ta a fogo , e a ferro , o que tudo fe fez em 
tão breve efpaço 5 que fe tornaram a embar- 
car primeiro que a maré vafafle , porque al- 
\i fica tudo em fecco. E fahidos do rio vol- 
taram pêra a enceada de Cambaya , e dalli 
até Surrate foram dando em todas as al- 
deãs , e povoações que acharam fobre o mar , 
em que cativaram , e mataram muita gente , 
pondo tudo a ferro , e fogo , não perdoan- 
do a coufa alguma. Aqui defronte de Sur- 
rate deo hum tempo á Armada , que eítava 
perigpfa , com que o navio de Francifco da 
Silva foi dar á coíla; mas falvou-fe toda a 
gente , que foi tomada dos outros navios. 
Paliado o tempo, enão havendo por aquel- 
la cofta mais que fazer , paflaram-fe á outra 
de Dio , e o mefmo damno fizeram nos lu- 
gares do Caílelete , Taíoya , Madrefaval , 
queimando naquelles portos muitos navios 
carregados de fazendas. Em fim tantas crue- 
zas 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

2as fez eíla Armada eíle verão , que todos 
es moradores do marítimo defpovoáram feus 
lugares , e foram á Corte com grandes pran- 
tos , e queixas , que Soltão Badur fentio mui- 
to. Diogo da Silveira andou todo o verão 
por aqueila enceada , e como foi tempo fe 
recolheo com mais de quatro mil cativos , 
e carregados todos de riquezas , e defpojos. 

CAPITULO XIV. 

Do que o Governador Nuno da Cunha fez 
em Chalé , e acabou a fortaleza , e apro- 
veo de Capitão : e das ceremonias que os 
Nayres guardam no negocio das jan- 
gadas , e que coufas são Amou cos. 

FOi o Governador Nuno da Cunha con- 
tinuando na obra da fortaleza com tan- 
ta preíTa 5 que quando foi por fim de Feve- 
reiro a poz em fua perfeição , fazendo-íhe 
cafas pêra o Capitão , e pêra foldados , al- 
ma zens , Igreja , e todas as mais coufas ne- 
ceífarias. E pêra mor fegurança da fortaleza 
mandou derribar todas as caías , e palmares 
á roda, pêra lhe deixar terreiro, o que tu- 
do fez a poder de peitas , comprando a feus 
donos os chãos muito bem. E tendo tudo 
feito á fua vontade , provêo a fortaleza de 
Capitão ; pêra o que elegeo Diogo Pereira 
hum Fidalgo velho , e muito honrado, elhe 

af~ 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XIV. 207 

aflinou duzentos e íincoenta foldados de guar- 
nição , com alguns Capitães pêra lhes darem 
mezas , que deixou alli com feus navios , e 
guarneceo a fortaleza de boa artilheria , que 
mandou tirar dos Galeões , e de feus bom- 
bardeiros , e os almazens provêo de muitas 
munições , e mantimentos de trigo , e arroz 
pêra aquelle inverno. E pêra maior feguran- 
ça da terra, tomou por Jangada da fortale- 
za ao mefmo Rey de Chalé , dando-lhe por 
iííb huma tença cada anno. E fendo tempo 
de fe recolher pêra Goa , fe defpedio delle , 
e o mandou fazer do Çamorim , e deo á 
vela. 

E porque eíie negocio de Jangadas não 
he entendido na Europa, daremos razão da 
ordem que niíTo guardam os Nayres de to- 
dos eíles Reynos. Efta Província Malavar he 
toda povoada de Gentios idólatras , mui fu- 
períliciofos , e diíFerentes em caílas , e ritos. 
Huns deJles chamados Nayres , ( que são os 
principaes de todos , e mui dados ao exer- 
cício das armas , em que todos são mui def- 
tros : ) Outros chamados Tibas , que são la- 
vradores , pefcadores , e que uíam toda a 
mecânica : Outros chamados Poleas , que he 
a mais infame de todas , e tão avorrecidos 
dos mais, que não podem viver entre os ou- 
tros , nem communicallos , nem tratallos , 
(como antigamente eram os do povo de Sa- 
rna- 



2o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

maria com osjudeos. ) Efta cafta baixa ufam 
os officios de magarefes , de lavandeiros , 
çapateiros , pedreiros , alimpadores de ruas , 
e que levam as immundicias das cafas fora. 
Os Nayres como íiiperiores de todos , são 
tão íbberbos , e arrogantes , que pelas ruas 
por 'onde paífam , vam bradando alto, pó > 
pó , que quer dizer , aíFaíta , affafta. E afli 
tanto que são ouvidos de todas as mais na- 
ções inferiores , logo lhes defpejam as ruas , 
e fe cícondem pelos becos , e pelas cafas. 
Os Mouros , que são forafteiros naquelles 
Reynos , ufam a arte domar, e da mercan- 
cia , são todos Arábios , ou leguem lua fei- 
ta , de huma cafta chamada Naiteas. Efíes 
vindo ter áquella Provincia , mifturam-fe em 
cafomento com os naturaes , tirando Nay- 
res , (que efta cafta não fe miftura com ou- 
tra,) c dantre elles nafcêram huns meíliços , 
de que toda aquella fralda do Malavar he 
povoada , os mais falfos , máos , e engano- 
iòs Mouros, que ha entre todos os do Mun- 
do : Eftes vivem nefta Provincia como cati- 
vos dos Nayres , que tem liberdade pêra lhes 
entrarem por fuás cafas cada vez que qui- 
zerem , quer eftejam nellas , quer não, e el- 
les não podem entrar na de algum Nayre. 
E em tudo o mais , no modo de fallar , no 
defprezo os tratam como eferavos , porque 
cuida o Nayre que nafceo pêra fer fenhor de 

to- 



Dec. IV. Liv. VIL Ca?. XIV. 209 

todas as mais nações. E aíli sao tão fober- 
bos 5 que andam fempre aflbprando. Todos 
em gerai sao homens mui bem difpoííos 5 de 
cor baila , andam nus da cinta para cima , 
e cingidos com huns pannos brancos gran- 
des , com que dam muitas voltas ao redor 
de íl até aos giolhos. As cabeças trazem def- 
cubertas , os cabellos mui grandes , e cref- 
cidos como mulheres , e apanhados nomeio 
delia ; trazem de contino efpadas , e rodei- 
las , e nos braços manilhas de ouro , e pe- 
draria lá em cima nos buchos; e ifto 'trazem 
os que na guerra fazem feitos aífinalados , 
que he a fua iníignia de honra , como en- 
tre nós os hábitos das cavallerias. As mulhe- 
res Nayras são formofas 5 e bem diípoftas , 
veítem pannos alvos, ecomhuma volta por 
hum hombro , não cubrindo os peitos até á 
ilharga da outra banda , andam fempre lim- 
pas , e luzidias , untadas de azeites cheirofos. 
Ouvimps em Portugal no Paço contar aos 
homens velhos , que aquelles Embaixadores 
que EIRey de Calecut mandou a EIRey Dom 
Manoel , tendo-os em hum ferão de feita 
por lhes moftrar a grandeza de fua Corte , 
eftando as Damas , ( que então havia mui- 
tas , e muito formofas , e ricamente veítidas , 
e adornadas , ) lhes mandara EIRey pergun- 
tar , que lhes pareciam aquellas Damas ? Ao 
que os Nayres refpondêram , que muito bem j 
Couto. Tom. I. P. iL O mas 



2io ÁSIA de Diogo de Couto 

mas que todavia não havia coufa coiro hu- 
ma Nayra , que com huma bochecha de 
agua lhe lavavam todo o corpo. São eftas 
mulheres commuas pcra os parentes dos ma- 
ridos j e affi vivem todos tão feguros de ciú- 
mes , que indo hum pcra lua cafa , fe acha 
á porta da banda de fora a rodella do ou- 
tro, que eílá dentro com fua mulher, (por- 
que he obrigado a deixar aquelle fignal fo- 
ra , ) torna a voltar , e vai-fe a paílear até 
que lhe defpejem a cafa: eefta he a razão, 
por que feus filhos não são feus herdeiros , 
fenão os de fuás irmans , porque eftes hão 
por de feu fangue , fejam feus pais quaefquer 
que forem. Guardam eftas gentes hum cof- 
tume com os cftrangeiros mui digno de lou- 
var, e engrandecer : Eftehe, que tendo hum 
forafteiro necefíidade do favor de hum dei- 
tes Nayres pêra paíTar de huma parte pêra 
outra , pêra fegurar fua peflba de ladroes , 
e falteadores , chega-fe a hum Nayre , e lhe 
pede feja fua Jangada , e lhe dá por iflb al- 
gum dinheiro , valia de meio cruzado : Efte 
Nayre tanto que lhe toma o feu dinheiro, 
lhe dá a mão em final que o toma em fua 
guarda , e aíli o leva comfigo até onde o ou- 
tro lhe releva , muito feguro , e fem receber 
affronta de peííoa 2lguma. E íeacaío efíeficn 
rafteiro for avexado , ou affrontado de algw- 
raa peífoa , fica efta affronta , e injúria tan- 
to 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIV. 211 

to á conta defte Nayre , e de toda fua ge- 
ração , que logo fe ajuntam todos , e fe of~ 
ferecem a morrer até fatisfazerem aquella af- 
fronta , ufando certas cereroonias , corno ho- 
mens que fe deípedem da vida , rapando as 
barbas de huma ilharga , que he o final de 
homens determinados a morrer, a que elles 
chamam Amoucos , e juntos todos, dam na- 
quelle lugar onde lhe fizeram a affronta , e 
o deftroem , e abrazam. Pelo que he iíto tão 
arreceado em todo o Malavar , que fe hum 
Portuguez , ( que he amais odiofa nação de 
rodas com os Mouros , ) quizer paliar de 
Cananor pêra Cochim por todo aquelle Ma- 
lavar , poílo que efteja de guerra , e por meio 
dos Mouros , que lhe beberão o fangue , 
tomando fua Jangada , vai com ella tão fe- 
guro, como porAlenrejo, fem lhe ninguém 
perguntar donde vem , nem pêra onde vai, 
E fe eííe Nayre que fe fizer Jangada for me- 
nino, ainda eífe he muito mais fe guro ; por- 
que a affíonta que fe faz ahumdeíles, a f à- 
tisfazem mais , que a que fe faz a hum ho- 
mem grande ; porque dizem , que quanto 
menos força eíle tem pêra fe defender , tan- 
to he mor a obrigação dos parentes em acu- 
direm pelaafFronta que fe lhe fizer. Em ou- 
tro negocio fe fazem eííes homens Amou- 
cos , que he quando na guerra lhe matam o 
feu Rey , então todos os feus criados , fa-* 
O ii mi- 



^\^ ÁSIA de Diogo de Couto 

miliares , e todos os que delle tem tenças , 
ordenados , e comedias , logo fc fazem A- 
moucos , e íe determinam a morrer em vin- 
gança do feu Rey ; que são tão receoíbs , 
e precatados , que por eíTa caufa nas bata- 
lhas nunca fe atira bombardada , efpingarda- 
da , nem frechada aonde eílá hum fombrei- 
ro alevantado , que he a infignia d^ElRey , 
pêra que faibam que eílá elle alli. E por ef- 
ta razáo as noíías fortalezas do Malavar tem 
Jangadas , a que EIRey dá tenças , que são 
obrigadas com todos os parentes , e criados 
acudirem ás aíFrontas que os vizinhos lhes fa- 
zem. Deíles Amoucos achámos queCefarno 
íefi Bello Gallico fez também menção ; por- 
que diz , que andando Publio CraíTo em Guia- 
na , e eftando fobre hum lugar dos Soncia- 
tes , fahíra de dentro Adjantana , que era al- 
li Governador , com feiscentos Soldrios , que 
he o mefmo que offerecidos , que tinham 
por lei morrerem , e acompanharem em to- 
dos os trabalhos aquelles a quem fe oífere- 
ceíTem por amizade , ou ferviço : e que já 
mais fe achou efcufar-fe nenhum deíles da 
morte , vendo matar aquelles a quem fe of- 
ferecêram , que he o mefmo que tem eílcs 
Amoucos. Deitas Jangadas dos Nayres faz 
também Sabelio menção , e diz que os 
Nayres do Malavar guardavam a ordem da 
cayalleria 7 e que andavam pelos caminhos 

de- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIV. 213 

defendendo as donas , e donzellas , e fatis- 
fazendo-as de feus aggravos. O Governa- 
dor depois de chegar a Goa 5 defpedio os 
provimentos pêra Malaca , Maluco , e mais 
fortalezas , e com ifto le ferrou o inverno. 




DE- 






DÉCADA (QUARTA. 
LIVRO VIII. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO I. 

Dás coufas , que efte anno pajfado acontece- 
ram em Maluco : e de como os da terra 
mataram o Capitão Gonçalo Pereira , 
e lhe fuccedeo Vicente da Fonjeca. 

Eíxámos as coufas de Maluco em 
Gonçalo Pereira Capitão daquella for- 
taleza correr em pazes , e amizades 
com a Rainha, e com os Ternatezes, pela 
promeíTa que lhes tinha feito de lhes dar El- 
Key , e lhe davam todas as ajudas necelTa- 
rias pêra a obra da fortaleza 3 em que hia 
trabalhando com muita preffa , poreílar ro- 
ta por muitas partes ; e vendo que a terra 
filava de paz , começou a pôr em execução 
certos regimentos que levava fobre o cravo 
daquellas Ilhas , que nunca comprehendem 

os 




Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I. 2if 

os Capitães das fortalezas fenão os pobres 
dos moradores delias , que as fuítentam no 
tempo das neceífidades con feu braço, com 
leu langue , e com feu dinheiro : e os Ca- 
pitães acabam os feus três annos , e vam-fe 
pêra Portugal cheios de ouro , deixando as 
fortalezas eftragadas , e os vizinhos efcanda- 
lizados com fuás defordens , e tyrannias , e 
a terra de guerra , e fem provimentos , e os 
moradores com os trabalhos , e km provei- 
tos ; porque eííes poucos que tem , ha ho- 
mens tão zelofos do ferviço do Rey , e tão 
amigos de fua fazenda, que lha querem ac- 
crefcentar com diminuição da de feus vaf- 
fallos , dando alvitres pêra iíTo , que todos 
vem a redundar em proveito dos Capitães ; 
e raramente neíle negocio de accrefcentar fe 
falia verdade ao Rey ; porque como tratam 
de feu particular ou pêra enriquecerem , ou 
pêra medrarem , moítram os proveitos , e 
encobrem as perdas ; e as que os Reys mais 
fentem são as de feus vaííallos , que todos 
defejam de apoupar , e confervar , porque 
Rey de vaífallos pobres não pode fer rico § 
e as perdas que eftes defejofos de enrique- 
cer o Rey lhe encobrem , debaixo de hum 
pequeno de dourado, he como pirola dou- 
rada, que fe o Rey a maítigar forçadamen- 
te , lhe ha de amargar , e como Catholico r 
eChriítão ha defentir as perdas de feus vaf- 

fal- 



2i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

íallos: eflas perdas, ecrecenfas nós alguma 
hora apontaremos fe nos cahir a pêlo , porto 
que muito claramente o temos já feito no 
íioílb Dialogo dofoldado prático. E tornan- 
do ao Capitão de Maluco , como fe vio 
quieto , e que não havia mifter os homens , 
mandou lançar pregões , que nenhuma pef- 
lba compraífe cravo em todas aquellas Ilhas 
fenao o Feitor d'E!Rey ; e com iíío mandou 
pelos officiaes entrar pelas, cafas dos caia- 
dos, etomar-lhes todo cravo que lhes achaf- 
fem , pagando-lho pelo preço da terra : e 
todos os pezos , e balanças , medidas , e to- 
da a outra coufa deita qualidade , que por 
todas as cafas achou , mandou queimar pu- 
blicamente. Efta coufa efeandalizou tanto os 
moradores deTernare, (porque ficavam fem 
remédio algum , e não tinham pêra que vi- 
ver na terra , fe lhes tolhiam o commercio 
delia , ) que fe ajuntaram todos em cafa do 
Vigário da fortaleza, (que com o braço Ec- 
cleíiaftico muitas vezes- fazem também por 
todas as fortalezas bem de fem-razoes , ) e 
alli trataram fobre não confentirem aquclíes 
aggravos- , e injuftiças , fazendo-fe cabeça 
hum Vicente da Fonfeca , e aflentáram que 
fe foíTe fazer hum requerimento ao Capitão , 
que os deixaíTe viver na liberdade em que 
eílavam ; e que quando não quizelTe , que 
deixaífem todos a fortaleza > e fe pafTaíTem 

huns 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I. 217 

huns pêra os Caftelhanos , e outros pêra a 
povoação dos Mouros. Ifto houveram alguns 
que era caio mui rijo defamparar a fortale- 
za d'EIRey , e que menos mal feria foliei- 
tarem a morte ao Capitão por via dos na- 
turaes. E andando affi indeterminados , fuc- 
cedeo mandar o Capitão prender Vicente da 
Fonfeca por humas palavras que teve com 
hum fobre roída : iíloefeandalizou tanto aos 
da conjuração , que logo fe foram alguns 
em fegredo a cala da Rainha , e com ella , 
e com feus Regedores trataram os aggravos 
do Capitão , dizendo-lhes , que era hum ty- 
ranno , emáo, eque fora pêra aquella Ilha 
pêra deílruição de todos , e que foubeíTe de 
certo 5 que o juramento que tinha feito de 
lhe entregar o Rey que tinha na fortaleza , 
que o não havia de cumprir , antes eftava 
determinado de a prender a ella , e aos Re- 
gedores pêra fe melhor fegurar , porque ou- 
tra vez com qualquer achaque lhe não to- 
lheffem os mantimentos , como já fizeram ; 
e que lhe certificavam , que fe o não mata- 
vam , que elíe poria todos os daquella Ilha 
no mais miferavel eftado em que nunca fe 
viram , e que todos os Portuguezes haviam 
de folgar com fua morte , e que quando lha 
quizeíTem ordenar a não haviam de impe- 
dir , antes favorecer. A Rainha , e os Re- 
gedores ficaram muito contentes de verem 

aquei- 



2i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

aquellas divisões , porque efperavam de por 
ellas tornarem a cobrar a liberdade daquel- 
la Ilha , e lançarem fora rodos os Portugue- 
ses : e vendo que fe lhes offerecia tamanha 
occafião , não a quizeram perder. E fazen- 
do a Rainha ajuntamento de todos os prin- 
çipaes da Ilha 5 lhes fez a todos eíta falia : 

» Bem vos lembra , amigos meus , a quem 
» eu fempre amei como filhos , que vindo 
)> os Portuguczes ter a eftas Ilhas perdidos > 
» os mandou EIRey Boleife meu marido buf- 
» car , e trazer pêra eíta Ilha , onde com hon- 
)> ras , e mimos os recebeo , e agazalhou , 
» e deo fortaleza , perdendo por amor dei- 
» les a amizade dos Reys vizinhos , c pa- 
» rentes. E depois que os recolheo nefta ter- 
» ra , pelos fuftentar , e defender nella , teve 
» muitas guerras , perdas , e damnos , e ar- 
» rifcou muitas vezes a vida , e o Eftado , 
» tratando-os em quanto viveo com mais 
» amor , que a íeus próprios filhos : mas el- 
)> les em fatisfação deite hofpicio , gazaíha- 
» dos , mimos , e favores , fechando EIRey 
)> meu marido os olhos , quizeraa) logo lan- 
» çar mão de mim , que lhes efcapei , andan- 
» do muitos tempos por rhatos , e por bre- 
» nhãs , paliando muitas miferias , e defaven- 
» turas , tornando-me meus filhos meninos 
» com engano ; e quando meu filho Baya- 
» no começava a entrar em idade pêra to- 

» mar 



Dec. IV- Liv. VIII. Cap. I. 219 

» mar poííe do Reyno , matáram-mo com 
» peçonha, e pode bem fer que íenao acua 
» dir, o façam aeflbutro que tem na forta- 
» leza , tão mal tratado , como fe fora ai- 
» gum malfeitor, e fugitivo. E além difio, 
» aíli quizeram tratar noflas fazendas , ca- 
» fas , e ainda noíía própria pátria , como 
» fe fora todo feu , e nós fôramos os foraf- 
» teiros , avexando-nos fobre ifto , fazendo- 
» nos guerra , ufando as crueldades que ha 
» poucos dias viítes nos noflbs próprios na- 
» turaes , deitando-os aos cães , como alima- 
» rias brutas. Qualquer deftas coufas era mui 
)> baftante pêra trabalharmos de facudir de 
» noífos pefcoços hum tão duro, e pezado 
» jugo , quanto mais tantas quantas pêra ii- 
)) fo temos. E fobre tudo ifto , o que he 
» mais defentir, aaíFronta que fe faz ánof- 
» fa religião , avexando noflbs Sacerdotes , 
)) defprezando noíTos templos , e vituperan- 
» do noíía lei. E pois o tempo nos oífere- 
)) ce tamanha occaliâo , como a que hoje ha 
)) com a deíavença dos Portuguezes com feu 
» Capitão , lancemos mão delia , pois temos 
» em noífo favor todos os Portuguezes , e 
» então ahi nos fica depois matarmo-los a to- 
» dos , e darmos liberdade ao voífo Rey , 
» e á voíía pátria , e não confentir mais hof- 
» pedes , que tão mal nos hão de pagar o 
» gazalhado. 

Á 



22o AS1A de Diogo de Couto 

A todos moveram as razoes da Rainha , 
a quem não faltaram lagrimas em quanto 
renovou as coufas paliadas , e todos alli fe 
lhes offerecêram pêra dar á execução aquei- 
le negocio, tratando logo alli o modo , e 
o dia , em que havia de fer. Adernando iílo 
entre çlles , pêra mor dillimulação , mandava 
a Rainha correr com as coufas neceífarias 
pêra a obra da fortaleza em muita abaftan- 
ça , dizendo publicamente ( pêra que o Ca- 
pitão o foubeíTe) aos officiaes , que deffem 
preífa ás obras , porque niiTo eftava haver 
leu filho , como lhe tinham promettido. E 
vindo o dia ordenado em que haviam de 
matar o Capitão , ajuntáram-fe os Ternates 
com fuás armas na força do meio dia , e 
foram-íc huns poucos metter emhuma mef- 
quita , que eftava detrás da fortaleza , e ou- 
tros em hum bofquc , que alli eftava perto , 
com ordem , que como viíTem final da for- 
taleza , arremetteííem a ella por huma pane 
que ainda eftava quebrada. E entre os offi- 
ciaes que hiam a obra fe mettêram alguns 
com armas fecretas , em trajos de trabalha- 
dores ; e os criados dTSlRey , que hiam , e 
vinham á fortaleza fallar com elle , e fer- 
villo , também levaram fuás armas. Eftes en- 
trados na fortaleza fem lho ninguém impe- 
dir, como homens que eram alli contínuos , 
entraram aonde eftava EIRey , e lhe deram 

avi- 



Dec. IV. Liv. VIII. Ca?. I. 221 

avifo pêra que eftiveííe preíles. Dalli fe fo- 
ram a cafa do Capitão 3 que eftava dormin- 
do a féfta , fem haver ninguém nas calas , 
por ferem todos os feus criados > e familia- 
res recolhidos. Os Ternatezes puzeram os 
hombros ás portas , que eítavam fechadas , 
e dando com ellas dentro , arremettêram ao 
Capitão , ( que ás pancadas tinha já acorda- 
do , ) e levando de huma efpada , e rodella , 
fe defendeo hum pedaço ; mas como os ini- 
migos eram muitos , carregaram fobre elle , 
e o atafialháram , fazendo nelle anatomias 
efpantofas. E huma efcrava ouvindo o re- 
boliço , começou a gritar. Os Ternatezes que 
eítavam detrás da mefquita fentíram também 
o eílrondo , e fem efperarem o íinaí fahíram 
fóra , e deram com hum Portuguez com 
quem arremettêram pêra o matar ; mas elle 
foi fugindo , e gritando , Mouros , Mou- 
ros. Já neíle tempo os criados do Capitão 
tinham acudido com fuás armas aos grito? 
da efcrava , e fubindo á torre da menagem , 
onde o Capitão fe agazalhava , acharam den- 
tro os que o mataram , e remettendo com 
elles os fizeram lançar pelas janeílas fóra , 
fazendo-fe em baixo todos em pedaços , e a- 
cudindo ás portas as fecharam com muita 
preíTa. Os Ternatezes , que eítavam embo£ 
cados, não ouvindo o final que lhes haviam 
de fazer, efentindo o repique na fortaleza, 

(que 



222 ÁSIA de Diogo de Couto 

(que tanto que fecharam as portas logo o 
deram) havendo que eram defcubertos, re- 
co! hêram-íe pêra a Cidade. Os Portuguezes 
da conjuração, que foram naquelles tratos, 
acudiram com fuás armas pêra diffimulação , 
e entraram na fortaleza , e acharam o Ca- 
pitão morto. E acudindo o Alcaide mor , re- 
quereo a todos , que conforme ao Regimen- 
to d'ElRey de Portugal , o houvefícm por 
feu Capitão , a que elles não quizeram de- 
firir , antes fe atravelTou o Vigário da forta- 
leza , chamado Fernão Lopes , e fazendo-fe 
cabeça de todos, fez eleger Vicente da Fon- 
ièca (que eílava prezo) por Capitão , que lo- 
go tomou poíle da fortaleza. Ifto foi coufa 
muito efcandalofa , e contra o ferviço d'El- 
Rey. Tanto que Vicente daFoníeca tomou 
polfe da fortaleza por ordem do Vigário , 
íem haver quem fizefle juftiça ao Alcaide 
mór , lançou logo mão d'ElRey , e o reteve , 
e a primeira coufa em que entendeo foi lar- 
gar outra vez o trato do cravo como dan- 
tes. E porque todos foram em confentimen- 
to da morte do Capitão, fez-fe delia pouco 
cafo , porque nem devafla fe tirou delia , não 
deixando de correr em paz, e amizade com 
a Rainha, e Ternatezes. A Rainha mandou 
de novo pedir ao Capitão , que lhe entre- 
gafle feu filho, pois ella tinha dado toda a 
ajuda que lhe pediram pêra a fortaleza , que 

ef- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I.eII. 223 

citava acabada. Vicente da Fonfeca poz a- 
quelle negocio em parecer dos cafadôs , e 
todos aífentáram , que não era licito entre- 
garem aquelle Rey , até fe não fazer a fa- 
ber ao Governador o que era paliado. Dif- 
to fe efcandalizou a Rainha , mas diífimu- 
lou alguns dias , não deixando de requerer 
o filho com rogos , e com peitas. Neíte es- 
tado deixaremos ascoufas deite anno, de que 
aviiàram ao Governador , pedindo-lhe que 
proveíle nellas. 

CAPITULO II. 

Da Armada , que ejie anno de 1532 par tio 
do Reyno : e do que aconteceo a D. Ef- 
tevão da Gama na Cofla de Melinde. E 
da grande guerra , que Diogo da Silveira 
fez no Reyno de Cambaya \ e de como def- 
truio as Cidadãs de tor , e Mangalor* 

SEm embargo deite anno de 1532 andar 
EIRcy D. João occupado em ajudar 
com dinheiro 5 e outras coufas ao Imperador 
feu cunhado 5 que íè fazia preítes pêra ir buf- 
car (como foi a Vienna) o Turco Soleimao , 
que tinha entrado por Alemanha, com ten- 
ção de ganhar Auflxia \ todavia não deixou 
de prover nas coufas da índia , pêra onde 
defpachou huma Armada de finco náos , de 
que deo a Capitania mór ao Doutor Pêro 

Vaz 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

Vaz do Amaral , que tinha defpachado por 
Capitão , c Veador da Fazenda de Cochim. 
E porque a Chriftandade da índia hia em 
grande crefcimento , e á mingua de Bifpos 
deixavam de íe ordenar muitos em Sacerdo- 
tes , e de benzerem os Santos Óleos , e de 
adminiítrar o Sacramento da Confirmação , 
elegeo EIRey pêra iflb aoBifpo Fr. Fernan- 
do Vaqueiro da Ordem dos Menores, que 
devia fer Bifpo de Annel doBifpo do Fun- 
chal , debaixo de cuja jurdição eftava toda 
a índia , como melhor ao diante diremos. 
Era efte homem natural de Évora , Varão 
Religioíb , e deo-lhe o Papa titulo de Bif- 
po Aurenfe , e EIRey lhe paííou Provisões 
pêra como paffaíTem três annos fe tornar pê- 
ra o Reyno; e lhe mandou dar todo o ne- 
ceíTario pêra fua embarcação , e o mandou 
embarcar neíla Armada na náo de Vicente 
Gil. Efta Armada partio em Março , e os 
mais Capitães eram D. Eftevão , e D. Paulo 
da Gama , ambos filhos de D. Vaíco da Ga- 
ma primeiro Conde Almirante , que hiam 
providos da Capitania de Malaca hum apôs 
o outro ; porque entre as mercês que EIRey 
D. João fez ao mefmo Conde , quando o 
mandou por Vifo-Rey da índia (fegundo em 
Portugal ouvimos ) foi dar-Jhe a fortaleza 
de Malaca pêra todos os feus filhos que fer^ 
viram os quatro delles , eneíta Armada vi- 
nham 



Dec. IV. Liv; VIII. Ca?. II. 11? 

jiham três , eíles dous , e D. Chriftovão da 
Gama, que hia embarcado com D. Eftevao * 
que era o mais velho delles. E affi tinham 
naquelle tempo os Reys medidas , e regií- 
tadas as mercês aos homens , que quando os 
defpachavam com as fortalezas era pêra en- 
trar logo , e de maravilha fe achavam mais 
de dous providos de huma fortaleza , por- 
que goílavam os Reys deverem lograr a feus 
vaíTailos as mercês que lhes faziam. Ifto fe 
veio depois a corromper tanto , que de to-* 
das as fortalezas vimos defpachados dezoi- 
to , e vinte, que são quarenta, e feífenta an- 
iios. E por certo que por demais animo fe 
devem de ter os homens , que vam vivendo 
em efperanças tão compridas, que porcom- 
metterem Elefantes , e Tigres, bravos. E tor- 
nando .á noíla ordem : os mais Capitães das 
náos da companhia do Doutor Pêro Vaz do 
Amaral eram Vicente Gil , e António Carva- 
lho ; e fazendo fua viagem apartadas humas 
das outras, como he ordinário nefta carrei- 
ra , as quatro delias foram tomar Goa en-* 
trada de Setembro. A outra , de que era Ca- 
pitão D.EÍtevãodaGama, errando Moçam- 
bique , foi bufcar Melinde pêra fazer agua- 
da , que também não pode tomar , pelo que 
foi demandar Sacotorá. E como as aguas 
alli correm muito , foi-os defviando , e ven- 
do que não podiam tomar a Ilha 7 foram a 
CautQ.Tom.LP.il P Xa- 



126 ASIÀ de Diogo de Couto 

Xael y na cofta de Arábia , cujo Rey era 
amigo do Eftado ; e conhecendo a náo íer 
de Portugal , mandou a ella embarcações 
com refrefco, que D. Eftevão eftimou mui- 
to. E vendo-íe tão perto da terra , e que era 
forçado ir o batel fazer agua , como hia en- 
fadado , defejolb de ver a terra embarcou- 
fe nelle , e levou comfigo D. Manoel de Li- 
ma , e D. Fernando de Lima , que hiam em- 
barcados com elle, e chegados a terra efti- 
veram na praia em quanto fe fazia aguada; 
mas quiz a defaventura. que naquelle tempo 
déífe huma tormenta tamanha , que não a 
podendo foífrer a náo, que andava ás voltas 
com o traquete , foi-lhe neceífario virar em 
poppa , e ir correndo por onde pode. O ven- 
to era Levante, e quando alli começam são 
tormentofos , e aíli fem poderem ai fazer fo- 
ram-fe demandar a coíla de Melinde , vendo- 
fè muitas vezes perdidos ; e não podendo 
ferrar terra, porque ficaram os Levantes cur- 
fando , paíTáram avante , e foram tomar Mo- 
çambique com infinito trabalho , e com a ma- 
ior parte da gente morta. Indo D. Chrifto- 
vao da Gama nella , que com fer mancebo 
aíli corria com os homens , e aíli fe nego- 
ciou , que eíle foi a única occafião de íe lai— 
var aquella náo. E tornando a D. Eftevão 3 
ficou em terra efperando hum dia , ou dous 
conjunção pêra ir bufear a fua náo , e paf» 

ia- 



Dec IV. Liv. VIII. Cap. II. 227 

fada aquella primeira pancada , embarcou* 
fe no batel , que levava cheio d'agua , car- 
neiros , gallinhas , e outros refreícos , e foi 
ao mar a bufcar a náo , cuidando que an- 
dafle por alli ás voltas , e não a vendo fi- 
cou muito enfadado. E tomando parecer fo- 
bre o que faria , aíTentáram que foflem até 
Socotorá, porque forçado a haviam de achar 
lá , e afli foram demandar aquella Ilha , e 
nem a-lli a acharam , do que ficou mui apai- 
xonado. Os oíEciaes da náo que hiam no 
batel lhe difieram , que aquelle tempo era 
Levante, eque já alli havia decurfar até o 
inverno , que fem dúvida a náo havia de ef* 
tar em Melinde , porque os ventos , e as 
aguas a haviam de lançar pêra lá : que o 
bom feria ir demandar Melinde , e quando 
a defaventura foíle tamanha que a não achàf- 
fem , que fizeffe o que lhe pareceíTe. Aíli fe 
deixaram ir pela cofia adiante , e depois que 
paliaram o Cabo de Guardafu , indo Dom 
Efievao tão triíle que queria morrer de pe- 
zar , chegados a Magadaxo , fizeram agua- 
da. E fabendo o Rey da terra, que alli hia 
hum filho do Conde Almirante, de que to- 
dos tinham grande conhecimento , por fer 
o primeiro que defcubrio , e navegou por 
aquella cofia ? o foi ver á praia , e lhe fez 
grandes oírereci mentos de tudo o que hou- 
veíTem mifter. D. Efievao lhe pedio huma 

P ii em- 



2,28 ÁSIA de Diogo de Couto 

embarcação maior , e amarinheirada , e com 
algum Piloto pêra o poder levar até Melin- 
de , o que lhe elle logo mandou negociar, 
e lhe deo muito refreíco da terra. Partidos 
daqui , chegaram a Melinde , onde eftava por 
Capitão hum Cavalleiro honrado chamado 
Nuno Fernandes , que os agazalhou muito 
bem , e delle foube como a lua náo era paf- 
fada pêra Moçambique , porque algumas em- 
barcações que a viram paliar muito ao mar, 
lho difleram. Com ifto ficou D. Eftevão def- 
aliviado , e Nuno Fernandes lhe deo huma 
fufta mui bem concertada, e tudo ornais de 
que tiveram neceílidade. Partidos dalli como 
liiam com Levantes rijos , em poucos dias 
foram a Moçambique , onde a náo citava , 
e D. Chriftovao leu irmão defconfiado de po- 
derem ler vivos ; e acudindo á praia ao ir- 
mão , fe feftejáram grandemente, Alli fe dei- 
xaram ficar efpcrando a monção de Agofto. 
As outras náos chegaram a Goa, e o Dou- 
tor Pêro Vaz do Amaral foi mettido depof- 
fe da Capitania de Cochim , e do cargo de 
Veador da Fazenda , e logo fe embarcou pê- 
ra dar ordem á carga das nãos. Nefta Ar- 
mada mandou EIRey hum Alvará a Nuno 
da Cunha, em que lhe fazia mercê de quatro 
mil cruzados pêra ajuda de fuás defpezas. 
E mandou o cargo de Capitão mor do mar 
;a, Diogo da Silveira > com quem he razão 

que 



D e c. IV. L i v. VIII. C a p. II. 229 

que continuemos , em quanto o Governador 
defpede as náos pêra Cochim. 

Atrás temos contado como Diogo da Sil- 
veira ficou invernando em Chaul , que tan- 
to que o verão entrou armou huma galé y 
finco galeotas , e quinze navios , com que 
fe paflbu á ponta de Dio a efperar as náos 
de Ormuz , e de Meca , que haviam de ir 
pêra aquella Ilha , onde já eram recolhidas 
quafi todas as que efperavam , e todavia lhe 
vieram cahir nas mãos duas, que leni cufto 
fe renderam , e defpedindo-as com gente pê- 
ra Goa j paílbu-fe á coita de Por , e Manga- 
lor, que eftava ainda inteira , e fem fe to- 
car nellas. Alli começou pelos lugares marí- 
timos (queeílavam defcuidados de tal açou- 
te) a efcaíar , deftruir , e abrazar , matan- 
do, e cativando muita gente , e aííí foi até 
chegar á Cidade de Patê , que tinha hum 
porto mui frequentado de náos , e navios de 
todas as partes , aonde concorriam muitos 
mercadores groíTos , porque defejou de dar 
hum papo quente a feus toldados. E defem- 
barcando nella huma madrugada com qui- 
nhentos homens , a commetteo , tendo huma 
muito afpera batalha com feus moradores , 
que fahíram a lhe defender a deferobarcação , 
com quem apertaram de feição , que os fo- 
ram mettendo pela Cidade , entrando de en- 
volta com elies > deftruindo > e alfaiando tu- 
do , 



230 ÁSIA de Diogo de Couto 

do , ufando cfpantofas cruezas , porque pa- 
recia fer aífi neceíTario , pêra o que o Go- 
vernador pretendia , ou o permittio Deos , 
pela maldade do Soítão Badur , porque mui- 
tas vezes pelas dosReys caíliga fçus povos. 
Os foldados deram hum formoíò facco á Ci- 
dade, onde acharam muitas riquezas, e tan- 
tas , que não foi poílivel recolherem-fc to- 
das \ mas tomou cada hum o que lhe me- 
lhor pareceo , e o que puderam levar. Tu- 
do o mais fe entregou a hum cruel , e e£ 
pantofo fogo , em que toda aqueiia Cidade 
fe confumio com grandiílimo eípanto, e ter- 
ror dos naturaes ; porque os que puderam 
efcapar , eftavam de longo vendo as labare- 
das , e fumaças em que fe desfaziam fuás fa- 
zendas. Pela mefma maneira fe queimaram 
todas as embarcações que havia no porto 
carregadas de diíferentes fazendas. Feito iC- 
to , tornáram-íe os noííos a embarcar fem 
cufto mais que de alguns feridos. E palian- 
do pela coita adiante, foram aflblando tudo 
até chegarem ao lugar de Patan , que tam- 
bém era huma efcaia bem grande de mui- 
tos , e mui ricos mercadores , onde também 
deíembarcáram : e poíto que acharam gran- 
de reíiílencia , a entraram , e fizeram nella ou- 
tro femelhante eftrago , que em Patê. Dalli 
paliaram a Cidade de Mangalor , que era 
maior, e mais profpera de todas, e defem- 

bar- 



Dec, IV. Liv. VIII. Cap. II. 231 

barcando nella com mais tento que nas ou- 
tras , acharam também bem differente refifi- 
tencia , porque tinha muita , e muito boa gen- 
te de guerra ; mas por fim do negocio a Ci- 
dade foi entrada , e eicalada , matando-lhe 
muita gente , e a mor parte delia mulhe- 
res , e meninos, que não puderam fugir. Os 
noíTos tomaram o que quizeram , e o mais 
entregaram ao fogo , em que toda a Cidade 
fe confumio. No porto havia muitas embar- 
cações carregadas de mantimentos , de que 
toda a Armada fe provêo, e depois as en- 
tregaram todas ao furioíb , e efpantofo fo- 
go. Feito ifto , embarcáram-fe logo , e pal- 
iara m-fe á coita de Cambaya ? por onde fi- 
zeram crueliiTima guerra. 

CAPITULO III. 

Das coufas em que o Governador Nuno da 

Cunha provêo ; e da grande Armada 

com que partio para o Norte. 

DEterminava o Governador Nuno da Cu- 
nha de ir paíTar todo cfte verão pelo 
Norte , pêra continuar na guerra de Cam- 
baya, e ver fe por alguma via lhe abria o 
tempo occafião pêra lançar mão da fort^le- 
2a de Dio , pêra o que deo preífa as nãos 
do Reyno, pêra irem tomar a carga a Co- 
chim. E defpedio por Capitão mor do Ma- 
la- 



fc|i ÁSIA de Diq.gó de Couto 

lavar Manoel de Soufa, hum Fidalgo filho 
de hum irmão do Prior de Rates , que foi 
aquelle , que depois morreo no rio de Dio 
com Soltao Badur (como na quinta Década 
fe verá. ) Efte FidaJgo partio em fim de Ou- 
tubro com huma galé , em que elle hia , e 
quinze navios , de que eram Capitães Dom 
Luiz , Gonçalo Pereira , Henrique de Soufa , 
Álvaro de Siqueira , Vicente Rodrigues , Dio- 
go Pires Deça , Martim de Caftro , Fernão 
Villela , Fernão Gil Porcalho moço da Ca- 
mará do Infante D. Luiz , e outros. Depois 
de defpedidas as náos , e Armada , chegou 
a Goa António de Saldanha com a fua Ar- 
mada, de que não damos razão, porque não 
achamos informação do que fuccedeo najorr 
nada ; fomente tomar algumas náos ricas , 
com muitas prezas , e ir invernar a Ormuz , 
ç fobre as prezas teve o Governador com 
elle algumas razoes , de que feelle enfadou, 
e fe foi embarcar pêra o Reyno. Depois da 
fua chegada logo o Governador fe embar- 
cou , e deo á vela com huma Armada de 
mais de cento e cincoenta velas , em que en- 
travam vinte galeões , enáos, muitas galés, 
e galeotas. Os Capitães , que nefta jornada 
hiam , são os fèguinies : Garcia de Sá, Dom 
Fernando Deça * Amónio da Silva , Ma- 
noel de Alboquerque , Jorge de Lima , Fran- 
cifco de Sá, Ruy Vaz Pereira, António de 

Sá 



Dec. IV. Liv. VIII. C ap. III. 233 

Sá o Rume , D. Paulo da Gama , Nuno Pe- 
reira cie Lacerda , Triftão Homem , Jorge 
Cabral, Martim ÁíFonfo de Mello Juzarte ? 
Francifco de Vafconcellos , Vaíco Pires de 
Sampaio , Henrique de Macedo , Martim de 
Freitas, D. Roque Tello, Manoel de Mi- 
randa , Manoel Rodrigues Coutinho , Chri- 
ítovão de Caftro , Luiz Coutinho , Francis- 
co da Silva , Paio Pvodrigues de Araújo , Lo- 
po Pinto , Pêro Botelho , Jorge de Soufa , 
António da Cunha , Francifco de Soufa , Pê- 
ro de Mefquita , AfFonfo Figueira , António 
Ribeiro, Francifco da Corta , GafparLuiz, 
Bartholomeu Vaz , João Fernandes o Ta- 
ful , e outros muitos Fidalgos, e Cavallei- 
ros. Neíla Armada hiam de ventagem de três 
mil homens Portuguezes , e quafi mil e quir 
quinhentos Lafcarins da terra , que hiam em- 
barcados em dous Juncos , de hum delles 
era Capitão , e fenhorio Diogo Rodrigues 
de Azevedo , e do outro não achamos cujo 
era. E primeiro que partiíle de Goa , entre- 
gou o Governador a Simão Caeiro Ouvidor 
geral hum irmão do Soltão Badur, que An- 
tónio da Silveira Capitão de Ormuz tomou 
naquella Cidade , que hia fugido da ira do 
irmão , porque o queria matar. A eíle Prín- 
cipe não foubemos o nome , nem onde mor- 
reo , mas alcançamos homens neíla Cidade 
de Goa ? que o viram andar eíte inverno pe- 
la 



234 ÁSIA de Diogo de Couto 

Ia Cidade bêbado em cima de hum elefan- 
te, o que fazia os mais dos dias, e não pe- 
la razão porque o fazia aquelle filho do Grão 
Turco , que eítava em Roma cativo , que 
dizia que fe embebedava por não fentir os 
defgoítos do cativeiro : mas eíloutro embe- 
beda va-fe , porque lhe foube muito bem o 
vinho do Reyno. A eíte Príncipe fez o Go- 
vernador muitos gazalhados , e lhe deo ca- 
ía honrada , e defpeza ; mas não achamos 
(como já aílima diflemos) cm toda a índia 
homem que nos diíTefle do fim deite Prínci- 
pe i porque quando o Governador Nuno da 
Cunha matou emDioEIP,ey SoltãoBadur, 
como logo adiante fe verá ; vinha o Reyno 
a eíte homem , porque oBadur não tinha fi- 
lhos , e em defeito de herdeiros elegeram os 
povos SoltãoMahamede feu fobrinho , e não 
declaram as hiítorias fe era filho deite irmão , 
fe do outro a quem elle roubou o Reyno. 
E tornando ao Governador , foi feguindo lua 
jornada até á fortaleza de Chaul , onde ef- 
tava Manoel de Macedo por Capitão , que 
lhe fez grande recebimento. Aqui tomou in- 
formação das coufas de Cambaya , e foube 
eítar na Cidade de Baçaim Melique Tocão , 
■fenhor de Dio , que Soltão Badur tinha man- 
dado com dez, ou doze mil homens, pêra 
fe metter naquella Cidade , pelas novas que 
havia dos grandes apercebimentos que fazia 



Dec. IV- Liv. VIII. Gap. III. 23? 

o Governador pêra fahir fora eíle verão. Me- 
Iique Tocão eílava muito fortificado , ç fo- 
berbo pelo fucceflb paflado de Dio , de que 
o Governador andava bem defconfíado , e 
defejava de fatisfazer aquella quebra. E to- 
mando confeiho iobre o que faria , íjgnifi- 
cando a todos os Capitães o defejo que ti- 
nha de dar na Cidade de Baçaim , por fer 
das principaes do Reyno de Cambaya , e 
donde fe provia de mantimentos. A todos 
paréceo bem , e lho approváram , fem embar- 
go de lhe reprefentarem no coníèlho o gran- 
de poder com que Melique Tocão eílava , 
porque quanto maior lho pintavam , mais lhes 
crefcia o defejo a todos de fe verem ás mãos 
com os inimigos , porque os Fidalgos defte 
tempo não buícavam outras fazendas , e far- 
dos, fenão pelouros, e bombardas , honra, 
e fama. Em fim alTentado no confeiho eíle 
negocio, logo o Governador defpedio Ma- 
noel de Alboquerque no Galeão em que hia , 
com quinze navios mais de remo , pêra fe 
ir pôr fobre a barra de Baçaim, porque não 
entrafle , nem fahiífe coufa alguma. E porque 
foube que Diogo da Silveira eílava com to- 
da fua Armada na ponta de Dio , o mandou 
chamar pêra que o fofleefperar em Baçaim , 
e lhe mandou o Alvará d ? ElRey , porque o 
fazia Capitão mor do mar da índia. Com 
eíle recado fe fez Diogo da Silveira á ve- 
la, 



136 ÁSIA de Diogo de Couto 

la , e atraveflbu a Baçaim , e furgio fobre 
aquella barra , aonde já eftava Manoel de Al- 
boquerque. O Governador depois que deo 
defpacho a alguns negócios , deo a vela pê- 
ra Baçaim , e furgio naquella barra com hu- 
ma tamanha Armada que cubria o mar , e 
dando conta a Diogo da Silveira do que ef- 
tava determinado 5 lhe mandou que fofle re- 
conhecer o fitio , e fortificação da Cidade , 
e quenotaííe aparte porque fe podia defem- 
barcar. Diogo da Silveira fe fez preftes j ef- 
colhendo pêra iífo alguns navios muito li- 
geiros y pera ao outro dia de madrugada com- 
metter aquelle negocio. 

CAPITULO IV. 

Do modo da fortificação da Cidade de Ba- 
çaim : e de como o Governador Nuno 
da Cunha defembarcou nella , e a 
entrou , e dejlruio de todo. 

AO outro dia em rompendo a manha fe 
embarcou Diogo da Silveira em hum 
«avio muito ligeiro, levando comíigo alguns 
Capitães , e Fidalgos da fua companhia , que 
pera iíTo efcolheo , e outros alguns navios 
de remo , com alguns Pilotos da Armada 
pera irem fondando a barra , e o rio todo. 
Ecommetrendo a entrada na reponta da ma- 
ré 3 foi muito, devagar notando o modo da 

for- 



■Dec.IV. Liv. VIII, Ca?. IV. 237 

fortificação, que era por eíla maneira. Sobre 
o canal da barra da banda do Norte eftava 
hum baluarte muito grande com huma ca- 
va muito larga em roda , que fe enchia com 
a agua domar. Do baluarte corria hum mu- 
ro pêra dentro de longo da praia , que era 
a face da Cidade , que ficava pêra o fertao. 
Por efte muro havia muitas torres, c guari- 
tas , todas guarnecidas de muita 5 e boa ar- 
tilheria , e gente de guarnição. Entre efte 
muro , e a Cidade havia huma boa fortale- 
za , poíla íbbre hum tezo grande , e formo- 
fa , com feus baluartes , e revezes , e não íe 
podia paliar pêra a Cidade íèm tomarem 
primeiro os baluartes , e fortes da praia , por- 
que mettendo-fe algum exercito em meio fi- 
cava arrifcado a fe perder , por caufa da mui- 
ta artilheria que de ambas as partes lhe fi- 
cava. Diogo da Silveira foi vendo, e notan- 
do tudo , lem o perturbarem as muitas , e 
amiudadas bombardadas , que fobre elle cho- 
viam , e paliando pelos fortes notou que a- 
diante delles pelo rio bem aííima havia hum 
lugar em que fe podia defembarcar , e com- 
metter a fortaleza , que eftava entre a Cida- 
de , e as fortificações da praia pela outra fa- 
ce , fem fe metterein em meio dos fortes. 
Notando tudo muito bem , tornou-fe ao Go- 
vernador , fem lhe acontecer defaftre algum : 
e prefeatc todos ps Capitães velhos > lhe deo 

re- 



^38 ÁSIA de Diogo de Couto 

relação do que vira , com que fe aflentou ? 
que fe commettefle a Cidade por aquella par- 
te , e que foíTe ao outro dia , pêra o que fe 
fizeram preftes , ordenando as coufas necef- 
farias pêra o commettimento da fortaleza , 
no que gaíláram todo aquelle dia , e noite 
feguinte. E tanto que amanheceo, poz o Go- 
vernador em ordem a defembarcacao , or- 
denando de toda a gente três efquadrões. O 
primeiro, que era a dianteira, deo a Diogo 
da Silveira, pêra quem fe paliaram todos os 
Fidalgos aventureiros da Armada. Do fegun- 
do cfquadrão era Capitão D. Fernando De- 
ça. O terceiro tomou o Governador pêra li 
com todos os Fidalgos , e Capitães velhos : 
ordenando o Governador , que as galés , e 
duas barcaíTas que levava , fe puzeflem a ba- 
taria com os fortes da praia. Ao outro dia 
tanto que a maré começou a encher , foram 
entrando o rio com todos aquelles navios de 
remo, que eram mais de cento e vinte , for- 
mofamente embandeirados , tocando muitas 
caixas , e pífaros , trombetas , e charamelas , 
mifturando com as coufas de guerra , outras 
de alegria , pêra moílrarem o furor , e alvo- 
roço que levavam. Diogo da Silveira hia di- 
ante com toda a fua Armada , e foi palian- 
do pelos fortes com grandes falvas de arti- 
lheria, arcabuzaria, e gritas de todos os ma- 
rinheiros , com que mettêram mui grande 

ter- 



Dec. IV- Liv. VIII. Cap. IV. 23? 

terror, e efpanto nos inimigos , que acudi-» 
ram aos fortes da praia cuidando que osqui- 
zeflem commetter. Diogo da Silveira como 
hia defpedido do remo , foi paffando por 
meio de nuvens de pelouros , e de fumaças , 
que aífi da terra , como da nofía Armada 
erao tantas , e tão eípeíTas , que cubriam o 
rio , e parecia que a terra , e o Ceo fe des- 
fazia em cónicos. E paífando adiante , foi pôr 
a proa na parte que tinha notado, em que 
logo faltou com todos os feus , e formou 
em terra o feu efquadrao , que era de mais 
de mil e quinhentos homens , com fuás ban- 
deiras defenroladas , e ao fom de caixas, e 
pífaros , foram marchando á fortaleza , don- 
de lhes atiraram infinitas bombardadas , que 
todas davam em meio delles fem fazer da- 
mno algum , o que foi coufa milagrofa. Dio- 
go da Silveira que hia demandando a for- 
taleza pela face da banda do Levante , achou 
já no campo Melique Tocao com dez mil 
homens , podo em ordem de batalha. Dio- 
go da Silveira animando os feus brevemen- 
te , appellidando Sant-Iago , remetteo com os 
inimigos , baralhando-fe todos em huma cruel 
batatha 5 derribando-lhe os noíTos daquella 
primeira falva da arcabuzaria mais de qua- 
trocentos , e vindo á efpada começaram a 
fazer nelles grande deftruição , e como hiam 
com aquelle primeiro Ímpeto y e furor , não 

efti- 



240 ÁSIA de Diogo de Couto' 

eílimando os inimigos em coufa alguma , af-> 
li apertaram com elies que os fizeram vol- 
tar. Meliqui Tocão vendo- fe desbaratado , 
não fe quiz recolher pêra a fortaleza , mas 
foi-ie de longo delia pêra o íertao. Os que 
eílavam na fortaleza , vendo ir Melique To- 
cão fugindo, não oufando a eíperar os nof- 
fos, lançáram-fe pela outra parte fora, e fo- 
ram feguindo os feus , deixando a fortaleza 
defpcjada. Diogo da Silveira chegando á 
porta, vendo que aviéloria eftava por fua, 
não quiz entrar dentro , e efperou pqlo Go- 
vernador. Ifto tudo foi tão apreíFado , que 
quando chegaram os outros efquadrões era 
tudo concluído. O Governador chegou á 
portada fortaleza, onde achou Diogo da Sil- 
veira com a fua bandeira encoftado nella , 
c levando-o nos braços lhe difle muitas pa- 
lavras de louvores , engrandecendo a Deos 
com huma tamanha viítoria fem cufto algum. 
E mandou a Diogo da Silveira que entraf- 
fe na fortaleza , e a délTe a facco aos feus 
foldados : á volta delles entraram todos , e 
a efcaláram. O Governador mandou reco- 
lher toda a artilhem , de que fe acharam 
quatrocentas peças , muitas munições , e pe- 
trechos de guerra. Depois de tudo efcalado , 
mandou o Governador fazer algumas minas , 
que encheo de barris de pólvora, e dando- 
lhes fogo , arrebentou toda a fortaleza até 03 

ali- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cav. IV. 114Í 

aliceces. Dalli fe foram aos fortes da praia * 
que já eítavarn defpejados , e lhes mandou 
fazer o mefmo , mandando primeiro lançar 
todos os corpos morros dos inimigos ( que 
eram mais de quinhentos e cincoenta ) den- 
tro na cava , e lbbre elles cahio toda aquel- 
la máquina dos edifícios , quando arreben- 
tou. Feito ifto , mandou o Governador talhar 
os campos todos á roda , e cortar os pal- 
mares 5 e deftruir as povoações , que eftavam 
pelo rio dentro de longo da agua de hu- 
ma , e da outra parte. E deixando tudo at- 
foíado , abrazado , e feito em cinza , man- 
dou dar em Taná , Caranja , Carapufa , Brim- 
dim , Galiana , Bombaim , e em todos os 
mais lugares d'ElRey de Cambaya , em que. 
fizeram grandes damnos , e cativaram mui- 
ta gente. Feito iílo, recolheo-fe o Governa- 
dor pêra Chaul. 

CAPITULO V. 

De como Diogo da Silveira partio pêra a 
EJlreito de Meca , e o Governador Nuno 
da Cunha pêra Goa , ficando Manoel de 
Alboquerque com huma Armada na cofia. 
de Cambaya , e do que lhe aconteceo. 

DEpois de* fer o Governador em Chaul 4 
negociou Diogo da Silveira pêra o Ef- 
treito de Meca ás prezas ; que partio entrai 
Couto.TonLLB.il, CL da 



24* ASIÁ de Diogo de Couto 

da de Fevereiro, levando finco Galeões , de 
cujos Capitães não achámos os nomes , mais 
que de Vafco Pires de Sampaio, e vinte nah 
vios de remo , de que eram Capitães Ruy de 
Mello 5 Lopo Pinto , AfFonfo Figueira , Bar* 
tholomeu Vaz , Gafpar Luiz , Filippe Baião y 
Fero Botelho , Jorge de Souía , João Fer- 
nandes o TafuI , Gonçalo Eftevens , António 
Fernandes , Diogo Gonçalves , Álvaro Men- 
des , Belchior Gonçalves , António Ribeiro , 
Francifco da Coíla , António da Cunha , e 
outros. E deita jornada adiante daremos ra- 
zão. O Governador depois de prover em mui- 
tas couías , e lhe era neceflario ir-fe pêra 
Goa , ordenou hum a Armada pêra ficar na- 
quella coifa , de que fez Capitão mor Manoel 
de Alboquerque , a quem deo huma galé , 
e vinte e hum navios de remo , dando lhe 
por regimento que fe fizeííe pela cofia de 
Cambaya toda a guerra que pudeííe. Defpe- 
dida cila Armada , deo o Governador á ve- 
la pêra Çíoa , aonde chegou em breves dias y 
e tratoi^ de prover nas coufas de Malaca , e 
Maluco ; e porque achou cartas da morte de 
Gonçalo Pereira , e dos defarranjos daquel- 
la terra , a que lhe era neceíTario acudir , 
deípachou Triftáo de Tarde* que eftava pro- 
vido daquella Capitania , pêra ir entrar nel- 
la, e lhe deo por regimento, que lhe man- 
daile prezo em ferros Vicente da Fonfeca, 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. V- 245 

e lhe efcreveíTe toda fua fazenda , que viria 
entregue em mãos de peíToas abonadas. Era 
iita companhia mandou embarcar Pêro de 
Monte mor o Caílelhano , ( que atrás diffe- 
mos , ) que os perdidos que ficavam em Ma- 
luco da companhia de Sayavedra mandaram 
ao Governador a pedir-lhe licença pêra fe 
irem pêra a índia , a quem efereveo cartas 
de muita honra , e mandou que íe lhe déffe 
embarcação , e todas ascoufas neceíTarias. E 
pêra Malaca defpachou D. Paulo da Gama , 
por não haver novas de feu irmão D. Efte- 
vão. Eftes Capitães partiram entrada de A- 
bril. O Governador mandou a Manoel de 
Soufa, que eftava no Malavar , que fe reco- 
JheíTe , e deixaíTe alguns navios , e gente na 
fortaleza de Chalé pêra invernarem , e lhe 
mandou dinheiro pêra pagas , e provimentos 
pêra mezas. Com ido concluio o Governa- 
dor todos os negócios deíle verão : e nós o 
faremos também com ascoufas que fuecedê- 
ram a Manoel de Alboquerque , e a Diogo 
da Silveira, o que tudo faremos nefte Capi- 
tulo , por não gaitarmos outro , pelas muitas 
coufas que temos com que continuar. 

E tratando de Manoel de Alboquerque : 
Tanto que o Governador o defpedio , logo 
íe fez na volta da cofta de Cambaya , por 
onde andou fazendo toda a guerra que po- 
de 3 dando em toclas as povoações que ha- 

Q^ii via 



244 ÁSIA de Diogo de Couto 

via de Baçaim até Tarapor , queimando , c 
aííolando tudo , e tomando-lhes muitas em- 
barcações com fazendas : e á torna viagem 
achou na barra de Bombaim huma náo , que 
havia pouco tinha vindo de fora , e eílava 
já defcarregada com medo da noíla Arma- 
da : que tanto que foi viíla da terra 5 recean- 
do que lha queimaffem , veio hum Mouro 
em huma almadía com huma bandeira bran- 
ca , e foi levado á galé do Capitão mor , 
e lhe diíTe , que era hum mercador eftrangei- 
ro 3 que aquella náo era fua , que lhe pedia 
lha não mandaffe queimar , que elle daria 
quinhentos pardaos pêra ajuda dos provimen- 
tos daqueíla Armada. Manoel deAlhoquer- 
que lhos acceitou , viílo fer eftrangeiro , e 
elle logo os mandou bufcar, e entregou. E 
deixando-lhe a fua náo , foi entrando por a- 
quelle rio dentro , dando em alguns lugares 
da Ilha de Salcete , que já fe começava a po- 
voar : e porque todavia o damno não foííe 
por diante y acudiram alguns Tanadares del- 
ia , e oíFerecêram ao Governador páreas , 
com tanto que lhes não queimaffem fuás po- 
voações , e pela mefma maneira as manda- 
ram offerecer os Tanadares de Taná , Ban- 
dorá , Maym , Bombaim , e concertando-fe 
com todos , promettêram quatrocentos par- 
daos cada hum deftes Tanadares cadaanno, 
e deite anuo pagaram logo todos em prata > 

•que 



Dec. IV- Liv. VIII. Cap. V. 24? 

que fe vendeo a razão de nove Xeranns o 
marco , cuja quantia achámos carregada ío- 
bre o Feitor delia Armada , com declaração 
que era de páreas. Feito iílo por fe vir che- 
gando o inverno, recolheo-le a invernar em 
Chaul , pelo affi mandar o Governador. 

E continuando com Diogo da Silveira, 
foi feguindo fua viagem até o Cabo de Guar- 
dafúi , onde as náos que vam do Achem pê- 
ra Meca fempre vam demandar. Alii lhe foi 
cahir huma nas unhas, que logo foi rendi- 
da , poíto que com trabalho por ir forte % 
e com muita gente , e foi tomada com rc- 
do feu recheio , e os que el ca param vives 
foram cativos. Aqui ficou a Armada até fer 
ternpo de fe recolher como fez pêra ir in- 
vernar a Ormuz , como levava por regimen- 
to. E chegando a Çacotorá o galeão de Vaf- 
co Pires de Sampaio , que íe adiantou da Ar- 
mada , houve vifta de huma náo de Rumes , 
grande , e poderoía 5 que tanto que conhe- 
ceo o Galeão , foi-fe em outro bordo. Vaf- 
co Pires a feguio , porque o feu Galeão, era 
veleiro , e alcançou-a em poucas horas , c 
deo-lhe huma formofa falva de bombarda- 
das , e depois a inveílio com todas as velas, 
commettendo a entrada com muito valor, e 
esforço , porque achou nos Mouros ( que 
eram mais de duzentos ) mui grande reíif- 
tencia ; havendo mortos , e feridos de am- 
bas 



í^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

bas as partes ; mas os noíibs entraram a náo 
a poder de golpes , e 110 convés delia íe tra- 
vou huma formofa batalha , mas por fim do 
negocio os Mouros foram rendidos 5 depois 
de ferem os mais delles mortos. E tornan- 
do amo comíigo, ficou cíperando pela Ar- 
mada í que chegou logo , e fazendo aguada 
em Caco ora , foram Teu caminho. No cabo 
de Fartaque deo Vafco Pires de Sampaio com 
outra náo , que também abordou , e rendeo , 
que levava muita fazenda. Diogo da Silvei- 
ra deo com outra poderofa náo > e atiran- 
do-lhe a amainar , o fez o Capitão delia , e 
fe foi no batel ao Galeão de Diogo da Sil- 
veira , e lheaprefentou com grande confian- 
ça huma carta, que era de hum Portuguez , 
que eílava cativo emjudá, que trazia como 
falvo conduto , por lha pedir o mefmo Mou- 
ro ; abrindoa , vio que dizia alii: Peço aos 
Senhores Capitães cPFJRey , que encontrarem 
ejia náo , que a tornem de preza , porque 
he de hum muito roim Mouro , a quem paf- 
Jei .efta por não poder fazer mais , e ao pé 
delia fe aílinou. Vendo Diogo da Silveira 
a confiança do Mouro , e a velhacaria do Por- 
tuguez , pelo credito que convinha a Chri- 
fiao, approvou-Ihe o feguro; e rompcndo-lho, 
porque nfío ibubefle o engano , e lhe fizeí- 
fe damno com qualquer outro Capitão que 
achafle , paflbu-lhe outro em forma , com 

que 



Dec. IV. Liv. VIIL Cap. V. 247 

que o Mouro fe foi fem fentir o engano. In- 
da efte foi maior feito que o de Scipião o 
Maior , que tomando huma náo de Carta- 
ginenfes , com que o Império Romano ef- 
tava de guerra , e os que hiam nelia por fe 
lai varem , lhe differam que hiam por Em- 
baixadores a Roma ; e ainda que eile enten- 
deo , que por fe fal varem do perigo fe apro- 
veitavam do nome de Embaixadores , fem 
lhes moftrarem mais authoridade , largou-os 
livremente , porque quiz antes que a fé dos 
Romanos foííe enganada , que deixalía em 
alguma maneira fufpeitofa. E pofto que if- 
to foífe feito valeroíb , o defte noílb Capi- 
tão fe pode ter por maior , por fer menos 
cubiçofo , porque antes quiz perder huma 
náo carregada de ouro, (o que os Carthagi- 
nenfes nao levavam , ) que quebrar a fé de 
nenhum Portuguez , vindo aqueile Mouro 
tão confiado nella. E tornando á noífa hif- 
toria , Diogo da Silveira foipafíando adian- 
te , e embocou o Eftreito de Perfia , e foi 
demandar Mafcare , aonde haviam de ficar 
os Galeões : no porto achou João Fernan- 
des o Taful , que indo diante huma náo , 
que lhe difle que trazia cartas , e pedindo- 
lho o achou falfo , pelo que a reprezou até 
chegar o Capitão mor que a julgou por per- 
dida , e fe vendeo naquelie porto , e mon- 
taria tudo o que tinha fete mil cruzados. O 

Ca- 



~ia% ÁSIA de Diogo de Couto 

Capitão deixou os galeões em Mafcate , e 
clle fe paíTou aos navios de remo , e nelles 
♦foi a Ormuz , onde invernou. Aqui o deixa- 
remos até tornar a eile. 

CAPITULO VI. 

Das coufas , que efte anno aconteceram cm 
Maluco : e do grande aperto em que a 
Rainha poz, aos da fortaleza : e de como 
lhe entregaram por partido feu filho El- 
Rey Ayalo : e de como fe pajjòu pêra Ti- 
ãore y e Vicente da Fonfeca alevantou por 
Rey feu irmão Tabarija. 

COntinuando com as coufas de Maluco , 
por nos cabarem nefte tempo : Depois 
da morte de Gonçalo Pereira , e lucceder em 
feu lugar Vicente da Fonfeca, (como atrás 
temos dito 5 ) vendo a Rainha quáo mal lhe 
fuccedêra aquelle negocio , e que todavia feu 
filho ficava na fortaleza reteudo como dan- 
tes , cuidando que pelo avorrecimento que 
todos tinham a Gonçalo Pereira, e pela lar- 
gueza que com elle tinha ufado Vicente da 
Fonfeca em lhes largar o commercio do 
cravo , lhe concederiam feu filho , grangean- 
do pêra iífo a todos os ca fados , mandou 
em fegredo peitas a Vicente da Fonfeca pê- 
ra que lhedéífe leu filho. Vicente da Fonfe- 
ca receando de bolir naquelle negocio > def- 

en- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VI. 249 

-enganou a Rainha , que lhe cortariam a ca- 
beça fe tal fízeífe , fem o Governador da In- 
dia o mandar. Vendo a Rainha que não po- 
xiia haver o filho ás mãos , nem por peitas , 
-nem por rogos, determinou de o haver por 
força; pêra o que convocou ajuda de todos 
os Reys vizinhos pêra contra os Portugue- 
zes, e mandou recolher todos os mantimen- 
tos , pêra que não foílem á fortaleza , nem 
por mar , nem por terra : com o que come- 
çaram os noííos a fentir grande falta de tu- 
do. E aíli chegou a couta a tanto eítremo , 
que adernaram pedirem pazes á Rainha ? e 
concederem-lhe feu filho , que era o que el- 
la pertendia , porque iiTo era menos ma! que 
perder-fe a fortaleza. E aíTi lhe mandaram 
fallar por algumas vezes , e feu filho lho 
mandou pedir por termos , que veio a con- 
ceder pazes com todas as condições que os 
noííos quizeram , com lhe entregarem feu fi- 
lho , com o que ella ficou tão apaziguada , 
e quieta , que tornou logo a povoar a Cida- 
de , e a correrem os mantimentos em abaí- 
tança , e os noífcs a fahirem fora das necef- 
íidades em que eílavam. EÍPvey como eíleve 
em poder da Rainha , logo ella lhe entre- 
gou a governança do Reyno , em cujo prin- 
cípio clie começou a moíírar feveridade , e 
afpereza com os principaes , e a defeubrir 
ínocidades > que até então não pode > com o 

que 



2^0 ÁSIA de Diogo de Couto 

<;ue fe tornou a fazer tão avorrecido a to- I 
dos , que já o tomaram antes prezo como j 
eftava. Eftes defgoftos nunca pode temperar 
íua mai , porque o moço não tinha nature- I 
za pêra iflb. Eftando ascoufas entre osTer- 
natezes aíll arruinadas , fuecedeo irem huns 
três homens Portuguezes de baixa forte á po- | 
voação dos Ternatezes , ou a roubar , ou a 
fazer força a algumas mulheres (no que ef- 
ta gente baixa he mui defeomedida , pela < 
pouca difeiplina queneftas partes ha.) Aif- I 
to acudiram alguns Mouros , e dando nel- | 
les os mataram. Sabido cíle cafo porVicen- H 
te da Fonfeca , mandou tirar grandes inqui- J 
riçdes daquellas mortes ; e como EIRey ef- 
tava odiolb a todos • foram certos Tomate- i 
zes principaes á fortaleza, e em fegredo fi- 
zeram crer ao Capitão , que EIRey manda- 
ra matar aquelies homens , ajuntando a if- j 
to outras culpas , e mexericos , com que o j 
indignaram contra EIRey, tratando logo de 
o haver ás mãos pêra o caftigar. lílo não i 
pode fer em tanto fegredo , que elle não fof- | 
íè avifado , e como ficara efeaidado da pri- | 
zao , nunca mais quiz converfar a nofTa for- : 
taleza 5 andando mui precatado , e receofo 
do Capitão; porque como no peito malicio- j 
fo he muito natural imaginar em todo o ou- ; 
tro algum engano como elle faria , aíll efte 
nunca mais fe quiz fiar do Capitão. E ven- 
do 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VI. 251 

<}o elle que o não podia haver ás mãos, ca- 
meçou-fe a declarar, e a lhe fazer guerra, 
porque bem enrendeo que eílava tão mal 
quiflo , que o não haviam de ajudar os feus. 
E armando algumas embarcações, lhe man- 
dou dar em algumas povoações , em que fi- 
zeram bem de damno , e cativaram muitas 
■peíToas , e o mefmo fez o Capitão em pef- 
foa , íahindo da fortaleza a dar-lhe alguns as- 
faltos na fua Cidade , com que o inquietou 
muito. E como elle citava odiofo a todos , 
vendo-os retirar, e não o ajudarem, recean- 
do-fe que hum dia deíTem nelle , e o entre- 
gaflem ao Capitão , não fe havendo por fe- 
guro naquella Ilha , paííou-fe aTidore, on- 
de aquelle Rey o recolheo contra o contra- 
to das pazes. Sabido iílo por Vicente da Fon- 
feca , mandou logo chamar os Governado- 
res de Ternate , e hum irmão do Rey fu- 
gido mais moço y chamado Tabarija , e o 
alevantou por Pvey de Maluco , com as ce- 
remonias entre elles acoftumadas. Difto íbcí- 
candaiizáram alguns dos naturaes , e outros 
folgaram. Entre os Portuguezes não falta- 
vam também defgoftos , porque viam que Vi- 
cente da Fonfeca fora injuftamente eleito por 
Capitão , tendo culpas , e citando prezo por 
crimes : e mais haviam que elle fora o prin- 
cipal induzidor da morte de Gonfalo Perei- 
ra , e elle andava também tão pejado 5 que 

co- 



i$z ÁSIA de Diogo de Couto 

como homem que lhe remordia a confcien- 
cia , não fe quietava , nem largava as armas 
da mão temendo-fe de todos , vivendo tris- 
te , c malenconizado , defejando de fe ver 
fora daquella obrigação. EIRey Tabarija tra- 
tou de proceder no governo mais íuavernen- 
te que o irmão , correndo em amizade com 
os Portuguezes , coufa que o irmão muito 
feníio : que como foi fempre inimigo dos 
Portuguezes , tratou de homiziar EIRey de 
Tidore , e os mais vizinhos comelles, eaf- 
íi teceo eftas coufas , que começou EIRey de 
Tidore a fe declarar por inimigo , lançan- 
do mão de achaques bem pequenos. Nefte 
cftado citavam as coufas de Maluco , quan- 
do chegou áquella fortaleza Triítão deTaí- 
de , como adiante diremos. 

CAPITULO VII. 

De como EIRey D. João defpedio ejle anno 
de trinta e três três Armadas pêra a 
índia , duas em Março , e huma em Ou- 
tubro de dez caravelas , de que veio por 
Capitão 7). Pedro de Caftello branco : e 
do que acontece o a Diogo da Silveira > que 
invernou em Ormuz. 

ERa tamanho o cuidado que EIRey Dom 
João tinha de prover nas coufas da ín- 
dia, que tendo novas pela Armada que ef- 

te 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VIL zff 

te Setembro de mil e quinhentos e trinta e 
dous chegou ao Reyno , de como Nuno da 
Cunha ficava íòbreDio, fem faber ainda o 
que lhe tinha fuccedido , mandou negociar 
fete náos pêra lhe mandar eíle anno de trin- 
ta e três 3 que repartio em três Capitanias. 
Da primeira , que partio em Março , era Ca- 
pitão mor D. João Pereira , pai de D. Mar- 
tinho Pereira , que cm tempo cTElReyDom 
Sebaíiião governou o Reyno , a quem El- 
Rey defpachou com a Capitania de Goa , e 
foi embarcado na náo Flor de la mar ; e os 
Capitães da fua companhia eram Vafco de 
Paiva na náo Santa Barbara , Diogo Bran- 
dão na náo Santa Clara , e D. Francifco de 
Noronha na náo S. João. E logo na entra- 
da de Abril deram á vela as outras três náos , 
de que era Capitão mor D. Gonçalo Couti- 
nho , que também hia defpachado com a Ca- 
pitania de Goa; e os mais Capitães de fua 
companhia eram Simão da Veiga , e Nuno 
Furtado. Neílas náos mandou EIRey hum 
Alvará ao Governador Nuno da Cunha , fei- 
to em Évora por Pêro de Alcáçova Secre- 
tario , em que mandava a todos os Capitães 
das fortalezas da índia , que acudiflem com 
as menagens delias aos Governadores , e lhe 
obedeceltem como á fua própria peííoa : por 
onde parece , que até então eram todos izen- 
tos dos Governadores da índia 5 e não co- 



2^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nheciam outro fuperior fenao o Rey , em 
cujas inaos davam as menagens de fuás for- 
talezas. Depois deâas Armadas partidas , che- 
garam as náos da companhia do Doutor Pê- 
ro Vaz de Amaral , por quem EIRey teve 
novas do ruim fiiccefíb da jornada de Nu- 
no da Cunha em Dio ; e como eftava afíen- 
tado , que pêra fegu rança da índia era ne- 
ceífario fazer-fe fortaleza naquella Ilha , fe 
determinou de mandar mais poder : e logo 
mandou tomar caravelas por Villa de Con- 
de , e por Vianna , e ajuntando dez , as man- 
dou negociar com muita brevidade, e fazer 
por todo o Reyno dous mil homens pêra 
mandar nellas \ e por Capitão mor defta Ar- 
mada elegeo D. Pedro de Caftello branco , 
a que deo quatro annos da Capitania de Or- 
muz. Efta Armada deo á vela entrada de No- 
vembro : os mais Capitães eram Nicoláoju- 
zarte , Balthazar Gonçalves , António Lobo , 
Lionel de Lima, Heitor deSoufa, Francif- 
co Pereira , Gonçalo Fernandes , João de 
Soufa , e Francifco Leme. Todas eftas ca- 
ravelas eram Latinas, fomente D.Pedro hia 
no galeão Salvador , que era huma formo- 
fa peça , e todas hiam ordenadas pêra fica- 
rem na índia ; e de fua viagem adiante da- 
remos razão. E continuando com as duas 
Armadas que partiram primeiro , tiveram am- 
bas tão boa viagem , que foram em Setem- 
bro 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VIL 257 

bro tomar a barra de Goa : fomente a náo , 
de que era Capitão D. Francifco de Noro- 
nha , que fe foçobrou na paragem do Cabo 
de Boa Efperança á vifta das outras , com 
hum tempo grofíb que lhe deo. Nefta com- 
panhia veio D. Eítevao da Gama , que ef- 
tava em Moçambique de invernada. O Go- 
vernador folgou muito com efta Armada , 
porque determinava de metter todo o reílo 
nas coufas de Cambaya j pelo que logo man- 
dou dar aviamento ás coufas de lua embar- 
cação , porque determinava de fe partir tan- 
to que defpedifle as náos pêra Ccchim , a 
que mandou dar muita preíía ? e elie efcre- 
veo a EIRey o tilado em que a índia fica- 
va , e metteo de poíle da Capitania de Goa 
a D. João Pereira. E em quanto o Gover- 
nador fe não embarca , continuaremos com 
Diogo da Silveira Capitão mor do mar, 
que deixa mos invernando em Ormuz. 

Tanto que entrou Agoílo foi-íe pêra Maí- 
cate , onde citavam os galeões , e fazendo-lhes 
feus provimentos , deo á vela pêra Goa com 
toda a fua Armada junta, Eindo já deman- 
dar a coíla de Dio , cia outra banda de Por 
deo-lhe huma tormenta mui grande , com 
xjue toda a Armada fe efpalhou , correndo 
cada hum como melhor pode ; e a fuíla de 
Filippe Baião , que era velha , foi comida 
dos mares fem apparecer aiais coufa alguma 

dei- 



i$& ÁSIA de Diogo de Couto* 

delia. Vafco Pires de Sampaio, que foi no 
feu Galeão correndo á vontade dos ventos , 
tanto que a tormenta ceifou , houve viíla de 
huma náo de Meca , a que deo caça muitas 
horas , e alcançando-a , a abordou , deitando- 
fe logo dentro com os íeus foldados , e de- 
pois de grande reíifíencia da parte dos Mou- 
ros a rendeo com grande damno dos inimi- 
gos ; e paiTando o Capitão da náo com os 
roais que efcapáram ao feu Galeão , metten- 
do alguma gente na náo que eftava cheia de 
fazenda , a levou comfigo , e foi demandar 
a ponta de Dio , aonde toda a Armada fe 
havia de ajuntar. E indo já perto , houve 
viíla de alguns navios da Armada , que hiam 
correndo a huma náo de Meca ; e como o 
tempo era groíío , por fer ainda em Setem- 
bro , prepaffou hum dos Galeões da compa- 
nhia , (que já fe tinha ajuntado , ) pela náo 
que Vafco Pires levava tomada , e deo-lhe 
huma pancada tamanha , que a abrio toda , 
e fe foi logo ao fundo , íalvando-fe porém 
os Portuguezes que neíía hiam , que eram 
íinco , ou féis. Os navios que hiam feguin- 
■do a náo de Meca foram apôs ella até á 
barra de Surratc , onde a alcançaram , e ren- 
deram , e tomando-a comfigo a levaram pê- 
ra Chaul. E quafi no mefmo tempo chegou 
também o Capitão mor áquelle porto , e deí- 
pedio os navios groíTos pêra fe irem concerr 

tar, 



Dec. IV- Liv. VIII. Gap. VIL 257 

tar, e elle fe embarcou na galé de Manoel 
de Alboquerque , e mandou negociar os na- 
vios de remo , e armou outros que alli a- 
chou , e prefazendo cópia de vinte > foi-fc 
continuar na guerra de Camhaya , e fe poz 
na enceada , e totalmente defendeo a nave-^ 
gação aos inimigos , com que os poz em 
grandes rieceílidades aííl por lhes não entrar 
coufa alguma de fora, como por não pode- 
rem levar fuás fazendas a outras partes. Ê 
andando na paragem de Surrate , foi ter com 
elle hum navio ligeiro deCambaya, em que 
hia hum pagem do Soltao Badur com hu- 
ma carta pêra o Governador , e dando ra- 
zão ao Capitão mor de íl , e ao que hia , 
lhe fez muitas honras , e gazalhados , e man- 
dou em fua companhia dous navios ; e che* 
gando áqueila Cidade , foi levado ao Gover- 
nador , que o recebeo mui bem , e vio a car- 
ta de Soltao Badur > em que lhe pedia que 
fe foífe ver com elle a Dio , porque cum- 
pria aífi ao ferviço d^ElRey de Portugal. O 
Governador mandou agazalhar o meíTagei- 
ro, e pondo efte cafo em confelho , foi af- 
fentado por todos os Fidalgos , e Capitães , 
que era neceíTario ir-fe ver com aquelle Rey , 
porque poderia fer lhe quizeífe dar fortale- 
za em Dio pela neceííidadc em que eítava, 
e pelo aperto em que o tinham pofto com 
a contínua guerra que lhe tinha feito. Com 
Couto.Tom.LP.il. R ifc 



2^8 ÁSIA de Diogo de Couto 

ido mandou o Governador lançar a Arma** 
da ao mar , porque queria metter nefta jor- 
nada todo o reílo de fua potencia ; e deípa- 
chando as náos pêra Cochim , efcreveo de 
novo a EIRey a jornada pêra que íe ficava 
fazendo preftes. 

CAPITULO VIII. 

Da razão porque Soltao Badur mandou pe- 
d ir ao. Governador Nuno da Cunha , que 
fe vijje com elle : e da grande Armada , 
que fe chamou das Vijlas , com que o Go- 
vernador partio pêra Dio : e do defafio 
que houve entre Manoel de Macedo , e.a 
Rumecan , de tantos por tantos. 

COm as grandes guerras , que noíTas Ar- 
madas fizeram eítes três annos paíTados 
áquelle Reyno de Cambaya 3 andava Soltao 
Badur tão afibmbrado 3 (porque cada dia ti- 
nha prantos , e choros de feus vafíallos , que 
hiam fugindo das mortes , dos damnos , e dos 
incêndios que recebiam , ) que fe não fabia 
determinar. E como era máo , cruel , e ty- 
ranno , e Deos o queria caftigar , lhe chega- 
ram também novas , que os Reynos de Chi- 
tor, e do Mandou, ( que elle tyrannicamen- 
te tinha tomado aos vizinhos , ) fe lhe tinham 
rebelado. Iíto acabou de o melanconizar de 
feição , que perdeo o confelho , porque fe 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap.VIIL 259 

via em meio de duas tallas, que o não dei- 
xavam bolir comíigo : huma i a cruel guer- 
ra que o Governador lhe fazia \ outra os Rey- 
nos que fe lhe alevantáram , a que fe qui- 
zeíTe acudir, havia dedefamparar as couias 
de Cambaya , e arrifcar a lhe tomar o Go- 
vernador Dio , de que elle eílava tão ciofo i 
fe fe defcuidaíTe dos outros Reynos ^ e vif- 
fem que fe lhes não acudia , podiam-fe re- 
belar os mais que tinha pêra aquella parte i 
como Uzem , Agará, Nagaor , Agimir, e 
outros. E entendendo que a indeterminação 
naquelle negocio podia ler de muito damno, 
chamou a confelho JVÍoftafá Baxá , Coge Ço- 
far , Garacem , Aminacem , e todos os mais 
Capitães grandes , e com elles tratou fobre 
o modo que teria pêra nem perder os Rey- 
nos, que felhes tinham rebelado, nem def- 
amparar a Ilha de Dio , em que o Gover- 
nador trazia tanto os olhos ? E debatido ef- 
te negocio , aífentáram todos , que mandaí- 
fe chamar o Governador da índia , e lhe con- 
cedeífe a Cidade de Baçaim com fuás tana- 
darias 3 e jurifdicção , que era coufa demais 
importância no rendimento que Dio ,e que 
fizeíTe com elle liumas firmes pazes , e que 
com ellas ficariam feus vaíTallos resfolegan- 
do , e tornariam a levantar cabeça ,. e elle 
poderia acudir ás outras coufas lem fobre- 
falto algum* Com eíla refolucao defoedio o 

R ii Ba^ 



2Óo ÁSIA úe Diogo de Couto 

Badur aquelle pagem > que era hum dos do I 
feu feio 3 com a carta que diflèmos. O Go- | 
vernador depois de deipachar as náos pêra | 
Cochim , e prover a coita do Malavar com \ 
alguns navios por não ficar defamparada 5 ] 
embarcou-fe entrada de Dezembro em toda J 
a Armada que a índia tinha , em que leva- j 
va de vantagem de finco mil homens 5 e dan- I 
do a vela , foi tomar Chaul , onde fe foi ajun- I 
tar com elle Diogo da Silveira ; e depois de , 
dar defpacho a algumas coufas , deo á vela | 
pêra Dio , e furgio fobre aquella barra com 1 
duzentos navios , que enchiam todo aquel- 
le mar , dando a mais foberba moílra 5 e 
falva de artilheria , que podia fer. Soltão Ba- 
dur que eftava na Cidade de Novanager , 
dalli a duas léguas , mandou logo vifitar o 
Governador 3 eelle lhe pagou a viíita rnan- 
dando-lhe o Secretario % ejoao deSant-Iago 
por lingua , e a voltas diífo mandou tratar 
com elle fobre o modo de como fe haviam 
de ver. Sobre iílo correram muitos recados 
de parte a parte , em que fe detiveram al- 
guns dias ; e por não fatisfazer ao Governa- 
dor o modo que EIRey queria que fe ti- 
veífe nas viílas 3 o nao quiz acceitar. Sobre 
efte modo ha difFerentes opiniões ; mas a cer- 
ta he , que queria o Governador que lhe 
foífe EIRey fallar á borda da agua , hum 
da terra, e outro domar: EIRey que não, 

fe- 



Dec. IV. Lrv. VIII.. C ap. VIII. 261 

fenão que o fofle ver a terra na Villa dos 
Rumes em fuás tendas , pelo que não fe con- 
cluio em coufa alguma. Neítes dias que fe 
detiveram fuccedeo efte cafo. Como os nof- 
fos eftavam em tregoas , vinham os grandes 
de Cambaya ver a Armada , e os Portugue- 
zes hiam a terra á Villa dos Rumes a ver 
o exercito que alli eftava , (que era coufa for- 
moíiífima de ver. ) Entre eíles foi hum dia 
Manoel de Macedo Capitão de Chaul , (que 
tinha ido com o Governador pêra o acom- 
panhar 3 ) e andando vendo , e notando o ex- 
ercito, encontrou-fe com hum Rume , que 
fe chamava entre os Mouros o Tigre do Mun- 
do , genro de Coge Çofar , homem façanho- 
fo alli em corpo, como em forças , que era 
como Guarda mor d'ElRey , e andei va fem- 
pre ao longo delle. Eíiecomo fe prezava de 
grande Cavalleiro , e era muito foberbo, e 
arrogante , em paífando pelos Portuguezes pa- 
rece que os encontrou de má feição , e foi 
torcendo os bigodes por bizarrice. Tomado 
Manoel de Macedo daquelle negocio , foi- 
fe pêra o Galeão do Governador , e lhe con- 
tou o cafo, pedindo-lhe licença pêra mandar 
defafiar Rumecan , porque convinha aífi á 
fua honra : o Governador como tinha gran- 
de confiança em Manoel de Macedo , e aquel- 
le negocio todo vinha a redundar em glo- 
ria , e honra dos Portuguezes , concedeo- 

11»;., 



2Ó2 ÁSIA de Diogo de Couto 

]ho , o que elle houve por mercê mui afl> 
nalada. Logo fez hum cartei de dezafio ao 
Tygre do Mundo em lingua Perfia , e lho 
mandou por João de Sant-Iago , em que o 
desafiava de peíToa a peffoa , ou tantos por 
tantos , e que o lugar fofíe entre a fortale- 
za de Dio , e o exercito , cada hum em 
fua Fufta de remo. O Tigre do Mundo ac- 
cekou o defafio de tantos por tantos , por- 
que quiz nelle metter alguns Rumes feus ami- 
gos. Efte numero de quantos foram não a- 
chámos na fortaleza, e nefte negocio ha nos 
homens grandes defeoncordancias ; porque 
huns dizem que foram dez por dez , outros 
que trinta por trinta. Em fim como quer que 
fofle , começou a haver antre os Portugue- 
ses grandes alvoroços , porque os mais dos 
Fidalgos , e Capitães queriam fer do nume- 
ro ; mas o Governador mandou , que foífem 
os que primeiro fe oíFerecêram a Manoel de 
Macedo , que foram Manoel Rodrigues Cou- 
tinho , António de Sá o Rume , João Juzar- 
te Ticao . Gonçalo Vaz Coutinho. EflesFi- 
dalgos fos achamos nomeados ; e porque os 
foldados fe não aggravaííem de ficarem de 
fora em negocio tão honrado , efeolheo o 
Governador dous , hum chamado João Ve- 
lho , e outro Francifco Gonçalves das Ar- 
mas , pelas ter fempre muito boas , e fe pre- 
zar muito delias. E o dia aprazado fe vef- 

tí- 



Dec. IV. L iv. VIII. C ap. VIII. 263 

tiram todos muito rica , e loucamente, le- 
vando todos collares de hombros , medalhas , 
pérolas , e efpadas ricas , porque tudo iíio 
lhes deram com muito goíto os que o ti- 
nham. As armas que levavam eram efpadas , 
e adagas , e rodellas. E aílí muito euftofa- 
mente ataviados fe embarcaram em huma ga- 
leota rija , e forte , que pêra ifto efeolhêram > 
guarnecida com feu toldo de feda , e de for- 
mofas bandeiras decores, com charamelas , 
e outros inftrumentos de alegria , e foram 
falvar o galeão do Governador , e entraram 
nelle a lhes dar fua vifta. O Governador os 
fahio a receber fóra da tolda, abraçando a 
todos mui alegre , folgando de os ver tão 
gèntis-homens , e acompanhando-os até o 
bordo do galeão , ao defpedir lhes diífe : 
Senhores Fidalgos , e Cava lie ir os , eu não 
tenho què vos lembrar , mas fé vos lembro , 
que ides pelejar por honra de noffa nação : 
& viciorifa eftd certa , vá Deos comvofco. 
Embarcados na galeota foram- fe pôr no pof- 
to a efperar os inimigos. Na Armada havia 
grandes alvoroços , e invejas, e asenxarceas 
dos * galeões , e as gáveas eitàvam todas, 
cheias de gente pêra verem o defafio , ain- 
da que de longe. Os noífos efperáram todo 
aquelle dia fem os inimigos virem, e tanto 
que anoiteceo recolhêram-fe pêra junto da 
Armada , e em amanhecendo tornáram-fe aa 
- pof- 



264 ASIÀ de Diogo de Couto 

poílo fem também os virem demandar , nem 
ao outro dia que foi o terceiro. E acabado 
o dia , havendo-fe por defobrigados , falvá- 
ram a Cidade com algumas bombardadas , 
e depois com charamelas , e trombetas , e 
foram-fe recolhendo pêra a Armada , e nun- 
ca fe foube a razão porque os inimigos lhe 
não fahíram ; mas foube-fe que Rumecan 
Capitão geral do exercito ficara mui peza- 
rofo , e fentíra muito aquella aíFronta , fican- 
do defta vez os Rumes mui defacreditados. 

CAPITULO IX. 

Da differença que ha entre os Rumes , ç 
Turcos , e porque fe chamam Rumes : e 
do que fez o Governador Nuno da Cu- 
nha : e de como Diogo da Silveira 
foi com huma Armada ao Eflreito. 

\ Á que falíamos em Rumes , (porque mui- 
fj to poucas pcflÒ3s fabeití a differença que 
ha delíes aos Turcos,) e donde vem efte no- 
me Rume , o diremos brevemente. He de 
faber, que os verdadeiros Turcos são aquel- 
lcs , que defcêram dos montes Cafpios , e fo- 
ram conquiílar toda efla Natolia , toda eíTa 
Grécia , e o Grande Império de Conftantino- 
pola ; e porque a primeira parte que povoa- 
ram foi a de Natolia , fe chamou delles a 
Grão Turquia , porque elles trouxeram já 

com- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IX. 26? 

comíígo efte nome de Turcos , porque def- 
ceram da Província de Turcheítan , como 
adiante melhor fe verá, quando fallarmos da 
origem dos Magores , e reprovamos a opi- 
nião que alguns tiveram em dizerem 5 que 
os Turcos íe chamaram aífi dos Teucros , 
que foram os Troianos ; ou porque povoa- 
ram aquella parte que os Teucros poíTuíram: 
efta opinião parece que tomaram da feme- 
Ihança do nome. Os Rumes são todos aquel- 
les naturaes da Província de Trácia , e da- 
quella parte de Conftantinopola , que fe cha- 
mou Romania 5 daquelle privilegio que o 
Papa Silveftre concedeo ao Imperador Conf- 
tantino , ( fegundo Platina , ) que querendo 
gratificar áquelle Imperador, quando lhe lar- 
gou a Cidade de Roma pêra nella a (Tentar 
a Cadeira de S. Pedro , mudando-fe pêra 
Conftantinopola , mandou que aquella Cida- 
de fe chamaíTe dalli por diante Roma , con- 
cedendo-lhe grandes privilégios , e liberda- 
des. Dalli por diante fe ficou chamando to- 
da aquella parte de Trácia , Romania , efeus 
naturaes Romanis : e os Turcos depois cor- 
rompendo-lhe o nome , lhe chamaram Rume* 
]i 5 e nós depois Rumes. E não lo os que 
fe pagaram á lei de Mafamede , depois que 
aquelle Império íe perdeo , mas ainda os de 
toda Grécia , que ficaram na fua antiga ; 
porque como os Gregos eram muitos , e an- 
da- 



2Ó6 ÁSIA de' Diogo t)E Couto 

davam mifturados com hum mefmo trajo , 
fem fazer difFerença o Mouro do Chriftão , 
mandou hum daquelles Príncipes Turcos , 
que os Chriítãos trouxeífem nas cabeças tou- 
cas pretas pêra ferem conhecidos , e dife- 
renciados, e affi o são tanto de todos, que 
os nomeão por eíle nome Cara Rum , que 
quer dizer os Rumes da divifa preta. Eaos 
Judeos mandou que trouxelTem toucas ama^ 
relas > e os Mouros todas brancas. Iílo mu- 
dou Soltao Amurat filho de Soleimao , e ne- 
to de Selim ; e mandou que os Chriítãos 
trouxeífem barretes pretos , e os Judeos ver- 
melhos , e os Mouros feus turbantes bran- 
cos. Eftes Rumes como procedem dos Gre- 
gos j tem-fe por mais honrados que os Tur- 
cos , e na verdade lhe são avantajados em 
coílumes , limpeza y e valor; e onde quer que 
chegam logo fe nomeam por Rumes á bo- 
ca cheia ; e a mor aíFronta que fe lhe pode 
fazer he , chamar a hum deftes Turco , por 
haverem a todos por baixos, torpes, e def- 
primorofos. Eíla he a razão defte nome de 
Rume, e não a que dam alguns mal-viílos 
nas hiftorias , que dizem chamarem- fe aífi por 
procederem dos Romanos , que ficaram na- 
quelle Império do Egypto depois que veio 
a poder dos Soltãos: 

E tornando a continuar com o Gover- 
nador: Depois de Te deter na barra deDip 

ai- 



Dec. IV. Liv, VIII. Gap. IX. 267 

alguns dias , vendo que Soltão Badur não 
queria confentir nas viítas , mandou-lhe pe- 
dir por João de Sant-Iago 5 que lhe fizeíTe 
mercê de Diogo de Mefquita , e de todos 
os Portuguezes que tinha cativos , que lhe 
elle negou ; e não aguardando mais , fez-fe 
á vela com toda a fua Armada , fem ter mais 
comprimentos , e foi tomar Chaul. Alli fe 
deteve alguns dias em negociar Diogo dá 
Silveira, que havia de ir ao Eílreito deMe^ 
ca ás prezas ; porque naquelle tempo aquií- 
Io era o que- íuftentava a índia , e tão gran- 
des Armadas como então fe fazião , por- 
que os rendimentos das entradas eram pou- 
cos, Partio Diogo da Silveira de Chaul em 
fevereiro com íeis galeões , e vinte navios 
de remo. Dos galeões eram Capitães , a fo- 
ra elle que hia no Reys Magos , D. Roque 
Tello do Çamorim grande , António de Le- 
mos da Trofa em outro. Dos mais Capitães 
não achámos os nomes. Os Capitães das Fur- 
tas eram quaíi todos os que levou da outra 
vez ao Eílreito , que fempre o acompanha^ 
ram 5 e de fua viagem adiante daremos ra- 
zão. Defpedida efta Armada , o Governador 
fe foi pêra Goa , onde começou a entender 
nos provimentos de Malaca , e Maluco, def- 
pachando D. Eílevão da Gama pêra ir en- 
trar na fortaleza de Malaca , por fer pri- 
meiro em tempo que feu irmão D. Paulo , 

que 



2Ó8 ÁSIA de Diogo de Couto 

que lá eftava , dando-lhe poderes de Veador 
da Fazenda , e huma Provisão pêra feu ir- 
mão D. Paulo ficar por Capitão mor do Mar 
todo o feu tempo , até lhe tornar a caber 
a Capitania que era apôs elle , porque eftava 
o Rey de Viantana de guerra , e era necef- 
fario acudir áquellas coufas , pêra o que deo 
a D. Eftevao três galeões , de que a fóra el- 
le eram Capitães Simão Sodré , António de 
Brito, que havia de ir a Banda , e alguns 
navios ligeiros , em que hiam André Cafco 
de Évora , João Rodrigues de Soufa , ir- 
mão de Martim Aífonfo de Soufa , e Dom 
Francifco de Lima : neftas vazilhas iriam 
quatrocentos Portuguezes. Efta Armada fe 
fez á vela de quinze de Abril por diante , 
indo embarcado com D. Eílevão feu irmão 
D. Chriftovão da Gama , com Provisão , pê- 
ra que fe D. Paulo feu irmão não quizefle 
Já ficar por Capitão mor, o fer elle. Nefta 
conferva foi também Vafco da Cunha na náo 
Santa Cruz pêra em Malaca carregar de 
drogas , e de pimenta da Sunda , (que efta*- 
va já feita em Malaca , ) e ir-fe pêra Portu- 
gal lá pelo boqueirão da Sunda fora. 



CA- 



Década IV. Liv. VIIL 269 
CAPITULO X. 

Do que aconteceo a Diogo da Silveira ná 

viagem do Eflreito : e de como chegou & 

Goa D. Fedro de Caftello-branco 

com as caravelas. 

PArtido Diogo da Silveira de Chaul com 
toda fua Armada junta , fem lhe acon- 
tecer defaftre algum , foi haver vifta da co£ 
ta de Arábia , e a monte de Félix fe deixou 
andar com os navios poftos por paragens* 
Alli lhe foram dar nas mãos algumas náos 
de Cambaya , e do Achem , que logo foram 
rendidas, e algumas de pouco porte, e de- 
pois de lhe tirarem o fubftancial , lhes deram 
fogo por fe não pejarem com ellas , e ou- 
tras deixaram com as fazendas , que leva- 
ram comíigo até Mafcate , onde ficaram os 
galeões : e o Capitão mor em os navios de 
remo fe foi invernar a Ormuz , levando as 
náos de preza , que fe venderam com as fa- 
zendas , o que tudo importou perto de oi- 
tenta mil pardaos , que fizeram as defpezas 
da Armada. Aqui os deixaremos , porque he 
razão que continuemos com D. Pedro de 
Caftello-branco , que deixámos partido do 
Reino. Seguindo efta Armada fua viagem 
ora com bonanças , ora com contraftes , fo- 
ram em Fevereiro tomar Moçambique , aon- 
de 



2jo x^lSIÂ de Diogo de Cóíjto 

de todas as caravelas fe ajuntaram , refor- 
mando-fe , e aparelhando-fe dé muitas ccu- 
fas de que tinham muita neceífidade , comos 
tempos que paíTáram , tomando agua , e re- 
frelco; e de quinze de Março por dianre fe 
fizeram á vela pêra Goa , achando no cami- 
nho muitas calmarias , que lhes deram tra- 
balho , e os deteve até entrada de Maio , que 
chegaram á barra de Goa , aonde furgíram. 
O Governador tanto que teve novas acudio 
á barra com muitos officiàes da ribeira , e 
muitas barcas , em que mandou defcarregar o 
galeão , porque era grande , e mettello pê- 
ra dentro com as caravelas , porque as não 
tomaíTe fora o inverno , porque cada dia ef- 
peravam. E recebeo D. Pedro de Caftello- 
branco com muitas honras , e o levou com- 
íigo pêra a Cidade 3 onde o mandou apofen- 
tar mui bem , e aos Reynoes da Armada 
(que aílim chamam a todos os que vam do 
Reyno o primeiro anno ) mandou o Go- 
vernador pagar feus quartéis. Com eftas Ar- 
madas , de D.João Pereira , D. Gonçalo Cou- 
tinho , e efta de D. Pedro , que toda veio or- 
denada pêra ficar na índia 5 ficou ella pr.of- 
pera de navios, e Officiàes. Efta he a razão 
por que naquelles tempos havia tamanhas Ar- 
madas , e porque a ribeira d'ElRey eftava 
tão provida de Meftres , Pilotos , bombar- 
deiros; marinheiros / calafates , e todos os 

mais 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 271 

mais Officiaes de que fempre havia perto de 
mil homens deites , e mantimentos. Que por 
regimento que havia , não podiam íer pai- 
fados em algum tempo a titulo de foldados , 
nem fervirem em outra coufa , fenao nas 
Armadas , em que eítes Governadores tinham 
tal ordem , que todas as náos , e galeões 
d'ElRey (que eram de vantagem de vinte 
e finco ) tinham Capitães nomeados , que 
venciam ordenados todo o anno , quer fia 
zeílem viagem , quer não : e o mefmo o 
Meítre , Piloto , Bombardeiros , e mais Of- 
ficiaes ordenados a cada navio 5 que eram 
obrigados a terem feus aparelhos leites , e 
preparados de feição , que fe em dous dias 
quizeífem guarnecer todos os galeões , o po A 
diam fazer fem embaraço, porque cada Mc£ 
tre com os marinheiros de fua obrigação a- 
cudiam ao feu galeão , fem ter cuidado de 
outra coufa , e aílim era EIRey muito bem 
fervido , e os feus galeões reformados , con- 
certados , e vigiados , e duravam muitos an* 
nos : E com a índia não render mais que á 
metade do que depois rendeo , havia dinhei- 
ro pêra iíto , e pêra fe pagarem quatro mil 
foldados a quatro quartéis cada anno , e pê- 
ra fe fazerem náos , galés , galeões quafí to-* 
dos os annos novos ; e mais não havia tan* 
to Véador, e Superintendente da Fazenda, 
como ha hoje pelas- fortalezas y que os Go* 

ver- 



ijz ÁSIA de Diogo de Govtò 

vernadores , e Vifo-Reys ordenam pêra a« 
proveitar a Fazenda d'EIRey , que nunca 
Foi tão defaproveitada como em íeu poder, 
E naquelle tempo ferviam os Officiaes feus 
cargos livremente , fem as vexações que hoje 
tem os Feitores , affim dos Capitães , como 
dos Veadores da Fazenda , que muitas ve- 
zes não são nem de tanto fangue , nem de 
tanto merecimento. E nefte tempo em que 
as coufas corriam via ordinária , havia tu- 
do de lbbejo ; mas depois veio ifto a def- 
cahir tanto , que com render a índia duas 
vezes mais que naquelle tempo , chegou a 
ribeira d'ElRey a não ter mais que finco , 
ou féis Officiaes Portuguezes , e a fe irem os 
galeões ao fundo com agua furtos no por- 
to , por não terem quem lhes déíTe á bom- 
ba , nem quem os vigiaíTe ; e efcaçamente 
fe poderem fazer duas Armadas de navios 
de remo pêra o Malavar , e pêra o Norte 
muito mal providas , com mil e duzentos 
homens que podem andar nellas , pagos a 
hum quartel cada anno ; e com ifto aconte- 
cer , deixar-fe de prover Maluco por falta 
de hum galeão , pelo não haver na ribeira* 
A razão deitas coufas não foi de alguma mu* 
dança dos Ceos , nem da terra , porque os 
elementos fempre foram huns, aterra, eos 
campos aífim mefmo acodem com feus frui- 
tos a fua íèzão*como dantes : por onde a 

mu- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 273 

mudança deve fer a dos homens , das leis , 
e dos coftumes tão difFerentes em tudo da- 
quelles com que a índia íe ganhou ; porque 
diz Séneca , que os Eííados he neceíFario íui- 
íentarem-fe com as mefmas artes com que 
fe ganharam : Logo parece que tanto que nel- 
las houver mudanças , eílarao a rifeo de fe 
perderem. A índia ganhou-fe com peitos def- 
intereíTados , e com o intento no ierviço de 
Deos , e d 5 ElRey , com deíejos de honra , 
e fama , com fe eíiimarem os homens , com 
os Capitães não terem outros arreios , nem 
tapeçarias mais que muitos foidados em fuás 
cafas com poucos Defembargadores , e Ou- 
vidores : o que depois veio a fer tão difFe- 
rente, que já hoje ha poucos que pertendam 
fama , fenao renda. Trocáram-íè os ardis da 
guerra em ardis de fazenda , e recolher os 
foidados tem-fe já por doudice , e por iífo 
andam muitos pelas portas dos Moíteiros. 
Coítumava a dizer D. António de Noronha , 
fendo Viíb-Rey da índia : Que ella não du- 
raria mais , que em quanto nella houvejjè 
doudos. E perguntando-lhe que doudos ha- 
viam de fer ? refpondeo : Que Fidalgos que 
fahiam ricos de fuás fortalezas y e tudo o 
que delias traziam , tornavam a defpender 
no fervi ço d?ElRey ; e praza a Deos que não 
venha a fer verdadeira fua opinião, porque 
hoje affim fe fecham os Capitães com íèu di- 
Couto.Tom.LP.il * S n hei- 



a/4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nheiro , que não ha poder entrar com elles 
mais que a morte , que parece que de pro- 
poííto os efpreita ; porque em os vendo ri- 
cos , e profperos , vem huma dor de cabe- 
ça , e acabam-fe todos os íeus caitellos de 
vento. E pelo decuríb da hiftoria apontare- 
mos *empo, em que nenhum Capitão logrou 
o que acquirio pelos meios que elles fa- 
bem. Deixemos eíla matéria que he perigo- 
fa, e continuemos com noíía hiftoria. 

CAPITULO XI. 

Do que aconteceo a D. Eflevao da Gama 
até chegar a Malaca : e de como Lac Xi- 
mena Capitão d^ElRey de Viantana foi 
dar infla a Malaca , e D. Paulo da Ga- 
ma lhe fahio , e da cruel batalha que ti- 
veram , em que D. Paulo foi morto , e 
desbaratado. 

PArtido de Goa D. Eftevão da Gama 7 
como atrás dííTemos , tendo fempre boa 
viagem , foi a Malaca entrada de Junho 7 
fendo muito bem recebido de feu irmão D, 
Paulo , que o tinha por morto , e logo lhe 
entregou a fortaleza , fem os inconvenien- 
tes 5 e embargos > que hoje tem os Capitães y 
e mais Officiaes , porque naquelle tempo to- 
do o Capitão a todo tempo que chegava á 
índia , fendo primeiro em tempo que o ou- 
tro 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XL 275- 

tro que já eílava na fortaleza o podia ir 
tirar , o que depois EIRey revogou com 
hum Alvará , em que mandava , que tanto 
que hum Capitão eftivefle de polTe o não 
foífe tirar outro vindo doReyno, poftoque 
foíle primeiro em tempo , o que fez por evi- 
tar muitos inconvenientes. E havendo perto 
de quinze dias que D, Eflevao era chegado, 
fuccedeo a defaftrada morte de feu irmão 
D. Paulo da Gama , que foi por efta manei- 
ra. O Rey de Bintao , que Pêro Mafcare- 
nhas desbaratou , e deftruio , ( como atrás 
temos dito , ) paíTou-íè pêra a terra firme de 
Malaca, e fundou naquella ponta da terra, 
a que chamam Viantana, humaformcfa Ci- 
dade; e como eílava eíeandalizado dos Por- 
tuguezes , buícava todos os modos, e ardis 
pêra fe fatisfazer delles , lançando Armadas 
por aquelles Efíreitos de Sincapura , e Sa- 
bão , por onde corriam todos os mantimen- 
tos, drogas, e fazendas de todas as fortes,, 
defde as partes da China até Malaca pêra 
aquella fortaleza , impedindo-lhes a paíTa- 
gem , e recolhendo em feu porto todos es 
navios que as levavam, com que oengran* 
deceo muito , favorecendo aos mercadores 
aífim em feus direitos , como em fuás com- 
pras , e vendas : o que tudo foi em damno 
da fortaleza de Malaca , que começou a fen^ 
tir aquella mudança em fuás entradas , e a 

S ii pa- 



276 ÁSIA de Diogo de Couto 

padecer falta de todas ascouías: com o que 
aquelle Rey andava tão íoberbo , que qua- 
£ íe tinha feito Senhor do mar , trazendo 
de conrinuo fuás Armadas nelle , com que fa- 
zia guerra a Malaca. E porque todas foram 
como coffairo , e muito miúdas, as não qui- 
zemos particularizar em feus lugares , por 
não enchermos cila noíTa hiííoria com cou- 
fas pequenas , tendo tantas , e tão grandes 
pêra eferever. E como eile inimigo fe tinha 
já feito poderofo , e andava favorecido da 
fortuna , quiz feíiejar o novo Capitão de Ma- 
laca com ver fe por ardil podia acolher al- 
guns navios ás rnãos : pêra o que deípedio 
Lac Ximena feu Capitão geral com huma 
Armada de fetenta vilas, muito bem petre- 
chadas , com que fefoi lançar detrás da Ilha 
a que os noííos chamam dasNáos, mas os 
naturaes Pongor , que eftá duas léguas de 
Malaca, edalli defpedio oito, ou dez lan- 
charas , pêra que correílem até á vifta da 
fortaleza , pêra verem fe lhe fahiam algu- 
mas embarcações , como fempre faziam , e 
que lhe fofiem fugindo até á Ilha onde el- 
le ficava efeondido , o que tudo fuecedeo co- 
mo eile imaginou; porque chegando os na- 
vios á vifta de Malaca andaram fazendo al- 
gumas fobrançarias. D. Ellevão da Gama a- 
cudio ao cais , e com eile D. Paulo leu ir- 
mão j e mandaram com muita preíía nego- 
ciar 



Dec IV. Li v. VIII, Cap. XI. 277 

ciar alguns bantins , e três batéis das nãos, 
metrendo-lhes falcões , e muitas munições , 
e D. Paulo da Gama fe embarcou em hum 
batel , e nos outros hiam André Cafco , e 
Simão Sodré ; e nas mais embarcações , que 
feriam perto de quinze , hiam João Rodri- 
gues de Soufa , Balthazar Leite , Juzarte Frei- 
re, e outros Ca valleiros honrados; e toman- 
do o remo , foram demandar os navios dos 
inimigos , que foram manquejando , e fu- 
gindo pêra a cilada. D. Paulo da Gama os 
foi feguindo até dar nella ; e fendo pegado 
com a Ilha , lhe fahio Lac Ximena com gran- 
des gritas , e alaridos. D. Paulo vendo a 
grande cópia dos navios , entendeo o ardil 
dos inimigos ; e pofto que vio que alguns 
de fua companhia fem curarem de pontos de 
cortezia fe foram recolhendo, não fez cou- 
ia alguma abalo em feu coração , porque 
era Fidalgo orgulhofo , e muito Cavalleiro. 
João Rodrigues de Soufa , André Cafco , 
Simão Sodré , Juzarte Freire , Balthazar Lei- 
te , como eram homens de opinião , e que 
não haviam de largar o feu Capitão mor por 
todos os perigos da vida, chegáram-fe ael- 
le pêra faberem o que determinava , fendo 
o primor de todos tal , que nenhum quiz fer 
o primeiro que perguntafle o que fariam , 
pondo -fe todos em armas , negociando os 
feus navios 7 porque os dos inimigos já fe 

hiam 



278 ASIÀ de Diogo de Couto 

hiam chegando. D. Paulo da Gama , que era 
todo cheio de opinião , eftava apoftado a mor- 
rer antes que fugir , e vendo que os da fim 
companhia íe faziam preites , e preparavam 
pêra a peleja , encadeou-íè com rodos , por- 
que os inimigos os não rompeíTem , e divi- 
diííem. Alguns homens velhos de Malaca 
dizem , que vendo D. Paulo a grande Ar- 
mada dos inimigos , bem entendeo que fe 
havia de perder, e quando vio chegar a el- 
le os outros Capitães , e lhe não diziam cou- 
fa alguma , começara a cantar aíTim em rom 
baixo aquella cantiga velha , que diz : 0//- 
wal , olival verde , azeitona preta : quem te 
colhejje ; o que diíTera por ver le algum lhe 
dizia , que não era íííb efperar os inimigos , 
e que fe recolhefíern. Mas como nenhum 
quiz fer primeiro, (ou pêra melhor dizer, 
tinha Deos alli ordenado o fim de D. Pau- 
lo , e de outros,) dando-lhe a defconíiança , 
vendo que todos fecalavão, diíTe : Avante, 
avante , e foi remando pêra os inimigos. Co- 
mo quer quefoíTe, elíes íe inverti ra m , dan- 
do-fe primeiro íua falva de artilharia , met* 
tendo-lhes os noíTos alguns navios no fun- 
do das primeiras falcoadas , e affim fe co- 
meçou antre todos huma muito cruel , e ar- 
rifeada briga , fervindo-os os nofíbs com 
muitas panellas de pólvora, e lanças de fo- 
go , com que queimaram muitas das lancha- 
ras. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XI. 279 

ras. Da parte dos inimigos choviam nuvens 
de féttas hervadas , que encravaram os mais 
dos noflbs , e mataram muitos. D. Paulo , 
João Rodrigues de Soufa , Simão Sodré fi- 
zeram eíte dia efpantofas cavallerias , e o 
meímo todos os mais, porque pelejavam em 
defensão da vida , obrando todos coufas não 
efperadas de homens , fenao de leões bravos. 
E por não particularizarmos golpes, a crue- 
za foi tamanha , que quando a noite os a- 
partou 5 já dos noflbs eram mortos feflen- 
ta 5 e todos os mais feridos mortalmente. 
D. Paulo da Gama fez efte dia o officio de 
bom Capitão , e de muito valerofo foldado, 
recebendo muitas feridas , e em quanto as 
forças lhe deram lugar , lempre o acharam 
diante obrando coufas dignas de leu íangue. 
Mas faltando-lhe elle pelas muitas , e mor- 
taes feridas que tinha , cahio entre os ban- 
cos do feu batel. João Rodrigues de Sou- 
fa , e André Cafco depois de fazerem gran- 
de eftrago nos inimigos cahíram mortos de 
cruéis frechadas. Vindo a noite ficaram os 
inimigos em tal eítado , que não puderam 
levar os noflbs batéis que andavam anhotos , 
e fe recolheram com a mor parte da gente 
morta, e Lac Ximena ferido mortalmente, 
ficando-lhe a mor parte de fuás embarcações 
mettidas no fundo , e deítroçadas. Alguns 
dos noflbs , que ficaram vivos ■, ainda que mal 

fe- 



a8o ÁSIA de Diogo de Couto 

feridos 5 vendo-fe livres dos inimigos, (que 
os deixaram cm eílado , que quaeíquer dous 
bantis os puderam levar a todos , ) dando 
á vela chegaram a Malaca , aonde logo fe 
íbube a dela ventura. D. Eftevão acudio ao 
cais , e deíembarcou feu irmão , que hia já 
na derradeira , e achou os batéis , e bantis 
alaítrados de corpos mortos , coufa que mui- 
to o cortou. E com hum animo muito fe- 
guro mandou dar a todos fepultura ; e a feu 
irmão mandou curar com muita diligencia , 
c os mais feridos: huns foram recolhidos no 
hofpital , e outros pelas cafas dos cafados , 
aonde fe curaram , e deites morreram mui- 
tos. A João Rodrigues de Souía negou-fe- 
Ihe a fepultura em fagrado , porque diziam 
que tivera hurnas paixões com hum Prega- 
dor, e que lhe dera huma bofetada. As pef- 
foas principaes que aqui morreram foram o 
mefmo Jocío Rodrigues de Soufa , André 
Cafco , Miguel Freire homem Fidalgo , San- 
cho Sanches filho do Commendador de Ca- 
latrava , que era cafado em Elvas com hu- 
ma mulher do appellido dos Gamas , Bernar- 
do Queimado , Jorge Fernandes Borges , 
Luiz Alvares , e outros. D. Paulo como hia 
ferido mortalmente durou poucos dias , fa- 
lecendo depois de ter feito todos os adlos 
deChriftão. Deixou em feu teftamento a feu 
irmão D. Eílevão da Gama por feu herdei* 

ro, 



Dec. IV. Liv. VIII. Ca p. XI. 281 

ro , e teftamenteiro , e nomeou nelle dous 
annos , que lhe ficaram por íervir da fua for- 
taleza, que depois EIRey lhe confirmou no 
mefmo tempo , íervindo finco a eito. Sentio 
D. Eííe vão muito a morte de leu irmão, por- 
que o amava muito , e fez-lhe o officio fu- 
neral com o mor apparato que pode íer , 
promettendo-lhe em feu coração huma mui- 
to grande vingança de fua morte , como lo- 
go tomou. Foi efta batalha tão famofa , (e 
aífim cftá hoje tão frefea na memoria dos 
Malayos , pelo grande damno que neila re- 
ceberam j ) que le tem em cantigas , que el- 
Jes muitas vezes cantam com grandes íenti- 
mentos. E porque começam logo em lou- 
vor de D. Paulo , nos pareceo bem pôr aqui 
os primeiros veríbs , porque o teftemunho 
dos. inimigos he de mais fé que todos , e eC- 
tes o são do valor defte Fidalgo. Começa 
a cantiga em Malayo aíTim : 

Capitão D. Paulo , 

Baparam de Pungor , 

Anga dia malu , 

Sita pa tau dor. 
Que quer dizer : Capitão D. Paulo pelejou em 
Pungor , e antes quiz morrer , que recuar 
hum palmo. Os oííos de João Rodrigues de 
Soufa mandou depois feu irmão Martim Af- 
fonfo de Soufa , lendo Governador da ín- 
dia , levar pêra Goa , e os foram defenter- 

rar 



n%2 ÁSIA de Diogo de Couto 

rar do campo dos Jaós onde eííavam , com 
grande acompanhamento , e vaidade do Mun- 
do. E porque havia muitos annos que acon- 
tecera o calo , e depois fe enterraram naquel- 
le lugar muitos Jaós, e a cova de João Ro- 
drigues tinha já perdido o final , e cavaram 
onde lhes pareceo , e os oíTos que acharam 
foram levados com grande pompa : indo Ruy 
Vaz Pereira , que então era Capitão , acom- 
panhando-os , e vendo aquella pompa , e 
que os Clérigos hiam cantando aquelles Re- 
fponfos coftumados , difíe alto : Cantai vós 
embora quanto quizerdes , Padres meus , que 
ahi levais vós os ojfos de hum valente jao. 
Baila, quaefquer que foram , fe embarcaram 
pêra Goa , onde foram recebidos com a mor 
pompa, eapparato funeral que pode fer, e 
depoíltados naCapella mor da Sé Matriz na 
parede da parte do Evangelho , aonde eí- 
tam com huma formoíiílima pedra de már- 
more mui bem lavrada , e com fuás armas , 
e letreiro, e em íima outra pedra mais pe- 
quena , que tern hum letreiro , em que diz , 
que o Summo Pontífice concede grandes per- 
does a toda a pcífoa que rezar hum Pater 
noíter , e huma Ave Maria pela alma de 
João Rodrigues de Soufa. E foi a vaidade 
do Governador tamanha , que poz os oííos 
do irmão aflima da fepuku-ra do Viíb-Rey 
D. Garcia de Noronha , Fidalgo tão velho 3 

. e 



Dec. IV. Liv. VIIL Cap. XII. 283 

e tão honrado , que eítá lançado no chão 
da me fina Capella , e quaíi aos pés de João 
Rodrigues de Soufa. 

CAPITULO XII. 

De como D. Eftevao da Gama foi contra o 
Rey de Viantana , e lhe dejiruio a Cida- 
de de todo : e dos proveitos que EIRey 
tem das Ilhas de Banda , e da qua- 
lidade de feus frutos. 

POfto que eítas couías aconteceram em 
Outubro que vem . por nos não fahir- 
mos de Malaca , quizemos aqui concluir com 
ellas , por não pejarmos o verão em que en- 
tramos, porque temos muitas coufas que ef- 
crever. E affim continuaremos com D. Ef- 
tevao da Gama , que não querendo deixar 
pairar a paixão da morte do irmão , nem que 
lhe arrefeceflem os deiejos de fua fatisfaçao , 
ordenou logo em frefco tomar delia muito 
baítante vingança , pêra o que fe fez pref- 
tes pêra ir em peífoa contra aquelle Rey , 
e deitalío fora daquelle porto. E fazendo 
alardo dajjente que havia pêra levar, achou 
perto de quinhentos Portuguezes , e duzen- 
tos homens da terra. E entrando Outubro íe 
embarcou levando finco náos , de que eram 
Capitães , a fora elle , Vafco da Cunha , An- 
tónio de Brito, D. Chriílovão da Gama, e 

D. 



n%4 ÁSIA de Diogo de Couto 

D. Franciíco de Lima. Levou mais doze 
fuftas , de que eram Capitães Balthazar Lei- 
te , Juzarte Freire , Thomé Rapofo , Fernão 
Gomes Cabreira , Diogo da Cunha , Álva- 
ro Carvalho , Lourenço de Abreu , Gafpar 
Soares Pimentel , António Ferraz , Manoel 
Pinto , Manoel Mendes , Francifco Mendes , 
e Diogo Vaz Feitor da Armada. Hiam tam- 
bém alguns bantis , em que hia a gente da 
terra. E paíTando com roda efta frora oEf- 
treito da Sincapura , ( que alguns tem pela 
Zaba de Ptholomeo , ) que he huma paíTa- 
gem que fe faz entre as Ilhas de Bintão , e 
a terra firme de Malaca, que por outro no- 
me fe chama o Canal de Varela ; e paíTan- 
do oEílreito, foram furgir na boca do rio 
de Jor , onde aquelle Rey tinha feito leu 
pofto. Fica eíte rio antes de chegarem áquel- 
ía ponta derradeira da terra de Malaca , que 
eftá em altura de dous gráos do Norte , a 
quem os noflbs , que por a.lli primeiro nave- 
garam , chamaram a ponta de Romania , por- 
que acharam fempre por aqueIJa paragem 
humas frutas que pareciam romans pequenas. 
D. Eíleváo da Gama entrou no rio com to- 
da a Armada , e a outro dia fe embarcou 
em alguns navios ligeiros, e foi reconhecer 
a Cidade , que eílava pelo rio dentro hum 
bom efpaço ; e chegando á viíta a notou , 
que citava toda eítendida do longo do rio 

fo- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 28? 

fobre hum rezo , hum pouco affaítada da 
agua , e a face que daquella parte appare- 
cia , era cercada dehuma formofa tranquei- 
ra de m?ílos muito groííos de duas faces com 
feus entulhos , e três baluartes de pedra , e 
terra, e mui grandes, e fortes, guarnecidos 
de muita, e muito formofa artilheria , de que 
por aquella face fó havia de vantagem de 
quatrocentas peças, ena praia embaixo ha- 
via algumas tranqueiras de madeira cem ar- 
tilheria , e gente de guarnição. EIRey eftava 
na Cidade com perto de oito mil homens > 
e andava-fc fortificando a mor prelía , por- 
que em a Armada partindo de Malaca teve 
logo avifo delia. D. Efievao tanto que re- 
conheceo bem o fítio , e a parte em que fe 
podia deíembarcar, que não havia outra fe- 
nao aquella praia , nem fe podia paííar pê- 
ra a Cidade fenao por cima dos fortes y 
não lhe parecendo aquillo duvidolo a feu 
animo , mandou entrar toda a Armada , e 
furgio defronte da Cidade o mais perto que 
pode feri e logo a mandou bater peles ga- 
leões com grande terror, eefpanto pordous 
dias contínuos : em que ordenou com os Ca- 
pitães o modo da defembarcaçao , que fe 
aílentou folie por eíla maneira. De toda a 
gente Portugueza fez duas batalhas de du- 
zentos e fincoenta homens cada huma : A 
primeira que havia de fer a dianteira } àeo 

a 



i86 ÁSIA de Diogo de Couto 

a D. Francifco de Lima 5 e com elle Dom 
Chriík)vao da Gama , Simão Sodré , e os 
Capitães das f uftas que já nomeámos : A ou- 
tra batalha tomou pêra fi , ficando com el- 
le António de Brito , e Vafco da Cunha. E 
porque as particularidades deita deíembarca- 
çao 5 e commertimento da Cidade não pu- 
demos nunca achar a certeza delias , nem 
alcançámos peííoas que nella fe achaíTem , a 
contaremos aílim em íumma. Defembarcá- 
ram os noííos , e acharam Lac Ximena no 
campo com três mil homens pêra lhes de- 
fender a defembarcaçao ? e com elle tiveram 
os da dianteira huma afpera batalha , em que 
houve grande damno de ambas as partes ; 
mas a íeu pezar , e com morte de muitos 
largou a praia , levando-o os noííos de ven- 
cida até os fortes debaixo, aonde alguns fe 
recolheram , e os outros foram paliando pê- 
ra a Cidade. Chegados os noííos aos fortes 
os commettêram com grande determinação , 
e depois de muita referta os entraram. Dom 
Eílevao chegou aqui com o reílo do poder , 
e formando feus efquadrões , foi marchando 
pêra a Cidade , não ceifando em todo eíle 
tempo a bateria aífim do mar , como da ter- 
ra , que foi a mais efpantofa coufa que fe 
podia ver , porque tudo o que fe via , e 
ouvia eram trovões , relâmpagos , fogo , e 
fumo, em que a Cidade > e toda a Arma- 
da 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 287 

da eítavam efcondidas. D. Efíevão commet- 
teo a Cidade por huma ilharga, pelejando 
de fora , e de dentro com grande valor , e 
esforço , cortando-fe com machados alguns 
maílos , abrindo caminho por onde os nof- 
fos entraram com grande damno , e euflo , 
porque fe perderam muitos. Dentro tiveram 
huma muito cruel batalha ; mas no fim dei- 
la foram os inimigos desbaratados de todo , 
fugindo EIRey pêra o fertao. Os noíTos fi- 
caram fenhores da Cidade , que foi metti- 
da a facco , achando-fe nella muitas 3 e ri- 
cas fazendas , que foram roubadas por to- 
dos francamente. D. Eítevão, entretanto que 
os feus foldados fe cevavam , mandou em- 
barcar a artilheria pelos marinheiros. Depois 
da Cidade toda roubada , e efcalada , lhe de- 
ram fogo , em que toda fe confumio até os 
aliceces , que foi coufa temerofa de ver , 
por fer toda de madeira , cujas labaredas pa- 
recia que chegavam aos Ceos ; e a todas as 
embarcações que eftavam varadas , e outras 
no mar também fe lhes deo fogo de ma- 
neira , que tudo ficou feito cinza. D. Eftevão 
ferecolheo de noite á Armada, por não ha- 
ver já que fazer , deixando bem vingada a 
morte de feu irmão D. Paulo. O numero dos 
noíTos que morreram não foubemos em cer- 
to , nem de peíToa allinalada que fe alli per- 
deífe. Foi eíla huma das famofas vitorias que 

os 



a'88 ÁSIA de Diogo de Couto 

os Porruguezes alcançaram na índia , que 
foi muito feftejada em Malaca , e D. Eíte- 
vão recebido com triunfo , ficando aquelle 
Rey deíiruido de todo, D. Eftevao da Ga- 
ma depois de fer em Malaca , entendeo na 
carga da náo Santa Cruz , que havia de ir 
pêra o Reyno , de que era Capitão Vafco 
da Cunha , que logo pardo o Dezembro fe- 
guinte , e teve muito boa viagem , e Vafco 
da Cunha foi bem recebido , e EIRey o def- 
pachou com a Capitania de Chaul , e o to- 
mou por Fidalgo, que até então o não era. 
Também defpeclio D. Eíievão António de 
Brito pêra ir fazer as viagens de Banda. E 
porque até agora deitas Ilhas , e de feu com- 
niercio não temos dado relação , o faremos 
agora aqui o mais abbreviadamente que pu- 
dermos. 

Elias Ilhas quando foram defcubertas 
por outro António de Brito nos annos de 
mil e quinhentos e onze , fez elle hum con- 
trato com os Regedores delias , (porque eram 
então izentas , e governavam-íe como Re- 
publica , ) por eíle modo , que dariam aos 
Capitães do navio do trato que EIRey de 
Portugal mandaífe áquellas Ilhas o bar da 
noz a três cruzados de Malaca , porque em 
todas áquellas partes não corria outra moe- 
da fenão cruzados , e caixas 5 (que he moe- 
da de cobre miúda como os noíTos reaes, 

de 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. ify 

de que trezentos e fefienta fazem hum cru- 
zado , ) e com condição , que em cada fe- 
te bares da noz leriam obrigados a lhe dar 
hum de máfia > e por clle lhe pagariam o 
que valeflem ítte de noz , que eram vinte 
e hum , cujo preço ainda atégora durava > 
e depois fe veio a alterar pelas defordens 
dos Capitães que lá foram. Eíte commercio 
montava a EIRey cada anno fefienta mil cru- 
zados , fem metter mais cabedal, que o ga- 
leão , que fempre era o de maior porte que 
havia na índia , e de ordinário carregava mil 
e duzentos bares de noz , e máfia , porque 
he droga que avoluma muito. Os proveitos 
que EIRey tinha eram eíles. Toda a pefiba 
que na náo d 5 E!Rey carregafíe os bares que 
quizefle de máfia , ou de noz , tiraria em 
Malaca outros tantos pelo pezo daquella Ci- 
dade , que eram três quintaes , duas arro- 
bas , dez arráteis , e tudo o que fobejaííe , 
e crefcefíe do pezo de Banda , que era fete 
arrobas em cada bar , fofíe pêra EIRey , por- 
que o bar de Banda he de finco quintaes , 
huma arroba , e dez arráteis : eíles provei- 
tos eram muito grofíbs , mas ao diante pe- 
las defordens dos Governadores , e Vifo- 
Reys , das grandes , e largas mercês que vie- 
ram a fazer a parentes , e criados deíla noz 9 
e máfia que vinha a EIRey, ou de liberda- 
des pêra não pagarem coufa alguma 7 veio 
Cquíq. Tom, L JP. iL T mui- 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

muitas vezes EIRey a pôr , como lá dizem , 
as linhas de fua cafa , pelo que fe largaram , 
como em feu lugar diremos. São eílas Ilhas 
outras finco, como as de Maluco, Lontor, 
Neira , Puloay , Pulorum , e Gunuape, e ja- 
zem em quatro gráos e meio do Sul, e cor- 
rem todas Norte , e Sul , e no numero , 
grandeza , perpétua verdura , e em tudo o 
mais fe parecem com as de Maluco , fó nos 
frutos differem. Eftas Ilhas foram primeiro 
defcubertas, e tratadas dos Jaós, Malayos , 
e Chins , que as de Maluco , porque em 
principio quando foram ter a eftas Ilhas os 
das de Maluco, lhe levavam lá a vender o 
feu cravo , e ficavam aquellas Ilhas de Ban- 
da fendo de mor commercio , e trato que 
todas , por concorrerem nellas todas aquel- 
las nações eftrangeiras , que aílima nomeá- 
mos. Pelo que mais antigo foi o conheci- 
mento da noz , e máfia dos Perfas , e Ará- 
bios , que do cravo , pofto que Plinio dá 
muita razão do cravo , e nenhuma da noz , 
e malTa. Nem fe acha , fegundo foubemos de 
muitos , e bons Médicos que á índia palia- 
ram , que os Gregos tiveflem conhecimento 
da noz y e máfia , porque o Macer de Ga- 
leno , que alguns cuidaram fer a máfia , di- 
zem os nofibs modernos , que differe mui- 
to na qualidade , e fó pela apparencia cui- 
ááram ler ella., porque os Gregos pintaram 

ef- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 2 9 t 

cftc fruto vermelho. Nomea-fe a mafla en- 
tre todas as nações do Oriente pôr differci> 
tes nomes. Na fua própria terra lhe chamam 
á noz , pala , e á mafla , buna pala. Os Daca* 
nis chamam á noz , Japatri , e á máfia , jay- 
fol : os Arábios lhe chamam , Geauzibandá * 
que quer dizer noz de Banda , e á mafla . Bis- 
baefe* E poílò que elles também chamam ao 
coco da índia , geauz , todavia logo lhe ao 
creícentam geauzi Indij , que quer dizer : no2 
da índia. E quem ler em alguns Médicos 
modernos , principalmente no Doutor Hor^ 
ta (no feu Tratado que fez de todos os íítií- 
ples da índia) geauzi alindi , entenda que he 
grande corrupção , o que havia de nafcer de 
traducção do Arábio. Eílas arvores da noz 
são do tamanho dos noflbs pereiros, alargam 
mais do que fe alevantam , a folha he redor*- 
da , e quaíi quer parecer com as das noguei- 
ras. São todas eílas arvores tão mimófas , 
que fe lhes dão hum pequeno furo nó pé , 
ou lhes mettem hum prego , logo fe feccam : 
dão três , ou quatro novidades cada ánno , 
e colhe-fe muito grande quantidade, deiqué 
vam muitos Juncos dajaoà carregados , eorii 
não vir á luz amor parte do fruto, porca- 
hir facilmente aintes de madúfecer corri asfró^ 
voadas. Não dãò eílas árvores flor alguma i 
porque logo fahe fruto branco , e como &* 
raadurece fica amarelio , e depois de maduro 

T ii in- 



^()^ ÁSIA de Diogo de Couto 

incha , e rompe a primeira cafca , que he da 
groffura de três toíloes , e como fe abre to- 
da, fica apparecendo a noz por dentro, que 
he hum bugalho cuberto todo de huma del- 
gada cafca preta , rodeada da formofa máf- 
ia , e aílim como vai o fruto crefcendo , e 
abrindo , o vai também fazendo efta maífa 
a partes , de feição 5 que parece huma muito 
formofa brosladura de ouro fobre preto. Da 
cafca de fora que he groíTa , como diflemos , 
fazem conferva, ou de açúcar, ou de vina- 
gre , e o bugalho de dentro lançam-no ao 
Sol , com cuja quentura fe defpede a maf- 
fa , mudado já a cor , e fica a outra cafca 
do bugalho , que não aproveita pêra coufa 
alguma ; eo miolo de dentro , que he a noz , 
fello a Natureza tãoinimofo, que como lhe 
toca agua logo apodrece , como também o 
faz á maíía. Fazem em Banda hum óleo dei- 
la , que depois de frio endurece , e quaíi que 
quer imitar os fabonetes de Flandres , e he 
muito bom pêra mal de frio , porque he 
quente , e esfregado entre as mãos untando , 
e correndo as partes aggravadas , mitiga a 
dor. E nós jáufámos delia pêra huma gotta 
arretica de frio , de que ha annos fomos en- 
fermos ; e poíto que não tirou a dor de to- 
do , abrandou-a > he quente , e fecça no ter- 
ceiro gráo. 

CA- 



Década IV. Liv. VIIL 293 

CAPITULO XIII. 

Das coufas que efte anno fuccedêram em Ma- 
luco , e dos Senhores âaquelle Ar chy péla- 
go , que fe fizeram Chriftaòs : e ãe como 
Triftao de Taíde prendeo EIRey Tabarija > 
e o mandou á índia , e alevantou por Rey 
feu irmão Aeiro : e da crueldade que ufá- 
ramcomfua ?nãi por lho não querer dar. 

A que eftamos delia parte , bera he que 
continuemos com as coufas de JV^aluco. 
Deixámos atrás Trilião de Taíde partido pê- 
ra aquella fortaleza , onde chegou \ e tomou 
poífe delia 5 achando- a no eílado em que o 
anno paííâdo a deixámos. Vicente da Fon- 
feca logo fe embarcou pêra a índia , onde 
o Governador o prendeo por muitas culpas 
que lhe mandaram de Maluco , e ocaftigou 
por ellas. Triílao de Taíde achou aquella 
Ilha toda efcandalizada , e em nenhuma ou- 
tra coufa fe occupou , fenão em temperar a 
Rainha , e EIRey , quietandoos alguma cou- 
fa, e começando a correr alguns mantimen- 
tos , e a fe concertarem as coufas ; porque 
efte Fidalgo entrou governando branda , e 
fuavernente, o que logo fe lhe mudou , por- 
que os má oú homens , que vivem por todas 
eftas fortalezas , são a principal caufa dos 
trabalhos delias com os feus Capitães pe- 
- los 



2$4 ÁSIA DE DíGGO DE CoUTO 

los mexericos , invenções , e ardis com que 
lhes vam , cuidando que os agradam , e to- 
dos em prol de fuás fazendas , que he o que 
elles pertendem contra a obrigação da alma , 
e do íèrviço do Rey, Succedeo em princi- 
pio do feu governo irem duas corocoras de 
Mouros a dar em huma Cidade do Moro , 
chamada Momoya , cujos naturaes eram idó- 
latras , e a faqueáram , e deftruíram , en- 
capando o Senhor delia , que era hum San- 
gage Gentio , homem moralmente virtuofo , 
e honrado. Eftava naquelle tempo hum Por- 
tuguez chamado Gonçalo Velofo em hum 
lugar alli perto fazendo fuás mercancias, 
Efte depois difto pafíado foi ter á Cidade de 
Momoya , e vio-fe com aquelle Sangage , 
que lhe fez grandes queixas daquelles Mou- 
ros feus vizinhos , pedindo-lhe confelho de 
como íè vingaria , e fatisfaria delles , poi> 
que eftava muito efeandalizado. Gonçalo Ve- 
lofo movendo-lhe Deos a lingua , lhe diíTe , 
que o remédio eftava certo , fe o elle qui- 
zeífe tomar , que era mandar pedir ao Ca- 
pitão de Maluco pazes , e correr em ami- 
zades com os Portuguezes , porque como 
es tiveíTe por amigos , nenhum Rey , nem 
Senhor lhe faria afFronta , que lha elles lo*- 
go não fatisfize (Tem até aventurarem as vi* 
das , e o Eftado , porque aííim o mandava 
o fç>4 Rey, Mas que pêra aquillo le fazer 



Dec. IV. L iv. VIII. Cap. XIII. 295: 

melhor , e com mais goílo , era ncceflario 
fazer-fe Chriílão , porque com iííb fegura- 
va fua alma , ( que era o que mais impor- 
tava,) e poíTuiria feu fenhorio em paz , e 
quietação. Com iílo lhe fallou das cou- 
ias de nofía Fé tão altamente, que ficou o 
Sangage paímado : e tocando-o Deos , cahio 
naqueila verdade , e diíle a Gonçalo Velo- 
fo , que lhe fallava como amigo , que lhe 
pedia quizeíTe ir a Maluco com alguns ho- 
mens feus a pedir ao Capitão délTe ordem 
como foíTe baptizado. Gonçalo Velofo par- 
tio com efte alvitre em companhia de alguns 
homens honrados , que o Sangage elegeo 
pêra cila jornada , que foram em Ternate 
mui bem recebidos ; e tão fatisfeitos ficaram 
das honras que lhes fizeram, e do modo dos 
Portuguezes , que pediram a Triftão de Taí- 
de os mandafle fazer Chriftãos , o que elle 
logo ordenou, celebrando-fe aquelle auto com 
muitas feitas , e alegrias , fendo Triftão de 
Taíde feu Padrinho , que os veftio á Portu- 
gueza mui bem. Depois os defpedio , manr- 
dando louvar ao Sangage a vontade que ti- 
nha de receber a Lei da verdade, e de en- 
geitar por ella as ceremonias feias , e abo- 
mináveis das idolatrias , em que até então 
vivera : E que a ordem de como havia de 
receber o fanto Baptifmo , e como , e on- 
de y elle o havia de eleger , porque íe faria 

co- 



296 ÁSIA de Diogo de Couto 

como elle quizefle , e ordenaífe. Chegaram 
eítes homens a Momoya , e diíleram ao feu 
Sangage tudo o que era paíTado , e da re- 
fpofta que ihe o Capitão mandava , e eom ift 
to lhe difTeram tantas coufas dos bons cof- 
tumes dos Portuguezes , e dos gazalhados , 
€ honras que lhes fizeram , que o moveram 
a fe embarcar logo pêra Ternate em algu*- 
mas corocoras , em que levou algumas pef- 
foas principaes da Cidade. Triftaò de Taí- 
de lhe fez hum grande recebimento , e o 
mandou agazalhar mui bem , e entregando-o 
a hum Padre virtuofo pêra o catechizar a 
elle , e a todos os feus , em que gaitaram al^- 
guns dias ; e como eítiveram aptos , e fuf- 
ficientes pêra receberem o fanto Sacramento 
do Baptifmo , lho deram a elle ,'e a todos , 
pondo nome ao Sangage , D. João. Iílo fe 
fez com as mores feitas que Ternate podia 
dar de íi. Depois de fe defenfadar aquelle 
fenhor Chriftao alli alguns dias , em que o 
Capitão o banqueteou , defpedio-fe delle mui- 
to contente , e fe tornou pêra o feu fenho- 
rio , levando comíigo hum Sacerdote , que 
fe chamava Simão Vaz , (que foi o que o 
catechizou , ) pêra o inftruir bem nas coufas 
da Religião Ghriítã. Eíte bom Sacerdote vi- 
veo naquella Cidade alguns tempos com 
grande exemplo , exercitando o officio da 
caridade , e çopi grande zelo ., e amor de 

Deos 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIII. 297 

Deos fez a mor parte dos moradores deMo- 
mova Chriftãos. E porque era fò , e não po- 
dia com ranto , ( por ler a gente que corria 
aoBaptifmo muita, ) mandou pedir a Trif- 
tão de Taíde lhe mandafle outro Sacerdote 
pêra o ajudar , que logo lhe mandou o Pa- 
dre Francifco Alvares , e ambos em poucos 
dias fizeram Chriftãos todos os moradores 
daquella Cidade , e de outros lugares , der- 
ribando todos os Pagodes , e purificando os 
principaes ; e das cafas que eram de abomi- 
nação fizeram Templos , em que o Altiffi- 
rno Deos começou afer acatado, venerado, 
£ louvado. Triftao de Taíde favoreceo tan- 
to efte Sangage novo Chriftão , que lhe 
mandou alguns foldados Portuguezes pêra o 
acompanharem , e pêra guarda de lua Ci- 
dade. Eftando as couíàs nefte eftado , e o Rey 
Tabarija odiofo de alguns que lhe defeja- 
vam de urdir a morte, como logo fizeram > 
tratando em fegredo com o Capitão , e af- 
firmando-lhe , que EÍRey folicitava fua mor- 
te , como já fizera ao Capitão Gonçalo Pe- 
reira , e tomar aquella fortaleza , e lançar 
todos os Portuguezes fora daquellas Ilhas ; 
€ como iffco era coufa que tocava na vida , 
e no perigo da fortaleza , foi-lhe muito fá- 
cil de crer, emais tendo exemplo tão fres- 
co , como na morte do outro Capitão ; e 
Jiffimulando o negocio o melhor que pode ^ 



298 ÁSIA de Diogo de Couto 

ordenou com alguns Portuguezes , que trou- 
xeífem EIRey á fortaleza , como que o to- 
mavam pêra com elle por valedor, (como 
muitas vezes coftumavam a fazer. ) E len- 
do chamado de alguns , como elle eftava in- 
nocente , e não fe receava de coufa alguma , 
vindo á fortaleza foi logo prezo , e mettido 
em ferros , tirando de vaca do cafo em que 
tcítemunháram os mefmos inimigos que o 
accufáram : pelo que foi por fentença jul- 
gado , que fofle á índia livrar-fe ; e aílim o 
embarcou na monção feguinte. Alas permit- 
tioDeos perfua innocencia , que ondeTrif- 
tao de Taíde cuidava que lhe fazia mal , 
lhe Azeite hum tão grande bem , como fa- 
zer-fe Chriftão , ( como em feu lugar dire- 
mos , ) porque muitas vezes permitte males 
pêra delles nafcerem muito grandes bens. 
Triftão de Taíde tanto que o embarcou , 
mandou bufcar outro irmão chamado Sol- 
tão Aeiro baílardo , filho de outra mulher 
úe cafta Jaoa , que feria de idade de doze 
annos. Os que o foram bufcar a cafa da 
mãi ( que eram Portuguezes criados do Ca- 
pitão) dizendo-lhe, que era para fer Rey : 
vendo a mãi o infelice eílado que os palia- 
dos tiveram , depois que os Portuguezes en- 
traram naquella Ilha^ querendo antes feu fi- 
lho feguro em eílado privado , que tão ar- 
rifçado no de Rey, abracando-£e com o fi- 
lho 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIII. 299 

lho o não quiz largar, dizendo grandes las- 
timas , e dando tantos gritos, como fe lho 
levaram pêra o matarem. Os homens que 
foram aeíte negocio, em vez de fe compa- 
decerem das lagrimas da triíte mai , e con- 
folarem-na , fegurando-lhe a vida do filho , 
irando-fe contra ella , lho arrancaram por 
força dos braços, e a ella lançaram porhu- 
xna janela fora , fazendo-fe em baixo em pe- 
daços , e o filho foi levado á fortaleza , e 
alevantado por Rey com muitas lagrimas 
fuás. Efta deshumanidade 3 e caio brutal foi 
tão avorrecido em todas aquelias Ilhas , que 
de novo trataram conjuração contra os noí- 
fos, carteando-fe todos aquelles Reys liúns 
com outros. E vindo ás viftas, os mais dei- 
tes concluíram , que era intolerável foffrer 
que homens que elles agazalháram , e deram 
fortalezas em luas terras graciofamente , vief- 
fem a tanta foberba , poder , e arrogância , 
que difpuzeffem , e alevantaflem os Reys que 
quizeífem , fem os naturaes nilfo terem vo- 
to , nem parecer. EIRey ficou reteúdo na 
fortaleza 5 e com o medo de o matarem , 
eftava tão humilde como fe fora cativo do 
Capitão. A mãi foi enterrada pelos naturaes 
muito honradamente ; e certo que fe podiam 
fazer da morte deita mulher grandes excla- 
mações , mas falta-nos pêra iflb o talento , 
€ o eítilo 9 fomente diremos , que merece 

fer 



300 ÁSIA de Diogo de Couto 

fer mais engrandecida, (porque antes quiz 
morrer, que ver feu filho Rey , ) que não a 
mái daquelle cruel Nero , por dizer que rei- 
naífe feu filho , ainda que elle amatafie. As 
coufas de Maluco tornaram ao peior eftado 
que podiam ter, porque por mar, e por ter- 
ra lhe começaram a faltar os mantimentos. 
E aílim o deixaremos. 

CAPITULO XIV. 

Da jornada que o Turco Soleimao fez con- 
tra o Xathamaz Rey de Perfia : e de 
como lhe entrou por Jeus E/lados até d 
Cidade de T abris : e de como ao recolher 
deram os Perfas fobre elle , e o desbara- 
taram, e de outras coufas. 

POrque as guerras de antre o Turco , e 
o Rey de Perfia foram em detrimento, 
e damno da Alfandega , e rendimento da 
fortaleza de Ormuz , e coufas que entram 
neíte noíTo Oriente , e fua Conquiíia , nospa- 
receo bem fazermos delias menção , como 
faremos com o favor Divino pelo decurfo de 
noíTas Décadas adiante. Pelo que fe ha de 
faber , que por falecimento do Grão Sofi If- 
mael , que foi nos annos de vinte e finco , 
]he ficaram quatro filhos , o mais velho que 
lhe fuccedeo chamado Xathamaz : O fegun- 
ào Becramo , a quem ficou o governo de to- 
da 



Dec.IV. Liv. VIII. Cap. XIV. 301 

da a Media , Hiberia , e Albânia : O tercei- 
ro Hefcaz , a quem o pai deo Babylonia , 
Aflyria , e Mefopotamia : O quarto filho foi 
Oiem Mirza , que ficou com íènhorio dos 
Coraçones. Todos eítes irmãos foram ami- 
gos , e muito grandes inimigos do nome 
Othomano , e affeiçoados todos aos Prínci- 
pes Chriftãos. Ecomo o Grão Sofi tinha em 
fua vida feito huma muito honrada paz com 
o Grão Turco , defejou feu filho Xathamaz 
de aconfervar, porque lhe era neceífario af- 
fim pêra o fazer a feus Reynos ; e alfim gai- 
tou nove , ou dez annos em os fegurar , e 
em algumas guerras com os Hyrcados ,e 
Thacataes tudo fobre pontos de fua lei. Mas 
como os Turcos são homens infolentes , e 
indomáveis , fizeram tal vizinhança ao Xa- 
thamaz , que efcandalizados os Perfas rom- 
peram a paz , e fizeram algumas entradas 
Íelas terras do Turco , em que elle recebeo 
em de damno, O Turco Soleimão fenda 
deftas coufas avifado , defejou de fe fatisfa- 
zer, e de fazer huma jornada de propoíito 
contra Xathamaz , pêra de huma vez lançar 
fora aquelle vizinho em que o Império Otho- 
mano fempre teve tamanho , e tão importu- 
no inimigo. E declarando eíta fua tenção y 
achou grande contradicção em fua mãi > e 
em fua mulher Roxolana , aquém elle por 
fua formofura eftava tão fujeito > que fe não 

ou- 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

oufava a apartar delia. E aílim por ifto , co- 
mo pelo natural ódio que eftas mulheres ti- 
nham ao nome Chriítão , lhe aconfelháram , 
que fizeííe antes guerra a Ungria , ou a ou- 
tro algum Rey Chriítão , e que não gaítaf- 
fe o tempo , nem feus thefouros contra ho- 
mens de lua própria lei ; pois tinham por ex- 
periência quão infelices foram fempre as jor- 
nadas , que feus paífados fizeram contra a 
Períia. Só Abrahao Raxá feu grande priva- 
do foi de contrario parecer, porque funda- 
va por muitas razões não lhe vir bem fazer 
guerra contra Chriílãos , onde havia hum Im- 
perador tão, bem aftbrtunado, e três nações 
(entre outras) tão valentes , e exercitadas , 
como eram Hefpanhoes , Italianos , e Tu- 
defeos : e que era muito neceflario pôr de 
liuma vez toda lua potencia cgntra aquelle 
Império de Períia , que lhe perrencia por di- 
reito , e tirar dalli hum vizinho, que fehia 
fazendo poderofo ; e que depois quando o 
quizeífe fazer , pela ventura que não poderia. 
Todas eftas razoes , e outras muitas que A- 
brahao Baxá lhe deo , além de lhe parecer 
convir-lhe aíTim > o principal intento feu era 
deíviar o Turco de fazer guerra a Chriftãos , 
a quem era muito affeiçoado , como quem 
procedia delles, e defejava defviar todo o 
damno á Chriílàndade , e por iífo em todas 
as coufas dos Chriftãos elle as favorecia tan- 
to > 

) 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIV. 305 

to , e aííim lhes era affeiçoado , que efcaça- 
mente o podia diílimular ; tanto , que a mai , 
e mulher do Turco lhe chamavam Turco fin- 
gido , e Chriftão diffimulado. Em fim , pe- 
la authoridade que elle tinha com o Grão 
Turco , que havia que lhe fallava fempre 
verdade , e o aconfelhava como prudente , 
deixou a guerra de Ungria , e determinou de 
paliar á Alia contra o Xathamaz. E logo co- 
meçou a fazer fuás preparações , e em pou- 
co tempo fe poz em campo com trezentos 
mil homens , com que entrou pela Provín- 
cia de Licaonia , levando comfigo por guia 
a Hulamanes hum grande Capitão Perfa , 
que fe tinha paflado pêra elle : paífou paci- 
ficamente , e íem damno por toda Mefopo- 
tamia , e em ÍIncoenta e quatro dias chegou 
á Cidade de Coy , em Arménia maior , até 
onde não achou quem lho defendeffe , do 
que fe embaraçou , porque fempre imaginou 
que o Xathamaz o efperafle , e lhe aptefen- 
taífe batalha ; mas elle tomando melhor pa- 
recer , quiz que o mefmo Turco fe desba-* 
rataíTe por íl, e fem rifeo feu , e mettello 
bem pela Perlia dentro , pêra da volta dar 
fobre elle , e o desbaratar. E aííim fe reco- 
lheo pêra as montanhas 5 mandando defpo- 
voar as Cidades , e talhar os campos , por* 
que não tiveífem os inimigos de que fe pro- 
ver , nem em que fe cevar, O Turco foi por 

fuás 



304 AS IA de D toa o de Couto 

fuás jornadas contadas até á Cidade de Ta* 
bris > aonde foi recebido dos moradores fem 
contradição , por lho aífim mandar o Xatha- 
maz. E não fe detendo alli , paliou a Sultha- 
ina T por fer muito fértil , e abundante de 
tudo. Alli fe deteve alguns mezes , havendo 
que o Xathamaz defeeria dos montes aobuf- 
car. No tempo que aqui efíeye, lhe fuece- 
deo hum a brava fonuna de neve , e frio ? 
que cahio huma noite fobre o exercito , que 
matou muitos , e eíleve todo o exercito per- 
dido , e ainda o Grão Turco fe vio em mui- 
to grande, perigo. E fempre os Turcos tive- 
ram pêra li , que lhes viera aquelle mal por 
encantamento do Xathamaz , porque o ti- 
nham por hum grande feiticeiro. Ao outro 
dia que foi muito claro , alevantou o Tur- 
co o exercito por confelho de Hulamanes .> 
e foi marchando pêra Babylonia , por fer fa- 
lecido Berchamo irmão de Xathamaz y e fi- 
cara em feu lugar Mahometes grande ami- 
go do Soleimão , que efperava que lhe en- 
trega íTe aquella Cidade , o que não foi ; por- 
que chegando a ella não quiz Mahometes re- 
colhello , antes fe poz em ordem de fe de- 
fender. Mas os naturaes receando a poten- 
cia daquelle bárbaro , alevantáram-fe contra 
Mahometes , e o lançaram fora da Cidade, 
e recolheram nella Soleimão com grande ma- 
geítade ; por fe dizer fer aquella Cidade a 

ma- 



Dec. IV. Lxv. VIII. Cap. XIV. 30? 

maior do Mundo j e também porque nella 
refidia ò feu Calipha , de cujas mãos tomou 
a coroa , e as infignias de Soldao de Baby- 
lonia , conforme ao antigo coftume dos Sol- 
daos paffados. Alli foram Embaixadores de 
todas as Províncias comarcans a lhe darem 
obediência , e reconhecerem vaflallagem qua- 
fi todas as Cidades de Aííyria , Mefopota- 
mia , até Bacorá na boca do rio Eufrates. 
Abrahao , e Hulamanes apertaram com So- 
leimao , que feguiffe a vitoria , e que foíTe 
bufcar o Xathamaz , porque niíTo eftavà' fa- 
zer- fe fenhor de toda Períia ; com o que el- 
le fahio deBabylonia na Primavera do anno 
de 1536 , e foi-íè na volta de Tabris , por 
ier aviiado que o Xathamaz defcera já dos 
montes, e que eftava naquella Cidade, cor- 
mo de feito affim era. E fendo avifado de 
como o Turco tornava a caminhar pêra lá, 
tornou- fe a recolher ás montanhas , e deixou 
em alguns partos difficultofos gente de guar- 
nição , pêra que inquietaíTem os inimigos co- 
mo os viífem defcuidados. Chegou o Tur- 
co a Tabris , e íabendo como alli eítivera 
o Xathamaz , e que fe recolhera , ficou taó 
anojado, que mandou pôr a facco a Cida- 
de , e derribar pelo chão todos os fepulchros 5 
e ornamentos do grande Ofembel , Ofeuca- 
fan , e de feus defcendentes que alli eílavam , 
que eram íòberbiffimos , e luílrofiífimos ; e 
Gout9.T§m.LP..iL V to- 



306 ÁSIA de Diogo de Couto 

tomando hum numero de cativos, tornou-fe 
pêra a Província de Mefopotamia. Deíla re- 
tirada foi aviíado o Xarhamaz , e ajuntando 
feífenta mil cavallos cícolhidos , o foi feguin- 
do com muita prefla , porque fe determinou 
de lhe dar na retaguarda. O Turco teve lo- 
go rebate de fua ida ; e porque levava luas 
gentes enfermas > gaitadas > e debilitadas do 
caminho , deo-lhe aquillo grande cuidado , 
e apreiTado foi-fe recolher na Cidade de Ce- 
ranuda. Xathamaz fabendo a preffa que o 
inimigo levava , e que hia tanto adiante , que 
não era poífivel podello alcançar , pela gran- 
de recovagem com que caminhava , reco- 
Iheo-fe na Cidade de Cov , aonde fe forti- 
ficou muito bem. Dalli delpedio hum Capi- 
tão , chamado Delamethes , com vinte mil ca- 
vallos , pêra que foííe em feu feguimento , 
e lhe délTe nas coftas. Efte Capitão foi ca- 
minhando apreflado com propofíto de ir 
eíperar os Turcos nas raizes do monte Tau- 
ro , aonde lhe feria muito fácil dar-lhes hum 
grande toque \ e aíltm como o traçou , affim 
lhe fuecedeo , porque chegando a Bethlis , 
hum lugar daquella Província , achou em 
hum valle certos efquadrões de Turcos bem 
defeuidados , e fabendo que não era fentido 
efperou pela noite , e na força delia deo de 
fobrefalto nelles com tamanha fúria , que an- 
tes que fe pudelTem revolver , lhes tomou 

to- 



Dec. IV, hm VIII. Cap. XIV. 307 

toda a bagagem, e matou hum grande nú- 
mero delles, e cativou oitocentos Janizaros , 
e alguma outra gente luftrofa de forte, que 
foi o damno tamanho , que de muitos an- 
nos até então fe affirma , que nunca os Tur- 
cos o tal receberam* Com efta vitoria fe tor- 
nou o Delamethes pêra o Xathamaz , que o 
recebeo honradiffimamente , e mandou que 
pêra fempre fe feítejafíb aquelle dia entre os 
Perlas , que foi a dez do mez dê Outubro. 
O Turco Soleimao fentio tanto em eftremo 
aquelle defaílre , que fem fe mais deter deo 
volta peraConftantinopola com grande ira, 
e paixão contra Abrahão Baxá por fer o prin- 
cipal author daquella jornada. E aílim por 
ifto , como por todos os Grandes , que anda- 
vam pejados com fua muita valia , (que lhé 
urdiram a morte , ) veio a tanto avorrecimen- 
to do Turco , que o matou. O modo como 
não íè fabe , porque o mandou chamar á fua 
camará , e aquelle dia defappafeceo * que nem 
vivo , nem morto lhe acharam mais leu cor- 
po. Era Abrahão Baxá Albanez , de hum 
lugar chamado Ponga , de pais Chriftãos , e 
em moço foi cativo , e vendido a Efcander 
Baxá, grande privado do Turco Bájazeto, 
e depois por degráos lhe veio a Fortuna a 
dar tudo o que podia na cafa do Turco 5 por- 
que chegou a ferVizir, que he como Grão 
Condeílabre i e o principal do Reyno. 

V ii DE* 



ri j^í^^èj^uí^i ^ 

f %xx>lxk>ooo<xÀxxxxxxLx# ^j 

DÉCADA QJJARTA. 
LIVRO IX. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO L 

De como Martim Ajfonfo de Soufa par tio do 
Keyno por Capitão mor das nãos , e do 
mar da índia ; e de como o Governador 
Nuno da Cunha fe fez prejies pêra ir ao 
Norte: e dos recados que fe pajjãram en- 
tre os Reys dos Magores , e o de Cam- 
baya. 

Epois que EIRey dcfpedio a Arma- 
da de D. Pedro de Caftello-branco , 
como atrás .. diflemos , determinou de 
prover nas couías da índia mais de propo- 
iito , parecendo-lhe bem prover o cargo de 
Capitão mor do mar , pêra ajudar nos tra- 
balhos ao Governador , e pêra elle elegeo 
Martim Affonfb de Soufa Fidalgo em que 
havia muitas partes de prudência , cavalle- 

ria , 




Dec. IV. Liv. IX. Cap. I. 309 

ria , e outras , e mandou negociar finco náos , 
de que elle havia de ir por Capitão mór , 
pêra o que mandou pagar dons mil homens. 
Eíta Armada fe fez á vela meado Março def- 
te anno de 15:34 em que andamos. Os mais 
Capitães eram Diogo Lopes de Soufa , An- 
tónio de Brito , Simão Guedes , (que hia pro- 
vido da Capitania de Chaul , ) eTriftão Go- 
mes da Mina. Efta Armada chegou toda a 
Goa fem lhe acontecer defaftre ; e poílo que 
o Governador fe pejou comMartim Affon- 
ío de Soufa por vir provido daquelle cargo f 
não deixou de o receber bem. Com a che- 
gada das náos mandou o Governador dar 
grande preíia á Armada toda i porque de- 
terminou de fe embarcar logo por hum avi- 
íb que teve de Cambaya , de como Soltão 
Badur fe fazia preftes pêra ir a Chitor, e a 
Mandou , o que já o verão paííado deixara 
de fazer pelos refpeitos que diflemos. E co- 
mo aquelles grandes apercebimentos , que 
pêra aquella jornada tinha feito , foram lo- 
go foando por efle Induftan a ílima ,. chegan- 
do ás orelhas da Rainha de Chitor, que ha- 
via poucos dias viuvara, ficando-lhe hum fi- 
lho menino herdeiro do Reyno : e como era 
mulher fraca , e coitada , receando a ira de 
Soltão Badur , defpedio recados a Hamau 
Paxá Rey dos Mogores , pedindo-Ihe com 
grandes piedades lhe quizeíTe valer naquel- 

te 



310 ÁSIA de Diogo de Couto 

le negocio , e livralla das mãos de Soltao 
Badur , pois fó elle era poderofo pêra iffo, 
O Hamau Paxá tanto que teve eíte recado , 
defpedio hum Embaixador apreííado 5 por 
quem mandou dizer a Soltao Badur , que 
não quizeíTe moítrar fua potencia contra hu- 
ma mulher viuva , e fraca , porque foubef- 
fe em certo , que a havia de ajudar , e fa- 
vorecer pela obrigação que osReys tinham 
de foccorrer as viuvas defamparadas. Soltao 
Badur como era o mais poderofo Rey que 
havia em todo o Oriente , teve em pouco 
a amoeítaçao , e recado de Hamau Paxá , 
dcfpedindo o feu Embaixador defeontente, 
pondo-fe elle logo em campo pêra caminhar. 
E porque todavia não perdia os ciúmes de 
Dio > ( por onde já o verão deixara de pôr 
em effeito aquclla jornada , por não acabar 
de concluir com o Governador nas vidas pê- 
ra confirmar as pazes ? ) determinou de man- 
dar Embaixadores ao Governador , e conce- 
der-ihe Baçaim corri todas as condições que 
quizeíTe. Deites recados , e apercebimentos 
teve o Governador logo avifo , pelo que de- 
terminou de fe pôr no Norte com todo o 
poder , pêra que em virando Soltao Badur 
as coitas, viífe fe podia levar Dio nas unhas. 
E defpedio diante Martim Affonfo de Sour 
fa com quarenta navios pêra fe ir pôr na 
enceada de Caxnbaya 3 ver o que fuece- 

dia 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. I. 311 

dia até elle chegar. E em lua companhia 
defpedio alguns mercadores Mouros pêra a 
Cidade de Amadabá a efpiar o que fazia Sol- 
tão Badur , e outros a Dio a notarem como 
ficava aquella fortaleza , dando-lhe por re- 
gimento , que foliem ter com elle aBaçaim, 
onde os eíperaria. Martim AíFonfo de Sou- 
fa deo á vela entrada de Outubro ; os Ca- 
pitães que com elle foram , dos que pu- 
demos faber os nomes são os íeguintes : Ma- 
noel de Soufa de Sepúlveda , D. Diogo de 
Almeida Freire, Fernão de Soufa de Távo- 
ra , Francifco de Sá dos óculos , Martim 
Corrêa da Silva ; todos eftes que vieram com 
elle de Portugal ; Pêro Botelho , Jorge de 
Soufa , António da Cunha , e outros, E cor- 
rendo a cofta toda , foi-fe pôr na enceada de 
Cambaya á vifta de Surrate , aonde fe dei- 
xou eílar. Alli foi ter com elle Diogo da 
Silveira , que vinha de invernar em Ormuz , 
aonde o deixámos. E fabendo que viera por 
Capitão mor do mar da índia , entregou-lhe 
toda a Armada , e fe paliou a Goa em huni 
catur ligeiro , e defpedindo-fe do Governa- 
dor fefoi peraCochim, edahi pêra oRey- 
no por Capitão mor defta Armada, em que 
Martim AíFonfo de Soufa veio , pelo man- 
dar aílimElRey, em que também fe embar- 
cou Jorge Cabral, e outros Fidalgos. To- 
das eílas náos chegaram a falvamento. O Go- 

ver- 



312 ÁSIA de Diogo de Couto 

vernador depois de defpachar as náos pêra 
irem a Cochim tomar a carga , o fez tam- 
bém a D. Pedro de Cafíello-branco pêra ir 
entrar na Capitania de Ormuz , por acabar 
feu tempo António da Silveira que lá efía- 
va. E dando expediente aos mais negócios , 
fe embarcou entrada de Dezembro em Im- 
itia Armada de galeões, galés, efuftas, que 
eram mais de cem velas , e em poucos dias 
foi furgir na barra de Baçaim , onde fe de- 
teve efperando pelas efpias que tinha man- 
dado aDio, e a Cambaya , que não tarda- 
ram muito , e lhe deram relação da jorna- 
da que Soltao Badur fazia , em que tinha 
em campo mais de quinhentos mil homens , 
e que Meíique Tocão ficava em Dio com 
dez , ou doze mil de guarnição , e a Cida- 
de muito fortificada , e provida de todas as 
çoufas neceílarias ; e que ficava defpedindo 
hum Embaixador pêra elle com negócios 
que elles não puderam alcançar, e que não 
poderia tardar dous dias. O Governador tan- 
to que foube aquillo , mandou preparar a Ar- 
mada pêra o receber com grande mageítade. 
Dahi a dous , ou três dias chegou o Embai- 
xador á Armada em três navios ligeiros. Era 
eíle Embaixador peíTòa principal na cafa d'El- 
Rey , e chamava-fe Xacoez , homem de grão 
prudência , e confelho. O Governador fen- 
do avifado de fua vinda , o mandou bufcar 

por 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. L 313 

por muitos navios de remo , e foi levado 
ao galeão S. Diniz , que eílava rica , e for- 
moíamcnte embandeirado , e paramentado 
por dentro. O Governador oefperou na tol- 
da , que eílava cuberta de pannos de ouro , 
aííentado em huma rica cadeira , e todos os 
Capitães, e Fidalgos velhos em pé, de hu- 
ma, e outra parte, muito bem ataviados. E 
ao entrar do galeão falvou elle com algu- 
mas peças de artilheria , e logo toda a Ar- 
mada com aquella tormenta de bombardas , 
que poz grande efpanto nos Mouros. O Em- 
baixador chegando a elle fe lhe lançou aos 
pés, o Governador o levantou com honras, 
egazalhados, mandando-ihe perguntar (por 
Marcos Fernandes lingua do Eííado ) pela 
fauded'ElRey , e a elle como vinha da jor- 
nada. O Embaixador reípondeo com pala- 
vras gemes, humilhando- fe por aquella hon- 
ra. O Governador lhe dilfe , que fe fofle 
defcançar , que depois o ouviria devagar, 
Dalli foi levado ás fuás embarcações com 
outra falva de novo , afllm de artilheria , co- 
mo de tambores , trombetas , charamelas , e 
de todos os mais inftrumemos de guerra, e 
de paz. 



CA- 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO II. 

í)e como Soltao Badur mandou oferecer a& 

Governador Nuno da Cunha a Cidade de 

Baçaim : e dos Capítulos , e Condições 

com que fe ajjentáram as pazes. 

DEixou o Governador dcícançar o Em- 
baixador dous dias > e por não moftrar 
tainbcm alvoroço o não quiz ouvir logo. 
Paliados elles o mandou levar ao galeão , e 
o ouvio na íua camará , fendo prefcntes al- 
guns Capitães velhos , e o Secretario Simão 
Ferreira , e as línguas Marcos Fernandes , 
e Coge Peredi homem Paríio , e avifado 
por parte do Embaixador : que aprefentou 
ao Governador huma carta de crença com 
o final , e fello d'ElRey Soltão Badur 3 e 
huma Procuração , em que lhe dava , e con- 
cedia todos os feus poderes pêra tudo o que 
determinafíe , e aflentaííe com o Governa- 
dor em o negocio de pazes, e amizades que 
\ht mandava commetter. Depois de viftos 
cíles papeis , e havidos por íblemnes , o Go- 
vernador mandou dizer ao Embaixador , que 
podia fallar tudo o que quizeíle , com o que 
o Embaixador deo fua embaixada , cuja fub- 
ftancia era : » Que EIRey Soltão Badur feu 
» Senhor deíejava muito deter paz, amiza- 
» de > preítança , e commercio com EIRey 

» Dom 



Dec. IV- Liv. IX. Cap. II. 31J 

y> D. João de Portugal , e com elle Gover- 
» nador , que citava em íèu lugar j e que em 
» começo defie amor , e amizade dava , e 
» doava de hoje pêra todo iernpre a Cidade 
» de Baçaim com todas fuás Tanadarias y e 
» jurdição a EIRey de Portugal , por fer cou- 
» fa grande , e que importava muito , e que 
» por iíTo não queria mais que algumas con- 
» diçoes que foíTem juftas , e honeftas. » O 
Governador lhe mandou refponder com pa- 
lavras mui graves 5 tendo em mercê aquel- 
Ja vifitação , que EIRey feu Senhor lhe 
mandava fazer , e que eftimava muito a- 
quelles defejos de ter paz , e amizade com 
EIRey de Portugal feu Senhor , e que ac- 
ceitava por fua parte os offerecimentos da 
Cidade de Baçaim , não tanto por fua im- 
portância , quanto pelo goílo com que lha 
ofFerecia , que não podia deixar de nafcer 
de muito amor , como elle também lhe 
moflraria em todas fuás coufas 5 e elle Go- 
vernador como feu vaíTallo o ferviria em 
tudo o que lhe mandafle, E que quanto ás 
Capitulações , e Condições , que pedia , que 
tudo remettia ao Ouvidor Geral , Secreta- 
rio , e mais Officiaes d ? E!Rey de Portugal , 
pêra com elle Embaixador as concluírem , 
e aíTentarem. Com iílo fe defpedio o Em- 
baixador muito fatisfeito , mandando-lhe dar 
algumas peças muito ricas. E ajuntando-fe 

per 



316 ÁSIA de Diogo de Couto 

per vezes com os Officiaes a quem o Go- 
vernador o remetteo naquelle negocio , apre- 
fentando-ie Capítulos de parte a parte , vie- N > 
ram a concluir as pazes com as condições fe- 
guintes : 

)> Que EIRey Soltão Badur dava , e 
» doava a EIRey de Portugal daquelle dia 
D pêra todo fempre a Cidade de Baçaim com 
a todas as luas terras , aílim firmes , como 
» Ilhas , e mares , com toda fim jurdição , 
» mero , e miílo Império , com todas fuás 
> rendas, e direitos Reaes , aífim , e da ma- 
» neira que elle Soltão Badur Rey do Gu- 
»zarate até então as poíTuíra , e pofiuíram 
» feus Capitães , e Tanadares. E que dalli por 
» diante deíiília de todo o direito , que nas 
aditas terras, Ilhas , e mares tinha : e que 
)> todo trafpaflava , e applicava a EIRey de 
» Portugal; e que havia por bem , que lo- 
» go por feus Officiaes mand afife tomar pof- 
» íè de todo o lòhredito. 

» Com condição , que todas as náos que 
» partirem dos Reynos , e fenhorios dellc 
» Soltão Badur pêra entrarem das portas do 
)> Eftreito pêra dentro , iriam a Baçaim tomar 
» falvo condu&o (a que elles chamam Car- 
» tazes ) dos Capitães d'E!Rey de Portugal , 
» que alli eftiverem , e que da torna viagem 
» tornariam á dita Cidade a pagar feus di- 
» reitos fob pena deferem perdidas pêra EU 

» Rey 



Dko, IV. Liv. IX. Cap. IL 317 

»Rey de Portugal; e que as poderiam íeus 
» Capitães tomar , como de boa guerra , íòra 
)i ElKey do Guzaratc o contrariar, nem ha- 
» ver por mal. 

» Que todas asnáos do feuReyno., que 
» navegarem pêra todas as outras partes , não 
» lendo pêra Meca , levariam os meíhios Car- 
)> tazes , e que os Capitães lhes não levariam 
)> por cada hum mais de homa tanga , e que 
» com iílb navegariam livremente pera om 
» de quizeííem íem terem outra obrigação ; 
)> e que iílo íè não entenderia nas cotias , 
» galvetas , evazilhas pequenas , que coíiu- 
» mavam a navegar de longo da coita. 

» Que em nenhum porto , affim do Rey- 
» no Guzaratc , como dos mais íenhorios que 
» poíluia , dalii em diante fe faria navio ai- 
» gum de guerra , e os que houveífe feitos 
» não navegariam mais, mas que poderiam 
» fazer todas as náos que quizeííem a feu mo- 
» do pera feus tratos , e commercios. 

» Que EiRey Soltão Badur não recolhe- 
» ria em porto algum de feus Reynos , e fe- 
» nhorios Rumes alguns , nem lhes daria man- 
» timentos , favor , gente , ajuda , nem cou- 
» fa alguma, que em fuás terras houveífe. 

» Que todo o dinheiro das terras de Ba- 
» çaim , que eftava até então por arrecadar 
.» do que Melique Az havia de haver , def- 
» que entrou o anno dos Mouros até aquel- 

» ia 



318 ÁSIA de Diogo de Couto 

» la hora , poderia o Governador mandar ar-* 
» recadar pêra EIRey de Portugal. 

» Que entregaria logo Diogo de Mefqui- 
» ta , Lopo Fernandes Pinto , Manoel Men- 
» des , João de Lima , e todos os mais Por- 
» tuguezes , que em leu poder eftavam cati- 
» vos. » Eftes lote Capítulos de Condições , 
que os Officiaes d'ElRey de Portugal apre- 
fentáram , acceitou o Embaixador d'ElRey 
Soltao Badur , e fe obrigou aos cumprir 9 
ter , manter , e guardar em todo , e por to- 
do , como fenelies , e em cada hum delles 
continha , fem engano , nem cautela , cora 
toda a verdade , e fegurança d'ElRey ; e lo- 
go o Embaixador aprefentou outros Capí- 
tulos por parte d'ElRey Soltao Badur, que 
sao os feguintes : 

>; Que todos os cavallcs que vieíTem do 
» Eítreito {Je Meca , e das partes de Arábia 
» os primeiros três annos , depois dafortale- 
» za de Baçaim fer acabada 3 viriam a ella y 
»pera elle Soltao Badur, e íeus vaíTallos os 
» mandarem alli comprar, pagando os direi- 
)> tos delles a EIRey de Portugal , aífim , e 
» da maneira que fe pagavam na Cidade de 
» Goa , e que não iriam aos portos do De- 
)> can , Canará , nem Malavar : e que não fe 
» comprando os taes cavallos em Baçaim > 
» feus donos os poderiam levar pêra onde 

» quizçflem. 

»Que 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. II. 319 

» Que vindo alguma náo do Reyno de 
» Cambaya com cavallos pêra elle Soltão Ba~ 
» dur , de qualquer parte que foífem , náo 
» pagariam direitos até quantia de feííenta. 

» Que vindo alguma náo de mar emfó- 
» ra defgarrada , de qualquer parte que foífe > 
» tirando do Eítreito de Meca , e com tem- 
» po fortuito foíle tomar Baçaim, vindo pc- 
» ra o Reyno do Guzarate, depois que íof- 
» fe dentro naquelle porto , ninguém enten- 
» deria com ella , e fe poderia tornar cada 
» vez que quizefle. 

» Que íinco mil tangas Iarins , que eíta- 
» vam applicadas nas rendas de Baçaim pe- 
» ra as Mefquitas , fe lhe pagariam fempre 
» nas mefmas rendas : e que com as Mefqui- 
» tas das terras de Baçaim , e pregações que 
» nellas fe fizeflTem , não entenderia peííoa ai- 
» guma , nem fe faria niífo innovaçao algu- 
» ma. 

» Que duzentos pardaos , que fe pagavam 
» nas rendas de Baçaim aos Laícarins das duas 
» fortalezas , Aceira , e Coeja , que eílam en- 
» tre as terras de Baçaim , e as dos Resbu- 
» tos , fe pagariam fempre nas mefmas ren- 
» das , como até então fe pagavam. » 

Eftes finco Capitulos concedeo o Gover- 
nador em nome (TElRey de Portugal , e fe 
obrigou aos cumprir , e guardar fem caute- 
la, nem engano algum, e logo com muito 

gran- 



3*o ÁSIA de. Diogo de CotfTo 

grande folemnidade fe juraram as pazes , a£- 
íim pelo Governador, como pelo Embaixa- 
dor , cada hum em leu modo , de que ic 
fizeram autos em Parfeo > e Portuguez , a (fi- 
nados por elles , e pelos Officiaes d'EÍRey. 
Declarou , e accreícentou mais o Governa- 
dor, que elle Embaixador iria comelle pê- 
ra Goa , aonde invernada , e ficaria em re- 
féns do Embaixador , que havia de mandar 
a confirmar as pazes com EIRey de Cam- 
baya , e pêra tomar entrega dos cativos. O 
Embaixador defpedio logo correios pela pof- 
ta com recado de tudo o que era paliado 
pêra EIRey SoltãoBadur , que já hia mar- 
chando pêra Chitor. O Governador deo pe- 
ças ricas ao Embaixador , e lhe fez muitas 
honras. Ao outro dia defembarcou em terra 
com o Embaixador , c elle lhe fez entrega 
da Cidade deBaçaim, acudindo á obediên- 
cia os principaes delia , e o Embaixador man- 
dou por todas as Tanadarias apregoar as pa- 
zes , e notificar aos Tanadares , e Pateis , que 
foliem dar a obediência a EIRey de Portu- 
gal , e ao leu Governador, No melmo dia 
que elle tomou poíTe da Cidade , foi logo 
com todos os Fidalgos , e Capitães notar o 
íitio pêra fazer huma fortaleza pêra feguran- 
ça da terra , que traçou hum pouco affaíta- 
da da agua ? porque a praia era toda de hum 
areal folto , e pêra fe começar a obra man- 
dou 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. II. 321 

dou defembarcar toda a gente , e aífentou 
feu arraial, e o fortificou muito bem; e por 
ordem do Embaixador mandou trazer de to- 
das as aldeias vizinhas muitos fervidoites , pe- 
dreiros , e cavouqueiros , e mandou cortar 
a pedra pêra a fortaleza da outra banda do 
rio , aonde havia huma muito formofa pe- 
dreira , e huma aguada muito boa , de que 
toda a Cidade fe provia pêra beber , por fer 
a agua em fi exceIJcnte. 

E aos vinte de Janeiro deite anno de 
X£3 5: , em que com o favor Divino entra- 
mos 5 dia do Martyr S. Sebaftiao , deitou o 
Governador a primeira pedra no fundamen- 
to 5 vertido elle , e todos os Fidalgos mui- 
to loucamente; , dando nome á fortaleza do 
Santo Martyr 5 em cujo dia aquelle auto fe 
celebrou com as mores feitas , e alegrias que 
podiam fer. Elogo fe começou a correr com 
a obra da fortaleza com muita preíTa , fen- 
do o Governador 5 e os Capitães, e Fidal- 
gos os primeiros que apegavam nas padio- 
las, e que acudiam áo trabalho. Os Tana- 
dares começaram a correr a darem a obe- 
diência , levando comfigo todos os Pateis , 
c rendeiros com os foraes , que fe aprefen- 
taram ao Governador , de que mandou fa- 
zer novos Tombos. A todas eltás peffoas 
deo peíTas , e cabaias ricas , com que fica- 
ram mui contentes , e fatisfeitos , mandan- 
Couto. Tom. L P. li» X do 



322 ÁSIA de Diogo de Couto 

do que correífem os arrendamentos como ef~ 
tavam , fem innovar nelJes coufa alguma. E 
porque a fortaleza hia crefcendo , e o ve- 
rão fe hia acabando , deípedio o Governa- 
dor Simão Ferreira Secretario pêra ir a Cam- 
baya a ver jurar as pazes por Soltão Badur y 
que havia de vir , e invernar da jornada em 
que era. E deile adiante daremos razão , 
porque nos pareceo aqui bem continuarmos 
com Soltão Badur. 

CAPITULO III. 

De como Soltão Badur foi contra o Reyna 
de Chitor , e tomou aquella Cidade : e do 
que pajjbu Simão Ferreira até Je ver com 
o Badur : e das coufas 3 em que o Gover- 
nador Nuno da Cunha provêo até partir 
pêra Goa. 

TAnto que Soltão Badur defpedio Xa- 
coez , logo fe poz no caminho do Man- 
dou , e Chitor pêra averiguar aquelle ne- 
gocio primeiro que o inverno entrafle. Le- 
vava eíle bárbaro o mais potente exercito , 
que podia haver no Mundo , porque palia- 
vam de quinhentos mil homens os que po- 
diam pelejar , a fora huma grande multidão 
de gente inútil , de camellos , bois , e mais 
íèrviço de recovagem , artilheria , munições , 
e mais petrechos de guerra. Deite grande ex- 

er- 



Dec. IV. Liv. IX. Caí. III. 323 

ercito era General Moítafá Baxá , que tinha; 
o titulo de Rumecan , ( corno já diíTemos. ) 
Levava ÊlRey pêra guarda de fua peííoa Dio- 
go de Mefquita , Lopo Fernandes Pinto , Du- 
arte da Gama, e todos os mais Portuguezes 
que lá tinha cativos , que feriam perto de 
fefíenta , a quem deo armas, cavallos, fer- 
vidores , e todas as coufas neccííarias em mui- 
ta abaftança, porque tinha nelles tanta con- 
fiança, que os não apartava deíí, ç por fuás 
jornadas foi ter á Cidade de Chitor , don- 
de todo aquelle Reyno toma o nome. Eítá 
eíta Cidade de Chitor em altura de perto de 
dezenove gráos do Norte, conforme afitua- 
ção que fcus naturaes lhe dam , e aflentada 
em fima de homa altiílima ferra , que a na- 
tureza fez tão inexpugnável 9 que 1 fe não po- 
de fubir a ella fenão por hum fó caminho 
muito íngrime , que eftá fortificado de mui- 
tos , e fortes pafibs. A Cidade he grande y 
e cercada de formofo muro , e de grandes , 
e fortes baluartes , e ella tamanha emíí, que 
tinha de vantagem de feíTenta mil peííoas , 
e toda a ferra tão frefca, eviçofa, que lhe 
deram os naturaes o nome de Chitor 5 que 
alguns dizem que he o de hum paífaro, que 
ha naquelle Reyno muito formofo , e de mui- 
tas cores ; inda que outros Guzarates dizem j 
que Chitor quer dizer debuxo. Soltao Ba- 
Gur chegando aferra, aíTentou ao pé emro« 

X ii da 



324 ÁSIA de Diogo de Couto 

da o feu exercito , e foube eítar a Rainha 
dentro com muita gente , e muitos manti- 
mentos ; e porque pêra commettella pelo paf- 
fo era difficultoib , mandou por mais de vin- 
te mH gaftadores minar a ferra por algumas 
partes , em que mandou metter muitas pipas 
de pólvora , a que fe deo fogo , e arreben- 
tando a mor parte da ferra por eífes ares , 
deixou por ella aílima muitas ruinas , por 
onde foram fazendo caminho atéíima á for- 
ça de braços, E com grandes engenhos > e 
forças levaram algumas peças de artilheria 
aílima , e o Badur poz todo o feu exercito 
fobre a Cidade , e a começou a bater por 
algumas partes , por onde fizeram grandes 
entradas , por onde foi commettida , dando 
EIRey a dianteira a Diogo deMefquita com 
todos os Portuguezes , que na entrada fize- 
ram tantas coufas , que efpantáram a todos, 
E ainda nós achámos em Dio , ende inver- 
tamos o anno de feífenta ,- Guzarates , que fe 
acharam nefta jornada , e contavam difto cou- 
fas monfíruofas , que deixamos > porque não 
foubemos as particularidades. Em fim a Ci- 
dade foi entrada , e a Rainha , e o filho ca- 
tivos. Soltao Badur reformou a Cidade , e 
deixou nella alguns Capitães com íincoenta 
mil homens de guarnição , e depois diífo an- 
dou ganhando as mais Cidades , e Villás da- 
<%uelie Reyno , no que gaitou até todo omea 

de 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. III. 325: 

de Março , que fe recolheo pêra feu Rey- 
no. Caítanheda, e Pedro Maffeo , que ofe- 
gue , contam iílo de outra maneira , e dizem 
que a Rainha com o filho defefperada de fe 
poder defender fugiram huma noite , e que 
a mais gente achando- fe ao outro dia fem o 
Rey , fizeram grandes fogueiras , em que fe 
queimaram com todas fuás fazendas , e que 
quando a Cidade fora entrada não acharam 
nella peíToa viva : coufa que não achámos 
na lembrança dos Gentios daquelle tempo, 
e achámos em hum livro de regimentos ve- 
Jhos , que andam na caía dos Contos de Goa , 
feita memoria deâa jornada por Gafpar Pi- 
res de Matos , (que fervia de Eferivão do 
Secretario Simão Ferreira , que de lá trou- 
xe Diogo deMefquita, e os mais Portugue- 
zes 5 que lhe contaram o fucceíTo deíla jor- 
nada 9 ) que fallando nas coufas de Dio 5 diz 
eftas po-ntuaes palavras: » Nefte tempo par» 
_» tio pêra Chitor Sokão Badur com grande 
» exercito 5 levando comíigo Diogo de Mef- 
» quita % I^opo Fernandes Pinto , Manoel 
» Mendes 5 Duarte da Gama , e os outros 
» Portuguezes que lá eftavam cativos, e poz 
» cerco áquella Cidade 3 e a commetteo 5 e 
» entrou 5 fendo os primeiros que fubíram es 
» muros os Portuguezes que lá eflavam ca- 
» tivos 3 que moftráram bem nefta entrada o 
» valor de feu esforço , cativando-fe a Rai- 

» nha , 



326 ÁSIA de Diogo de Couto 

>»nha, efeu filho. » Aiílo fedeve dar mui* | 
to credito, Soltao Badur chegando á Cida- | 
de de Amada bá achou nelia o Secretario Si- 
mão Ferreira , e pelas cartas do Embaixa- 
dor Xacoez tinha já fabido tudo .o que era | 
fuccedido , pelo que o mandou fcufcar por i 
peflbas principa.es de fua cafa , e o recebeo 
com muitas honras , e moftras de grande a- 
mizade. Simão Ferreira lhe deo as cartas do 
Governador , e o prefente que ÍHe manda- 
va, que eram peças mui ricas , e tratou com 
elle o negocio a que hia , pedindo-lhe que 
o defpachafFe pêra tornar a invernar aGoa, 
o que EiRey fez , jurando logo as pazes 
com grande folemnidade , e confirmando os 
capítulos que por fua parte eílavam conce- 
didos , e mandando-os apregoar por todo o 
Reyno : e fazendo-llie entrega de Diogo de 
Mefquita , e de rodos os Portuguezes , dan- 
do-ihe muito dinheiro , e peças, osdefpedio, 
e foram-fe embarcar a Cambayete , onde ti- 
nham navios ligeiros. 

E tornando ao Governador, que eílava 
em Baçaim , continuando nas obras da for- 
taleza , fendo já o mez de Março , lhe de- 
ram cartas de D. João Pereira Capitão de 
Goa 3 em que lhe dizia , que o Idalcan ten- 
tava novidades, e que fazia preftes Capitães 
pêra mandar fobre as terras de Salcete , que 
devia acudir áquelias coufas. O Governador 

ten- 



Dec. IV. Liv. XI. Cap. III. 327 

tendo já a fortaleza em altura pêra fe po- 
der defender , a guarneceo de artilheria , e 
proveo os armazéns (que já eftavam acaba- 
dos) de muitos mantimentos , e munições. 
E andando pêra eleger Capitão , chegou de 
Ormuz António da Silveira feu cunhado , 
que acabara de fervir aquella fortaleza , e 
lhe deo a Capitania de Baçaim , affinando- 
Ihe oitocentos homens pêra ficarem com el- 
je , e muitos Fidalgos , e Capitães. Efte Mar- 
ço em que andamos faleceo em Ormuz o 
Bifpo Fernando Vaqueiro , que foi o pri- 
meiro Bifpo que á Índia veio, e foi lepul- 
xado na Capella mor da Igreja de Ormuz, 
e tem huma fepultura de pedra branca mui 
boa com fuás armas lavradas', que são hu- 
ma vaca, ou touro ; e o letreiro diz aíiim : 
Ferdinanâus Epifcopus Aurenfis. Faleceo aos 
quatorze de Março de ISZS* P Governador 
Nuno da Cunha quiz prover nas coufas de 
Ormuz primeiro que fe parti (Te de Baçaim, 
porque António da Silveira lhe trouxe no- 
vas de como era falecido o Guazil Xeque 
Raxete, e com elle tinham vindo procura- 
dores de Mouros principaes a requererem o 
cargo, pelo modo que fempfe fe coftuma a 
fazer ; mas o Governador o deo a Xeque 
Hamed filho do morto , aífim pelos mere- 
cimentos do pai , como pelas partes que pê- 
ra iffo tinha. Feito iíto , defpedio-fe de An- 

to- 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

tonio da Silveira , e deo á vela pcra Goa , 
aonde chegou em poucos dias , e começou a 
entender nos provimentos de Malaca , e Ma^- 
luco , que logo defpedio ; e aílim mandou 
invernar gente a Chalé , e a Cananor. De- 
pois difto chegou Simão Ferreira com os 
Portuguezes de Cambaya , que o Governa- 
dor recebeo muito bem , fazendo mercês a 
todos, E logo defpedio o Embaixador de 
Cambaya , que eflava em Goa em reféns , e 
lhe deo dous navios pêra o levarem. Foi ci- 
te Mouro tão fatisfeito das honras que lhe 
o Governador fez, que depois o avifou de 
muitas coufas, como emfeu lugar diremos. 

CAPITULO IV, 

Da conjuração que houve entre os Senhores 

das Ilhas de Maluco contra os nojfos , e do 

grande aperto em que os puzeram. 

POis efte he o tempo em que nos cabem 
as coufas de Maluco , continuaremos 
comellas, que deixámos o anno paíTado em 
aquelle grande efcandalo , cue todos os Reys' 
daquelle Archipélago tiyeram dos noiTos , 
pela grande crueza que ufáram com a mai 
d'ElRey Aeiro , e prizão de Tabarija. E 
carteando- fe , fc ajuntaram todos, tratando 
de tomar fatisfação decafo tão abominável, 
ajuntando peraiíTo em fegredo as coufas que 

lhes 



Dec. IV. Liv. IX. Cai>. IV. 329 

lhes pareceram neceflarias. E pêra mais fa- 
zerem odiofos , eavorrecidos naquellas Ilhas 
todos os Portuguezes , urdio o demónio ou- 
tro cafo tão efcandalofo , ou mais a feu mo- 
do que os paflados. O cafo que novamen- 
te fuccedeo, que nos acabou de fazer avor- 
recidos, foi eíte. Mandou Triftao de Taíde 
nefta mefma conjunção hum Foão Pinto a 
defcubrir as Ilhas de Mindanáo, e as vizi- 
nhas a ella pêra fe prover de mantimentos , 
porque em todas as deMSluco lhes tinham 
tapados os portos por onde lhes corriam. Par- 
tido efte homem em huma na veta , chegou 
á Ilha de Mindanáo , aonde defembarcou , 
^e vio aquelle Rey ; que lhe fez muitos ga- 
zalhados , e aíTentando com elle pazes , c 
amizades 3 vendeo o que levava , e comprou 
o que quiz muito liberalmente , e á fua von- 
tade. Dalli fe paífou á Ilha de Seriago , on- 
de o Rey lhe fez os mefmos gazalhados , ç 
aífentou também com elle pazes , que cele- 
braram com huma ceremonia entre elles guar- 
dada tãoinviolavelmente , que nunca já mais 
fe quebrava , que era , beberem , os que fa- 
ziam a amizade 3 o fangue hum do outro , co- 
mo penhor do amor que fe haviam de ter; 
porque dizem , que aííim mette cada hum 
em íí a alma do outro : e aííim ficaram dal- 
li por diante correndo com os noífos em tan- 
to amor , e amizade, que hiam á fua náo 

com- 



\ 



g3<3 ÁSIA de Diogo de Couto 

comprar , e vender fem receio de engano , 
porque elles o não tratavam com peííòa al- 
guma depois daquella ceremonia celebrada. 
O Capitão do navio vendo quantos concor- 
riam á íua náo, entrando a cubica de fazer 
preza nelles, e de levar huma boa cópia pê- 
ra vender , depois que fez feu negocio , o 
dia que fe havia de partir foram perto de 
quarenta , poucos , ,e poucos , a venderem á 
náo fuás coufas , que afTim como entravam 
os levava abaixo ífa cuberta , como que lhes 
hia moftrar alguma .coufa, e lá os fechava. 
Mas permittio Deos , que hum dos prezos 
debaixo , quando levavam outros , tivefle mo- 
do de efeapulir, e fe lançou ao mar, e foi 
a terra a dar conta a ElPvey do que paliava, 
EIRey cheio de paixão de quebrarem os Por- 
tuguezes aílim aquelLe tão firme vinculo de 
amizade entre elles guardada como coufa 
■religiofa , mandou com muita preífa met- 
ter muita gente em algumas embarcações que 
eílavam no mar , e lançar a eíle outras que 
eílavam em eítaleiro , e mandou commettera 
-náo , que foi rodeada , e combatida afpera- 
mente. O Capitão Pinto andava já levando 
ancora , porque tinha vifto os navios , e a 
gente em terra , e acudindo ás armas com 
*vinte e finco homens que comiigo levava , 
~poz-fe em defensão , porque já o entravam 
por algumas partes > e os Officiaes foram lar- 

gan- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. 331 

gando as velas ; mas os Seriagos ferrados na 
náo trabalharam pela entrar , e fem dúvida 
,0 fizeram fenão íbbreviera huma íèrração , 
defcarregando logo huma trovoada tão íb~ 
berba , e medonha em força , e carrancas , 
que parecia ira dos Ceos. Os Seriagos lar- 
garam a náo , e fe acolheram á terra : os da 
náo foram correndo com hum boiíò de ve- 
la á vontade dos ventos , e mares que os co- 
miam; efoi-lhes neceíTario alijarem ao mar 
iodas as coufas que por lima levavam , e 
ainda toda a artilheria , porque íè viram mui- 
tas vezes alagados , e {©cobrados, Durou- 
lhes efte caftigo alguns dias , deixando-os tão 
-deftroçados 5 desbaratados , e medroíos , que 
como homens que tinham vifto tantas vezes 
a morte , eííavam como alienados , e aílim 
foram ter aTernate tão cortados do temor , 
que eftando em terra , ainda lhes parecia 
que corriam as mefmas tormentas , que ain- 
da alli a ira deDeos os ameaçava pelo pec- 
cado que commettêram em violarem a fan- 
ta lei do hofpicio : coufa tão feia , e avor- 
recida ainda entre tão bárbaros como eftes. 
Sabendo todos os Reys daquellas Ilhas hu- 
ma maldade tão grande , acabaram de fe re- 
folver , que lhes eram prejudiciaes os Portu- 
guezes , e quão neceíTario era lançarem-nos 
fora daquellas Ilhas ; pelo que logo trata* 
iam > e puzeram em execução huma liga ge- 
rai 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

ral contra elles , mandando lançar por todas 
aquellas Ilhas hum edicto geral , pêra que 
logo mataíTem todos os Portuguezes , que 
por ellas andaílem , e que totalmente fe re- 
colheíTem os mantimentos todos , e íe tivef- 
fe nelles tal guarda , que nem por mar , nem 
por terra entraífem na nofla fortaleza , já que 
não tinham artilheria pêra abater, pêra que 
a vieíTem tomar á fome ; e que quando iíto 
não baftaífe , e na fortaleza houvefle man- 
timentos pêra fe fuítentarem até irem os gar 
leões da índia , então que os Ternatezes deC- 
pejafsem aquella Ilha , e fe pafsaísem pêra 
as outras , cortando primeiro todas as arvo- 
res do cravo , e deixando-a deíerta , porque 
não pudefsem os nofsos lograr- fe de feus fru- 
tos , que era o porque eiles tinham ufado 
com elles tamanhas crueldades , e deíbrdens 
naquella Ilha , e hiam de tão longe portão 
grandes rifcos , e perigos em bufca delle : 
e que como elles fe vifsem fem poderem lo- 
grar do que tanto cubicavam , forçados da 
neceíRdade defpejariam a fortaleza, e fetor- 
.nariam pêra a índia , e elles quietariam 5 e 
viviriam em fuás terras femaquellas oppref- 
soes, e tyrannia. Com ifto começaram apor 
aquellas coufas em execução , fazendo cabe- 
ça da liga EIRey de Tidore , por andar com 
elle EIRey de Ternate , que lá eftava ho- 
miziado pela morte de Gonçalo Pereira. Os 

Ter^ 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. 333 

Ternatezes defpejáram logo a Cidade , man- 
dando fuás fazendas pêra as outras Ilhas. E 
porque entendeíTem os noíTos que de todo fe 
deíhaturavam , mandaram pôir fogo a toda 
a Cidade , em que fe confumíram todos 
os edifícios , que foram de feus antepaííados , 
tantas centenas de annos atrás. Triftao de 
Taíde vendo aquella defefperaçao , quiz acu- 
dir aiíío, mandando muitos recados á Rai- 
nha , e aos Regedores com promeíTas , efa- 
tisfações , que não aproveitaram coufa algu- 
ma. Poftos os Ternatezes nos matos íahiam 
muitas vezes em ciladas a efperar os Por- 
tuguezes que hiam fazer lenha , e agua , ma- 
tando , e ferindo alguns. Em todas as ou- 
tras Ilhas fe começou a executar o edid:o , 
matando todos os Portuguezes que por el- 
]as andavam. Na Cidade de Momoya ma- 
taram fete , ou oito , que eftavam com o Pa- 
dre Francilco Alvares , que efcapou mila- 
grofamente , e fe recolheo a huma embar- 
cação com muitas feridas. Na Ilha de Chião 
principal de Morotay mataram Simão Vaz 
outro Sacerdote : e hum Mouro daquelles 
tomou hum retavolo de NoíTa Senhora , que 
o Padre tinha , e o quebrou em pedaços ; e 
não íoíFrendo Deos efta offenfa feita a fua 
Sacratiílima Mãi , logo alli fupitamente fe 
lhe aleijaram as máos áquelle Mouro , e 
morfeo em poucos dias. E ainda fe notou 

mais . 



334 Á.SÍÁ de Diogo í>e Couto 

mais, que dentro em hum anno morreo to- 
da a geração que efte Mouro tinha de de- 
faftrés , e o derradeiro foi metter-lhe hum 
peixe agulha o bico por hum olho eftando^ 
peícando : e o lugar todo que era muito gran- 
de em mui poucos annos fe confumio , e 
desfez por guerras , e por defaftres de ma- 
neira i que delle não ha já memoria algu- 
ma , o que notaram os Portuguezes que lá 
eftavam , e outros de Maluco , de quem fou-* 
bemos ifto. Trilião de Taíde foi logo avi- 
fado de tudo , e o fentio em eflremo , e bem 
enrendeo que fe lhe ofereciam grandes tra- 
balhos , e mandou pôr muito reíguardo , e 
regra nos mantimentos que havia , deitando 
muitas efpias pêra faber dos defenhos dos 
inimigos ' 7 e cm EIRey Aeiro que eftava na 
fortaleza poz grandes vigias , e guardas , não 
jhe deixando mais que as amas que o crea- 
vam , e deitou algumas peffoas que apalpa- 
ram a Rainha com pazes, e omefmo a EI- 
Rey de Tidore , commettendo-íe-lhe por fua 
parte muitos partidos , fem elles defirirem a 
coufa alguma. Nefte tempo Catabruno Go- 
vernador de Geilolo , e tutor do Rey meni- 
no , o matou com peçonha , e fe alevantou 
por Rey : quizeram dizer , que Trilião de 
Taíde fora em eoníentimento.diíTo , e que 
lhe mandara htima cabaia de veludo azul, 
com que fe alevantou por Rey. E como era 

máo, 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. eV. 33?. 

ináo, e tyranno, e começou a ufar de ília 
natureza , mettendc-fe logo na liga contra os 
noflbs , foi omór inimigo, e de quem mor 
damno receberam os nolTos , que de todos 
os outros. Neíle eftado deixaremos ascoufas 
defte anno , que era o peior que podia fer* 

CAPIXULO V. 

De como Hamau Taxa Rey dos Magores 
foi bufe ar Soltao Badur , e lhe tomou os 
Rey nos de Chitor , e Mandou 3 a que acu- 
dio Soltao Badur : e das grandes covar- 
dia* que fez : e de como o Magor o def 
truio, e desbaratou. 

VEndo Hamau Paxá Rey dos Magores 
o pouco cafo que Soltao Badur fizera 
de feus recados, eque (obre elles fora con- 
tra o Reyno de Chitor , e o deílruíra , fi- 
cou muito aífrontado ; e como já eftava ef- 
candalizado d'antes por recolher em feu Rey- 
no Omir Mahamede Zaman , feu cunhado , 
irmão de fua mulher , (que foi o que urdio 
eftes ódios antre eftes dous poderolos bárba- 
ros , ) porque como era ambiciofo , e defe- 
jofo de reinar i quiz ver fe podia por efte 
modo chegar ao que tanto defejava \ porque 
entendia que fe elles vieflem a rompimento 
de batalha, hum delles forçado havia de fi- 
car quebrado , com o que lhe ficaria lugar 



336 ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra poder metter pé em algum daquelles 
Impérios , no que o não enganaram feus pen- 
iamentos , porque lhe veio a Fortuna a cun> 
prir léus defejos , como logo diremos. Hr- 
xnauPaxá (como hiamos dizendo) tanto que 
teve novas da tomada de Chitor, tomando 
aquella aífronta muito á lua conta , partio 
logo da Cidade do DeJJ com trinta e finco 
mil cavallos , e tomou o caminho de Chi- 
tor mui apreíladamente , cuidando que ain- 
da alli achaíTe Soltão Badur. Pelo caminho 
lhe foram acudindo vafTallos , com que per- 
fez o número de feífenra mil cavallos ; e 
chegando a Chitor foube que eílava pelo Sol- 
tão Badur , e logo lhe poz cerco. Os de den- 
tro íabendo fer elle chegado , como o no- 
me do Magor entre todas aquelias nações 
era hum terror , e efpanto grande em feus 
ouvidos , logo lhe mandaram commetter par- 
tidos , e fe entregaram. O Hamau fem fe de- 
ter nada , como hum raio mui aprelTado foi 
paííando adiante , entrando por todas as Ci- 
dades , e Villas com tamanho eftrondc , c 
temor de todos , que tudo fe lhe largou fem 
achar impedimento , e aflim foi correndo até 
o Reyno de Mandou, em que não teve que 
fazer ; porque como todos hiam fugindo da 
ira dos Magores , e o medo lhes fazia pa- 
recer maior o número do que era, vinham 
apregoando hum tão groífo poder , que a 

to- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. V. 337 

toda a parte a que chegavam adiavam tu- 
do delerto , edefpovoado. SoltãoBadur te- 
ve logo avifo do Magor , e com ter hum 
exercito o mais potente , que no Mundo po- 
dia fer , foi tamanho o feu medo pelo que 
via trazer aos feus que vinham fugindo , que 
de todo efteve pêra fe recolher, fenão fora 
Rumecan que o fez fobreeítar, animando-o 
pêra ir bufcar o inimigo como fez. E levan- 
do feu exercito , foi caminhando até á Cida- 
de de Arrayol , huma das principaes do Gu- 
zarate , onde foi avifado que o Magor íè 
vinha chegando ^encontrando por aquelles 
caminhos infinidade de gente que vinha fu- 
gindo , tão afíbmbrados de fuás cruezas , que 
com acharem o feu Rey com tão potente 
exercito não paravam alli , porque o temor 
lhes não dava lugar a fe fegurarem com cou- 
fa alguma, Soltão Badur vendo vir defcen- 
do aquella multidão de gentes com aquelle 
medo , e defatino , ficou embaraçado , e não 
quiz pafiar adiante , aflentando feus exérci- 
tos ao pé de huma ferra fortiílima , ondefe 
fortificou muito grandemente , mandando re- 
colher a ella todos os mantimentos que po- 
de. E como o Magor vinha defcendo com 
tamanho impeto , e fúria , (como coftumam 
a trazer os arrebatados , e poderofos rios na 
força do inverno , que vem alagando tudQ 
por onde paíTam , ) aflim efte bárbaro , tra- 
Couto. Tom. I. P. lu Y zen- 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

zendo diante de íí todas aquellas enchentes 
dos que vinham fugindo deile , chegou á viíla 
do exercito do Badur , e não muito longe 
deile aífentou o feu , travando-fe Jogo en- 
tre elles algumas efcaramuças com damno 
de ambas as par;es , fem o Badur oufar a 
fe bohr, nem dar batalha, tendo duzentos 
mil de cavallo , a fora a lnfanteria que era 
em dobro , quatrocentos Elefantes , e fete- 
centas peças de artilheria de toda forte , ( po- 
der que fe não fora governado por hum ho- 
mem tão fraco , e pufillanime , pudera dar 
batalha a todo o Mundo , quanto mais a 
hum inimigo tão inferior em poder como te- 
mos dito, e em feu próprio Reyno, e ter- 
ras. ) O Magor entendeo logo a covardia do 
inimigo, quando vio, que com tão potente po- 
der o não fahia a bufear , pelo que o com- 
metteo rijamente na ferra , trabalhando pe- 
la entrar, o que não pode fazer pela difi- 
culdade de feus pados , perdendo neílas com- 
mettidas alguma gente. O Badur como ti- 
nha já cobrado em feu coração tamanho me- 
do , determinou de fe defender na ferra , e 
deixar-fe eílar , porque o inimigo não po- 
dia deixar de fe recolher. Rumecan Capitão 
geral de feu exercito vendo tamanha covar- 
dia em hum homem tão poderofo , como 
era aftuto , e experimentado no conhecimen- 
to dos cafos da guerra , não duvidou per- 
der- 



Dec. IV. Liv. IX. Ca?. V. 339 

der-fe o Badur nefta jornada , e ficar o Ma- 
go r íenhor daquelle Império do Guzarate. 
E querendo fegurar íua pefíba , eaccrefcen- 
tar feu Eftado , teve modo com que fe car- 
teou com o Magor , fazendo feus partidos 
pêra fe paliar pêra elle. E depois de aííen- 
tados á lua vontade, o mandou avifar, que 
tomalTe hum paífo da outra banda da ferra , 
por onde fe mettiam mantimentos nella , o 
que ellc logo fez , começando elles logo a 
faltar no exercito do Badur. Rumecan , em 
quem Soltão Badur tinha todo leu remédio, 
e confelho , como vio tempo occafionado 
paífo u- fe pêra o Magor com fete , ou oito 
mil de cavalio de fua cevadeira. Ifto acabou 
de defcoraçoar o Badur de feição , que fe 
houve por perdido , elogo tratou de falvar 
fua pefloa , bufcando modos , e ardis pêra 
iífo , fem o dar a entender a peífoa viva. E 
como o paífo por onde a ferra fe provia ef- 
tava tomado , e a gente que na ferra eftava 
era muita, começaram a faltar os mantimen- 
tos , e chegaram a eftado , que comeram os 
elefantes , cavallos , hervas , raízes , e todas 
as mais coufas defta qualidade. Vendo- fe o 
Badur de todo perdido , dando conta do que 
determinava a alguns Capitães feus mais fieis , 
como o Magor não podia ter tanta vigia , 
que fe não defcuidafle , huma noite fefahio 
o Badur com os do feu feio , e pela poíla 

y a foi 



34o ASIÀ de Diogo de Couto 

foi caminhando pêra Cambaya , levando com- 
íigo a mor parte dos feus theíburos de ou- 
ro , pedraria , e pérolas , que era infinito, 
lílo não pode fer.tanto em fegredo , que não 
foíTe logo fabido na ferra 3 e todos os que 
puderam fe foram por aquelle palfo vafan- 
do-íe porelle amor parte da gente, que fo- 
ram tomando dirferentes caminhos. Em a- 
nianhecendo teve o Magor rebate do nego- 
cio , e commettendo a ferra houve pouco 
que fazer em a enirar, porque os que nel- 
la eítavam fe lhe entregaram. Elle fe apo- 
derou daqueiíe poderofíffimo , e riquiffímo 
exercito , de tendas , elefantes , artilharia , e 
de todas as mais riquezas , em que os Ma- 
gores fe cevaram bem. O Badur tomou o 
caminho tão aprefíado como lho fazia le- 
var o medo que tinha cobrado ao inimigo , 
e fem defcançar, perdido o animo, econfe- 
Iho , foi parar na Cidade de Champanel , que 
eftáíituada emhuma ferra tão alta, que tem 
quatro léguas e meia de fubida , e no cu- 
me delia efld a Gdade muito fone , affim 
pelo íino , como peia induftria. Será eíla Ci- 
dade huma jornada do Deberadora , ou Ba- 
rodar, a que commummente chamamos Ver- 
dora. Alli fe deixou ficar o Badur , proven- 
do-fe de mantimentos , e de outras coufas 
neceííarias , cuidando que o inimigo o não 
feguiria y mas não foi aífim , porque depois 

de 



Dec. IV. Liv. XI. Cap. V. 341 

de oMagor fe apoderar de feu exercito, co- 
meçou logo a leguillo : havendo que eíhva 
o remate, e a honra da viítoria em íhe não 
dar tempo pêra fe fortificar em pane algu- 
ma , (no que le pode ter por mor Capitão 
que Annibal , porque fe feguíra a vivíloria , 
fora íènhor de Roma. ) O Hamau Paxá não 
fe embaraçando com couía alguma foi pal- 
iando avante até chegar a Champanel , onde 
o Badur eftava , que teve logo rebate de fua 
vinda , e acabou de lhe cahir o coração aos 
pés de todo , moftrando neíla jornada bem 
diffcrentes effeitos do que feu nome ílgnifi- 
cava ; porque Badur na lingua Guzarata 
quer dizer Cavalleiro. E não querendo a- 
guardar alli o inimigo , largou a Cidade hu- 
ma- noite, mandando primeiro queimar mui- 
tas riquezas, quecomíigo não podia levar, 
e foi-fe caminhando pêra Dio , porque era 
onde podia fegurar fua .peflba. E com ta- 
manhas defordens fez efte caminho , quedeo 
occafião aos feus pêra o roubarem , ufando 
nifto o que coftuma a gente vil , que he des- 
amparar com a Fortuna o feu Rey. E ven- 
do elle como ella operfeguia, tomando fuás 
jóias , pedraria , e ouro , (que era numa fom- 
ma mui grande ) mandou tudo diante pêra 
Dio: e a tudo ornais que lhe podia feref- 
tofvo ao caminho mandou pôr o fogo , por 
não dar occafião aos que o feg uiam a ou- 
tra 



34^ ÁSIA de "Diogo de Couto 

ira vez o roubarem. E affim acompanhada 
de alguns principaes , c de luas mulheres , 
que tinha mandado recolher , chegou a Dio. 
Alguns dizem , que mudara os trajos por não 
fer conhecido , mas os Mouros o negam ; 
riem podia fer tal , porque le fora fó , pu- 
dera acontecer iflb : mas elle fempre foi a- 
companhado de mais de dez mil cavallos , 
aílim de fua guarda , como dos fcus Capi- 
tães. Chegado EIRey a Dio paíTòu-fe logo 
á liha , e mandou com muita brevidade re- 
colher nelia todos os mantimentos das alde- 
ias vizinhas , e com a mefma fortificou os 
paiTos por onde a Ilha fe podia entrar, pon- 
do nelles arrilheria , e gente de guarnição , 
deixando-fe alli ficar corn a íxifteza , e má- 
goa , que era razão tiveííe , por perder em 
tão breve tempo hum Império .tamanho , e 
tão potente , como era o de Guzarate , tão 
nomeado no Mundo. O Magor foi logo a- 
vifado de fua fugida , e defejofo de, o ha- 
ver ás máos o foi feguindo com grande pref- 
fa , e chegou até á ferra de Una três léguas 
de Dio , onde teve por novas fer já palia- 
do á Ilha , pelo que tornou a voltar peia trás, 
correndo todas as Cidades deCambaya, que 
faqueou , deftruio , e aííolou , levando delias 
grandiífimo thefouro , ufando todos aquel- 
ks Magores (que por natureza são torpes, 
£ Brandos) as mais brutas deshumanida- 

des , 



£>ec. IV- Liv. IX. Cap. V. 343 

des , que fe podem imaginar , padecendo to- 
do aquelle Reyno de Guzarate as mais pie^ 
doias ■miferias que íe nunca viram , andan- 
do os Magores por rodo el!e (que era fer- 
tiljffimo de tudo) rao derramados , que fe 
Badur não fora tão acovardado , com mui- 
to pouco cabedal fe pudera reftaurar de fuás 
perdas , fern lhe efcapar hum lo Magor vi- 
vo. Mas era tamanho o medo que lhe tinha 
cobrado todo o Reyno , que cento que che- 
gavam a huma Cidade muito grande , e po- 
deroía , a laqueavam 5 e deftruiam , como fe 
foram dez mil, tomando-lhes as mulheres, 
e filhas fem oufarem a bolir comílgo. Eaf- 
íim ficou o Hamau Paxá fenhor de todo o 
Império do Guzarate, tão antigo, e opulen- 
to , como aquelle, quefempre foi o mais ri- 
co de todo o Orien:e. 

CAPITULO VI. 

Dos limites que o antigo Reyno do Guza- 
rate tem : e donde nafceo o erro dos 
Geógrafos lançarem o rio Indo 
na enceada de Cavãhaya. 

A que eftamos nefle Reyno do Guzara- 
te, razão he que moftremos os íeus an- 
tigos limites , e que confundamos o erro de 
Abrahao Ortelio , e de todos os mais Geó- 
grafos , que lançaram o rio Indo dentro na 
enceada de Cambava 7 eílando elle tão dif? 

tan- 



344 ÁSIA de Diogo de Couto 

tante como he dalli a Cinde. Efte Reyno do 
•Guzarate teve fempre feus antigos limites da 
banda do Norte, na ponta dejaquete, que 
he a que Ptolomeu chama , Maleo Promon- 
tório , que íitua em dezoito gráos , e hoje 
anda verificado em vinte e dous e meio : por 
onde Barace , que elle mette em dezefere 
gráos , parece Dio , e aílim o tem Nicoláo 
Veneto. Vai-fe eftendendo efte Reyno pêra 
a banda do Sul até o rio de Bandorá , que 
parece fer o rio Nanaguna de Ptolomeu , 
que elle íitua em quatorze gráos , e onde 
mette a Cidade de Nitra em Porju , que fem 
dúvida temos pela mefma de Bandorá ; por- 
que nas antiguidades da índia fe acha fer 
efta a mais magnífica Cidade de toda elía , 
de que ainda hoje ha mui grandes veftigios. 
Aqui perto da Cidade havia hum campo de 
duas léguas, que ainda depois de noíla en- 
trada na índia era todo cheio de íepultu- 
ras comaquellas pedras redondas á cabecei- 
ra , como fe coftuma em muitas partes do 
noflb Portugal , ou em todo. E affirmam os 
antigos naturaes , que alli tivera o grande 
Alexandre com hum Rey muito poderofo da 
índia huma grande batalha, e que o desba- 
ratara , e lhe matara muita gente, que toda 
fe fepultou naquelle campo. E íe tal he , de- 
via de fer com Poro ; pofto que Quinto Cur- 
€Ío , e outros affirmam , que eíla batalha fo- 
ra 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. 345T 

ra muito mais pêra o Norte, Em fim íejá 
como for , tem eíte Reyno por coita pou^ 
co mais de duzentas léguas : pelo lertão jaz 
eftendido até á Cidade do Agará , que fera 
por linha direita cento e íincoenta léguas. E 
vendo nós Àbrahão Ortelio , e nos mappas 
communs , que vem da Europa , lançado o 
rio Indo na enceada de Cambaya , ( fendo 
elle o verdadeiro que atraveíTa o Reyno do 
Cinde, e vem embocar no mar,) e osGu- 
zarates lançados do Indo pêra fora , eítan- 
do elles tanto do Indo pêra dentro; e cui- 
dando donde nafceria tamanho erro , nos pa- 
rece que foi do Roteiro de Nearcho Capi- 
tão de Alexandre Magno da viagem que por 
feu mandado fez pela coita da índia até o 
rio Eufrates , que Alexandre , fegundo con- 
ta Ariano author Grego , depois de vencer 
Poro , defceo até o mar , onde mandou or- 
denar huma Armada pêra ir defcubrir aquel- 
ia coita , em que mandou por Capitão eíte 
feu grande privado Nearcho , que diz Aria- 
no , que fahio pelo rio Indo fora na coita dos 
Arbios , e como fempre tinham andado por 
derredor do Indo , que fe divide em mui- 
tos ramos pêra diíferentes partes , tomando 
differentes nomes , todos os rios que acha- 
vam , cuidavam fer o Indo , e por ifTo diz 
o Roteiro , que fahíra por elle fóra. E co- 
mo não tinham ainda conhecimento das al- 

tu- 



346 ÁSIA de Diogo de Couto 

turás , e gráos da elevação do pólo Artico , 
como depois veio a ter Ptolomeu , fez o Ro- 
teiro daquella viagem por número de efta- 
dios , e por lingraduras , e fegundo ília con- 
ta claramente fe moítra não fahir pelo rio In- 
do fora. E pondo nós nolTo juizo , e fa- 
zendo noíías conjeéturas , conformando-nos 
com o meftno Roteiro de Nearcho, e com 
a conta dos eíladios que navegou , nos pa- 
rece que fahio por hum dos rios da encea- 
da de Cambaya mais chegado a Dio , que 
he o de Madrefaval. E ainda faz parecer 
mais certa nofla conjeélura o que diz o meí- 
mo Nearcho , que querendo fahir pela bo- 
ca do rio Indo fora, achara a barra peque- 
na, e de muita penedia, e que fizera huma 
foíTa pêra huma parte da boca onde havia 
areia , por onde fahíra ao mar largo. Do 
que fe vê muito claro não fahir pelo rio In- 
do , que tirando ôGange, he o mais prof- 
pero , e de melhores barras , que todos os 
da índia , e entram , e fahem por elle for- 
moíiíTimas náos ; e Nearcho não navegou le- 
nao em navios pequenos de remo. Quanto 
mais , que o Roteiro nos eftá claramente mof- 
trando ifto ; porque do rio por onde Near- 
cho fahio até entrar na Gedroíia , andou pe- 
la coita dos Arbios , e Oritios dous mil e 
feifeentos eíladios , que são cem léguas nof- 
£as ., a oito eíladios por milha Italiana , e 

três 



Dec.TV. Liv. IX. Cap. VI. 347 

três milhas erneia por légua; e diz que che- 
gou ao rio Arbio , oncie começavam os Ori^ 
tios, e fe acabavam os Indianos. Do que fe 
vé muito claro fahir com aquella Armada 
do rio Indo pêra dentro rodo aqueile cami- 
nho , e antes de fe acabarem as terras do 
Guzarate , que efía muito averiguado fene- 
ceram na ponta de Jaquete, e todos os que 
dahi pêra fora fahem , já fe não chamam Gu- 
zarates , como nós o averiguámos com os 
mefmos naturaes. E continuando com o Ro- 
teiro defta viagem . diz Nearcho , que palia- 
da a Província dos Oritios , e entrando pe- 
la Gedrofía , lhe ficara o Sol perpendicular, 
e as fombras fe mudavam , como acontecia 
no tempo do Solílicio na Ilha Meroe. Do 
que fe vê começar-fe efía Província hum pou- 
co antes do rio Indo no rio de Cache , por 
fima de quem atravefla o Trópico. E como 
era em Agofto quando fazia efta viagem , e 
o Sol andava fobre o Trópico de Cancro, 
íkava-lhe fobre a cabeça, e achava differen- 
ça nas fombras. Efta Província Gedrofia , 
fegundo Ptolomeu , .fera de cem léguas , por- 
que começa na Cidade Rizana em vinte gráos, 
(que nós temos pela mefma de Cache , ) e 
acaba no rio Arbio em vinte gráos , em que 
ha a mefma diftancia das cem léguas. E fa- 
zer Nearcho efta Província de dez mil efh- 
diosj que são quaíi trezentas eíincoenta lé- 
guas t 



348 ÁSIA de Diogo de Couto 

guas , devia de naícer ou do erro da tra- 
ducçao do Grego , em que Ariano efcreveo 
eíla jornada , ou do engano da eftimativa ; 
porque como fazia conta ás jornadas , dan- 
do tantos eftadios a cada huma , e por aquei- 
las paragens fempre ha impedimento de a- 
guas , de cujo curfo Nearcho não tinha no- 
ticia, achando as correntes contra fi em al- 
gumas paragens , cuidavam que andavam a^ 
vante , e tornavam atrás , dando íingraduras 
ordinárias , porque não tinham conhecimen- 
to da terra, nem de fuás balizas, como nós 
hoje temos , porque por toda a coita da ín- 
dia dentro , e fora do Indo pelas balizas , e 
conhecenças fabemos o que navegamos. E 
daqui viria Nearcho fazer efta Provinda tan- 
to maior que a Carmania , fendo tanto mais 
pequena , como logo adiante moílraremos , 
quando particularmente tratarmos de ambas. 
E tornando ao Roteiro , depois defia Ar- 
mada entrar pela Província Gedrofia , andou 
por ella , e pela de Carmania , Períla , Su- 
íia , até chegar ao rio Eufrates , dezoito mil 
duzentos e íincoenta eftadios , que são mais 
de feiscentas léguas noffas , não havendo da 
boca do rio Indo até o Eufrates mais que 
trezentas e trinta. E querendo os Geógrafos 
modernos , Abrahão Ortelio , João de Ca- 
damafto , Jofefo Moletio , Jeronymo Ruf- 
celli , e outros fazer fuás ta voas , e mappas , 

in- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. 349 

indo bufcar eíle rio Indo por onde Nearcho 
fahio , peia conta dos eíladios que andou , 
aífim em coda a jornada , como dantes de 
chegar a Gedrofia , deram comiigo na encea- 
da de Cambaya y lançando-o da ponta de 
Dio pêra dentro , e deixando os Guzarates 
da banda de fora. Eíle erro lhes fez confun- 
dir o fino Cantincolpus de Ptolomeu com o 
fino Bragazeno , não lançando todos em fuás 
tavoas mais de quatro enceadas da boca do 
Indo até o Gange , deitando Ptolomeu e£- 
tes finco. 

Sinus Cantincolpus , em que o rio In- 
do defearrega com fete bocas , de que a mais 
Oriental he Linabare , que elle mette em vin- 
te gráos do Norte, e a mais Occidental Sa- 
gapa em dezenove e meio , a que Plinio cha- 
ma Sando , ou que feja corrupto de Cinde, 
ou que elle feja de Sando. 

A fegunda enceada he Sino Barigazeno , 
em que mette alguns rios , e os principaes 
são Gaoris , e Rende em dezefeis gráos , que 
parecem os de Baroche , e Surrate , a quem 
os .natura es chamam Narbenda , e Tapeti , 
que eftam hum do outro namefma diílancia 
em que Ptolomeu os põe. 

A terceira enceada he Sinus Colchictis , 
onde mette Cokhi em Porju , que por fem 
dúvida fe tem fer Cochim , que naquelle tem- 
po devia de fer hum grande feio \ porque 

das 



350 ÁSIA de Diogo de Couto 

das efcrituras da índia fetem, que já o mar 
fEaquella parte chegou até o pé do Gate, e 
que depois rceolhendo-fe em feu centro , dei- 
xou aqueila faxa de terra 3 que hoje chamam 
Malavar. 

A quarta cnceada he o Sino Agarico , 
que elle mette do Cabo Comori pêra o Gan- 
ge , que he aqueila 5 que ainda hoje fe vê de 
Beadala até Negapatao. 

A quinta he o Sino Gangetico , em que 
vai defcarregar aquellefsmofo em nome , e 
foberbo em aguas Gange ; e da confusão que 
depois os Geógrafos fizeram nos dous Sinos , 
Cantincolpus , e Barigazeno , fazendo de am- 
bos hum , nafceo a Cidade de Confamba , 
que Ptolomeu mette no Sino Cantincolpus em 
vinte gráos, fazerem-na cabeça doReyno de 
Cambuya , fendo efta a Barigaza , que o me£* 
mo Ptolomeu mette no Sino Barigazeno em 
.... gráos ; por onde fica confundido o er- 
ro dos mappas , e entendidos bem os ter- 
mos , e fins do Reyno Guzarate , em que el- 
les tanto variaram. E quando fallarmos em 
Iiuma Armada , que foi de foccorro ao Cin- 
de , fendo Governador Francifco Barreto > 
moftraremos claramente donde nafceo o er- 
ro dos modernos chamarem áquella Provín- 
cia Dyxtl Cinda, fendo Dyul huma coufa, 
e Cinda outra. Como também com o favor 
Divino pelodecurib dahiítoria moftraremos 

mui- 



Dec. IV.Liv. IX. Càp. VI. 3?l 

muitos nomes próprios de Cidades , Villas, 
rios, promontórios, e muitas outras couías , 
que andam adulteradas nos Efcritores Italia- 
nos , que á índia vieram antes dos Portugue- 
zes , como foram Marco Polo Veneto , Mi- 
cer de Conti , e outros ; porque de traduc- 
çao em traducçao , vindo a mudar fyllabas , 
e letras , perderam de todo os nomes verda- 
deiros , e muito poucos dos que elles no- 
meam são hoje conhecidos neíle Oriente. 
Deixamos Gregos , e Latinos , que iíTo he 
hum pego infinito , do que tem naíeido tão 
grande confusão nos nomes dos íímplices en- 
tre os Médicos , e não nos tem dado pou- 
co trabalho as informações que com os Mou- 
ros , e Gentios tomámos ; porque efereven- 
do hum nome próprio de huma coufa com 
as mefmas letras que elles dizem , quando 
lha tornávamos a recitar , já pelo aítento , 
e pronunciação o não conheciam , porque 
são linguas gro fieiras , e os caraélercs mui 
differentes dos noííbs. 



CA- 



35^ ÁSIA de Diogo de Couto 
CAPITULO VIL 

De como Soltao Badur tratou de fe ir pê- 
ra Meca , efoi contrariado dos f eus : e de 
como mandou pedir joccorro ao Governa- 
dor Nuno da Cunha contra os Magores , 
promettendo-lhe fortaleza em Dio: e de 
como foi ter com elle Martim Ajfonfo de 
Soufa. 

E Tornando a continuar com as coufas 
de Soltao Badur , que deixámos reco- 
lhido na Ilha de Dio, depois de tornar em 
íi , e perder parte do medo que levou , que 
Jhe não deixou fentir o que perdeo , veio a 
cahir na conta , e começou a entriítecer-fe por 
ver , que por íua fraqueza , e máo con-íelho 
perdera em tão pouco tempo o mais pode- 
ioíb , mais rico, e mais eítendid o Império, 
que todos os do Mundo naquelle tempo , 
que via em poder de hum inimigo cruel , 
e tyranno , e de que cada dia tinha novas , 
que fem piedade alguma punha tudo a fer- 
io , e a fogo , e ufando com íèus naturaes 
as mores deshumanidades que fe podiam ima- 
ginar. Ifto femia na alma, e lhe fazia deno- 
do refufcitar o medo com que lhe fugio , 
porque temia o foíTe ainda commetter na- 
quella Ilha, onde lhe não poderia efcapar, 
que quando anaopudeíTe entrar por armas, 

o 



Dec. IV. Liv. IX. C ap. VIL 35-3 

o faria por fome ; porque poflo que nella ti- 
veflè muitos mantimentos , a gente era tan- 
ta , que receava faltarem-lhe. Com eftas ima- 
ginações nao fe quietava, cuidando no que 
faria. E como era fraquiffimo de animo , e 
de condição vil, e baixa, tratava de prover 
mais a fua vida , que a feu Eftado y fazen- 
do muitos diícurfos pêra a poder falvar. E 
em fim de todos veio a determinar-fe de fe 
ir pêra Meca , tomando por eícufa de fua 
fraqueza, que de avorrecldo do Mundo de- 
fejava de ir fervir Mafamede o que da vi- 
da lhe reftaííe ; mandando pêra iflo com mui- 
ta brevidade preparar fere náos , em que en- 
travam dous galeões , pêra fe embarcar com 
fuás mulheres , e theíòuros , começando a 
mandar embarcar coufas neceíTarias pêra a 
jornada y equafi quatro milhões de ouro em 
moeda, e pedraria, com outras riquezas de 
peças , e louçainhas fem conto : e com if- 
to a fua principal mulher , com fuás donas, 
e donzellas. E querendo ultimamente em- 
barcar-fe , foi impedido de alguns Grandes , 
que ainda o acompanhavam , perfuadindo-o 
com muitos rogos , que nao fizeíTe tal jor- 
nada, porque era coufa indigna dehumRey 
táo nomeado no Mundo de rico , e podero- 
ío , porque todos os que o foubeíTcm , o 
haviam de atrribuir mais a covardia , que a 
devoção: que. elle tinha hum remédio mui- 
Couto. Tom. L P. iL Z to 



3^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

to á mão, e muito cerro pêra tornar a co- 
brar íeu Reyno , que era o favor, e ajuda 
dos Portuguezes , que com lhes dar forta- 
leza naquella liha , que era o que o Gover- • 
nador da índia tantos annos havia que pre- j 
Tendia, e que com os ter nella , podia quie- * 
tar-fe , e não rcceiar o inimigo ; e que tan- j 
to que feus vaílallos ouvilíem , que fe pre- J 
parava pêra tornar a cobrar feu Reyno , e 
que os Portuguezes o favoreciam , eílava i 
muito cerro acudirem-lhe rodos j e que pe- I 
lo contrário , vendo-o embarcar , entregariam I 
liberalmente o Reyno aos inimigos , e fica- I 
ria o Império do Guzarate (que tantos an- j 
nos foi Senhor fupremo) debaixo de jugo j 
alheio. Com eftas , e com outras muitas cou- í 
las, que lhes diíTeram , cobrou algum alen- | 
to , e começou a reípirar. E vendo que o ! 
aconfeihavam bem , como era máo , não j 
deixou logo de conceber em feu animo , que | 
pofto que por então concedeííe fortaleza em j 
Dio , tanto que tornaííe a cobrar leu Efía- í 
do , todas as vezes que quizeíle lha tornaria 
a tomar, E mudando parecer , como foi tem- I 
po defpedio as náos que eílavam de verga j 
d'ako , e fez delias Capitão huiíi Mouro mui- 
to feu acceito \ chamado Cafarcan , a quem 
entregou feus thelburos , e lua mulher , dan- j 
do-lhe por regimento , que fe não partiífe [ 
de Judá até nâo ver recado íeu. f A tenção do | 

Ba- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VII. ^ 

Badur mandar cíles thefouros , e a mulher , 
foi , não lhe fahir de todo o medo , e a deí- 
confiança de poder tornar a cobrar feu Ef- 
tado ; porque quando de todo cm todo a 
Fortuna niffo o quizeiTe períeguir , ahi lhe 
ficava então lugar pêra fazer a jornada que 
pertendia , e pafíar-fe a Meca , ainda que 
fofle em trajos mudados , pêra o que queria 
lá ter todas aquellas coulas. Defpachadas ef- 
tas nãos , defpedio logo por Embaixador Xa- 
coez , que era já conhecido do Governador, 
com cartas pêra elle , e procurações baílan- 
tes pcra lhe poder oíFcrecer huma fortale- 
za na Ilha de Dio , pedindo-lhe que logo 
fe foíTe pêra elle com todo o poder que ti- 
veíTe junto ; dando-lhe por regimento , que 
paíTaíTe por Chaul , onde eftava Martim Af- 
foníb de Soufa Capitão mor do mar da ín- 
dia invernando , e lhe déíle cartas que lhe 
efcreveo , em que lhe dizia, que logo íem 
fazer dilação fe folie pêra Dio , porque im- 
portava aflim ao ferviço d'ElRey de Portu- 
gal. Xacoezpartio logo em hum navio mui- 
to ligeiro, e em três dias chegou a Chaul, 
e fe vio com Martim AfFonfo de Soufa , e 
lhe deo as cartas de Soltão Badur, e feu re- 
cado , com que fe alvoroçou muito ; e por- 
que tinha toda a Armada varada por fer a- 
inda entrada de Setembro , embarcou-fe lo- 
go em quatro navios ligeiros com muitos Fi- 
Z ii dal-. 



356 ÁSIA de Diogo de Couto 

dalgos , e Cavalleiros , e deo á vela pcra 
Dio , elcrevendo ao Governador pelo meí- 
■Hio Embaixador a jornada que fazia , dei- 
xando em Chaul ordem pêra logo ir apôs 
■elie toda a Armada , que o Capitão de Chaul 
com muita prefla fez lançar ao mar, e em- 
■barcando-fe feus Capitães o foram feguindo. 
■Martim Affonfo de Soufa atraveífou o gol- 
fo , e foi ferrar a outra eofta , e demandou 
a barra de Dio , e entrou por ella muito 
embandeirado faivando a Cidade, e foi fur- 
gir defronte dos Paços d'EiRey , que eíla- 
vam hum pouco aílima , donde hoje eílá a 
Alfandega ; e logo defenibarcou acompanha- 
do de todos os que com elíe foram , e en- 
trou na Cafa d'ElRey , que o mandou rece- 
ber pelos feus Grandes , e chegando a elie 
lè lhe humilhou , mandando-lhe dizer , que 
era alli vindo pêra o fervir , e que por acu- 
dir a feu chamado deixara toda a fua Ar- 
mada , que logo chegaria , com que elie ef- 
tava muito preftes pêra o fervir em tudo o 
que lhe mandaíTe ; e que quanto aos Mago- 
res , que bem fe podia fegurar , porque era 
quanto aiii eftiveíTem os Portuguezes , elles 
não chegariam á vifta daquella Ilha , e que 
o Governador não- tardaria muito , eque en- 
tão fe faria tudo o que elie mandaíTe. Sol- 
•tão Badur o recebeo honradamente , e lhe 
•agradeceo feus ofFerecimentos , e lhe diííe, 

que 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VIL 357 

que clle eftava preítes pêra dar ao Governa-; 
dor o lugar que quizefle na Ilha , e que pe- 
ra iífo o mandara chamar : que entre tanto 
vifle elle onde fe queria agazalhar , que o 
fizefle 3 e que fe lhe daria tudo o neceífario. 
Martim AíFonfo efcolheo a ponta de íbbre 
.a barra , onde eftava hum baluarte ., e aíii ef- 
teve até chegar a fua Armada , que era de 
quarenta navios. E defembarcando toda a 
gente , poz eftancias em terra , e arvorou fuás 
bandeiras , e começou a correr com o fer- 
viço de Soltao Badur, mandando rodear a 
Ilha pelos catures pêra defenderem os paf- 
fos , fe os Magores os vieílem commetter, 
do que elles não tratavam , porque andavam 
efpalhados peio Reyno a roubar ; e alguns 
Régulos Resbutos por remirem fuás vidas , 
e Eftados fe foram pêra o Magor , e íè fi- 
zeram feus vaífallos j mas outros que viviam 
em ferras, e palTos eftreitos, fortificar a m-fe 
nelías , e fe defenderam , e todos os mais fo- 
ram deílruidos dos Magores , e os que po- 
diam efcapar de fuás mãos vinham fugindo 
pêra Dio , onde eftava Soltao Badur , cui- 
dando que fe feguravam ; porque na verda- 
de , não hacoufa que mais anime' os vaífal- 
los, que a prefença do feu Rey , quando el- 
le não he tão fraco , e acovardado como 
efte bárbaro • que nifto paffou tanto os limi- 
tes da natureza , que nem com quantas fe-. 



35^ ÁSIA de Diogo de Couto 

guranças o Capitão mor lhe dava , e por 
muito que trabalhava pelo animar , nada baf- 
tava ; porque como cada dia vinham os po- 
bres , e miferaveis fugindo de todas as par- 
tes pêra aquella Ilha , atroando o Mundo 
com as cruezas dos Magores , allim íe ihe 
resfriava o langue, e Jhe corria pelas veias 
lium humor frio, e malenconico , que qua- 
ii perdia o fentimento ; e não havia momen- 
to 3 que não rivelfe fobrefaltos , e que lhe 
não parecefle que os Magores eram com el- 
le. ( Quanto pode hum animo fraco de hum 
Capitão , que eíle fó he baftante pêra fazer 
perder tamanhos exércitos como eítes que o 
Badur tinha , que fempre foram vencedores , 
c nunca vencidos ■!) Aqui fe cumprio bem a- 
quelle dito antigo : Que antes tomariam hum 
exercito de ovelhas com hum leão por go- 
vernador, que não hum de leões com huma 
ovelha por capitão. 



CA- 



Década IV. Liv. IX. 359 

CAPITULO VIIL 

Da Armada que ejie anno de 1535 partia 
do Reyno : e de como o Embaixador de 
Cambaya chegou a Goa , e o Governador 
Nuno da Cunha mandou com elle Simão 
Ferreira pêra affent ar com oBadur o con- 
trato das pazes , e dos Capítulos com que 
fe concluíram. 

Artido o Embaixador de Cambaya de 
Chaul , deo-íe tanta preíía , que chegou 
a Goa em três dias ; e fendo o Governador 
avifado de ília vinda, o mandou receber mui 
honradamente por algumas galés , e fendo 
trazido diante delle, orecebeo mui bem, e 
vio as cartas d'ElRey , e do Capitão mor, 
de que foube tudo o que era paliado. O Em- 
baixador lhe díffe de palavra , que EIRey 
feu Senhor ficava em Dio muito alvoroça- 
do eíperando poreile , porque defejava mui- 
to fua amizade , e de lhe dar fortaleza na- 
quella Ilha pêra mor liança delia : que lhe 
rogava , e pedia , que fem fazer detença al- 
guma foííè ter com elle , porque cumpria 
affim a ferviço d 5 ElRey de Portugal. O Go- 
vernador lhe agradeceo aquella vontade que 
EIRey tinha, e fez ao Embaixador muitos 
cumprimentos , mandando-o agazalhar mui 
bem. E vendo que aquillo não era negocio pê- 
ra 



360 ÁSIA de Dia.Go de Couto 

ra fe diffimular, defpedio logo o Embaixador, 
e com elle Simão Ferreira com poderes baf- 
tantes pêra o Capitão mor Martira Afíonfo 
de Souía com elle aífentarem , e confirma- 
rem de novo pazes, dando-lhe algumas in- 
llrucções , e apontamentos , dizendc-lhe que 
em Baçaim efperava por reípoíta fua , por- 
que logo partia apôs elies ; eícre vendo a Soi- 
tao Badur grandes agradecimentos daquclla 
mercê , e que fe íicava embarcando com mui- 
ta preiTa pêra o ir fervir ; e que entre tan- 
to lhe mandava o Secretario , pêra com o 
Capitão mor affentarcm com elle as coufas , 
que cumpriam á fègurança da paz , e ami- 
zade , que já em feu animo ficava firme , e 
fegura. E ao Embaixador fez o Governador 
muitas mercês , edeo muitas peífas , e de ília 
jornada adiante daremos razão. O Governa- 
dor mandou logo com muita preiTa nego- 
ciar galeões , e galés , tàuris , e cotias pêra 
levarem pedreiros , cavouqueiros , fervido- 
res 5 ferramenta J e mais petrechos neceíTarios 
pci^a a obra da fortaleza , de que mandou a- 
juntar grande cópia pelas Tanadarias' de Goa. 
Poucos dias depois' do Embaixador partida , 
chegaram á barra de Goa as náos que eíte 
Março paffado de if$f+ tinham .'parado da. I 
Reyno, que erájai fete ,'<le' que èra Çápitap J 
mor Fernão Pe*res' de Andrade y e os. outros 
Martim de Étefljãip 



Dec. IV. Liv. IX. Ca?. VIII. 361 

geMafcaranhas, Luiz Alvares, Fernão Ca- 
mélia , e Fernão de Moraes. Eftas náos man- 
dou ElPvey cheias de muita , e boa gente , 
e com muito dinheiro 3 e cabedal: íem em- 
bargo de outra muito grande que em Por- 
tugal ordenava pêra mandar defoccorro ao 
Imperador Teu cunhado , que íe fazia pref- 
tes pêra irreftituir a íeu Reyno EIRey M li- 
ça Azei, Tunes , por lho ter tomado Bar- 
baroxa. E o Infante D.Luiz deíejoíb de o 
acompanhar nefta jornada partio fugido , e 
afforrado pela pofía. EIRey feu irmão de- 
pois que o foube , mandou-lhe huma gran- 
de Armada, de que foi Capitão mor Antó- 
nio de Saldanha, e dava Deos naqueile tem- 
po dinheiro pêra todas eílas dcfpezas , não 
rendendo a índia a metade do que depois 
veio a render ; e chegou o Reyno com if- 
to a eftado , que efcalfamente podia armar 
quatro náos pêra eíta carreira. Com a che- 
gada deita Armada fe embarcou o Governa- 
dor , deixando encarregadas as coufas ao Ca- 
pitão da Cidade D. João Pereira , com or- 
dem pêra defpedir as náos pêra irem tornar 
a carga a.Cochim, porque elle havia de def- 
pedir de Dio as vias. Levou o Governador 
cem navios groííos , e miúdos, em que hia 
embarcada muita , e mui luftrofa gente , e 
todas as coufas que lhe pareceram neceífa- 
/ias pêra a fabrica da fortaleza , deixando 

or- 



362 ASIÀ de Diogo de Couto 

ordem pêra fe lhe mandar ainda mais , que 
fe lhe ficavam fazendo , e negociando. Da- 
da á vela com cila frota , foi feguindo lua 
jornada , em que o deixaremos , porque he 
neceífario continuar com Simão Ferreira ? 
que tanto que partio de Goa em companhia 
do Embaixador de Soltão Badur , tanta pref- 
fa fe deo , que antes de quinze de Setem- 
bro chegou a Dio. Simão Ferreira fe defem- 
barcou na eítancia do Capitão mor , e lhe 
deo as cartas do Governador , inítrucçóes , 
e Procurações que levava. O Embaixador foi 
dar conta a EIRey da jornada, e da vinda 
de Simão Ferreira , a que elle logo mandou 
bufear pelo meímo Embaixador , e por to- 
dos os Grandes de fua Cafa , que o levaram > 
indo eile acompanhado de muitos Portugue- 
ses. O Badur o recebeo com muita honra , 
c clíe lhe deo a carta de crença do Governa- 
dor , além de outra que lhe efereveo de cum- 
primentos. EIRey moítrou folgar com aquel- 
lâ preíía , e remetteo todos os negócios a 
Xacoez , e a Medinarrao Capitão da Cida- 
de , e a outros Officiaes de fua Cafa ; por- 
que todos com o Capitão mor capitulaíTem 
as pazes, o que logo fe fez , ajuntando-fe na 
eílancia do Capitão mor , aonde fe aprefen- 
taram os apon. amentos de parte a parte , 
que viftos , e praticados fe vieram a concluir 
na forma íeguinte: 

» Que 



Dec. IV. Liv. IX. Ca?. VIII. 363 

» Que EIRey Soltão Badur fe obrigava 
» a dar logo hum lugar naquella Ilha na pon- 
» ta defobre a barra, pêra íenelle fazer hu- 
» ma fortaleza da grandura , e tamanho que 
» o Governador quizeífe. 

» Que lhe concedia , e dava o Baluarte 
» do mar fem a fua artilheria. 

» Que de novo lhe dava j e confirmava 
)) a Cidade deBaçaim com fuás terras , ejur- 
» dição , aíTim i e da maneira que já pelo ou- 
)> tro contrato lhe tinha dadas. » Eftes são os 
Capítulos que o Badur concedeo. Os feus que 
lhe concederam , são os feguintes : 

» Que todas as mios de Meca , que pe- 
» lo primeiro contrato eram obrigadas irem 
)) a Baçaim , dalli por diante iriam á Ilha de 
» Dio , affim como d'antes coílumavam , ás 
» quaes fe lhes não faria força alguma ; e que 
)) querendo qualquer delias por fua vontade 
)> ir a Baçaim , o poderia fazer ; e aílim o fa- 
» riam todas as náos de todas as mais partes , 
)) que navegariam aílim á ida , como á vinda , 
> pêra onde quizelTem livremente , mas que 
» todas feriam obrigadas a tomar faivo condu- 
» dio dos Capitães d'ÊlRey de Portugal. 

» Que naquella Ilha de Dio não teria El- 
•» Rey de Portugal nenhumas rendas , direi- 
» tos , nem entradas , nem jurdição alguma 
» fobre feus naturaes : e que fomente pof- 
)) fuiria a fortaleza das portas a dentro. 

»Que 



364 ASÍÀ de Diogo de Couto 

5> Que os cavallos da Períia , e Arábia , 
» que pelos contratos paliados eram obriga- 
» dos a ir a Baçaim , d^lli por diapte iriam 
» a Dio , aonde pagariam direitos a EIRey 
» de Portugal , fegundo o coftume de Goa. 
» E que os cavallos que fe aili não compraí- 
» fein 3 poderiam feus donos tornar a levar li* 
» vremente pêra onde quizeflem. E que iííò 
» mefmo todos os cavallos que vieíTem dos 
» portos de Meca feriam livres , e não pa- 
» gariam direitos alguns, 

» Que EIRey de Portugal , e feus Go- 
» vernadores não mandariam fazer guerra ao 
» Eítreko do mar Roxo , nem nos lugares 
» da cofta da Arábia ; e que todas as náos 
5& daquellas partes navegariam livremente fem 
» as noífas Armadas entenderem com ellas. 
» Mas que havendo Armada de Rumes , e 
» Turcos , então os poderiam ir bufear , e 
» fazer-lhes guerra* 

o 

» Que os Reys de Portugal , e os de Gu- 
)) zarate feriam amigos de amigos , e inimi- 
» gos de inimigos. E que o Governador Nu- 
» no da Cunha feria obrigado a ajudar aeí- 
» le Soltao Badur com todo o feu poder por 
»tiiar 5 e por terra contra íèus inimigos,» 

Eíles contratos aíílgnou Soltao Badur, e 
ju"ou de guardar , e cumprir' perante o Ca- 
pitão mor , Simão Ferreira , e Capitães da 
Armada > de que fe paliaram deus iníirumenr- 

tos» 



Dec. IV. Liv. IX. C ap. VIII. ){| 

tos , hum pêra ficar em poder dos Officiaes 
do "Soltão Badur, e outro pêra fe levar ao 
Governador a Baçaim , aonde havia de ef- 
perar por recado. Soltão Badur deípedio lo- 
go o Embaixador Xacoez com o traslado dos 
Capítulos , e lhe efcreveo elle , e o Capitão 
mor 5 pcdindo-lhe que logo fe foííe pêra Dio. 
Chegado Xacoez a Baçaim , já achou o Go- 
vernador , e dandoUie as cartas , e Capítu- 
los , os feftejou muito. E porque a carta do 
Badur he fiibílaneraf , nos pareceo bem ir 
aqui junta , que continha o feguinte : 

» Nomeado do Grande Rey , leão do 
» mar das aguas azuis, Nuno da Cunha por 
» mercê d'EiRey feu Capitão mor. Sabe- 
» reis que o Secretario Simão Ferreira fiel 
» privado em ambas as partes , e Xacoez fi- 
» lho dourado vieram a mim , e me deram 
» a carta que me enviaítes , onde vi , e cn- 
)) tendi mui bem voíía vontade , e defejo y 
» o que antes diflb Xacoez me tinha declara- 
» do ; mas agora por boca de Simão Ferrei- 
» ra me acabei de certificar da voíía amiza- 
» de. Pelo que o que tantos annos ha que íe 
» não pode cumprir , nem vos houvera de 
» vir ás mãos tão cedo , (que he lugar pêra 
» eftarem Portuguezes em Dio, ) eu vos faço 
» mercê delíe da banda que quizerdes , a£ 
y fim como me mandais pedir com todas as 
» condições ; que Simão Ferreira por virtu- 

»de 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

» de da vofía Procuração outorgou , como 
» fabereis por fua carta , e por palavra de Xa- 
»coez, que lavai. Agora he neceffario , que 
» tanto que efta vos for dada , fem dilação 
)> alguma vos venhais com Xacoez. Eu ti- 
» nha eícrito ao Capitão mor que fe vieííe 
» pêra mim , e tanto que vio meu manda- 
» do ? logo fe veio a minha cafa , com o 
)> que eu folguei muito , e o detive pêra me 
» fervir. Feita em Dio a vinte e oito de Se- 
)) tembro. » O Governador tanto que vio os 
Capítulos, e contratos, largando tudo, em- 
barcou-fe com muita preíía , e atreveíTando 
aquelle golfo foi furgir aos dez dias de Ou- 
tubro na barra de Dio , aonde logo foi vi- 
íítado da parte do Soltão Badur , pedindo- 
Ihe que defembarcafíe em terra , que lhe da- 
riam lugar pêra fe apofentar com toda fua 
gente. O Governador lhe reípondeo , que 
logo lhe iria beijar as mãos , e fervillo em 
tudo , porque pêra iíío era alli vindo. Mar- 
tim Affonio de Soufa logo fe vio com o Go- 
vernador, e lhedeo conta doeftado em que 
as coufas eílavam , e chamando todos os Ca- 
pitães , e Fidalgos velhos a confelho , tra- 
tou com eiies íbbre o modo que teria nas 
viftas com Soltão Badur. E por todos foi af- 
fentado , que agora que elle eííava quebra- 
do , e em eílado que fe valia deíle , que o 
foífe vifitar a fua cafa, fem outros pontos 9 

nem 



Dec.IV.Liv.IX.Cap.VIII. eIX. 367 

nem ceremonias , porque também elle citava 
em cama mal defpoíio , e que agora já fe 
viam como amigos. Concluído ifto , mandou 
o Governador recado por toda a Armada > 
pêra que todos fe preparaffem o mais cus- 
teia mente que pudeffem pêra o dia da deí- 
embarcaçao. 

CAPITULO IX. 

De como o Governador Nuno da Cunha fe 
yio com Soltao Badur , e de novo confir- 
^/márarn as fazes 5 e fe começou a forta- 
leza: e de alguns foccorros que o Gover- 
nador âeo ao Soltao Badur contra os Ma- 
gores. 

O terceiro dia da chegada do Gover- 
nador , em que tinha ordenado ver-íe 
com EIRey , paííando toda a gente aos na- 
vios de remo com a enchente da maré , foi 
entrando pêra dentro , porque até então ef- 
teve de fora do baluarte no poufo das náos. 
Hiam os navios formofamente toldados > e 
embandeirados de ledas de cores , tangen- 
do muitos inílrumentos , até defronte das ca- 
las d'ElRey onde furgio , e falvou com to- 
da a artilheria , e o mefmo fizeram os ga- 
leões de fora , dando huma mui foberba , e 
formo fa mofíra. O Governador mudou-fe da 
galé em que lua a hum bargantim toldado 

de 



368 ÁSIA de / Diogo de Couto 

de borcado , e formofamente embandeirado , 
e foi-fe entretendo até todos os navios po- 
rem os proizes em terra de longo da praia 
defronte dos Paços d'ÈlRey , "tegdo o Go- 
vernador dado ordem a todos , pêra que ef- 
.íiveíiem preftes , e armados pêra tudo o que 
íuccedèfle. Depois de todos os navios terem 
chegado a terra , foi o Governador paílan- 
do por entre elles , que o foram falvando por 
ordem , e pondo a proa defronte dos Paços 
defembarcou acompanhado do Capitão mor , 
de Garcia de Sá , Pêro de Faria , Fernão Ro- 
drigues de Caftel-branco Ouvidor geral , e 
de João da Coíla Travaços , que aquelle anno 
chegara de Portugal provido do cargo de Se- 
cretario. A borda da agua achou o Gover- 
nador a Xacoez , e a Medinarrão Capitão 
da Cidade , e com elíes Alucan , Coge Ço- 
far > Zengirean , e outros Capitães que o es- 
peravam por ordem d'EÍRey , a quem o Go- 
vernador fez muitos gazalhados , porque lhos 
deo Xacoez a conhecer ; e aílim acompa- 
nhado de hum grande tropel entrou em Ca- 
ia d'E!Rey. Hia o Governador veíiido á 
Helpanhoía , calças inteiras ricas , çapatos 
de veludo , faio preto até os joelhos aber- 
to , com mangas cortadas , tomados os gol- 
pes com pontas , e botões de pedraria , e 
os braços tirados pelos golpes do faio , e 
por dentro huma coura de feda rica guarne- 
ci- 



Dec. IV- Liv. IX- Cap. IX. 369 

cida de ouro , aos hombros hum rico coL* 
lar efmaltado , na cabeça gorra com plumas r 
e medalha , efpada , adaga , e talabartes de 
ouro , e na mão hum baílão , aífim , e da 
própria maneira que hoje eftá retratado na 
cafa dos Governadores. E como era hum 
dos grandes , e formofos homens de Portu- 
gal , em pondo os olhos nelle , quem o não 
conhecera, logo o julgara por quem era, e 
certo que em tudo parecia digno do cargo 
que reprefentava. Ao entrar da camará em 
que EIRey eílava , o não fez com elle mais 
que Xacoez , e os línguas Marcos Fernan- 
des , e Coje Percoli , e Fidalgos Martim 
Affbnfo de Soufa , Garcia de Sá , Pêro de 
Faria Ouvidor Geral , e Secretario. A caía , 
cm que EIRey eílava , era cuberta de alca- 
tifas ricas por baixo , e as paredes de pan- 
nos de ouro , e káa. Jazia EIRey em h Li- 
ma camilha muito rica , vcftido em huma 
cabaia muito fina , e com huma touca bran- 
ca na cabeça, e nos dedos anneis muito ri- 
cos. O Governador foi entrando pela cafa 
com grande continência , repoufo , e gravi- 
dade , e antes de chegar hum pouco á ca- 
ma d'EÍRey, tirou a gorra, e lhe fez ine- 
íura ao modo Portuguez. EIRey fe fufpen- 
deo todo da cama, e o gazalhou com hum 
rcpouíb alegre , e graciofo. Algumas pef- 
foas dizem, que o mandou aíTentar; outros 
Couto. Tom. L P.iL Aa nos 



370 ÁSIA de Diogo de Couto 

nos afirmaram que ihefallára de pé , eque 
logo o defpedíra ; mas as palavras pontuaes 
que lhe EIRey diffe foram eftas : Venhais 
embora , leão do mar , folgo de vos ver , cou- 
fa que muito defejava. Lomo vindes do ca- 
minho} O Governador fazendo-lhe fua cor- 
tezia , lhe mandou refponder pela língua , 
que vinha mui bem pêra fervir a Sua Alte- 
za 3 como amigo que era d'ElRcy de Portu- 
gal feu Senhor , pêra o que eítava preíles 
com todo o poder que na Índia tinha, EI- 
Rey moftrou folgar muito com aquelles com- 
primentos 5 e lhe diííe que foífe repoular , 
que Xacoez , e Medinarrao correriam com 
elle em todas as coufas que foííem neceíTa- 
rias 5 porque pêra tudo lhes tinha dado feus 
poderes. O Goverríador fe defpedio dellc , 
efe tornou a embarcar, acompanhando-oaté 
á praia todos os da Cafa d 5 ElRey , elevan- 
do ancora foi furgir com toda a Armada de- 
fronte da ponta onde eftava o Capitão mor. 
Ao diafeguinte defembarcou, e mandou ar- 
mar luas tendas , e logo foram a elle Xacoez , 
e Medinarrao , e começaram a tratar os ne- 
gocios ? e de novo tornaram a renovar as 
Capitulações, e fe juraram as pazes aos vin- 
te e finco dias do mez de Outubro 5 aílim por 
EIRey a feu modo , como pelo Governa- 
dor ; o que fe fez com a mor folemnidade , 
pompa 3 e mageílade que podia fer ; com mui- 
to 



Dec. IV. Lív. IX. Cap. IX. 371 

to goílo (fegundo então parecia) d'E!Rey , 
que na verdade o não tinha , como depois 
moftrou. E logo o Governador correo com 
Medínarrão , Xacoez , e mais Officiaes d'El- 
Rey , que foram ver , e marcar o lugar pê- 
ra a fortaleza , que o Governador efcolheo 
á fua vontade , e lhe poz feus marcos , e 
balizas , de que foi logo mettido de pofle 
pelos Officiaes dTURey , e aííim do baluar- 
te do mar , tirando-lhe primeiro a artilheria 
que dentro tinha conforme ao contrato. Ef- 
ta poííe fe celebrou com grande apparato , 
e inílrumentos de alegria , e de tudo fe fize- 
ram autos f e papeis aílinados por EIRey , 
e por feus Officiaes , que devem de eftar na 
Torre do Tombo do Reyno , porque na ín- 
dia não ha mais que algumas lembranças em 
alguns livros velhos de Regimentos daquel- 
la fortaleza , donde nós tirámos a fubílan- 
cia. Feito ifto , mandou o Governador defem- 
barcar as coufas necefifarias pêra a fortaleza > 
e toda a gente Canarim que de Goa trou- 
xe , affim de armas , como de officiaes , que 
fe apofemáram em huma parte da Ilha fe- 
parada , que de feu nome fe ficou chamando 
Canarim Vara , que em fua lingua quer dizer : 
Povoação dosCanafins. E os Officiaes d'EI- 
Rey mandaram trazer das aldeias vizinhas hu- 
ma grande cópia de cavouqueiros > epedrei* 
ros, com que logo mandou o Governador 
Aa ii pôr 



372 ASIÀ de Diogo de Couto 

par mãos á obra dos aliceííes , dando elle 
as primeiras en-xadadas ao fom de muitos in- 
ílrumentos, feitas , e alegrias. Foram-fe a- 
brindo os aliceííes de mar a mar com tan- 
ta prefla , que quando foi aos vinte c hum 
do mez de Dezembro , (dia do Bemaventu- 
rado Apoftolo S. Thomé Padroeiro da ín- 
dia , ) lançou o Governador com lua mão a 
primeira pedra do baluarte, a que fe deo o 
nome do Santo , o que fe fez com grande 
folemnidade de Prelados reveftidos , que co- 
mo hecoftume a benzeram. Começou-fe com 
muita prefla a pôr as máos á obra , fendo 
os primeiros que apegavam das padiolas, e 
dos ceftos de cal os Fidalgos, e Capitães, 
achando-fe fempre o Governador prefente a 
tudo , e feítejando-fe tanto a obra da parte 
dos naturaes , como da nofla , andando fem- 
pre o Governador com a mão na bolfa , 
dando aos pobres , e miferaveis que traba- 
lhavam , e fazendo mercês a muitos outros , 
com o que acudiam tantos que fobejavam. 
A hum Fidalgo honrado daquelle tempo ou- 
vimos dizer , que vendo Nuno da Cunha o 
íitio da fortaleza , e a prefla com que fe fa- 
zia , olhando pêra certos Fidalgos que. cita- 
vam jum© delle , lhes diflera : Vedes vós , Se- 
nhores , efia fortaleza , que com tanto alvo- 
roço fe faz , fabei que ainda ha de fer fe* 
fultura de muitos Portugueses : e praza a 

Decs 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IX. 373 

Deos que fe tenha cumprido cila profecia 
nos que morreram naquelles dous efpanto- 
fos cercos , que adiante tratamos na quinta , 
e fèxta Década. Indo a obra crefeendo , não 
deixavam de acudir a Dio os rebates dos Ma- 
go res 3 que ainda andavam pelas terras do 
Reyno de Cambaya á fua vontade , e na- 
quelks dias chegou hum catar de Baroche 
com carta daqueiie Capitão , em que pedia 
a EIRey o foccorreile , porque tinha por no- 
vas , que os Magores determinavam de ir 
commetter aqueila Cidade , pêra o que el!e 
fe qui7j valer do Governador , e lhe man- 
dou pedir algum Capitão com foldados pê- 
ra fe irem metter nella , e favorecerem os 
feus, porque coin verem Portuguezes fe ani- 
mariam todos a fe defenderem. O Governa- 
dor encommendou aquelle negocio a Manoel 
de Macedo , a quem deo dous navios com 
lètenta Portuguezes , mandando Soltão Ba- 
dur em fua companhia hum Capitão feu com 
quinhentos homens em outros navios. E fa- 
zendo-fe á vela , chegaram a Baroche , e Ma- 
noel de Macedo fe foi metter na Cidade , 
e com o Capido delia andou vendo os mu- 
ros , e baluartes , provendo- os de gente , e 
Capitães , e renovando algumas partes ro- 
tas , e damnifícadas , deixando fe elíe ficar de 
fora com os feus foldados pêra acudir on- 
de foffe neceflario > animando , e esforçan- 
do 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

do os naturaes pelos ver acovardados , e ate- 
morizados das coufas que cada dm ouviam 
dos Magores. Hamau Paxá , que andava já 
iènhor de todo o Império Guzarate , eftava 
na Cidade de Amadabá , e dalli defpedio íeu 
irmão Aícan Mirza com dez mil cavallos 
pêra ir dar na Cidade deBerodora, eBaro- 
che , que eram grandes , e ricas. Efte pelo 
caminho foi deftruindo todas asVillas, e lu- 
gares até chegar á Cidade de Berodora , que 
era riquiffima , em que fe fazem as mais fi- 
nas roupas de cores , e capas pêra as col- 
chas de todo o Guzarate, Efta Cidade tan- 
to que teve novas de fua vinda fe lhe def- 
pejou porfer toda de Gentios mecânicos , e 
entrando-a os Magores , fem refiftencia a fa- 
queáram , e roubaram , deftruindo 5 e aflb- 
Jando feus edifícios , que eram muitos , mui 
grandes , e fumptuofos. Depois de fartos de 
roubos 5 e cruezas foram caminhando pêra 
Baroche , levando diante de fi muita gente 
que lhe hia fugindo , que deo novas em Ba- 
roche como os Magores vinham apôs el- 
hs. Ifto metteo tamanho medo nos naturaes , 
qu£ fem efperarem ver o rofto aos inimigos , 
largando tudo começaram a fugir, e a def- 
amparar a Cidade , que era cercada á roda 
de muros , e baluartes , e por nenhum cafo 
os Magores os podiam entrar, fe houveíTe 
qualquer defensão. Manoel de Macedo ven- 
do 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IX. 375: 

doaquclle medo, edefatino tanto nos gran- 
des , como nos pequenos , acudio com mui- 
ta preíía aos deter , esforçando-os , e animan- 
do-os , e pcrfuadindo-os a lhe ajudarem a 
defender lua Cidade , que elle com os Por- 
tuguezes que tinha a defenderiam até mor- 
rerem todos; e que era pouquidade , e co- 
vardia de animo fugirem fem verem de que : 
que efpcraíTern os inimigos , e que quando 
viffem que elle os não rebatia , e affaftava 
dos muros daquella Cidade , que então fi- 
zeflem de íi o que lhes melhor vieííe; dan- 
do-lhes muitas razões pêra não haverem de 
recear os Magores , e que de hum dia pê- 
ra o outro teriam muitos fcccorros do Go- 
vernador. Mas como o medo tinha já entra- 
do em feus corações . nenhuma deitas cou- 
fas os quietou , antes defordenadamente fe 
foram da Cidade largando-a ,' e deixando-a 
deferta affim os moradores , como o Capi- 
tão , e gente que EIRey mandou em fua com- 
panhia. Vendo Manoel de Macedo aquelle 
defatino , deixou-íè ficar na Cidade até appa- 
recerem os inimigos. E não fendo poflivel 
defendella , por ter mais de huma légua em 
roda, também fe embarcou em feus navios, 
e fe fez á vela pêra Dio , e deo conta ao 
Governador de tudo o que paliou , e elle 
lhe teve muito a bem o que fez. 

CA- 



37$ ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO X, 

De como líamau PaxáRey dos Magores fe 
recolheopera feus Reynos , por lhe entrar 
por elies hum Rey dos Patanes : e de co- 
mo Saltão Badur o foi feguindo , indo em 
fua companhia Martim Ajfonfo de Soufa : 
e do que lhe na jornada aconteceo. 

I?. o Governador Nano da Cunha con- 
tinuando na obra da fortaleza com tan- 
ta prefla , que aos nove dias de Fevereiro, 
dia de Santa Apollonia , eílava já toda em ro- 
da na altura do andar das ameias 9 e no mef- 
mo tempo fe acabou a cava ; porque pela 
multidão dos trabalhadores fe repartiram os 
baluartes de feição , que quando fe acabou 
hum , acabaram todos. Soitão Badur trazia 
grandes efpias fobre os inimigos , e cada dia 
era avifado do que faziam , e perto dos 
quinze dias de Fevereiro teve rebate que os 
Magores fe recolhiam pêra fuás terras mui 
apreífados por lhes virem novas que os Pa^ 
tanes vinham fobre ellas. Com eftas novas 
resfolegou o Badur , e começou a fazer pre- 
paramemos , e ajuntar a gente de cavallo, 
que eílava recolhida pelas aldeias da outra 
banda pêra ir apôs os inimigos , mandando 
diante alguns Capitães pêra que foíTçm a^ 
juntando toda a gente que pudeíTem 7 como 



Deg. IV. Liv. IX. Cap. X. 377 

fizeram. Elle fe poz em campo com dez mil 
de cavallo, que eram os ordinários , e que 
o leguiam femprej e mandou pedir ao Go- 
vernador > que lhe défie Martim AíFonío de 
Souía com mil Portuguezes pêra o acompa- 
nhar ncíía jornada. O Governador vendo que 
pelo contrato das pazes eftava obrigado a 
lhe dar todo o favor, e ajuda que lhe pe- 
dilTe , e por outra parte entendendo que fe 
lhe concede/Te o que pedia , punha toda a? 
quella gente a muito grande riíco , e peri- 
go, porque não fabia feaquella retirada dos 
Magores feria invenção, e ardil de guerra, 
pêra ver fe podia haver ás mãos o Badur; 
porque fendo aflim , e voltando os inimigos , 
eftava muito certa ília perdição por iiia gran- 
de covardia 5 e que os Portuguezes haviam 
de ficar todos na cilada , porque não haviam 
de fugir. E praticando todas eftas coufas em 
.coníelho com os Capitães , e Fidalgos ve- 
lhos , jhespedio feu parecer. Mas primeiro 
que fallaflem , como Martim Affonfo pre- 
cedia a todos por Capitão mor do mar, le- 
vantou-fe em pé , e difle , que elle eftava pref- 
tes pêra naquelle negocio arrifear a vida , 
Jionra , e liberdade , porque menos era per- 
der tudo ifto , que huma tamanha occaílão 
de moftrar a lealdade , e valor Portuguez , 
e ganhar naquella jornada huma tamanha 
iionra ; e que quanto maior foífe o perigo , 

tan- 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

tanto maior era o defejo que tinha de fe ver 
nellc. Quanto mais , que nada fe arrifcava 
em feguir homens , que já por fi hiam des- 
baratados, e defmandados , acudindo a fuás 
Terras : que lhe fizeííe mercê conceder-lhe a- 
quella jornada , porque negando-lha, maior 
rifco corria a fama do nome Portuguez , que 
fua vida , e mais eítando tão obrigado pelo 
contrato das pazes, que tinha juradas de lhe 
dar todo favor, e ajuda neceífaria pêra tor- 
nar a cobrar feus Reynos , e que por íima 
de tudo fo pela confiança , queaquelle Rey 
attribulado tinha nos Portuguezes , fe lhe ha- 
via de conceder o que pedia. O Governador 
lhe louvou aquelle zelo, e vontade com que 
fe oííerecia pêra aquella jornada , aífim por 
ierviço do feu Rey , como por honra de fua 
nação , e aífim lha concedeo , aílinando-lhe 
quinhentos homens , o que lhe elle teve em 
mercê. E logo lhe acudiram a fe lhe offere- 
cerem os melhores , e mais luítroíòs de toda 
a Armada. Soltão Badur eííimou muito a- 
quelle foccorro , porque lhe foi Martim Af- 
fonfo dar moftra com a fua gente , que foi 
huma coufa formofiílima de ver ; e mandou 
dar cavalíos a todas as peífoas que os qui- 
zeram , e todas as mais coufas neceífarias. 
EIRey pafibu-fe logo á outra banda , e co- 
meçou a marchar, levando fempre apar de 
íi Martim AíFonfo com todos os Portugue- 
zes, 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. X. 379 

zes , que tomou pêra guarda de fua peííòa. 
Os Fidalgos , e pelToas principaes que fo- 
ram neíia jornada eram Manoel cie Soufa 
primo com irmão de Martim ÁfFonlb de 
Soufa , Fernão de Soufa de Távora , Fran- 
cifco de Sá dos ocolos , D. Diogo de Al- 
meida Freire , Martim Corrêa da Silva , Ma- 
noel de Soufa de Sepúlveda , António Mo- 
niz Barreto , e hum Foao Freire , que era 
provido da Capitania de Cananor , e outros. 
EIRey foi caminhando apreííadamente , e 
antes de chegar á Cidade deAmadabá, te- 
ve rebate que os inimigos tornavam a vol- 
tar 5 e apôs o recado começou a vir o tro* 
pel das gentes das aldeias , que vinham fu- 
gindo. Soltão Badur ficou tão fobrefaltado, 
que perdido o animo perguntou a Martim 
Affonfo de Soufa que faria , (que como ef- 
tava fora do medo que elle tinha , e natu- 
ralmente era refoluto , e de grande coftfer 
lho) diíle , que fe recolheíTe a hum monte 
grande que eftava no cabo do campo em que 
el!es eftavam , ( pêra onde vio recolher toda 
aquella gente que vinha fugindo, que eftava 
iodo cuberto delia , ) e que alli no cume delle 
puzeíTe as infignias Reaes, porque vendo-as os 
inimigos , e cuidando que toda aquella gen- 
te era de guerra , eftava certo não o oufa- 
rem a commetter. E pofto que o quizeflem 
fazer., o monte era grande, e accommoda-r 

do 



380 ASIÀ de Diogo de Couto 

do pêra fe defenderem nelle , e que fe fe- 
gurafle , porque elle , e todos os Portugue- 
ses o defenderiam ao Mundo todo , e que 
primeiro haviam de morrer diante deile por 
defensão de fua peíToa , que feus próprios na- 
turaes. O Badur pareceo-lhe bem aquelle con- 
felho , quietando-fe com ver o animo, e fé* 
gurança de Martim Aítonfo de Soufa , e foi* 
th recolhendo pêra o monte fernpre no meio 
dos noífos ; e ainda não era bem em ííma , 
quando arrebentou pelo campo Afcari Mir- 
%'á irmão do Rey dos Magores com oito ml 
de cavallo efcolhidos , que fe vinha recolhenr 
do de Baroche , por EÍRey leu irmão lhe 
ter mandado recado que fe rccolhefle, e fi- 
ca (Te com aquella gente na fua retaguarda , 
como o hia fazendo. E eílando na Cidade 
deAmadabá teve avifo de como Soltão Ba- 
dur hia apôs elle com pouco poder ; peio 
que tornou a voltar por ver fe o podia co- 
lher ; e tanto que chegou aquelle campo , 
que vio a multidão de gente fobre o mon- 
te , conhecendo as infignias Reaes , cuidan- 
do (como Martim AíFonfo de Soufa diíTe) 
que toda era de guerra , foi dando viíla pe- 
lo pé do monte , e cingindo o campo defap- 
pareceo delle. Martim Aífonfo de Soufa, con- 
tra vontade d^ElRey, com efles poucos de 
cavallo de fua companhia defceo abaixo pê- 
ra tomar viíla dos inimigos , e os vio en- 
trar 



Deg. IV. Liv. IX. Cap. X. 381 

trar por algumas aldeias a que deram fogo; 
e vendo que não podia remediar aqueJles da- 
mnos por não ter gente, tornou-iè à reco- 
lher muito pez aro fo de lhe não poder dar 
hum toque. O Badur ficou alli toda aquelia 
noite com grandes vigias , deitando eípias 
apôs os Magores , e ao outro dia foube fe- 
rem recolhidos. E receando-fe de outras ci- 
ladas , tratou de fe recolher a Dio , mandan- 
do alguns Capitães com cavallos ligeiros pê- 
ra feguirem os inimigos até de todo os lan- 
çarem fora do Reyno. EIRey chegou a Dio 
muito contente dos nofTos , e fez a todos 
muitas mercês , e entre tantos males hum fó 
bem tinha , que era fer muito liberal , e gran- 
diofo , e tanto > que fe affirma , que vifitan- 
do-o Manim AíFonfo de Soufa dia de Reys , 
lhe dera elle peças de ouro 3 e pedraria 5 que 
valiam vinte mil cruzados , porque lhe dif- 
fe João de Sant-lago , que naquelle dia fe 
coftymavam a dar Reys. Aílim deixaremos 
agora eftas coufas , por darmos a conhecer 
os Magores , em que até agora falíamos ^ 
porque he aílim neceíTano pêra a hiíioria. 



DE- 



^' j£^ ■ % iuc* À ***** jí*nC"l 

DÉCADA QUARTA. 
LIVRO X. 

Da Hiftoria da índia. 

p— ■■■■■ ! ^ ■■ ■ .1 i 

CAPITULO L 

Da origem , e principio dos Magores , e Tár- 
taros , e 'Províncias que pojjuíram : e do 
tempo em que receberam a Lei de Chri- 
jlo : e de como entre elles fe conftituio a 
dignidade do Prejle João , a que chamam 
das índias : e de como fe trafpajjbu no 
Imperador da Ethiopia. 

A que agora tratamos dos Magores , (de 
que muitas vezes havemos de fallar,) 
razão fera que os demos a conhecer ao 
Mundo , e moftremos donde tiveram prin- 
cipio , e origem ; porque nos não lembra ter- 
mos vifto efcritura alguma , que nos défle 
verdadeiro conhecimento deites bárbaros , 
poíto que confufamente muitos Authores ef- 
creveíTem delles , havendo-os por Tártaros, 
o que tudo logo apontaremos , e traremos 
a verdade á luz y porque a tirámos de fuás 

pro- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. I. 383 

próprias hiílorias , que em lingua Perfica a- 
chámos em poder de huns Embaixadores 
dos mefmos Magores , que a eíla Cidade de 
Goa vieram. E porque havemos de tomar 
a coufa de longe 3 e forçado nos havemos 
de eílender, nos devem perdoar os leitores, 
poílo que iíto fervirá fó pêra curiofos de an- 
tiguidades , que nos devem bem de agrade- 
cer o trabalho , que nifto tomamos , por ti* 
rar a confusão que até agora houve neílas 
coufas. Pelo que fe ha de faber 5 que nas his- 
torias Tártaras , e Períicas fe acha proce- 
derem eftas gentes de hum dos netos de Noé 
(a que elles chamam Noa) filho dejaphet, 
chamado Turc , que na repartição do Mun- 
do dizem caber-lhe efta parte de Afia. Def* 
te Turc não achamos feito memoria em eft 
critura alguma outra ; porque nem na Sagra- 
da, nememjofefo feAntiquitatibus^ nem 
cm Berofo, nem em todos os mais Autho- 
res , que efcrevêram da povoação do Mun- 
do depois do diluvio , não achamos nomea- 
do ajaphet, mais deílesfete filhos , Gomer, 
Magog , Medir, Javan, Tubal , Mofcho , 
e Tiras , que povoaram toda a região que 
jaz do monte Amano , e Tauro até o Ta- 
nais. Deites dizem t que o fegundo chama- 
do Magog , e pela ventura , que eíle feja o 
Turc , formou de íi os Magogas , a quem os 
Gregos chamam Scithas. Por onde pois dam 

as 



384 ÁSIA de Diogo de Couto 

as eícrituras Tártaras a eíle Turc feu prin- 
cipio , e affirmam fer filho dejaphet, deve 
fer ■ efte omeímoMagog, e peia ventura que 
o Turc ícja filho defte , que niíío vai pou- 
co. Efte Turc entre alguns filhos que teve , 
o mais velho fe chamou Acharus , que tam- 
bém teve muitos filhos, e o maior foi Hun- 
cha , deites nafcèram outros , o primeiro foi 
Debacu , eíle gerou a Cuive , com outros 
irmãos de Cuive nalceo Alangim , e outros 
filhos, porque elles náo fazem menção mais 
cjue dos primogénitos , que ficavam antre el- 
les como cabeças , e juizes dos mais. Eíte 
Alangim teve muitos filhos , e os dous pri- 
meiros fe chamaram Tartar , eMongal. Ef- 
tes lendo homens , (por haver já grande mul- 
tiplicação , e hum grande número de homens , 
e mulheres , divididos em tribos , governa- 
dos, e regidos pelos irmãos mais velhos,) 
trataram de fe dividirem , e apartarem ; af- 
ílm porque a parte em que viviam os não 
podia fuítentar já a todos , como porque en- 
trava já com elles a cubica de reinar. E aP 
fim o Tartar mais velho efeolheo aqueiia par- 
te debaixo do Norte , aue jaz de feífenta e 
iers grãos pêra lima fora do Imao , a que 
Ptolomeu chanca Scirhia. E porque até en- 
tão nenhuma terra daqueilas tinha nome pró- 
prio , nem havia Cidades , nem povaçóes , 
por viverem debaixo das Lapas > poz o Tar- 
tar 



Dec. IV- Liv. X. Cap. t 3§y 

tar aquella parte que efcolheo Tartaria. O 
fegundo irmão Moilgal foi defcendo pêra 
baixo com íua família , e com muitas trk 
bus que o quizerain feguir, e foi parar do' 
Imao pêra dentro de feffenta gráos pêra bai- 
xo, e parecendo-lhe aterra bem , deixou-íe' 
ficar neila , pondo nome a toda aquella Pro- 
vinc;a Mongalia , e por tempos todos os feus 
povoadores delia fe chamaram Mongales , 
que he o feu verdadeiro nome, e não Ma- 
gores , como corruptamente lhe chamamos. 
E íuccedendo-lhes os filhos mais velhos no 
governo , vieram a formar povoações ,> e di- 
vidir toda aquella parte em Províncias ,- co- 
mo a de Sanchion, Saccuir, Campion ,. Ge- 
orza, Bargu , Carcorim , Tangut , e outras r 
que todas tomaram o nome de feus povoa- 
dores , fieando-fe chamando Mongalia. De£ 
ta Provinda nos deram eonfufamente conhe- 
cimento os Padres Fr. Odorico de Frivli 
da Ordem dos Menores ^ que faleceo nos 
annos de 1331 Santo, e fazendo milagres; 
e o Padre Fr. Anfelmo Dominico , que nos» 
de 1 247 o Papa Innocencio IV mandou por 
Embaixadores ao Grão Cão Senhor do Ca- 
thayo , que era Chriftão , (como refere Mar- 
co Polo Veneto no feu Itinerário , ) que não 
fazendo differenças deitas Províncias , Tar- 
taria , e Mongalia , as fazem ambas huma r 
como fe vê no primeiro capitulo do feu Iti- 
Couto. Tom. L P« //♦ Bb m« 



38o ÁSIA de Diogo de Couto 

nerario , que daquella jornada fizeram , que 
anda junto ao de Marco Polo , onde dizem 
achar- fe nas partes do Oriente huma Provín- 
cia chamada Alongai , ou Tartaria ; e que 
eftava íituada naquella parte que o Oriente 
fe ajunta com o Aquiion , e que não tinha 
Cidades, nemVillas, ainda que fomente hu- 
ma chamada Corcorim. Abifalda Iímael 3 que 
foi hum Senhor da Suria , grande Cofmogra- 
fo , (que concorreo nos annos de Mafame- 
de fetecentos e quinze , que são de nofía Re- 
dempçao 1308,) na defcripção que faz da 
Província da China, diz, que da parte do 
Ponente tem a índia do meio dia o mar In- 
dico , do Levante o mar Oriental , e da Tra- 
montana as Províncias de Magog. Muílero 
na lua Cofmografia diz no feu quinto livro y 
que Mongalia , e Tartaria são huma meí- 
ma Província. Marco Polo Veneto no fe- 
gundo livro do feu Itinerário foi. 16 , fallan- 
do da Província Tendur diz , que junto del- 
ia ha duas regiões, chamadas Og , e Ma- 
gog , e os que nellas moram fe chamam Ung, 
e Mongal : em cada huma delias ha huma 
nação de gente , e que os de Ung sao Cog , 
e os de Mongal são Tártaros. Deita confu- 
são (que havia denafcer da traducção do feu 
livro ) vieram os noífos modernos a faze- 
rem os Magores , e Chaquetaes (de que lo- 
go faltaremos ) Tártaros ? fendo bem diíFe- 

ren- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. I. 387 

rentes nas Províncias , pofto que todos des- 
cendam de huns mefmos avoengos ; como 
por exemplo vemos nos Hefpanhoes , e Por- 
tuguezes , que procedendo todos de Tubal 9 
que povoou as Hefpanhas, huns fe chama- 
ram Hefpanhoes de Hifpan , filho deHifpa- 
lis , e os outros Luíítanos de Lufo filho de 
Siccelio , que foi o primeiro que naquella 
parte reinou antes da vinda de Chrifto 15*05 , 
íègundo Berofo. Affim todos os que ficaram 
povoando aquella parte, que já . moftrámos , 
que coube ao irmão Tartar ? fe ficou cha- 
mando Tartaria , e feus naturaes Tártaros. 
E a que coube ao irmão Mongal fe cha- 
mou Mongalia , e todos os habitadores del- 
ia Mongales. Eftes foram fempre mais fa- 
mofos , e poderofos que os Tártaros, ecòn- 
quiíláram mais Provincias , e Reynos que el- 
les , como adiante fe verá. Eíla gloria lhe 
tem roubado o tempo pela confusão que 
houve em os haverem por Tártaros todos 
os que até hoje efcrevêram. E deixando os 
descendentes do Tartar , continuaremos com 
os de Mongal. 

A eíle nafceo bum filho com as mãos fe- 
chadas , e abrindo-lhas lhe acharam dentro 
poílas de fangue ; pelo que lhe puzeram no- 
me Ogus , que quer dizer abrir. Eíle teve 
íeis filhos , e o mais velho fe chamou Gun 7 
que foi o primeiro que começou agovernaf 
Bb ii an- 



388 ÁSIA DE DlOGQ de Cot; TO 

antre elles com mais fuperioridade > toman- 
do titulo de Can , a que commummente cha- 
mamos Cão , que antre elles quer dizer Se- 
nhor , ficando-fe chamando Gunchan. Eíle 
teve muitos filhos , e o que lhe fuecedeo na 
governança fe chamou Hiel-Dux-Chan, que 
quer dizer em fua língua FJírella por íèr 
formoío : e affirmam , que naíceo com hu- 
ma na tefta. Aelle fuecedeo íeu filho Mun- 
gel Chan 5 e a elle feu filho Tanguis Chan , 
e apôs elle fuecedeo leu filho Hil Chan. No 
tempo deite reinava na Província Tartaria 
hum Senhor chamado Feridum. Todos ef- 
tes Magores teve debaixo de feu dominio, 
e difeorrendo pêra o Ponente fujeitou toda 
aquella Província , que corre dos defertos de 
Lop até o rio Jafartes por quarenta e oito 
gráos até os íincoenta , onde deixou hum fi- 
lho chamado Turc , que deo nome a toda 
aquella região de Turc , e Eílan , que quer 
dizer Província de Turc; e fujeitou também 
pêra o Ponente Afogdiana , Badtriana , Ara- 
cofia , e outras Províncias. E porque até en- 
tão não havia Cidades , nem povoações por 
aquellas partes por ferem todos os feus na- 
turaès como brutos , edificou efte bárbaro de 
novo algumas. Na Mongalia fez huma for- 
mofa Cidade chamada Mavarena , de que 
hoje não ha noticia ; mas por conjeituras jul- 
gamos que deve de fer a de Tendul 5 que 

íèm- 



Dec. IV. Liv. X Cap. I. 389 

fempre foi cabeça , e aífento dos Reys que 
alli reinaram. Outra Cidade edificou na Sog- 
diana , a que chamou Comarcant , que até 
hoje conferva feu nome. Outra fez na Pro- 
víncia Bac Triana, chamada Bale, aonde já 
refidíram feus Reys , e hoje he mui conhe- 
cida , por fer huma das principaes Cidades 
do Império Coraçone , a quem depois os 
Husbeques a tomaram , como em feu lugar 
diremos. Defta feita ficaram os Tártaros íé- 
nhores de ambas as Províncias Tartaria , e 
Mongalia perto de duzentos annos; até que 
hum Senhor de Mongalia chamado Hiel 
Dux, ajuntando os Magores , que andavam 
derramados pelos campos , fazendo-fe cabe- 
ça de todos elles , tornou a fenhorear toda a- 
^uella Província , e" ainda parte de Tartaria, 
matando aquelle Rey em huma batalha, Tor- 
naram aífim os Tártaros a ficar fem cabeça , 
vivendo pelos campos fem ordem com feus 
gados , e famílias , fazendo-fe os Reys que 
foram fuçcedendo na Mongalia muito pode- 
rofos , até que o Filho de Deos veio á ter- 
ra a remir o género humano, e feus Difci- 
pulos fe efpalháram pelo Mundo a pregar a 
Lei de Graça , que os Magores receberam 
logo no principio, Mas como naquelle tem- 
po não ufavam ainda de leiras , nem cara- 
cteres , nem tinham conta de annos , nem 
entendiam as revoluções da Lua , n^o fabem 

di- 



390 ÁSIA de Diogo de Couto 

dizer em que tempo, nem por quem foram 
feitos Chriílãos. E revolvendo nós fobre if- 
fo muitos livros , por íem dúvida temos , 
que o Bemavemurado Apoílolo S. Thomé 
foi o primeiro que lhes pregou a Lei Evan- 
gélica , e que deo ordem áquella Chriílan- 
dade , que fe infere muito claro daquellas 
palavras de Santo Ifidoro no feu livro de Or- 
tu , & obitu Santtorum , onde diz allim : 
» O Santo Apoílolo Thomé pregou o Evan- 
» gelho aos Parthos , Medos , Perfas , Balo- 
» trianos , e paíTando adiante ás partes Orien- 
» taes , e á terra dos Índios , pregou até fua 
» morte , que foi ás lançadas. » E como os 
Tártaros , e Magores mifturados andavam 
conquiílando aquellas Províncias , de crer he 
•que o Santo os converteria facilmente , por- 
que até então viviam fem lei , e adoravam 
o Sol como author de todas as coufas crea- 
das. Santo Antonino na primeira parte, fal- 
]ando do Apoílolo , diz eílas palavras : » E 
» depois diílo foi o Santo Apoílolo á índia 
» fuperior , onde fez muitos milagres , e con- 
» verteo muita gente. » Donde fe vê clara- 
mente , que paflbu ás partes aílima da índia 
bem pêra baixo do Norte , a que os Geó- 
grafos modernos chamam índia fuperior , ou 
índia maior em difFerença da noíTa que he 
a menor. E o que certifica mais eíla noíTa 
opinião 5 foi o teílemunho de hum Bifpo Ar- 
me- 



Dec. IV- Liv. X. Ca?. L 391 

menio natural de Babylofiia , que na Cida- 
de de Meliapor foi perguntado por coufas 
do Santo em huma inquirição , que EiRey 
D. João mandou tirar da vida , morte , e 
milagres deíle Santo , em cio teítemunho 
diz o Bifpo eiras palavras : » Que havia quin- 
» ze annos que eílava naquelia Cidade de Me- 
Ȓiapor, e que ouvira dizer a muitos Chri- 
» ftaos , e Gentios velhos de Biínagá , e em 
» Babylonia , donde era natural , que o Apof- 
» tolo S. Thomé fora enviado por Deos Nof- 
)> fo Senhor a eílas partes da índia em com- 
» panhia de Judas Thaddeo , e que foram ter 
» a Babylonia , e que dalli fe paflaram atra- 
» vés de Baçorá a huma terra chamada Ca- 
» lacadaca , onde S. Judas ficara , e S. Tho- 
» mé fe paliara á Arábia 5 e fora á Ilha de 
» Sacotorá , aonde fez muitos Chriíláos , e 
» huma cafa de oração ; e que dalli fe paf- 
* fará ao Reyno de Naríinga , e na Cidade 
» de Meliapor fizera muitos Chriftaos; e de- 
» pois de-gaftar alli alguns annos fe fora pe- 
» ra as partes da China , e que eílivera em 
)} huma Cidade chamada Cambalia , aonde 
» hum Rey reíidia , e que alli fizera grande 
)} Chriftandade , e alevantára Templos , e que 
* dalli fe tornara a Meliapor , aonde fora 
>} morto. » De tudo ifto fe vê bem claro , que 
aquella Chriftandade que fez por aquellas par- 
tes, a que chama pêra banda da China, fo- 
ram 



3p2 ÁSIA de Diogo de Couto 

xam eíies Tártaros , e Magores ; porque a 
Cidade de Cámbalia que nomea , fabidameiv- 
te he a de Cambalec, ainda que commum- 
mente lhe chamam Cambalu , mas o leu pró- 
prio nome he Cambalec , aonde hoje vivem 
os Imperadores do Cathayo,, que são Chri- 
ftãos dcíles que fez S. Thomé; o que pare- 
ce que antes que fe tornaííe daquelias. par- 
tes , vendo que deixava muita Chriítandade, 
ordenaria alguns Biípos , e conílituiria aquel- 
la dignidade , ( a que commummente chamar- 
mos Prefle João , ) pêra que tiveile iuperio- 
ridade fobre todos no efpiritual ; e com que 
nome o intitulou não o achámos , mas as 
eferituras Tártaras lhe chamam Hunchan , 
outros lhe chamam Jovano , dizem que de 
Jonas Profeta. Depois por tempos foram al- 
guns Reys daquelles Chriítãos a conquiftar 
terras , e affirmam que hum delles chegou 
até Suría , donde levou comíigo muitos da- 
quelles Chriítãos Neftorianos , que o inflruí^- 
ram a elle , e a todos em feus erros. Eíle 
pode bem ler que lhe déííe aquellenome dê 
Jovano. Efte Pontífice, e cabeça deita Chri- 
ilandade levava diante deíí, cada vez que ca- 
valgava , huma Cruz alçada , como o efereve 
Antonino Arcebifpo de Florença, e ainda hoje 
o ufam aquelles Reys Chriílãos , fenão quaiv- 
to affirmam muitos que levam três Cruzes, 
}iuma de ouro , outra de prata , putra de fei> 

ro, 



Dec. IV. Liv. X. Cap. I. 393 

to , ou metal. A fama defte Rey Chriftao da 
índia , e que trazia diante Cruz alçada , fe 
•eftendeo pela Europa com efte nome de Preí- 
te João das índias 5 o que parece levaram lá 
alguns Italianos , que muito antes de nós en- 
trarmos na índia paflaram áquellas partes. E 
quando EIRey D. João o II de Portugal 
quiz defcubrir a índia , pela fama de íuas ri- 
quezas , mandou a iflb por terra Pêro de Co- 
vilhã , e AíFonfo de Paiva , a quem deo por 
regimento , que bufcaíTem hum Rey , que 
trazia huma Cruz alevantada diante. Eftes 
homens apartáram-fe , e o Covilhã foi ter á 
Cidade de Ormuz , que era mui profpera, 
e continuada de todas as nações; e. pergun- 
tando por hum Rey Chriftao p que trazia 
Cruz diante , não lhe fouberam dar a razão 
fenão de hum que havia na Abaffia. E paf- 
fando em companhia de alguns mercadores 
á fua Corte, ficou nelía , e ainda o achou lá 
D.,Rodrigo de Lima , que Diogo Lopes de 
Siqueira mandou por Embaixador. Daqui fe 
ficou efte Rey da Ethiopia chamando PrejP- 
te João das índias , por outras razoes mais 
que fe verão em João de Barros Década III 
Livro IV. E do pouco conhecimento que até 
agora houve deftas gentes ., nafceo entre os 
Efcritores huma grande confusão , e maior 
em Pêro de Mariz no feu Dialogo da var- 
ria hljloria dos Reys de Portugal ^ aonde 

fal- 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

faltando nos Tártaros , na vida d'ElRey Dom 
Aífbníb II , diz eftas palavras : » Sahíram 
» de fuás terras os Tártaros , e fizeram-fe íe- 
» nhores de todo o Oriente , e da grande E- 
» thiopia , extinguindo o nome do Imperador 
» delia chamado Preíle João. » Eíle erro naf- 
ceo a eíle Efcritor de não ter conhecimen- 
to dos Tártaros , como nós aqui o damos , 
nem de faber o íitio das terras que habita- 
ram , porque não fabemos outra mais apar- 
tada, que a Scithia da Ethiopia, 

CAPITULO IL 

Oue trata como eftes Reys Chriftãos cgh- 
quiftáram o Turcftan , e das gentes que 
lhes foram fugindo até Afia menor , de que 
fe fenh ore aram , dando4he o nome da Grão 
Turquia : e dos Reys dos Magores que 
houve defde Grão Tamorlão até efte Ha- 
mau Paxd. 

Orque capítulos muito compridos en- 
faíliatu , quizemos cortar eíle pêra mor 
fabor , e clareza da hiftoria que imos tra- 
tando , em que he neceffario dividirmos os 
tempos, e-ascoufas. E continuando com ef- 
te Rey Chriítão , que ficou tendo fuperiori- 
dade íbbre todos , deixou affim o Eítado y 
como a dignidade a leu filho , e affim o fo- 
ram herdando os defeendentes , que por tem- 
pos 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. 395- 

pos fe foram fazendo tão poderofos , que 
iugigáram todos os vizinhos ; e ainda pal- 
iaram a tanto , que pertendêram metter de- 
baixo de íeu domínio toda Afia. E hum del- 
les entrando pela Província Turcftan a fu- 
gigou toda , ufando com os naturaes gran- 
des cruezas , que por fugirem do feu acou- 
te , ajuntando-fe grandes mukidoes delles 
com mulheres , e filhos 3 foram pêra o Ponen- 
te buícar habitação , e chegaram até para- 
rem naquella parte chamada Afia menor , que 
por lhes parecer bem , conquiíláram , e le- 
nhoreáram perto dos annos de oitocentos da 
vinda de Chrifto , fegundo Othom ArcebiC- 
po de Florença , dando-lhe o nome da ter- 
ra em que nafcêram , e que deixaram , que 
era Turcftan , chamando-lhe dalli por dian- 
te Turquia, e a elles chamaram depois del- 
ia Turcos. Efta he a origem deite nome, e 
não por defcenderem dos Troianos , a quem 
chamavam Teucros , como alguns diíTcram. 
Guilhelmo Arcebifpo de Tiro no livro que 
compoz da Conquifta da Terra Santa , fal- 
tando do principio dos Turcos , diz , que fa- 
híram das partes Septentrionaes , e que pa- 
raram no Turcftan , aonde viveram muitos 
annos governados por cabeças de Tribus , e 
que depois fe paliaram á Perfia , onde habi- 
taram outra temporada , e alli foram creC- 
cendo, e multiplicando muito. E que vea- 
do 



396 ÁSIA de Diogo de Couto 

do aquelIeRey o poder que hiam tendo em 
feu Reyno , temendo-fe delles os lançou fo- 
ra , e fahidos dalli foram pêra o Ponente ? 
e pararam na Suría , onde fe deixaram ficar. 
Depois por tempo ajuntando-fe grandes ex- 
ércitos delles foram conquiftar a Períia , de 
que foram fenhores muitos annos, eeíles fe 
ficaram alli chamando Turchimanes. Os que 
ficaram nas partes da Suría também por tem- 
pos fe fizeram fenhores de toda aquella Pro- 
víncia da Afia menor , a que deram o no- 
me dç Turquia: alli receberam a falfa feita 
deMafamcde, porque a acharam conforme 
a fuás barbarices. E favorecendo-os a Fortu>- 
na 5 em poucos annos fe fizeram fenhores do 
grande Império que hoje pofluem , fendo fem- 
pre os mores porfeguidores que a Igreja Ro*- 
mana teve. Eííes são os que eftavam figura- 
dos naquelle quinto corno , que vio o Pro- 
feta Daniel , que era o quinto Reyno que 
havia de opprimir a Terra Santa, porque o 
primeiro foi dos Babylonios , ofegundo dos 
Perfas , o terceiro dos Gregos , e o quarto 
dos Romanos, E parece que delles também 
já eftava profetizado em Ezechiel aos vinte 
e quatro capítulos, aonde diz que Gog , e 
Magog dariam grandes trabalhos aos Fieis , 
porque entendem os Theologos innumerar 
veis gentes da Scithia. Como também o úr 
nha profetizado S.João no Apocalypfe aos 

yin- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. 397 

vinte , dizendo : Será folto Satanás do feu 
cárcere , e enganará as gentes que são fobre 
os quatro cantos da terra de Gog , e Ma- 
gog , que são as Províncias que atrás temos 
moílrado , donde eftas gentes em feu princi- 
pio fahíram a conquiílar o Turcílan , e de- 
pois a Afia menor , e a Terra Santa , e o 
grande Império de Conítantinopola , até che- 
garem á Monarquia , em que hoje eftam. E 
com o conhecimento que temos dado dei- 
tas gentes , e deftas Províncias , parece que 
ficam melhor entendidas as profecias ditas. 
Poílo que alguns Theologos também enten- 
dam por ellas o Anti-Chrifto , e feus fequa- 
zes , que como ha de fahir da banda do Nor- 
te , conforme ao que eílá profetizado , pode 
bem fer feja deitas Províncias aflíma. E tor- 
nando aos Magores , ficaram eíles Senhores 
Chriíiãos poderoíiííimos opprimindo , e mal- 
tratando os Tártaros , que eram feus vaífal- 
los , tomando-lhes grqffòs direitos de feus 
gados , e criações , e obrigando-os a mui- 
tos fer viços em que fe gaíiavam , e confu- 
miam. Vendo- fe elles tão aperreados , trata- 
ram entre fi de fua liberdade , fahindo-fe 
grandes multidões delles a povoar novas ter- 
ras , e lançando-fe pêra o Ponente , tomaram 
aquella Província , ou parte, que fe chama- 
va Scithia Europea , em que fe deixaram fi- 
car ; pondo-lhe o nome deTanaria, como 

aquel- 



398 ÁSIA de Diogo de Couto 

aquella era que nafcêram. Dalli fe efpalhá- 
ram pêra muitas partes da Europa., que íè- 
nhorcáram , de que ainda hoje vivem aquel- 
Jes que fe chamam Tártaros Preçopenfes fo- 
bre o mar maior, povoando, e dando no- 
mes a muitas Províncias. E fe havemos de 
crer a Berofo , Diodoro Siculo , Meftre An- 
nio , e outros A^Lithores graviílimos , também 
os Heípanhoes defeendem deites Tártaros , 
e Ma gores ; porque dizem elles , que quafi 
nos annos de cento e oitenta antes da vin- 
da deChrifto, quando Dionyfio Rey doE- 
gypto ( por outro nome Oíiris ) foi a Hef- 
panha , e matou o tyranno Gerion , que já 
vinha de rodear toda Africa, e Alia , e os 
defeitos , e últimos fins da índia , e que da 
Scfhia levara huinas gentes chamadas Hif- 
pa!os , e que indo rer á Província Bethica , 
fundara alli a famola Cidade de Sevilha , 
que povoou daquelias gentes, e lhe chamou 
ííifpalis. Ifto refere Santo Ifidoro , D. Ro- 
drigo Ximenes na Chronica geral de Hef- 
panha , e EIRey D. Affonfo o Sábio. Os 
Tártaros , que fe não puderam apartar da fua 
Província , nem feguir os outros , vendo-fe 
tão aperreados dos vizinhos , elegeram en- 
tre fi hum Capitão que os governafle , cha- 
mado Tamochim , (da cafta dos antigos Reys 
que fe extinguiram,) filho deMacuça, que 
térw^nte e nove filhos. Eíle ajuntando gran- 
des 



Dec. IV. Liv. X. Ca?. II. 39? 

des exércitos fahio daquellas partes de Ge- 
orzá , e Bargú nos annos de 1162 de Chri- 
ílo , (fegundo a conta de Marco Polo livro I m 
foi. 14,) e entrando pelas Províncias Turc- 
ftan , e Cathayo , a poucos golpes os fujei- 
tou com feu muito íaber , e esforço , e aft 
fentou fua cadeira na Cidade de Cambalec , 
que engrandeceo , e reformou. Alli fe fez. 
tamanho Senhor , que tomou o titulo de Can , 
que quer dizer Senhor fobre todos , como 
Imperador , mudando o nome próprio de Ta- 
mochim , em Chinguis , ficando-fe chaman- 
do Chinguifcan. Blondo diz , que fe levan- 
tou cfte bárbaro nos annos de 1222, em que 
diz , que os Tártaros começaram a fer co- 
nhecidos no Mundo , fahindo da Scithia de- 
baixo do feu Capitão Canguifta , havendo 
de dizer Chinguifcan: e por não tereíle co- 
nhecimento que nós temos dosMagores, os 
faz Tártaros. Eíle Chinguifcan por lhe Ohun- 
can Rcy dos Chriílaos não querer dar huma 
filha ( que ainda lhe era parenta) pêra caíar 
com ella, havendo-o por affronta, ajuntan- 
do fuás gentes entrou pela Província Tenduc , 
onde Ohuncan lhe fahio , e lhe aprefentou 
batalha 3 em que Ohuncan ficou morto, e des- 
baratado , e o Chinguifcan fe apoderou do 
Eftado , e cafou com fua filha. Efta batalha 
foi perto dos annos do Senhor de 11 87, fe- 
gundo a conta de Marco Polo, porque de 

en- 



400 ÁSIA de Diogo de Couto 

então pêra cá começa elle a contar a Gene a-* 
logia dos Imperadores do Cathayo. Alguns 
Eícritores dizem , que efte Chinguifcan deo 
huina parte doReyno ao filho deOhuncan, 
e que recolhendo toda aquclla Chriftandade , 
ficara elle , e feus herdeiros depois naquelle 
pequeno Eftado , e que efte Chinguifcan fe 
affeiçoára tanto á mulher , que a feu rogo fe 
fizera Chriftão. Ifto não o havemos por mui- 
to certo 5 porque no Catalogo dos Impe- 
radores do Cathayo não fe faz menção de 
Rey algum Chriftão até Magucan , que foi 
o quarto do numero, que a rogo de Aiton 
Arménio , que foi á fua Corte , recebeo nof- 
fa Lei quaíi nos annos de duzentos e íinco- 
enta e três, Efte foi o que mandou feu irmão 
Halaon á conquifta da Terra Santa , que tor- 
nou a "arrancar das mãos dos Califas , ma- 
tando ao Muftacem Mubiia , perto dos annos 
de 1258 , em que fe acabaram os feus Ca- 
lifas. E tornando ao Chinguifcan , vendo-fe 
tão grande Senhor, e tão poderofo , fahio 
a conquiílar toda a Afia , fujeitando Afogdia- 
11a , Badlriana , Aracofia , Ária , Parthia , Per- 
fia , Arménia , e todos os mais Eftados que 
jazem de huma , e da outra banda do mar 
Corazu , ou Cafpio , repartindo tudo com 
feus filhos ; dando a hum o Eftado da Per- 
fia , (de que depois daremos razão , ) e a ou- 
tro chamado Chachatay deo Afojgdiana , e 

or- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. 401 

ordenou por cabeça a Cidade de Camorcant. 
A outro filho chamado Husbequedeo apar- 
te do Turcílan j, que ficou fenhorcando. Aíòg- 
diana ficou com tudo o que jaz entre o Oxo , 
e Jaíarres (a que hoje chamam Chefer Ebia- 
mu ) chamando- feaquella Província dalli em 
diante Charchata , do nome do feuRey, e 
os naturaes Chachatais , a quem todos os 
Geógrafos modernos corruptamente chamam 
Zagatais. E ainda ha mappas , que os met- 
tem da outra banda dojazartes pêra a Tar- 
taria , como também o tem para ii Paulo Jo- 
vio , o que com reverencia he erro mui gran- 
de ; porque muito averiguado he que a an- 
tiga Scithia , c a Tartaria íè dividem da Sog- 
diana , da parte que corre da Volga pêra o 
mar Caípio , e da banda do Turcílan pelo 
muito -celebrado rio Jazartes , e tudo o que 
jaz fora delie pêra o Norte , e pêra o Le- 
vante , tudo he Tartaria. A efte Chinguif- 
çan , que conquiftou eftas Províncias ? nomea 
Ruy Gonçalves de Clavijo , (que EIRey Dom 
Henrique o IV mandou ao Grão Tamorlao 
com Embaixada) por Imperador da Cidade 
de Dorgancho , (como íe vê no Itinerário 
que fez deita jornada , ) ediz que efte nome 
Dorgancho quer dizer theíhuro do Mun- 
do , de que não faz Marco Polo menção; 
mas havia de fer nome irnpofto pelos Ca- 
thaynos á Cidade de. Cambalec , que elle 
Cauto. Tom, L P. //. Çc tan- 



402 ÁSIA de Diogo de Couto 

tanto engrandeceo ; que fe affirma , que era 
a maior , e mais formofa que fe fabia no 
Mundo. Mas em tudo o mais como nos fi- 
lhos , e em outras coufas , conformam ambos, 
E tornando a noífa ordem , conquiftada 
a Província Sogdiana , ficou neila reinando 
Chatay , que depois foi morto por hum Se- 
nhor que fe levantou contra elle, que fefez 
Rey , fendo já feu pai no Cathayo falecido , 
e reinava feu filho Ocdacan , como lhe cha- 
mam as Chronicas Perlicas , e Aiton Armé- 
nio Ocotacan , Marco Polo Sincan , e os 
Frades , que foram ao Cathayo , Cuican. El- 
te fabendo da morte do irmão , foi com gran- 
des exércitos centra o tyranno perto dos an- 
nos de 1243, e vindos á batalha o matou , 
e lhe tomou o Reyno , em que deixou feu 
filho Sodochi , por cuja morte herdou o Pvey- 
no feu filho Barach ; porque quando Mifer 
Nicopolo , pai de Marco Polo , foi ter a Bá- 
cora os annos de 1252 , reinava efte Barach , 
a efte fuccedeo Chapar ; a efte Soltao Ha- 
med , e a elle Incan , todos Reys Chacha- 
tais. No tempo defte fe levantou oGraoTa- 
morlão , cujo próprio nome heTamur, nos 
annos de 1390 , fegundo a mais commum con- 
ta; reinando no Cathayo Chuinícan , oitavo 
do numero daquelles Imperadores , cujos vaf- 
fallos fempre foram os Reys de Camorcant j 
porque Ruy Gonçalves de Clavijo eftando 

na 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. 403 

na Corte de Tamur nos annos de 1403, fal- 
lou com huns Embaixadores do Cathayo 5 
que vieram pedir ao Tamur as páreas , o 
que elle tomou tão mal , que efteve pêra os 
mandar enforcar. Era efte bárbaro Tamur na- 
tural de huma Viila chamada Quex , junto 
de Camorcant 5 dacafta Chacatay , nobre y 
de pouca poííe , mas de grandes penfamen- 
tos. E vendo-lè já homem , e pobre , ajun-« 
tando alguns que o quizeram feguir, andou 
alguns annos pelos caminhos Salteando as 
Caíilas , em que enriqueceo , e tão liberal fe 
inofírou na repartição dos roubos , que fe 
lhe ajuntaram tantos i que veio a formar 
hum mui arrezoado exercito. Nefte officio dê 
falteador foi ferido em huma perna de que 
ficou aleijado : e porque naquella iingua > 
langar , quer dizer manco , lhe chamaram 
Tamur Langar j e vindo-fe a adulterar ef- 
te nome , lhe chamaram Tamoríao. Efte ven- 
do-íe rico , e poderoíb , chamando-o fuá 
fortuna pêra maiores coufas 5 fabendo que 
EIRey defejava de o haver ás mãos ? entro ti 
hum dia na Cidade de Camorcant com os 
que o feguiam , e tomando EIRey defcuida 1 - 
do , entrouxem feus Paços \ e o matou, e 
como tinha pòfle , e cabedal, mandou eora- 
írietter a todos os prineipaes grandes parti- 
dos , dando muito dinheiro a muitos : f que 
logo lhe acudiram ; em fím elle fe fâte Rey 
Ce ii pa~ 



404 ÁSIA de Diogo dê Couío 

pacifico , e quieto. E por aqui fe verá o er- 
ro que tiveram (Eaptiíla Ignacio , e Baptiíta 
Fulgoíb nas Coliectaneas , e o Papa Pio na 
fegunda parte do livro da fua Geografia , e 
Platina na vida de Bonifácio , Mattheu Pal- 
meirinhq nasAduicoes a Euiebio , Cambino 
Florentino na Hiíloria Turqueica , Paulo Jo- 
vio na de Teu tempo, e ainda o noíiojoão 
de Barros na fua Afia) em o fazerem huns 
Partho, e outros Tártaro, fendo. puramen- 
te Chacatay , como já diíTemos. Eíie bárba- 
ro depois de fe ver Rey , e tão ir.imoío da 
Fortuna , havendo ainda aquelle Eftado por 
eílreito pêra fua condição , formando grof- 
fos exércitos , íhhio a conquiftar as Províncias 
de Coraçone , Perík , Arménia, e todas as 
mais que jazem perto do mar de Abacu , (a 
que os Turcos chamam Danguis Xor , que 
quer dizer mar falgado , e os Arménios Xor- 
guilan , que he o mefmo que mar degilan, 
por huma formoía Cidade deite nome , que 
tem fobre fuás ribeiras.) Todos eftesEftados 
repartio com os filhos que tinha , deixando 
na Períiâ o mais velho chamado MirzaMi- 
ruxa , e dos outros logo fallaremos. Recolhi* 
do o Tamur. pêra Camorcant , fehio logo a 
conquiftar o Induftan , onde teve huma gran- 
de , e muito cruel batalha cem hum Rey 
do Dely , que o fahio a bufear 5 em que o 
Tarmur foi vencido por caufa dos muitos ele- 

fan- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. 4o> 

fa-ntes que aquelleRey trazia. OTamur re- 
fazendo feu exercito , voltou contra o ini- 
migo que o efperou , e poftos em campo 
pêra romperem batalha, ao comraerter del- 
ia lhe lançou oTamur diante grande núme- 
ro de camellos carregados de palha , a que 
fe deo fogo , que foi tao bravo , e medo- 
nho , que os camellos com aquelle impeto 
foram rompendo pelos inimigos , fazendo fu- 
gir os elefantes que traziam diante , que com 
o medo do fogo tão cfpantofo voltaram pê- 
ra trás , e romperam os íeus. OTamur, ven- 
do o inimigo desbaratado , deo nclle , e o aca- 
bou de dertruir , e vitoriofo fe recolheo a 
Camorcant , deixando hum neto feu -chama- 
do Firmahomed , (filho de Janguir feu filho 
mais velho , que já era morto , ) naquelía par- 
te 3 que ganhou , fora do Oxo pêra a banda da 
índia , cujas principaes Cidades eram Bel , Ni- 
bab , e Cabul, e nefta a (Tentou ília cadeira. 
Foi iík> perto dos annos de 1394. Depois 
nos de 1396 tornou com grofíòs exércitos 
com tenção de paíTar á Europa, e iahindo- 
Ihe ao encontro o Turco Bajazeto, vindos 
a batalha foi o Turco desbaratado , e pre- 
zo , e o Tamur lhe mandou fazer huma ga- 
iola de ferro em que o trazia. E -contente 
com efta vitoria fe recolheo a Camorcant , 
onde logomorreo, tendo reinado onze- ân- 
uos, efaleceo nos de 1405". Fica ram-lhe três 

fi- 



4oó ÁSIA de Diogo de Couto 

filhos , Ornar Miruxa , que eftava na Períia j 
Xaroja , a que deo o Eílado do Coraçone ; o. 
outro Haomarxac , que alguns nonieam por 
Balobo, que çra moço , e ficou íem nada, 
porque os outros dous irmãos lançaram mão 
de tudo o que puderam , ficando ainda em 
guerras travados íobre os Eftados. Elle Hao- 
marxac, ou Balobo vendo-fe desherdado de- 
terminou fervir a Mafamede , e fahindo-fe 
dos Eílados , que foram de feu pai , em trajos 
de Calandar (que he peregrino) foi cami- 
nhando pêra as partes da índia , e atrave£ 
iou todo o Induftan , e foi parar no Reyno 
deDely, donde fe deixou ficar. Alli lhe acu- 
diram outros Calandar.es a ouvir fua doutri- 
na ,, a fama de fua vida , e religião , que era 
efpantçfa. Reinava nsquelle Reyno hum fi- 
lho daquelíeRey , com quem o Tamur teve 
as batalhas que affima contámos. Cobrou ef- 
te Ç^landar tamanho credito , e authorida- 
de naquellas partes , que o adoravam todos 
como a Santo ; e affim crefceo o número da 
gente que o feguia tanto, que bem fe pude- 
ra dplla formar hum muito arrezoado exer^ 
cito. E como efte homem era aftuto , e co- 
nhecedor dos tempos , entendendo que a For- 
tuna o hia favorecendo , tratou de fe fazer 
Jley daquelle Reyno : e adquirindo fecreta- 
mente armas, fendo hun? dia oRey a caça 
alforrado , o faltepu-, e matou , e em fref- 

co 



Dec. IV. Liv. X. Cap, II. 407 

co fe foi apoderar da Cidade , onde fe for- 
tificou até fe quietar como fez , acudindo- 
lhe todos os do Re/no â lhe dar obediên- 
cia. Dalii fahio a conquiftar muitos Reynos 
do Induftan, de que fe fez íenhor, ficando 
já poderofo. E indo eftas noticias ter á Ci- 
dade de Camorcant , lhe acudiram muitos 
dos naturaes , fugindo das guerras que ha- 
via entre os filhos do Tamur , e alguns Ca- 
pitães dos principaes , que fe pêra clle vie- 
ram, eram de cafta dos Mago res , e o mef- 
mo a mor parte das gentes que os acompa- 
nhavam. Eftes naquellas conquiíías feafíina- 
láram fobre todos , ficando os Magores mui 
nomeados em todo o Induftan , e affim os 
eftimou o Balobo , que fe intitulou Rey dos 
Magores. Efte foi o principio defteRcyno, 
que veio a fubir a tamanha Monarquia, co- 
mo adiante fe verá. E com iílo fica confun- 
dido o erro de Baptiíla Fulgofo nas Colle- 
ataneas , e o de Platina na vida de Bonifá- 
cio , que affirmam , que por morte do Tamur 
naq ficara memoria de feu fenhorio , nem de 
homem que procedeífe de fua geração • fen- 
do hoje os mais poderofos dous bárbaros , 
que ha em todo o Oriente (Magor, eííus- 
beque) feus quintos netos. Por morte deite 
primeiro Rey dos Magores ficou herdando 
aquelle Reyno feu filho Abuífeir , que ain- 
da accreícentou mais terras a feuEílado. A 



408 ÁSIA de Diogo de Couto 

efte Abuíleir fuccedeo feu filho Babur j que 
herdou os Eitados de Camorcant por mor- 
te de hum primo feu a que não ficaram her- 
deiros [ e por fua morte fuccedeo feu filho 
Hamau Paxá , (que he eílc de que tratamos , ) 
que tomou o Reyno de Cambava , que foi 
homem muito valorofo , e que engrandeceo 
feu Eíiado muito. Epor aqui temos bem dí> 
do a conhecer eíles Magores 3 com quem 
(com o favor Divino) havemos de continuar 
por todo o deeuríò de noíTa hiítoria. São 
todos homens foberbiffimos , e cruéis , gran- 
des archeiros, muito déftros acavallo, e to- 
dos os feus são aquartelados , mui grandes 
corredores, e aturadores do trabalho , e al*- 
guns tão andadores , que muito fará hum 
bom ginete á rédea folta fe os aturar. Se- 
guem aos Arábios em fuás máximas , e são 
Sonis , a que os Perfas chamam homens def- 
-encaminhados , pelos haverem por taes em 
lua doutrina. São homens muito comedores , 
grandes de corpo , e efpadaudos , de ro& 
tos mui largos, e barbudos. 



CA- 



Dec. IV. Liv. X. 409 

CAPITULO IIL 

Ra razão porque fe fecòlheo TTaw.au Paxá , 
e largou o Reyno de Cambaya : e de co- 
mo fe levantou nas partes de Bengala hum 
Patene chamado Gircan , e dos Eftados 
que conquifiou : e de como ãe firmo , e des- 
baratou Hamau , e lhe tomou feus P^ey- 
nos. 

ANdando Hamau Paxá Rey dos Mago- 
res viroriofo. por todos 03 Reynos.de 
-Cambaya , como Senhor deilcs , acudindo- 
ihe muitos Régulos Resbutos a dar-Ihe obe- 
diência pêra fegurarem feus Eftados , deter- 
minou de ficar alli invernando pela fertili- 
dade , e abundância da terra, tendo já jun- 
tos delia muitos , e groffos thefouros. Mas 
a Fortuna 3 que fe não deícuida neíla parte , 
não tardou com feus efcarneos , e revezes; 
•porque citando efíe bárbaro na mor felicida- 
de , que podia ter, e defejar , bem defcui- 
dado de tão fupito revéz , lhe vieram novas., 
que hum Rey dos Patanes lhe entrara pelo 
Reyno de Deíy , e pelos mais , e fe lenho- 
reára delles , tomando-lhe luas mulheres , e 
thefouros , e que tinha fua Corte na Cida- 
de do Dely. Eftas novas foram de tamanho 
•efpanto , e dor pêra Hamau Paxá , que pa- 
recia querer, arrebentar P e largando tudo , 

ajun* 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

ajuntando fuás gentes , começou a caminhar 
pêra feus Reynos com huma mui grande 
preíTa , largando os alheios. Aqui entra oef- 
carneo da Fortuna , e pêra melhor fallar a Juf- 
tiça Divina , que permitte , que por cubica 
do alheio fe venha a perder o próprio. E 
de todos os Eíiados de Cambaya não reíer- 
vou efte bárbaro pêra íl mais , que a Cida- 
de de Agará , e a do Mandou , em que dei- 
xou feus prefidios ; e foi continuando feu ca- 
minho , em que o deixaremos , por darmos 
razão deite Rey , que lhe tomou feus Reynos. 
Andavam na Corte d'ElRey de Benga- 
la eíles annos atrás paflados dous irmãos de 
cafta Patanes , grandes cavalleiros , que de 
iiomens pobres , e particulares vieram a fer 
dos principaes , e mais poderofos daquelle 
Reyno. E por hum defgofto que EIRey veio 
a ter de hum delles por mexericos , (officio 
muito certo da inveja , a que os que privam 
andam fempre arrifcados , ) lhe mandou cor- 
tar a cabeça ; porque as leis de todos os Reys 
Mouros são como as de Draco , que todos 
os cafos pequenos , e grandes caíligam com 
morte. O irmão do morto , que fe chamava 
Xircan , ficou tão efcandalizado , que logo 
cm feu animo tratou de fua fatisfação ; c foi 
diífimulando com o negocio ornais que po- 
de , até bufcar occaíião , que a Fortuna nun- 
ca nega , porque pêra eftas coufas fempre ef- 

tá 



Dec. IV. Liv. X. Cap. III. 411 

tá prompta , c aparelhada com feus favores. 
Efte homem era muito rico , e tinha muita 
poíTe no Reyno , e muitos amigos , e como 
os homens todos o são de novidades , fea- 
tindo em alguns humor pêra o que perten- 
cia., lhes communicou fua tenção; e como 
todos eram eílrangeiros , logo fe lhe affei- 
çoáram. Porque eiies Reys do Oriente são 
todos governados por elles 3 que como não 
entram com amor natural nefte negocio , fe- 
não com intereífe próprio , andam fempre 
com o olho vigiando as occafióes da Fortu- 
na , e todas as vezes que lhe ella dá geito , 
matão o Rey , e tyrannizam o Reyno. O 
que he tão ordinário , que em íete , ou oi- 
to Reynos de Mouros , com quem na ín- 
dia vizinhamos , todos, eftam em poder de 
eílrangeiros ; do que os natnraes efcandali- 
■zados favorecem fempre a parte que mais 
pode, e a da Fortuna, Pelo que devem os 
Reys do Mundo trabalhar muito por tra- 
zerem no feu governo vaííallos naturaes í por- 
que eftes fempre tratam ascoufas com amor, 
e lealdade , eftimando mais a vida de feu 
Rey 5 que a fua própria. E vai tanta difFe- 
■rença nefte negocio de huma coufa a outra , 
somo he a de efcravos a filhos ;. porque efc 
tes arrifcam fuás vidas pela do feu Rey , e 
os outros vem-lhe melhor Rey eftrangeiro 
como elles P porque fe lhes avorrece hum 3 

lo- 



412 ÁSIA de Diogo de Couto 

logo negoceam outro , porque náo entram 
nelia matéria fenão com o olho em feu gof- 
to , e interefle. Afliin eíte Parane fiando- fe da- 
queiles eftrangeiros como clle , achando-os 
faciliíiimos pcra íua tenção, ajuntando gen- 
te da íua valia em fegredo , andando EIRey 
hum dia folgando , deram fobre elle , e o 
mataram. E voltando pêra a Cidade metteo- 
íe o Xircan nos Paços , e apoderou-fe dos 
thefouros , que começou a repartir tão libe- 
ralmente pelos que o íeguíram , que em pou- 
cos dias fc fez Rey daquelle Reyno por von- 
tade de todos. Efte, como era homem de gran- 
des penfamentos , e muito grande Cavallei- 
ro , quiz agazaihar os mimos da Fortuna, e 
ajuntando grande poder foi fobre o R.eyno 
dos Patanes donde era natural, e com gran- 
de -induftria o fujeitou todo, e aífim a mor 
parte dos íèus vizinhos , ficando hum dos 
mais poderofos Reys do.Mundo. E eílando 
na Cidade de Patane , donde o Reyno tomou 
o nome , foube que o Hamau Paxá Rey dos 
iVíagores era a conquiftar os Reynos de Cam- 
baya , e não fe contentando com os Eftados 
cjue pofluia , querendo fubir a mor Império, 
ajuntou muito grofib poder , e entrou pelo 
Reyno de Dely , que tomou logo , fenho- 
reando-fe daquella Cidade , em que eftavam 
os thefouros, e mulheres doMagor, que lo- 
go teve avifo deite, negocio: pelo que lar- 
gou 



Dec. IV. Liv. X. Cap. III. 413 

gou tudo , e acudio com prefteza , e com a 
diligencia que diíTemos. Xircan , que eftava no 
Dejy , foi logo aviíado como oMagor hia 
cm bufca delle com groíTò poder , e ajun- 
tando o mais que pode 5 o foi efperar ao ca- 
minho ; e ajuntando-fe ambos , travaram hu- 
ma das mais cruéis batalhas , que no. Mun- 
do fe viram , em que de ambas as partes 
houve cafcs notaveliílimos , que deixamos, 
porque não convém á nofla hiftoria. Depois 
de durar hum dia todo 5 em que houve gran- 
des eftragos de parte a parte , ficou o Ma- 
gor. desbaratado , edeílruido de todo, per- 
dendo a mor parte de fua gente ^e elje com 
muito trabalho .faivou fua peííoa. OMagor 
vendo- fe naquelle miferavel eftado , colno 
homem deíèfperado fefoi com poucos , que 
o feguíram 5 tomando o caminho do Cinde 
com grande defconfolaçao , e trifteza , por 
fe ver em hum tão breve efpaço de hum tão 
grande Monarca em tal eftado , que não 
lábia aonde fe recolheiíe; eaífím o levou a 
Fortuna até á Cidade deThatha, aonde o 
Rey do Cinde tinha fua Corte. Era eíteRey 
de caíla Magor , e chamava-fe Mirza Caa 
Ocen, filho de Xabil Can , o primeiro Rey 
Magor, que conquiftou aquelleReyno , co- 
mo em feu lugar diremos. Sabendo eíleRey 
da vinda , e defaventura de Hamau Paxá , 
o íahio a receber com muita honra , confo- 

lan- 



414 ÁSIA de Diogo de Couto 

lando-o de fua defaventura , offerecendo-lhe 
ícu Reyno 5 e thefouros. O que lhe Hamau 
Paxá agradeceo muito , dizendo-lhe , que fua 
intenção era paflar á Perfia a pedir ajuda y 
e favor ao Xathamaz , que fó queria delle 
modo pêra fazer eíta jornada. EiR.ey lhe 
mandou negociar muitos camellos , e enca- 
valgaduras , e lhe deo jóias T dinheiro , e mui- 
to honrado ferviço de lua cafa , com o que 
fe poz no caminho da Perfia. Não deixare- 
mos de louvar , e engrandecer a grandeza 
do animo deite Rey do Cinde , que com 
lhe o Hamau ter feito muitas vezes guerras 
fobre pertenções daquelle Reyno , (como em 
outro lugar melhor diremos,) quando fou- 
be que hia perdido , e em tão mifcravel es- 
tado 3 compadecendo-fe da miferia , e def- 
aventura de hum tamanho Rey , efquecido 
dos aggravos paífados o foi bufcar, e o ne- 
gociou , e remediou , como diífemos ; por- 
que o animo Real de nenhuma coufa mais 
lè compadece , que das infelicidades de ou- 
tro Rey , pofto que feja inimigo , porque 
bem fabe que não ha na vida quem efteja fe- 
gtivô dos revezes da Fortuna. Em fim efteHa- 
flnau pa-flòu á Perfia , ( poíío que alguns di- 
zem qfre não , mas que mandou feus Embai- 
xadores ; mas todos os Magores , que até 
boje tem vindo a Goa, e ainda Perfas , con- 
formam com o que nós dizemos.) O Xircan 

tau- . 



Dec. IV. Liv. X. Cap. III. 417 

tanto que desbaratou o Magor, tcmou-lhe 
todos os thefouros que levava deCambaya, 
e a fua principal mulher , e com tudo fe re- 
colheo pêra a Cidade de Dely. Era efte bár- 
baro tão grandioío de animo , que vifitan- 
do aquella Rainha cativa, vendo-a tão def- 
coníolada , e miferavel , e que não havia cou- 
fa que lhe enxugafle fuás lagrimas , entregou- 
Ihe todas fuás jóias , donas, donzellas , e to- 
do o mais ferviço de fua cafa , dando-lhe 
camellos , carretas , e cavalgaduras , e a deí- 
pedio com fnuita honra , dizendo-lhe que fe 
foífe pêra feu marido: avantajando-fe nifto 
ao grande Alexandre , no que ufou com a 
mulher de Dário. Efta Senhora foi toman- 
do o caminho do Reyno de Cabul , aonde 
reinava hum irmão do marido chamado Ay- 
can Mirza , que a recebeo muito honrada- 
mente. O Xircan vendo-fe tão mimofo da 
Fortuna , em poucos tempos conquiílou os 
Reynos do Magor todos , com o que ficou 
tamanho Senhor, que fe affirma terem feus 
Eftados mais de mil e quinhentas léguas em 
roda. E não tendo mais que defejar , tomou 
hum titulo foberbiffimo , que foi o de Xá 
Holão , que quer dizer fenhor do Mundo, 
O que também lhe durou tão pouco 7 como 
em feu lugar diremos. 

CA* 



4i 6 ÁSIA de Diogo de Couío 

CAPITULO IV. 

Que trata de como os Mouros conqutftdram 
o Decan , e de todos os Reys que houve 
até Ifmael , que fale eco efte anno em que 
andamos : e da antiguidade , e nomes da 
ilha de Goa : e de como o Accedecan dea 
as terras firmes de Salfete , e Bardes aa 
Governador Nuno da Cunha. 

J]) Riineiro que tratemos das guerras , que 
.. eíle anno fez o Idaixá ao Eftado ibbre 
■as terras firmes de Saliète , e Bardes , que 
deram muito trabalho ao Eftado da índia , 
jios parecco bem darmos razão de todos ef- 
tes Reys Mouros de Vifapor, e do tempo 
cm que fe conquiftou eíle Decan , pofto que 
João de Barros o tenha já feito. Mas fica- 
ram-lhe muitas coulàs , de que o não foube- 
ram informar , que nós alcançámos , e íòu- 
bemos pela communicação de muitos annos, 
que tivemos nefta Cidade de Goa com os 
Embaixadores deftes Reys , em cujo poder 
achamos as Chronicas daqueíies Reynos. E 
também he neceííario faber-fe a razão por 
que fe deram as terras firmes de Salíete 5 e 
Bardes ao Governador Nuno da Cunha , e 
cm que tempo , porque de induftria o dei-^ 
xámos para efte lugar. Pelo que fe ha de fa- 
ber, que perto dos annos de nofla Redem- 

pcao 



Dêc. IV.-Liv. X. Cap. IV. 417 

pçao de 13 12 fe levantou hum Rey doDe- 
ly , que foi o maior Senhor que até então 
houve em todo o Oriente : e fahindo de fuás 
terras com grandes exércitos , entrou pelos 
Reynos do Decan , que eram de Gentios fu- 
jeitos aos Reys do Canará , e a poucos gol- 
pes os fujeitou a todos j e nelles deixou por 
Governador hum filho feu , (ainda que ou- 
tros dizem que fobrinho , ) chamado Tho- 
galaça , que he aquelle , a quem João de 
Barros nomea por Abetxa , no que nos não 
embaraçamos , porque pode mui bem íêr , 
que eíle foíTe o nome depois de fer Rey , e 
outro o feu próprio que dantes teria ., por- 
que todos eíles Reys tem muitos nomes; e 
todavia nas Chronicas dos Mouros nomeara 
a eíle Thogalaça pelo primeiro Rey do De- 
can , e foi o primeiro Mouro que nelle co- 
meçou a reinar. Eíle femeou por todos a- 
quelles Reynos a falfa lei de Mafamede , que 
aílim frutificou por noífos peccados , que já 
no tempo em que defcubrimos a Índia era 
tudo untado delia. Recolhido o Rey doDe- 
]y pêra feus Reynos, dahi a alguns annos fa- 
leceo, fuccedendo-Jhe feu filho , a que não 
foubemos o nome. Efte foi o que teve aquel- 
la grande batalha com o Grão Tamorlão , 
que no Capitulo atrás tratamos. Morto o 
Rey do Deíy ficou no Decan Thogalaça y 
que já tinha Corte na Cidade de Ultadab, 
Couto. Tom. I. P. li. Dd on- 



418 ÁSIA de Diogo de Couto 

onde depois de reinar dezenove annos faíe- 
ceo , foccedendo-lhc no P^eyno feu filho Sol- 
tão Singabupa. Efte foi o que intitulou cf- 
les Eftados, e Reyno do Decan , donde os 
íeus naturaes fe chamaram Decanis , que em 
fualingua quer dizer meftiços , porque qua- 
íi todos os que vieram com feu Avô , que 
alii ficaram, eftavam mifturados porcafamen- 
tos com os naturaes Gentios. Efte Singabu- 
pa reinou linco annos, e dezoito dias. Suc- 
cedeo-lhe no Reyno feu filho Peru Soltao , 
que mudou fua Corte pêra a Cidade de Ca- 
bum Bargui , aonde reinou dezoito annos , 
e quatro mezes ; e aflim foram fuecedendo 
os filhos huns aos outros por efta maneira. 
Singa reinou finco annos , e fere mezes e meio. 
Mahamedc Alaudym vinte e fere annos , e 
três mezes. Mugerdar dez annos , e féis me- 
zes e meio. Soítão Daul fete annos , e dez 
mezes. Soltao Mahamede finco annos , e 
dous mezes. Xadom Dilagar Soltao qua- 
tro annos , e quatro mezes. A efte fuecedeo 
feu filho Soltao Piros , que fundou huma for- 
mofa Cidade , a quem do feu nome chamou 
Piros Zobat, que hoje he das principaes do 
Reyno do Idalxá. Efte andando á caça em 
Jiuns matos bem ao Norte defta Cidade , dei- 
taado hum cão. a huma lebre , em o ella 
fentindo virou , e remetrendo a elle o fez fu- 
• ghv O.que vifto por EIRey diíTe , que aquel- 

la. 



Dec. IV- Liv. X. Cai», IV. 419 

la terra era boa pêra crear peitos esforça- 
dos , e mandou logo fazer naquelle mefmo 
lugar outra formola Cidade , a que poz no* 
me Xar Bedar, que quer dizer Cidade feirí 
medo , por eaufa da lebre que o não teve 
do cão , e mudou pêra ella fua Corte. Foi 
efte Rey grande Filofofo , virtuofo moral- 
mente , e amador dos pobres , e pequenos 
em tanta maneira , que ainda hoje quando 
fe nomea entre todos aquelles Rèys, e em; 
todos aquelles Reynos , lhe chamam pai dos 
pobres. Efte fez huns verfos na fua língua , 
que mandou pôr á porta dos feus Paços , pe-* 
ra que todos os videm , que ainda hoje du- 
ram , e confervam fua memoria. Eíles por 
ferem muito notáveis, de muita fentença , e 
muito pêra todos osReys Chriílãos os fabe- 
rem , nos pareceo bem pôr aqui : 

Com os grandes fer temerofo y 
Com os pequenos amorojò. 
Aos grandes dou eu o meu y 
Os pequenos me dam do feu. 
O grande fempre quer muito y 
O pequeno folga com pouco* 
Os peixes r que andam no mar y 
Os homens y que andam na terra ^ 
Aos pequenos fazem guerra. 
Aos; pequenos fe ha deter amor y 
Que. aos grandes não falta favor. 

Dd ií Ea* 



4^o ÁSIA de Diogo de Couto 

Envergonhem-fe os Reys , e Grandes do 
Mundo de verem tanta virtude em hum bár- 
baro , que a coufa que mais eftimava em feus 
Reynos eram os pequenos , e pobres ; de 
que todos , ou os mais dos Grandes fazem 
tão pouca conta , fendo tão obrigados pela 
Lei que profeíTam aos favorecer , e amparar - y 
coufa tão encomrnendada de Deos , como 
fua própria , dizendo por S. Mattheus no 
capitulo 25 : O que a hum âefles fizerdes , 
a mim o fazeis. Vejam agora os poderofos , 
e privados , que mandam tudo , o como fe 
hão com eíles pequenos , e o como tratam 
o negocio de hum pobre, porque affim feha 
Deos de haver com elles. E deixando efta 
matéria, em que havia bem que bradar, e 
tornando á nofla ordem : os Reys que iuc- 
cedêram a Soltão Piros em Xarbedar , que 
reinou finco annos , são os feguintes. Soltão 
Mahamede doze annos , e finco mezes. Ho- 
mahu Soltão treze annos , e finco mezes e 
meio. Soltão Hamed hum anno , dez me- 
zes 5 e féis dias. Homem Soltão quatro an^ 
nos. Soltão Mahamed dezenove annos , fe- 
te mezes , e vinte dias. Valebur Soltão fin- 
co annos , e dez mezes. A efte fuecedeo feu 
filho Daudar Soltão homem apoucado , e de 
pouco governo. Eílerepartio aProvincmdo 
Decan em governanças , aííinalando limites 
a cada huma por cila maneira, Em tudo o 

que 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IV. 421 

que jaz de Angediva até Cifardáo , que são 
íeííenta léguas por cofta , poz por Governa- 
dor a hum Capitão chamado Adel Can , que 
erajuftiça maior de feus Reynos , a efte cha- 
mamos corruptamente Idalcao. Na outra par- 
te que jaz de Cifardáo até Nagotana , que 
íerao por cofta perro de quinze léguas até 
vinte , poz outro Capitão , que era pagem de 
íua lança chamado Nizaman Moluc , que 
quer dizer , pagem de minha lança ; a que 
também adulteradamente chamamos Iza Ma- 
luco. Eftes dous fós ficaram tendo quinhão 
naquella parte , que fe eftende fobre o mar 
chamada Concan. E outro Capitão eftrangei- 
to chamado Coth Moluc j que quer dizer , 
recebedor de rendas, porque era Thefourei- 
ro mórd'ElRejr de cafta Coraçone , poz por 
Governador na Comarca dos Talingas , que 
são os Gentios mais apurados na linguagem, 
que todos os do Decan. Eíla Comarca fica 
ao Levante de eftoutras , e parte com o Rey- 
no do Cannará pela banda do Norte, ecom 
o de Orixá pelo Nafcente , cuja principal Ci- 
dade fe chama Palicondá ; a efte Capitão tam- 
bém chamamos erradamente Cota Maluco. 
Naquella parte chamada vulgarmente Bera- 
ra , fendo feu próprio nome Hada Vcrar , 
que quer dizer , terra de cafamentos , (por- 
que ai li vam todos os Gentios do Decan fa- 
zer fuás vodas por fer de muitas ribeiras , e 

mui- 



422 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito abaftada de mantimentos , ) que fica 
ao Noroefle do Reyno do Tamaluco , e 
confina com os Eftados do Mirãq , e Virgi ^ 
que já são do de Cambaya: aqui poz outro Ca- 
pitão chamado Idmad Maluco , que quer di- 
zer , Capitão fiel , porque era Condeftabre 
mor dos Reynos \ de cafta Charques , Çhri- 
flao arrenegado. A eítes quatro Capitães deo 
■EIRey jurdiçao eivei , e crime em luas Go- 
vernanças. Reinou EIRey Sohao Daudar 
fete annos, e faleceo , ficando-lhe hum filho 
jnenino debaixo da tituria de hum Capitão 
chamado Virido , Ungaro de nação , Armei- 
ro mor d'EÍRey , em que elle tinha muita 
confiança, que ficou na Cidade deXarbedar 
com o menino em leu poder. Mas como nef- 
te negocio de reinar não ha fé , vendo to- 
dos eítes Governadores o Rey menino , fa- 
zendo a cubica feu officio , carteando-fe to- 
dos ? de commum confentimento fe alevantá- 
ram com o que cada hum governava , fican- 
do o moço entregue. ao Virido 3 que o ti- 
nha em huns formofos Paços em grande euf- 
todia, dando-!he todo o neceflario. Os ale- 
yantados tomaram titulos de Reys , e para 
encubrirem luas tyrannias mandavam todos 
os annos dar a fua obediência porfeus Em- 
baixadores a eíle menino . nomeando-fe to-r 
dos por feus efc.ravos. Efte Principe como 
teve idade , o cafou o Virido feu tutor > (que 

fe 



Dec. IV. Liv. X/Cais IV. 423 

fe appellidava Rey de Xarbedar) com hu- 
ma' filha fua , de que houve hum filho 5 que 
depois veio a herdar o feuReyno por mor- 
re de fcu avô Virido , porque lhe não fica- 
ram filhos machos , eíle foi depois cafado 
com huma filha do Idalxá. E efte he o ver- 
dadeiro herdeiro de iodos eftes Eítados , e 
ficou com o menor quinhão -delles. Foi eíle 
^levantamento perto dos anhos de 1491. E 
deixando todos os mais alevantados pêra ícu 
tempo , continuaremos com o Soltao Adei- 
can , que poz fua cadeira na Cidade de Vi- 
íapor. Andava na fua Corte hum Turco cha- 
mado Cufo, que em tempo de Daudar Sol- 
tao foi ter a Xarbedar em homa Cáfila dè 
mercadores , fendo ainda mancebo. Efte Tur- 
co era de tantas forças , e tão grande luta- 
dor, que não havia em todo aquelle Reyno 
quem o derri baile , pelo que EIRey folga- 
va muito com el!e. Alguns dizem , que a- 
quelles mercadores da Cáfila ]ho deram de 
prefente ; outros que elle mefmo fe vendeo 
aElRey por Iqvqt alli muito pobre, e des- 
amparado. Xfto não queria cbnfentir feu fi- 
lho Meale , (eftando em Goa ) como adiante 
diremos,) com quem praticámos eftas cou- 
fas: fomente confeííava , que fora em mocó 
lutador , e que tinha outras habilidades , com 
que ganhava fua vida. Efte Cufo nos alevan- 
tamentos fe- paliou pêra o Adelcan , que fe 

lhe 



4M ÁSIA de Diogo de Couto 

lhe affeiçoou tanto , que lhe encarregou cou- 
ías de muita importância , de que dco fempre 
mui boa conta ; e affim pouco a pouco o foi 
a Fortuna encaminhando pêra o que lhe ti- 
nha guardado , ( o que elle com fua muita 
prudência foube confervar mui bem,) até o 
pôr no íupremo lugar do Reyno , governan- 
do EIRey abfolutamente. E como a Fortu- 
na nunca íbbe a huns fem abaixar outros , 
permittio Deos que efte Adelcan fofle mor- 
to á traição por huns Capitães feus , pela de 
que elle ufou com o feu Rey ; porque efte 
he o fim , que todos os máos vem ater, co- 
mo o tiveram, todos eftes alevantados , que 
vieram a morrer mal , e feus herdeiros não 
lograrem feus Reynos , porque todos torna- 
ram a poder de outros tyrannos ., como pe- 
lo decurfo da hiftoria diremos. Morto o A- 
delcan achou-fe o Cufo na Corte , e logo 
lançou mão de hum filho d'ElRey menino 
fazendo-fe feu tutor, com cuja cor acquirio 
os Grandes de fua parte , tendo tanta aftu- 
cia , e faber, que provêo as fortalezas prin- 
cipaes de Capitães de fua valia , e como teve 
tudo feguro , e por fi , dizem que ajudou o 
menino , que. faleceo dentro em hum anno 
depois do pai morto , e logo fe fez alevan- 
tar por Rey , no que houve pouco que fa- 
zer. Efte Cufo eftendeo ainda os limites do 
íeuRçyno tudo o que pode, até ir em pef- 

lba 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IV. 42? 

íba conquiftar a Ilha de Goa , que era cou- 
ia muito groíla em renda , que poffuia hum 
Senhor Cariará chamado Savay \ vaiTallo do 
Rey Canará 5 que naquelle tempo tinha fua 
Cidade na parte que hoje chamam Goa a ve- 
lha , onde fempre foi o affento dos Senho- 
res todos antigos daqueíla Ilha até os annos 
de 1479 , que entraram os Mouros nella , 
vindo fugidos de huraa conjuração , que con- 
tra eíles houve no Reyno de Onor , que fe- 
riam perto de quatrocentos homens; cuja ca- 
beça era hum Mouro chamado Melique 
Ocem , que fe concertou com o Senhor que 
então era daqueíla Ilha , e lhe deo a parte 
<em que hoje eftá a noíía Cidade de Goa , que 
então era tudo mato , aonde os Senhores da- 
queíla Ilha hiam matar porcos , e veados : 
que os Mouros cortaram , e roflaram , fa- 
zendo fuás povoações fobre o mar , fican- 
do alli mais accommodados que em Onor, 
por fer o porto 5 e rio mais capaz pêra as 
fuás nãos. Nefta parte fendo ainda mato ti- 
nha o Savay Senhor de Goa humas cafas , em 
cjue fe elle apofentava quando hia á caça ; 
e affim mefmo Cufo Idalcão o fazia depois 
de conquiftar aquella Ilha. Eftas cafas con- 
fervam ainda hoje a memoria do Gentio Sa- 
vay, chamando-fe as cafas doSavayo, que 
depois foram muitos annos apofentos dos Go- 
vernadores da índia» E porque não foube- 

ram 



426 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram dar verdadeira informação aonoílojoão 
de Barros deftas coufas , confundio o nome 
do Gentio Savay com o de Cufo Adelcan , 
dizendo no quinto Livro da iegunda Déca- 
da , que quando entrámos na Índia era Se- 
nhor de Goa hum Mouro chamado Soay, 
a que commummente chamamos Sabayo vaf- 
íallo do Rey do Decan , Paríeo , natural da 
Cidade Savá. Diílo fe riram feus filhos bem , 
quando lhe liamos ifto , dizendo que íeu pai 
não era fenão Turco , nem fe chamava fe- 
não Cufo. Efta Ilha de Goa he tão antiga , 
que fe não acha nas efcrituras Canarás (cu- 
ja fempre foi ) o principio de lua povoação. 
Mas acha-fe que foi fempre tão continuada 
dos eílrangeiros , que andava entre eíles por 
adajo , vamo-nos recrear ás frefcas lbmbras 
de Goa , e a goftar da doçura do feu betre. 
E aííim lhe chamavam por excellencia Goe 
moat , que na fua antiga linguagem quer di- 
zer terra frefca , e fértil. E peia continuação 
do nome fe veio a abbreviar, e a lhe cha- 
marem Goe , e nós mudando-Ihe a letra E , 
lhe chamamos Goa. Os naturaes Canarins del- 
ia lhe chamam Tis Vari, que quer dizer trin- 
ta aldeias, por ferem tantas as que efta Ilha 
tem, que todas, louvado Deos, são hoje po- 
voadas de Chriílãos , e repartidas pordd?e > 
ou quinze Freguezias. Viveo eílè Cufo Adel- 
can até osannos de 1505. Ficáram-lhe dous 

fi- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IV. 427 

filhos, hum chamado Ifmael, e outro Mea- 
Je. E deite havemos muitas vezes de fallar 
pelo decurío da hiftoria , que por iflb o da- 
mos aqui a conhecer , que eítando o pai no 
artigo da morte pedio ao filho Ifmael, que 
lhe íuccedia no Reyno í que a feu irmão Mea- 
le, que ficava moço, o não ma ta. (Te , e ofi- 
zeffe Religiofo , (porque antre eftes Mouros 
he melhor fer porco de Herodes , como lá 
dizem , que irmão d'ElRey , porque a pri- 
meira coufa , que fazem em herdando o Rey- 
no , he matarem todos , ou quando menos 
tirarem-lhe os olhos por le não temerem dei- 
les. ) A efte Ifmael tomou onoflb valeroib 
Capitão Áffbnfo de Alboquerque a Ilha de 
Goa. Reinou efte Rey vinte e oito annos , 
e faleceo cíle paliado, antes de o Governa- 
dor Nuno da Cunha partir pêra o Norte. Fi- 
cáram-lhe dous filhos 5 hum chamado Malu- 
can, e o outro Abrahemo. O Malucan que 
era mais velho havia-íè por filho íufpeitofo 
por fer muito negro , e aífim o tinham féi* 
to crer ao pai : pelo que alguns Capitães (de 
que era cabeça IcufXandivan homem pode- 
rofo) trataram de alevantar por Rey ao A- 
brahemo 5 e o Accedecan , que era a maior 
peflba do Reyno , com outros que o íèguiam, 
trabalharam de affentar naquella cadeira a 
Meale Can irmão do Rey morto, fobre o 
que fe atearam grandes bandos, ao que acu- 
dia 



3.28 ÁSIA de Diogo de Couto 

dio Babugi mulher que foi do Cufo Adel- 
can avó dos moços , que era huma Senho- 
ra muito valerofa , e tal manha teve , que 
contra o poder de todos fez alevantar one- 
ío Malucan por Rey ; e logo mandou met- 
ter ao irmão, e ao tio emmafmorras, eper- 
feguio o Acccdecan , que favorecia o tio , 
que por fe livrar delle paíTou-íe a Pondá , e 
dalli fe carteou com o Governador Nuno da 
Cunha , pêra que fendo cafo que o Rey o 
perfeguiíTe de todo, e o folTebufcar, o re- 
colheffe na Cidade de Goa , e lhe déffe li- 
vre embarcação pêra Meca \ pêra o que deo 
ao Governador as terras firmes de Salíbte , 
e Bardes , que eram luas, de que o Gover- 
nador logo mandou tomar poffe por Chri- 
ítovao de Figueiredo Tanadar mor de Goa , 
a quem mandou que fizeííe hum forte em 
que fe recolheíTe , elle o fez aílim. E achan- 
do em hum lugar, que fe chama Mardor, 
hum grande , e forte pagode , o mandou cer- 
car em roda de tranqueiras fortes , deixan- 
do-o no meio , e alli fe recolheo com du- 
zentos homens que levou , e muitos piaes da 
lerra , e dalli íàhia a recolher as rendas , e 
foros das aldeias. Eíte Rey Malucan , que 
fe tinha por adulterino , foi tão má coufa , 
tão torpe , cujo , e vicioíb , que havendo 
pouco mais de féis mezes que governava , 
xoi morto eíle Agoílo paíTado peio Capitão 

Icuí 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IV. 429 

Xcuf Xandivan , porque lhe trazia hum fi- 
lho feu por manceba. E tanto que o matou 
logo entrou nas prizões , e tirou o Abrahe- 
mo , e o jurou por Rey. Eíte como era a- 
migo do Accedecan , era bom homem , e 
pertendia de reinar pacificamente 5 não que- 
rendo vaííallos deícontentes , paliou logo 
hum formão , e perdão geral ao Accedecan, 
confirmando-Ihe as terras queElRey íèu pai 
lhe tinha dado, e o mandou chamar, ere- 
cebeo com muitos mimos. Vendo-fe elle já 
reconciliado com EIRey, e que não havia 
roiíter o Governador pêra coufa alguma , tra- 
tou de lançar mão das terras que lhe tinha 
dadas, em quanto o Governador andava no 
Norte , e deípedio com muita prefia hum 
Capitão Turco chamado Soleimão Agá com 
nove mil homens de pé , e duzentos e íln- 
coenta de cavaJlo, pêra que fe foíle metter 
jiellas , como fez : e apofiando-fe das alde- 
ias de Cocolí , Aiblona , e Margão fe dei- 
xou ficar alli recolhendo os rendimentos, 



CA~ 



430 4SIA de Diogo de Couto 

CAPI TU L O V. 

Dos recontros , que os nqffòs tiveram com os 
Mouros : e de como D. João Pereira pe- 
lejou com elles , e os desbaratou : e das 
coufas em que o Governador Nuno da 
Cunha provê o emDio, e em Goa. 

("^ Hriftovão de Figueiredo , que cíhva 
^j por Capitão emMandor, teve logo re- 
bate de como os inimigos eram. entrados nas 
terras, e fortificando-fe mui bem, deípedro 
Ivliguei Froes Feitor de Goa ( que era feti 
genro, e viera alli arrecadar as rendas) com 
cjuinze decavallo, e alguns piaes , pêra que 
foíTe efpiar os inimigos , e ver que gente fe- 
ria. Miguel Frces chegou á aldeia de Ver- 
m. meia légua da tranqueira , aonde deo de 
roílo com os inimigos , e tão perto que não 
pode virar fem rifeo de le perder de todo» 
E em os vendo arrancou com os de caval- 
io cem grande fúria , e os foi commetter 
derribando alguns dos primeiros encontros* 
E como era grande homem de cavallo , e 
de muito animo , e esforço, tanto que que- 
brou aquella primeira fúria dos inimigos y 
que fe acharam embaraçados com aquelíe 
atrevimento , foi-fe recolhendo com grande 
ordem, levando todos os de pé diante, ten- 
do-lhes o encontro dos inimigos porque 

os 



Dec. IV. Liv, X. Cap. V. 431 

os não rompeílem , fazendo muitas voltas a 
elles , de que íempre efcalavrava alguns. To- 
davia os Mouros aperraram tanto com to-* 
dos , que lhes derribaram oito companhei- 
ros. Mas Miguel Froes com os poucos que 
lhe ficaram foi fempre íuílendo o pezo da 
gente ás voltas até peno da tranqueira. Chri- 
ftovao de Figueiredo foi avifado do nego- 
cio por alguns piaes que foram fugindo , e 
fahindo fora com toda a gente que tinha pê- 
ra ir recolher o genro , achou-o já perto da 
tranqueira mui baralhado com os inimigos > 
e dando Sant-Iago nelles , com grande fúria 
os fez parar , travando-fc huma muito arris- 
cada batalha, porque ficaram todos baralha- 
dos. Nefte encontro fizeram os noííos o que 
fe delles efperava , e derribaram muitos Mou<* 
ros ; mas como elles eram tantos mais , tor- 
naram a carregar fobre os noflbs , que íeficH 
ram recolhendo , ficando detrás o logro ; e 
genro , tendo-lhe o encontro ; e affim che- 
garam ao forte já tudo tão baralhado , e tra- 
vado , que houveram de entrar de envolta 
huns com os outros* Perdêram-fe nefta jor- 
nada féis Portugnezes , e trinta piaes da ter* 
ra com dous Naiques valentes homens Gor* 
ça Naique , e Malu Naique , naturaes de Goa 
velha , que. pelejaram como leões bravos. 
Recolhidos os noííos ao forte , foram cer- 
cados á roda dos Mouros, fem lhes darem 

lu- 



43* ASIÀ de Diogo de Couto 

lugar pêra poderem lançar? 'hum pião pêra 
levar recado ao Capitão de Goa , que não 
deixou de o ter por alguns piães que fugi- 
ram , que le não puderam recolher ao for- 
te. Tanto que D. João Pereira Capitão de 
Goa teve aviíb do trabalho , e perigo , em 
que os da tranqueira ficavam , negociou-fe 
com muita preíià pêra os foccorrer , man- 
dando ajuntar todos os piães das Ilhas de 
Goa, e moços dos cafados , que todos fa- 
riam hum corpo de mil e quinhentos ho- 
mens , e provendo-os de lanças , efpingar- 
das, e outras armas , pafíbu-fe a Agaçaim 
com todos os cafados , e alguns fronteiros 
c\uc efíavam em Goa , que feriam fetecentos 
homens , em que entravam cento e oitenta 
de cavallo . e paííbu á outra banda , e foi 
anarchando em muito boa ordem , levando di- 
ante alguns cavallos ligeiros pêra defcubri- 
rem o campo. Gaitou niílo oito dias , em 
que fempre de dia ? e de noite o forte foi 
commettido por todas as partes , com que 
deram aos cercados infinito trabalho 5 por- 
que não largaram em todos elles as armas 
das mãos , defendendo-fe muito valorosa- 
mente , não deixando de haver mortos de 
jíçarte a parte. Soleimão Agá teve Jogo avi- 
To da vmda do Capitão de Goa , e toman- 
do parecer fobre o que faria , aíTentáram 
gue fe foíTem pêra Verná '> que era hum cam- 
po 



Dec. IV. Liv. X. Cap. V. 433 

po mui largo , e grande , e que alli efpe- 
ralTem o? Portuguezes , epelejaífem com el- 
ks , e afíun o fizeram. D. João Pereira che- 
gou a Mardor , íahindo-o a receber Om- 
ito vão de Figueiredo, e Miguel Froes com 
os mais Portuguezes , e delles foube o que 
lhes era acontecido com os Mouros , e do 
poder que era , e onde eítavam , porque já. 
os tinha mandado efpiar. E tomando alli pa- 
recer , aíTentáram , que aquelle dia defcan- 
faífem , e que ao outro foíFem buícar os ini- 
migos , e pelejaflem com eíles , pêra o que 
fe todos prepararam. Ao outro dia pela ma- 
nhã ordenou o Capitão ília gente toda, fa- 
zendo da de cavallo duas batalhas , huma 
deo a Jurdão de Freitas , e a outra tomou 
pêra íl , com quem ficaram os Cidadãos , e 
Cavalleiros principaes , que fe acharam nef- 
ta jornada , que eram os feguintes : Galvão 
Viegas Alcaide mor de Goa , e feu irmão 
Galaz Viegas , Vicente Colaço , Jorge Gar- 
cez Vereadores daquelle anno , Pêro Preto 
fogro de D.Diogo de Almeida Freire, Se- 
baííião da Fonfeca , Gregório Martins , Fran- 
cifco de Mendoça , Manoel de Vafconcel- 
los , Affonfo Pires do Vale , e outros. Da 
gente de pé fez três batalhas , duas dos Por- 
tuguezes , de que deo a Capitania a Chri- 
ftovão de Figueiredo , e a Miguel Froes ; e 
a outra que era de toda a gente da terra deo y 
Couto. Tom. I. P. íl. Ee e 



434 ÁSIA de Diogo de Couto 

e fez Capitão delia Icuf Tanadar Mouro 
valente homem. Neíla ordem começaram a 
marchar pêra Vcrná ; e chegando á viíía ? a- 
ehou já os inimigos em campo com ascof- 
rãs em huma ferra ) com toda a gente de pé 
em dons efquadrões de quatro mil e quinhen- 
tos cada hum ; e em cada ponta cento de 
cavallo , e fincoenta que eram acuhertados 
na teíla do exercito , pêra fuílentarem o pri- 
meiro encontro. D. João Pereira poílo que: 
viííe o grande poder dos inimigos , e a boa 
ordem cm queeítavam , não fez abalo algum 
em feu coração , não deixando de o fazer 
nos mais dos da fua companhia , que fica- 
ram embaraçados vendo tamanho exercito, 
o que D. João lego entendeo ; e receando 
que mais o desbarataífe o medo dos feus , 
que o poder dos inimigos , foi difeorrendo 
por todos com hum roílo mui alegre , àU 
zendo-lhes : » Que he ifto, Cavalleiros , e com- 
» panheiros meus , aqui temos eíles Mouros 
» inimigos de noífa Lei , que são os mefmos r 
» que vos desbarataítes muitas vezes , não haja 
» novidades , fegui-me , que Deos he comnoP 
» co , e a vitoria eftá certa. » E com ifto def- 
pedio Jurdão de Freitas , pêra que pegaffe com 
os de cavallo de huma das pontas , e man- 
dou aos de pé que travaííem a batalha , e 
elle com os da fua companhia remetteo com 
os cavallos acubertados > dando nelles Sant- 
iago 



Dec."IV. Liv. X. Cap. V. 43T 

lago com tamanho Ímpeto , que daquelle pri-* 
meiro encontro lhes derribou alguns, e os mais 
fez recolher aos efquadrões. Os de pé rompe- 
ram batalha com os Mouros , de que derriba- 
ram muitos das primeiras fumadas da arcabu- 
zaria. Chriftovão de Figueiredo-, e Miguel 
Froes andaram fempre diante de fuás compa- 
nhias , trazendo tanto o tento em os feus , co- 
mo em os inimigos. O Tanadar Icuf Mouro 
com os piaes , e eferavos commetteo os inimn 
gosporhuma das ilhargas de hum efquadrão 
com que travou mui determinadamente , der- 
ribando logo muitos , andando eJle diante 
de todos em hum formofo cavallo , fazen~ 
do maravilhas , matando, e derribando nos 
Mouros a fua vontade ? mettendo-fe tanto 
antre elles , que lhe mataram o cavallo de hu- 
ma efpingardada , ficando a pé cercado de 
muitos , que trabalharam pelo matar, por- 
que era mui conhecido de todos ; mas os 
feus piães , e Naiques lhe acudiram com mui- 
ta preíTa , e lhe deram outro cavallo que le- 
vava a defiro, em que cavalgou , efez mui- 
tas maravilhas. Os eferavos cios calados pe- 
lejaram aqui como leões , fazendo nos Mou- 
ros grande eftrago , mas não fem damno feu* 
D. João Pereira fobre quem carregava aquel- 
le negocio , depois de romper os eavallos 
acubertados, pegou com os outros, que ef* 
lavam na outra ponta do efquadrão , fican- 
Ee ii do 



436 ÁSIA de Diogo de Couto 

do aííim todas as batalhas travadas com ta- 
manha crueza , que nao faziam fenão cahir 
de ambas as partes ; mas como os inimigos 
eram tanto de vantagem , cercaram os noí- 
íos de feição , que cíteve a coufa tão arrif- 
cada , que alguns dos Portuguezes de cavai- 
lo fe começaram a recolher , e não deixaram 
de fer viftos de D. João, que poílo que pe- 
lejava como Cavalleiro , nao deixava de ver , 
e prover a tudo como Capitão. E remetten- 
do com os que fe fahiam da batalha , os 
aíFrontou de palavras , e ainda deo com a 
lança , dizendo-lhes : » Voltai , Judeos , onde 
» vos ides ? Porque quereis deshonrar a voA 
» fa nação Portugueza ? » Elles envergonha- 
dos diílo voltaram pêra os inimigos , pelejan- 
do de novo valorofamente. E por não par- 
ticularizarmos tanto golpe 3 a batalha eíleve 
muitas vezes declinada contra os noíTos > mas 
Deos , que não tirava os olhos delles , deo 
animo , e esforço a D.João, e aos mais Ca- 
pitães , e Cavalleiros Cidadãos de Goa , (que 
foram os que fuftentáram todo aquelle pezo , ) 
que apertaram tanto com os inimigos , que 
os arrancaram do campo , fendo já quatro 
horas da tarde , (que tanto durou eíle confli- 
to.) D. João Pereira que fentio a vitoria por 
fi , esforçando os feus , lhes diífe : » Ah esfor- 
» çados Cavalleiros , a vitoria he noíla , vós 
»aganhaíies por yoíTo valor , fabei-a feguir , 



Dec. IV. Liv. X. Cap. V. 437 

i » e não perdoemos a eftes Mouros nofibs ini- 
» migos. »E arrancando apôs elles os foram 
teguindo todos com hum novo animo até de 
todo os desbaratarem , recolhendo- fe Solei- 
mão Agá ferido, fieando-lhe hum fobrinho 
morto com mais de oitocentos dos feus. E 
porque o dia fehia gaftando , tocou D.João 
a recolher , o que os Portuguezcs fizeram ; 
mas os efcravos , e piães com o Tanadar 
Icuffeguíram os inimigos até o rio de Can- 
dor , no cabo das terras de Cocolym , (per- 
to de três léguas donde fe a batalha deo , ) 
e ao paflar defte rio apertaram os nofibs piães 
tanto com elles , que com a prefia fizeram 
aíFogar mais de quinhentos , matando-Ihes in- 
da mais no alcance , e daqui fe voltaram. 
D. João Pereira tomou o arraial dos inimi- 
gos com todo o feu recheio, muitos caval- 
ios , bois , tendas , e toda a mais bagagem , 
de que os noflbs fe carregaram. Morreriam 
nefta jornada fincoenta Portuguezes , e cem 
piães , e efcravos , a fora muitos feridos. Ma- 
taram dous cavallos a Pêro Preto , e a Icuf 
outros dous , e oito , ou dez mais a Cida- 
dãos 5 que o Governador depois lhes pagou 
mui bem. D. João Pereira prcveo o forte de 
Mardor mui bem 5 e recolheo-fe pêra Goa , 
defpedindo logo recado ao Governador do 
que era paíTado. Efte chegou em poucos dias 
a Dio 5 e com elle deo o Governador mui- 
ta 



43 S ÁSIA de Diogo de Couto 

tia preíía ás coufas daqudla fortaleza pêra 
acudir ás de Goa , e pera prover as forta- 
lezas cie Malaca , e de Maluco, porque* íè 
hia acabando o veráo. E tendo já a forta- 
leza em altura que ie podia defender , ele- 
geo pera Capitão delia a Manoel deSouíá, 
aífim pelas panes , e qualidades de ília pef- 
ioa 9 como por ler primo com irmão cie Dom 
António de Taíde Conde da Caftanhe : ra , 
que começava a privar com EIRey D.João, 
e todos o haviam mifter. Ordenou oitocen- 
tos homens pera alli ficarem de preíkiio , 
guarnecendo a fortaleza de artilheria , que 
tirou dos galeões , e a proveo de muitas mu- 
nições, e mantimentos , deixando alguns na- 
vios ordenados pera a ferventia da fortaleza. 
Edefpedio Ilac do Cairo Judeo pera ir por 
terra ao Reyno com cartas a EIRey de co- 
mo tinha feito aquella fortaleza; edefpedin- 
do-fe d^EiRey deo á vela pera Goa , aonde 
chegou em poucos dias. E logo começou a 
entender nas coufas da guerra , fobre o que 
tomou parecer , e aíTentou-fe que fe inudal- 
fe a tranqueira de Mardor pera Rachol por 
ficar fobre o rio , e em parte que por mar 
podia fer foccorrida com pouco , ou nenhum 
rifeo. AlTentado ifto mandou D. Gonçalo 
Coutinho , a que deo poífe da Capitania de 
<íoa, (por ter D.João Pereira acabado feu 
:t£mpo , ) que foííe áquelle negocio mandan- 
do 



Dec. IV. Liv. X. Ca?. V. 439 

<do com elle o Tanadar mor com todos os 

-piães , e gente de ferviço deita Armada , das 
Tanadarias , e muitas embarcações pelo rio 
■aífíma. D. Gonçalo chegou a Mardor > e man- 
dou tirar tudo o que havia na tranqueira , a 
que fe deo fogo por não ficar em pé , e paf- 
íbu tudo aRachol , onde fabricou logo ou- 
tra fobre hum tezo , que cahia fobre a agua , 
-que- fe fez de madeira grafia de duas faces 
com feus entulhos , e algumas guaritas for- 
res. Iílo tudo fe fez com muita preíleza por 
haver já novas que deícia gente do Idalcan. 
O Governador poz nella por Capitão Álva- 
ro de Caminha Cavaileiro muito honrado 
com duzentos Portuguezes , e alguns Nay- 
ques , e pi-ães , e ordenou dez > ou doze na- 
vios de remo pêra andarem naquelles rios , 
de que fez Capitão mor Ruy Dias Pereira. 
E porque era neceflario acudir ás coufas de 
Maluco , defpachou por Capitão daquelía 
fortaleza António Galvão \ que pofto que en- 
■tendefle o pouco proveito que podia fazer , 
pelo modo de como aquella fortaleza fica- 
va , não deixou de a acceitar pelo defejo que 
tinha de fervir a Deos , e a E.lRey. E por- 
que faltava dinheiro pêra os -provi mentos , 
empreitou dez mil cruzados da fazenda que 
•achou na índia, defeu pai, de que elle era 
herdeiro , com que fe negociou o provi- 
mento. Pelo que fe pode com muita razão 

di- 



44° ÁSIA de Diogo de Couto 

dizer, que António Galvão refgatou a for- 
taleza de Maluco com feu dinheiro , ccom 
íeu langue , o que lhe foi tão mal pago , 
como adiante fe verá. E porque defejou de 
povoar , e engrandecer aquella Cidade de 
Tcrnate , folicitou alguns cafados pobres pê- 
ra que íe foííem com fuás mulheres , e fi- 
lhos viver a cila ; e o mefmo fez a algumas 
mulheres Portuguezas que viviam mal , pê- 
ra lá as caíàr , empreitando dinheiro a to- 
dos pêra fe aviarem , o que fizeram como foi 
tempo. Ecom iíio concluímos com as cou- 
■ías deíle verão, e entramos nas de Malaca , 
e Maluco , que fempre guardaremos pêra o 
inverno pelas não contarmos a pedaços. 

CAPITULO VI. 

Das pazes que D. EJíevao da Gama fez 
com ElRey de Viantana , e das coufas 
que aconteceram em Maluco todo efle ve- 
rão : e de hum raro cafo que aconteceo a 
hum daquelles fenhores Chrijiãos. 

TAõ deílruido ficou ElRey de Viantana 
das mãos de D. Eftevão da Gama , e 
cm cftado tão mifcravel , que nunca mais 
pode levantar cabeça , nemoufou a fazer po- 
voação alguma , nem fahir dos matos onde 
citava. E lançando fuás contas aflentou , que 
pêra viver quieto , e feguro lhe era necelfa- 

rio 



Dec. IV. Liv. X. Cap, VI. 441 

rio ter pazes com os Portuguezes , e coa- 
ceder-lhes tudo o que elles quizeíTem. Com 
efta relblução defpedio por Embaixadores 
Curutaule daRaya , Lacximena , Taucao da 
Raya , e Turcão Marcar filho do feu Ban- 
dara , por quem mandou viíitar D. Eílevão 
da Gama , e a pedir-lhe que lhe quizefíe con- 
ceder pazes , porque elle eftava bem arre- 
pendido das guerras pafladas , e que eftava 
preíles pêra todas as fatisfaçôes que quizef- 
fe. Eftes Embaixadores chegaram a Malaca 
-em oito , ou dez embarcações embandeiradas 
com grandes finaes de alegria. D. Eílevão 
da Gama os recebeo com grande apparato , 
c ouvio tudo o que lhe diíTeram da parte 
<k> feu Rey com rofto alegre j e mandando-os 
•agazalhar tomou logo parecer com os Ca- 
pitães , e cafados antigos daquella fortaleza 
íòbre aquelle negocio , e todos aíTentáram , 
que lhes deviam conceder as pazes com con- 
dições honeftas , pera affim ficar aquella for- 
taleza defafombrada , e defapreíTada. Em fim 
communicando tudo com os Embaixadores , 
concluíram as pazes com as Condições fe- 
guintes : 

» Que toda aartilheria que hòuvefle por 
» todo o Reyno de Viantana com as armas 
»d'E!Rey de Portugal de muitas embarca- 
» coes que por fuás coftas fe perderam , fe- 
» ria logo tornada > e trazida a Malaca. 

» Que 



44^ ÁSIA de Diogo de Couto 

»Que nunca mais EIRey deViantana fa~ 
5> ria em porto algum dos feus lancharas , 
» nem outras embarcações de guerra , e to- 
)> das as que fe fizeffem fem o EIRey faber, 
» tanto que foíTe a fua noticia as mandaria a 
» Malaca com os donos delias. E que todas 
» as que ao prefente eíliveíTem feitas, affim 
» fuás , como de feus vaílallos , mandaria lo- 
5) go entregar á peííoa que com elles Embaí- 
)) xadores pêra ifíb havia de ir. 

» Que nunca já mais faria tranqueiras , 
» nem fortes alguns em Bintão , nem emVi- 
» antana , e que fe paliaria logo pêra o rio 
)> de Muar por ficar mais perto de Malaca, 
y> pêra delle converfarem , e commerciarem 
)) como amigos ; e que naquelle lugar tan> 
» bem não faria tranqueira , nem forte ai- 
» gum. 

» Que todas as dividas que Tuão Mafa- 
» mede devia aos mercadores de Malaca das 
» fazendas que tinha tomadas antes daguer- 
)> ra as -tornaria logo a feus donos ; e não 
» podendo fer tudo , foiTe parte , e a derna- 
» zia pêra o anno , de que eile Rey ficava 
)> por fiador. 

» Que todos os efcravos de Portuguezes 
y> que eftavam fugidos de Malaca , e dalli 
» por diante fugiíTem , fe tornariam logo : e 
» fe algum já foííe Mouro , o pagariam a feu 
» dono, e o mefmo fe faria em Malaca aos 

- » fu- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VI. 443 

» fugidos de Viantana. E fe ainda houveífe 
» em fens Reynos alguns filhos 5 e filhas de 
» Portuguezes , que fe perderam havia annos 
» na fua cofia em hum junco que hia de-Bor- 
» neo pêra Malaca , fe tornariam logo com 
» todos os feus efcravos , e efcravas. 

» Que deixaria navegar livremente todas 
» as embarcações de quaefquer partes que 
)> foíTem pêra Malaca com fazendas , ou man- 
» timentos , fem as obrigar a tornarem feus 
» portos : e que entrando algumas nelles com 
)i tempo fortuito , EIRey lhe daria toda a 
)) ajuda , e aviamento pêra irem pêra Malaca. 

» Que mandaria a feus vaífalios que foí- 
» fem com luas fazendas a Malaca pêra as 
y> venderem , e comprarem outras como ami- 
» gos , a quem fe faria favor , e amizad/, 
» e o mefmo fe faria em feus portos aos Por- 
» tuguezes. » 

Eftes Capítulos de pazes juraram os Em- 
baixadores em nome do feuRey, e D. Ef- 
tevão da Gama os mandou apregoar pela Ci- 
dade com grandes feftas , e alegrias. E lo- 
go negociou peífoas pêra as irem ver jurar 
a EIRey em companhia dos Embaixadores > 
que defpedio contentes , e fatisfeitos , dando- 
lhes peças , e brincos pêra lhe levarem. EI- 
Rey os feítejou muito , e jurou as pazes , e 
as mandou apregoar por ília Cidade , man- 
dando logo fazer entrega das couías que el~ 

ta- 



444 ÁSIA de Diogo de Couto 

tavam capituladas. E clle fe mudou pêra 
Muar, aonde fundou nova Cidade , come- 
çando a correr em grande amizade com os 
Portuguezes. Aqui os deixaremos por con- 
tinuarmos com as coufas de Maluco , que 
mettemos aqui por não fazermos Capítulos 
pequenos. 

Deixámos as coufas daquellas Ilhas com 
o tyranno Catabruno fe alevantar por Rcy 
de Geilolo , e com fuás Armadas andar fa- 
zendo guerra por todas aquellas Ilhas aos 
Chriftãos delias , a quem com ameaças fa* 
zia tornar atrás. E ajuntando feu poder foi 
contra a Cidade de Momoya , em que re- 
íídia hum Príncipe Chriftao chamado Dom 
João-, de que já em outra parte falíamos. 
Efte náo oufando a lhe dar batalha fe reco- 
Iheo em hum forte com fua mulher , filhos, 
e família , e alguns Portuguezes que Trif- 
tão de Taíde lhe tinha mandado , não ou- 
fando a ficar com elle , fe recolheram aos ma- 
tos , aonde logo foram mortos pelo ediéto 
que era lançado da parte dos da liga, O Ca- 
tabruno entrou na Cidade de Momoya fem 
achar refiftencia alguma , e fez neila muito 
grandes cruezas, porque os pobres, e m i fe- 
ra veis não fe quizerão bolir , nem mudar 
delia , fazendo retroceder todos os Chriftãos 
com tormentos , medos , e ameaças. E co- 
rno teye feito nella o que quiz , foi cercar 

D. 



Dec. IV. Liv. X. Cap.VL 445- 

D.- João no forte em que eftava ? dando-lhe 
grandes aífakos por todas as partes , a que 
elle como valorolo acudio defendendo- íe mui 
bem ; mas entendendo nos léus grande te- 
mor , e receando que elles meimos o entre- 
gaíTem ao inimigo , quiz prover nas coufas 
da alma de fua mulher i e filhos, porque fa- 
bia que Catabruno o de que mais tratava 
era do zelo da lei de Mafamede, e de fa- 
zer tornar atrás todos os Chriftãos , recean- 
do que fua mulher , e filhos , de fracos le 
lhe rendeífem, indo ter a fuás mãos. E mo- 
vido daquelle zelo , mas enganado de tão 
pervería opinião , matou com fuás próprias 
mãos fua mulher, e filhos. E querendo ul- 
timamente fazello a íl próprio , foi eííorva- 
do dos feus , que pêra fe fanearem com Ca- 
tabruno lho entregaram com grande mágoa > 
c dor de feu coração por não poder efFei- 
tuar o feudefejo. Catabruno tendo-o em feu 
poder , fabendo o que fizera , lhe perguntou 
como tomara huma tão cruel , e barbara de- 
terminação , come a de matar fua mulher, 
e filhos , com tanta deshumanidade ? Dom 
João com muita fegurança lhe refpondeo , 
que naquella matéria tratara mais da falva- 
ção de luas almas , que do remédio de fua? 
vidas , porque receou que de fracos com me- 
do vieíiem a negar a Fé de Jesus Chrifto , 
cm cuja confifsão eílava a verdadeira falva- 

çao 



44Ó ÁSIA de Diogo de Couto 

çao das almas. Mas que elle como homem 
firme , e confiante , e que não receava me- 
dos 5 nem tormentos , elíava muito preftes 
pêra íoííier todos os que íe lhe déíiem por 
íua Fé ; porque eífes magoavam o corpo , 
mas faziam a alma muito formoía diante de 
Deos , onde logo hiá gozar de íua Divina 
Visão , e de huma gloria que nunca já mais 
íe acabava. Catabruno cheio de cólera \ e 
irado daquella liberdade com que lhe fallon 
o mandava matar; mas os feus lhe foram á 
iiião , pedindo-lhe que lhe déííe a vida , o 
que elle fez a feus rogos deixando-o em feu 
íenhorio. Caio foi efte da conílancia defte 
bárbaro pêra confundir , e envergonhar a tan- 
tos Chriftãos da Europa, criados, c fuílen- 
tados com o leite da Santa Madre Igreja , 
de quem por bem pequenos , e particulares 
appetites íe apartam , fazendo- íe perfeguido- 
ics delia. E efte fendo bárbaro , nafcido tan- 
tas mil léguas apartado da Igreja Romana \ 
foi hum tão grande pregoeiro , e ConfeíTor 
da Fé de Chrifto como fe vê. Triftão de 
Taíde atribulavam-no muito eílas coulas , e 
ainda mais a grande falta que havia na for- 
taleza de tudo, pelo que receava huma gran- 
de deíaventura ;' e certo lhe fuccedêrá , fe 
Deos não trouxera no mefmo tempo hum 
galeão , que D. Efievao da Gama lhe manda- 
ra de Malaca carregado de mantimentos , e 

mu- 



D se. IV. Liv. X. Cap. VI. 447 

munições por fer avifado do perigo em que 
citava. Deite galeão hia por Capitão Simão 
Sodré , que foi recebido de todos como ho- 
mem que os hia refgatar. Com iíto levan- 
taram osnoílbs alguma coufa a cabeça , e 
começaram a entrar pela Ilha a fazer faltos 
na gente da terra , que eílava toda recolhi- 
da na ferra. Queimaram- lhe deita vez as po- 
voações de Trutupalcte , Calamata ? e Iíicò , 
poíto que acharam em todas grande defen- 
são , euftando-lhes bem de langue ; e duas 
vezes fahíram a pelejar com a Armada de 
Tidore , que chegou até á viíta da fortale- 
za , mas de ambas as vezes fe recolheram 
os noífos desbaratados com mortos , e feri- 
dos , não ficando porém os inimigos louvan- 
do- fe muito da vitoria. Os da liga lançaram 
grandes Armadas no mar, com que encur- 
ralaram os noífos na fortaleza , aonde eíti- 
veram muito trabalhados até chegar Antó- 
nio Galvão 5 como adiante diremos. Efte 
anno foi ter Alvarado Caítelhano ás Ilhas dos 
Papuas , indo por mandado de Fernão Cor- 
tez ás de Maluco: e dam-lhe a elle a hon- 
ra deite defeubrimento , fendo ella de D.Jor- 
ge de Menezes , que a ellas foi ter o anno 
de vinte e fete , como atrás temos dito. Efte 
Alvarado defeubrio ncíta jornada outras Ilhas,, 
a que chamam Gelles , em hum gráo da ban- 
da do Norte Leite Oeíte com a Ilha de Ter- 
na- 



448 ÁSIA de Diogo de Couto 

nate ; cento e vinte leguas do Moro. São 
os naturaes delias da cor dos Malucos , e 
tem língua íobre íi. 

CAPITULO VIL 

Dos Capitães , que o lâalcan mandou fobrer 

as terras de Salfete : e da Armada que 

ejie anno veio do Reyno : e de corno Dom 

Gonçalo Coutinho Capitão de Goa 

pãjjou em bujca dos inimigos. 

ASfím ficou affrontado , e offendido o 
Idalcan com a perda , e desbarato de 
Soleimao Agi j que esbravejava contra os 
léus Capitães , defpedindo logo Accedecan 
com groflb poder pêra ir tomar fatisfação 
daquella quebra. O Accedecan chegou a Pon- 
dá , e dalli defpedio pêra as terras de Sal- 
fete hum Capitão chamado Badurcan com 
quinze mil homens. Efte foi logo cercar o 
forte de Rachol , elhe deo muitos aíTaltos > 
achando em Álvaro de Caminha , que era 
Capitão , mui grande reíiftencia , tendo nos 
navios que andavam no rio mui grande fa- 
vor, e ajuda. Era ifto em Junho; e porque 
&s terras citavam alagadas , tendo o Gover- 
nador recado , mandou gente por mar pêra 
mor fegurança da fortaleza , e defpedio mui- 
tos navios pêra irem pelo rio aífima dar nas 
aldeias* do Idalcan , como fizeram > queiman- 
do- 



Dec. IV. Liv. X..Cap- VIL 449 

do-lhe muitas, e deítruindo-lhe os campos, 
e as fementeiras. Vendo Badurcan, que em 
quanto os noííos navios ti vedem paífagem 
franca pelo rio aífima com os foccorros que 
cada dia lhes vinham , não podiam tomar 
aquella fortaleza , deixou nas terras outro 
Capitão chamado Carnabet com oitocentos 
cavallos , e quatro mil de pé , e elle fe paf- 
fou com toda a mais gente por hum paífo 
do rio que fe chama oBory, porfer ornais 
eftreito do rio porcaula de huma ponta de 
aréa , que da outra banda lança ornar, (que 
fe chama Lotilin ; ) e naquella parte aonde 
fe poz havia hum grande penedo , que fi- 
cava fobre a agua , de longo de quem as 
embarcações que haviam de ir pêra Rachol 
forçado haviam de paliar. E fobre o pene- 
do fez huma tranqueira , em que affeílou al- 
gumas peças de artilheria , com que defen- 
deo a paífagem aos noílbs , que todavia com- 
mettiam de noite , ainda que com rifco. O 
que fabido por Badurcan mandou atravef- 
lar o rio defde oBoiy até á ponta da arêa. 
de Lotilin , (que era diftancia de pouco mais 
de hum tiro de pedra,) com traves groflas 
mettidas na vafa ; e de huma á outra man- 
dou atraveíTar cadeias de ferro , com o que 
a paífagem ficou de todo impedida ; porque 
fua tenção foi defender os foccorros , e pro- 
vimentos , porque lhe entregaffem os noíTos 
Couto.T9m.LP.1L Ff a 



45^0 ÁSIA de Diogo de Couto 

a fortaleza. O Governador fendo avifado do 
negocio o fentio muito pelo rifco em que 
a fortaleza eikva, e bem entendeo que lhe 
havia aqueíie negocio de dar trabalho : e 
com muita preífa fe foi pêra o paífo de A- 
gaçaim pêra acudir áquellas coufas , porque 
lhe ficavam mais de quatrocentos homens 
cercados , e arrifcados na fortaleza , e mui- 
tas fuftas , e manchuas das eftacadas pêra 
dentro como em redes. Dalli fe embarcou 
o Governador em algumas manchuas com 
alguns Fidalgos , e Capitães velhos , e foi 
reconhecer o lítio, e ver com o olho o que 
fe poderia fazer pêra fe franquear a paíTa- 
gem. E notando tudo muito de vagar , ven- 
do a ponta da arêa de Lotilin , que era del- 
gada , mandou ver fe fe poderia cortar pêra 
lançarem o canal pêra aquella banda , ao 
que foram alguns homens práticos na terra 
com alguns Pilotos , que foram lançados em 
terra mui efcondidamente , e vendo , e no- 
tando tudo , affirmáram ao Governador que 
fe podia cortar, e que ficaria alli canal aor 
menos pêra almadias , e manchuas. E que- 
rendo pôr as mãos áquella obra , mandou le- 
var duas grandes barcaças com mantas , e 
arrombadas , de que fez Capitães Diogo de 
Azambuja , filho de Diogo de Azambuja o 
velho, e Lionel de Lima , que foi hum dos 
Capitães das caravelas da companhia de Dom 

Pe- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VII. 45*1 

Pedro de Caftello-branco.Efíes Fidalgos eram 
ambos mancebos de grande opinião. OGo- 
vcrnador mandou que foflem furgir ás efta- 
cadas , e que bateííem o Bory , e trabalhaf- 
fem por arrancar 5 ou quebrar os páos , e ca- 
deias , e cícreveo a Álvaro de Caminha Ca- 
pitão de Rachol , que em hum dia que lhe 
limitou , mandaíTe os Naiques , e piaes a Lo- 
tilin , pêra ajudarem a cortar aqueila ponta ; 
e mandou ao Capitão de Goa D. Gonçalo 
Coutinho com doze , ou quinze navios , e 
muitos fervidores com enxadas , e codilins , 
paz ., e ceftos pêra correrem com aqueila 
obra, deixando-íe o Governador ficar em A- 
gaçaim em hum palmar de hum Fernão Nu- 
nes natural de Meijão Frio, Cidadão hon- 
rado , e que fe tinha achado na tomada de 
Goa , e em outras coufas : pelo que lhe deo 
EIRey a Capitania daquelle paííb de Aga- 
çaim em fua vida, epera caíamento dehu- 
ma filha , e ainda hoje vive hum feu filho 
chamado Jorge Fernandes neíte mefrno pal- 
mar, que fe achou neíla guerra do Bory, e 
dá delia muito boa razão. As barcaças de- 
pois de furtas entre as efiacadas começaram 
a bater o Bory com grande fúria , e terror > 
e também receberam delle fua refpofta , ma- 
tando-lhe alguns homens , e arrombando-lhe 
alguma parte delias ; mas os Capitães del- 
ias > que eram valorofos , não defiítíram da 
Ff í± obra > 



4^2 AS1A de Diogo de Couto 

obra , antes foram continuando a bateria > 
desfazendo muitas das eftacadas , e matan- 
do no Boiy muita gente. Em quanto fe if- 
to continuava , D. Gonçalo Coutinho defem- 
barcou abaixo de LotiJin , e foi caminhan- 
do por terra até á ponta da arêa , onde a- 
chou o Capitão do campo de Rachol com 
todos os piães , e pondo mãos á obra cor- 
taram a ponta de mar a mar com grande 
rifco , e perigo , porque todo aquelle dia 
choveram pelouros do Bory fobre os noí- 
fos 5 que mataram alguns dos íervidores. Cor- 
tada a ponta , como aquella parte era mui- 
to baixa , acudio a agua com enchente , e 
ficou daquella feita hum canal , que de ma- 
ré cheia podiam 'paíTar embarcações peque- 
nas , por onde começaram a ir os foccorro3 
a Rachol , mas íémpre com rifco por cau- 
fa da artilheria do Bory > que de dia , e de 
noite não ceifava de varejar aquella parte. 
Eíte trabalho durou todo o inverno , em que 
os da fortaleza tiveram alguns aífaltos , que 
por não ferem de fubííancia deixamos de ef- 
crever. Entrando o verão furgíram na bar- 
ra de Goa finco náos , de que era Capitão 
mor Jorge Cabral , que tinha partido do 
Reyno o Março paífado de 1536. de que 
a fora elle eram Capitães Vicente Gil , Gaf- 
par de Azevedo , Ambrofio do Rego , e 
Duarte Barreto. Eíle anno foi muito famo- 

fo 



Dec. IV, Liv. X. Càp. VIL" 45-3 

lo noReynp por duas coufas. Huma , por- 
que foi muito nomeado, que fe chamou o 
de S, Braz , que foi de tanta fecca , que to- 
do o anno até o dia de S. Braz Biípo , que 
a Igreja celebra a três de Fevereiro , não ti- 
nha chovido huma gotta de agua , e nelle 
por merecimento do Santo choveo tanta , que 
parecia hum diluvio , e as íèmentes que ef- 
tavam lançadas á terra ( que parece fe ti- 
nham nella fuftentado com alguns orvalhos ) 
foram rebentando tão profperamente , que 
em toda a parte do Reyno refpondeo a fef- 
fenta por hum , e valeo o alqueire de trigo 
a vinte e linco , e a trinta reis. A outra foi , 
que eíte anno entrou em Portugal a Santa , 
e Geral Inquiíição , impetrada por EIRey 
D. João do Summo Pontífice , porque an- 
dava o Reyno mui ifcado da peite Judaica. 
Pelo que movido da honra do Senhor Deos 
mandou por Embaixador a Roma D.Hen- 
rique de Menezes 3 filho do Conde Prior Dom 
João de Menezes , que em Roma íblicitou 
eíte negocio com o Summo Pontífice , que 
movido do fanto zelo cPElRey lhe conce- 
deo a elle , e a todos os feus Succeífores o 
titulo de Zeladores da Fé. Eíte anno tam- 
bém cafou o Infante D.Duarte irmão d'El- 
Rey D. João com a Infanta D. líabel ir- 
mã do Duque de Bragança, 

CA- 



4^4 A-SIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

De como D. Gonçalo Coutinho foi morto , 

e desbaratado no Bory pelos Capitães 

do Idalcan. 

COm a vinda deitas náos , que trouxe- 
ram muita gente , determinou o Gover- 
nador de tomar conclusão nas coufas da 
guerra de Salfete , porque tinha muitas que 
fazer, e a fortaleza de Rachol çíkva mui- 
to arrifcada , e feus foccorros davam gran- 
de opprefsao ao Eftado , porque cuftavam 
muitas mortes , damnos , e defpezas , porque 
a mor parte do inverno eíleve o Governador 
em Agaçaim ., donde provia naquella guer- 
ra , que lhe confumia muito. E pondo em 
confelho de todos os Capitães aquelle nego- 
cio , aíTentou-íe , que fe lança fie o inimigo 
do Bory , e que fe defentopiífe o rio , e fe 
fizeífe huma fortaleza em Rachol forte , e 
que foífe moderada, e capaz de fó cem ho- 
mens , porque não eítiveílem os Portugue- 
2es arrifeados detrás de páos. A (Tentado if- 
to , commetteo o Governador a jornada a 
D. Gonçalo Coutinho Capitão de Goa , a 
quem deo feiscentos homens , que partiram 
em muitos navios grandes , e pequenos, le- 
vando ordem pêra defembarcar em duas par- 
tes; huma pouco antes de chegar ao Bory y 

e 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIII. 45-5: 

e outra adiante delle. Porque como aquel- 
le penedo entrava pela agua , deixava de am- 
bas as ilhargas calhetas a que os navios po- 
diam chegar , e lançar gente em terra. Det- 
rás duas partes fe mettiam já os inimigos , 
e tinham provido nellas deita maneira. Na 
parte antes do Bory , ( que era huma preza 
de agua , que fahia alli ao mar , e que ti- 
nha humas portas , e huma ponte de grof- 
ías traves , ) enceveram-nas mui bem : e na 
outra parte, que era chã, abriram grandes 
covas , e mui fundas , que taparam por íi- 
ma decanas, palha, e terra, e em eftas am- 
bas tinham gente de guarnição , e vigia. Che- 
gado D. Gonçalo Coutinho ás barcaças , (que 
fempre foram continuando na bateria,) toman- 
do a gente delias , ordenou que foííe ao ou- 
tro dia pela manhã a deíèmbarcaçao nefta 
forma : Lionel de Lima , e Diogo de Azam- 
buja com trezentos homens haviam de def- 
embarcar nas portas , e o Capitão com todo 
mais refto no lugar mais affima. E prepa- 
rando-ie todos aquella noite , tanto que rom- 
peo a manha , começaram as barcaças fua 
bateria , e o mefmo fizeram as fuftas , que 
foi huma coufa muito pêra temer. E apar- 
tando-ie os navios foram commetter os lu- 
. gares determinados; os que haviam de com- 
jnetter as portas da preza , puzeram nellas 
as proas , e os primeiros que faltaram íobre 

a 



45^ ÁSIA de Diogo de Couto 

a ponte foram Lionel de Lima , e Diogo de 
Azambuja com alguns companheiros , e co- 
mo hiam de falto dando no cevo , efcorre- 
gando-lhes os pés cahíram no mar , onde 
logo foram aíFogados por cauía das armas , 
e peJa mefma maneira o fizeram mais de cen- 
to e fincoenta dos que aíli deíèmbarcárair». 
Deites huns foram affogados , e outros eípe- 
daçados dos inimigos , que afiim ás efpin- 
gardadas, como ás frechadas não faziam fe- 
não enfopar nos noífos , que citavam emba- 
raçados na ponte huns fobre os outros. Dom 
Gonçalo Coutinho paíTou avante, e foi pôr 
a proa na outra calheta , e arremeçando-fe 
a terra , es primeiros que defembarcáram , 
que foram mais de duzentos , dando nas tra- 
peiras foram-fe com elles abaixo , ficando 
enterrados huns em íima dos outros, Alli a- 
cudíram os inimigos , e -fizeram nelles ma- 
tança bem á fua vontade, D. Gonçalo fal- 
tou também em terra , mas ficou fora com 
alguns que o feguíram , fobre quem carre- 
garam os Mouros. E poíto que D. Gonça- 
lo , e os mais pelejaram valorofamente , fo- 
ram logo desbaratados , e D. Gonçalo foi 
recolhido com trabalho com hum golpe por 
firna de hum hombro , que o efcaláram to- 
do , e aífim fe acabaram de desbaratar to- 
dos , ficando alli mortos mais de trezentos, 
ç todos, ou os mais dos que efeapáram, fo- 
ram 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIII. 457 

ram com muitas feridas de efpingardadas > 
€ frechadas. Os das fuílas 5 que ainda citavam 
por defembarcar, vendo tamanha defaventu- 
ra , recolhendo-íè foram tomando pelo mar 
muitos dos noflbs , aííim mortos , como fe- 
ridos. E tomando as barcaças á toa , foram- 
fe pêra Agaçaim com os navios alaftados de 
corpos mortos , e chegaram ao meio dia es- 
tando o Governador Nuno da Cunha pêra 
fe pôr á rneza com todos os Fidalgos ; e 
dando-lhe a trifle nova , deo de pé ás me- 
zas , lançando tudo pelo chão , foi-fe apar- 
tado fò , dizendo mal á fua ventura , man- 
dando que fe defembarcafíem os feridos , e 
que os curaíTem , como fe logo fez , e fo- 
ram todos defembarcados , aílim elles , co- 
rno os mortos pêra lhes darem fepultura , 
que encheram todo aquelle palmar, que era 
coufa muito laílimofa de ver. O Governa- 
dor acudio á cura , rompendo elle mefmo as 
toalhas , e guardanapos da fuá meza pêra 
fios \ e ataduras , recolhendo D. Gonçalo pê- 
ra a cafa em que fe agazalhava ? mandan- 
do-o curar com muito refguardo , e o man- 
dou pêra Goa ; mas como as feridas eram 
mortaes , durou pouco. Os mais feridos de- 
pois de curados os mandou pêra Goa nos 
mefmos navios , e deíles morreram mais de 
ametade. De forte que nefle negocio fe per- 
deram perto de quatrocentos homens , em 

que 



458 ÁSIA dê Diogo de Couto 

que entraram muitos Fidalgos , e Cavallei- 
ros , a fora mais de quarenta que ficaram ca- 
tivos em poder dos inimigos. Eftes foram 
levados ao Accedecan , que acudio alli com 
muita preíTa , e o primeiro homem que lhe 
aprefentáram foi hum Francilco Dias, que 
elles primeiro defpíram todo deixando-o mi. 
Accedecan vendo-o aíTim pezou-lhe muito 
dos feus ularem aquella deshumanidade. E 
tirando hum camarabando > que tinha fobre 
a touca lavrado de ouro , lho deo pêra que 
fe encachaíTe , como fez , reprehendendo os 
que lho levaram aílim , dizendo-lhes , que os 
Portuguezes não fe haviam detrarar daquel- 
la maneira. 

CAPITULO IX. 

Dos recados que o Governador 'Nuno da Cu- 
nha teve de Dto : e das pazes que fez 
com o Accedecan , e lhe tornou a lar- 
gar as terras de Salfete , e Bardes. 

EStando o Governador com eíte grande 
enfadamento , ao outro dia lhe chega- 
ram cartas do Capitão de Dio , em que lhe 
pedia , que em todo o cafo acudifle ao Nor- 
te , porque Soltão Badur fazia grandes ajun- 
tamentos de gente , e que fem duvida era 
pêra pôr cerco áquella fortaleza. Ifto emba- 
raçou o Governador , e o cortou muito , 

por- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IX. 45-9 

porque o tomou com hum tão frefco nojo 
como o paílado , não fe fabendo por então 
determinar no que faria ; porque fe largava 
aqueila guerra, perdia as terras de Salíete ; 
fenao acudia a Dio , que era mais importan- 
te , arriícava aqueila Fortaleza : neítas talas 
andava fem fe poder acabar de determinar , 
nem boiir. Não comia , nem repoufava , por- 
que via muitos mares alevantados por proa. 
Mas acudio Deos logo a tudo , como elle 
fempre faz , porque eftando na maior inde- 
terminação , que fe nunca vio , nem imagi- 
nou , chegou hum recado do Accedecan a 
lhe pedir licença pêra lhe mandar hum Em- 
baixador , porque tinha negócios que impor- 
tavam tratar com elle. O Governador lho 
concedeo. E vindo muito bem acompanha- 
do o ouvio prefentes os Fidalgos doConfe- 
Iho. Elle lhepropoz fua embaixada da par- 
te de Accedecan , cujafubftancia era : )> Que 
»a elle lhe pezava muito do caio paíTado , 
» porque era muito feu fervidor , eaíFeiçpa- 
» do aos Portuguezes : que lhe pedia por 
» mercê quizeíTe efcufar .tantas mortes , e 
» perdas fobre coufa que elle não podia lo- 
31 grar : que as terras de Salfete eram do Idal- 
»can, e que elle as havia de poíTuir, ear- 
» recadar fem ter contenda com os Portu- 
»guezes : que quando elles lho quizeíTem 
2 impedir , era forçado defender-lho , e que 

»pe- 



4Óó ÁSIA de Diogo de Couto 

» pêra ficar fó tendo fortaleza em Rachol 
» não fervia de mais 5 que de lhe fazer mui 
5i tas defpezas : que elle não queria conten- 
»der com ella , que alli eftaria , e os Por- 
» tuguezes encurralados dentro. Que lhe pe- 
» dia muito lançafie bem fuás contas , e a- 
» chando que lhe fallava como amigo , e fer- 
» vidor , a mandaííe tirar dalli , e defiftiife 
» das terras , e que elle eílava preftes pêra 
» fervir EIRey de Portugal , e conceder to- 
3) dos os partidos juftos , e honeítos que p,u- 
» deífe. » O Governador depois de ouvir o 
Embaixador , o mandou agazalhar em hu- 
ma quinta perto até lhe reíponder. E pon- 
do aquellas couías em Confelho ? debatendo- 
le bem , e dando-fe muitas razões de parte 
a parte , vieram a concluir ? que pois as ter- 
ras fobre que fe contendia fe não pediam 
poffuir ? nem arrecadar íèm mais defpezas 
do que montava o rendimento delias , e que 
o inimigo a defpeito doEílado as havia de 
comer , que o bom feria largar-fe a tranquei- 
ra de Rachol , pois na fubílancia não era mais 
que tranqueira de páos , e não fortaleza , e 
que aquiilo não fervia de mais , que de fa- 
zer gaílos , e defpezns , e de embaraçar a el- 
le Governador pêra não poder fahir de Goa 
acudir ás coufas de que houveífe neceílida^ 
des. E que a todo tempo que o Eftado pu- 
deíTe , e o Governador da índia eíliveíTe def- 

oc- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IX. 461 

occupado de guerras , ahi eftavam as terras , 
que íè poderiam tomar todas as vezes que 
quizeíTem. Com efta refolução refpondeo o 
Governador ao Embaixador 3 que clle larga- 
ria a tranqueira de Rachol com condição , 
que havia de fer desfeita , e que em quan- 
to fe recolheffem os Portuguezes que nella ef- 
tavam havia de mandar afFaftar feus Capi- 
tães , e defimpedir a paflagem do rio pêra 
fe recolherem á fua vontade, eque lhe ha- 
via de entregar todos es Portuguezes , que 
em feu poder eftiveffem cativos. Tudo ifto 
acceitou o Embaixador , e paífou diífo feus 
papeis , e aííinados. E logo mandou o Go- 
vernador hum Capitão com muitos navios pê- 
ra recolher agente, e artilheria de Rachol, 
o que elle fez achando já o rio defentupido. 
E depois de ter tudo embarcado , mandou 
dar fogo á tranqueira , em que toda fe con- 
íumio. Feito ifto , recolhêi-am-fe pêra Goa , e 
o Accedecan mandou logo todos os Portu- 
guezes que latinha. Com ifto fe começou o 
Governador a preparar pêra ir a Dio , dan- 
do expediente ás náos do Reyno pêra irem 
a Cochim tomar a carga. E por aqui con- 
cluímos com as coufas defta quarta Década , 
porque nos pareceo melhor entrarmos na quin- 
ta com as coufas que começaram a fueceder 
em principio defte verão , que são muitas, 
e muito notáveis. 

Fim do Liv. X. da Década IV. 



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DS Barros, João de 

4-11 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

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